sábado, 31 de dezembro de 2016

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer - Origens Volume 6: O Homem de Família



O sexto e penúltimo volume da coleção Hellblazer Origens, que reúne as 40 primeiras edições da revista solo do anti-herói aspirante a mago John Constantine, foi um presente da Panini para os fãs por trazer uma coletânea de edições totalmente inéditas aqui nas terras tupiniquins. Este encadernado contém a continuação e conclusão da saga O Homem de Família, uma das melhores histórias da era Jamie Delano.

Desde que deixou de ser coadjuvante nas páginas do Monstro do Pântano para estrear sua própria revista, Constantine já enfrentou demônios, fantasmas e sociedades secretas; porém agora ele se depara com um adversário completamente diferente, o pior que ele já enfrentou até então: o serial killer conhecido como o Homem de Família! Uma infeliz coincidência acabou fazendo com que Constantine descobrisse a identidade do assassino (clique aqui para ler minha resenha sobre o volume anterior, quando este encontro aconteceu), e agora o psicopata irá atrás da família do mago, forçando-o a tomar uma difícil decisão, que poderá condenar ainda mais a sua alma.

Constantine Pondera Sobre seu Adversário

Delano aproveita o tema "família" para continuar expandindo a construção de John Constantine enquanto personagem, ao revelar mais detalhes sobre sua infância, a morte da mãe, sua relação conturbada com o pai, e seus primeiros passos dentro do universo obscuro da magia. Ele também deixa o caminho preparado para outros roteiristas ao mostrar que a sobrinha de Constantine, Gemma Masters, também possui a propensão para o sobrenatural.

O roteirista também faz um bom trabalho ao traçar o perfil do assassino em série conhecido como Homem de Família. Desde a primeira edição ele não faz mistério sobre a identidade do psicopata; é impressionante o fato de que o assassino mais procurado do país seja um simpático idoso que passa seus dias em uma casa de repouso, onde ninguém suspeita de suas verdadeiras intenções. Em concordância com o que se sabe hoje a partir de estudos psicológicos realizados em assassinos em série, o autor aborda os traumas da infância de Samuel Morris, como possível fonte de seus distúrbios psicológicos, e expõe o desprezo pelas outras pessoas e pela sociedade que ele nutre em seus pensamentos, ocultos pela máscara de cidadão de bem.

Também vale a pensa ressaltar que os eventos de O Homem de Família reverberam em outra HQ da Vertigo: Sandman, na edição Os Colecionadores. Nesta história acontece uma convenção de assassinos em série da qual o Homem de Família é o convidado de honra, mas os eventos de Hellblazer fazem com que este seja substituído pelo Coríntio, um dos pesadelos fugitivos de Morfeus. Minha resenha sobre este arco pode ser acessada aqui.

Constrantine Enfrenta o Cão

Além do arco O Homem de Família, este encadernado ainda contém algumas histórias curtas, como Novos Truques, na qual Constantine precisará impedir que o mundo seja dominado por um buldogue! A melhor parte da história é a forma que ele emprega para derrotar o demônio canino, utilizando nada mais do que pura astúcia (e algum conhecimento sobre o comportamento de cães!). Em Os Domingos São Diferentes Jamie Delano deixa mais uma vez seus ideais políticos transparecerem em seus roteiros, ao fazer uma crítica ácida ao modo como o capitalismo se apropriou dos ideais das décadas de 60 e 70, como a defesa pelo meio ambiente, a sustentabilidade e a globalização.

Finalmente, O Bicho Papão traz um prelúdio para a última história de Delano à frente dos roteiros de Hellblazer, que será finalizada no próximo volume. Nesta história vemos um John Constantine prestes a sucumbir ante os terríveis acontecimentos de sua vida, entre a morte de amigos e decisões cruéis que precisara tomar. Neste caminho onde a depressão e atitudes inconsequentes e autodestrutivas assombram a consciência do mago, ele irá se deparar com a ajuda de antigas aliadas para encarar a verdadeira razão pela qual sua vida é uma grande história de horror, mas isso fica para a próxima resenha.

Este volume teve a participação de diversos artistas dentre os quais Ron Tiner, Steve Pugh e Sean Phillips, e ainda conta com um material exclusivo em que são apresentados diversos ancestrais de John Constantine, os quais  já apareceram em algumas histórias, até mesmo de outros títulos, como é o caso de Johanna Constantine, em Sandman. Para quem se interessou por esta leitura, a HQ tema desta resenha foi publicada pela Panini Comics. Boa leitura!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

[RESENHA] Preacher #4: Histórias Antigas



O quarto volume de Preacher, série visceral de autoria de Garth Ennis e Steve Dillon, que narra as aventuras do pastor Jesse Custer em sua busca nada convencional pelo Divino, dá uma pausa na trama principal para apresentar as histórias de origem de dois importantes personagens da saga: o Santo dos Assassinos e o Cara de Cu. A história do Santo se prova importante pelos eventos que ocorrem nos próximos volumes da saga, porém a do Cara de Cu serve apenas para saciar a curiosidade dos leitores e, de quebra, vender mais revistas. Para finalizar, este encadernado ainda conta com uma aventura solo de Jody e T.C. - os canalhas responsáveis pela criação de Jesse em Angelville -, e esta é ainda mais dispensável que a anterior.

Mas o que realmente mais desanima neste volume é a arte, devido à total ausência de Steve Dillon, cujos desenhos já são a marca registrada da série. Estes três especiais contam com a participação dos artistas convidados Steve Pugh, Carlos Ezquerra e Richard Case; em todos eles a arte é nada mais do que competente, e não deixa a desejar, porém ler Preacher sem os desenhos de Steve Dillon não é a mesma coisa.

No especial O Santo dos Assassinos, Garth Ennis declara todo o seu amor pelo gênero do Western, ao finalmente poder contar uma história que se passa no tempo das diligências. Embora irlandês, o autor cresceu vendo filmes de faroeste, e a série Preacher é repleta de referências a este tão famoso estilo, como por exemplo a figura de John Wayne, uma espécie de amigo imaginário de Jesse que age como um tipo de conselheiro para o reverendo. Para quem não sabe, John Wayne, também conhecido como o Duque, foi um reverenciado ator que protagonizou diversos filmes de faroeste, dentre eles Bravura Indômita, Rio Vermelho e Os Comancheros.

O Santo dos Assassinos

A história do Santo, contudo, não acrescenta quase nada ao gênero, sendo, por outro lado, um grande clichê: tem o matador sem coração que encontra o verdadeiro amor; a gangue de malfeitores liderada por um bandido vil e sem escrúpulos; a pacata cidade que acaba se tornando palco de um banho de sangue. O que diferencia esta história das demais é justamente o fator sobrenatural: quando morre, o assassino faz um pacto com o Anjo da Morte para dar cabo de sua vingança contra aqueles que o prejudicaram.

A História de Você-Sabe-Quem mostra a motivação para a tentativa de suicídio fracassada que fez com que o adolescente Eugene Root conseguisse as grotescas cicatrizes que lhe garantiram a famosa alcunha de Cara de Cu. É aquela conhecida história do adolescente que se sente incompreendido, que sofre nas mãos de um pai violento e uma mãe ausente, e na escola ainda tem que lidar com buyling. Todas essas desventuras - as quais a maioria de nós, nascidos nas décadas de 80 e 90, já passamos - faz com que o jovem tome uma decisão errada que irá afetar toda sua vida.

Garth Ennis usa este roteiro para tratar sobre a influência que os ídolos modernos exercem sobre seus fãs, tanto através de sua música como principalmente através de seu comportamento. As referências ao Nirvana e seu vocalista Kurt Cobain, que cometeu suicídio em 1994, estão por toda parte. O autor voltaria a abordar este tema mais para a frente, no arco do Cara de Cu da série regular. Embora seja um personagem predominantemente de alívio cômico na série regular, este especial sobre o Cara de Cu possui uma pesada carga dramática ao abordar a questão do suicídio entre jovens.


Eugene Root, Antes de se Tornar o Cara de Cu

Por último, Os Bons Camaradas nos mostra a dupla Jody e T.C. cruzando o caminho de um policial e uma advogada que estão fugindo de uma gangue. A trama segue o velho clichê dos filmes de ação dos anos 90, porém temperada com cenas de violência explícita e o humor negro de Garth Ennis. Vale a leitura apenas como diversão, mas não acrescenta em nada à história original.

Então é isso, meninos e meninas. Espero que tenham gostado desta resenha, nos vemos por aqui numa próxima postagem. Lembrando que Preacher Vol. 4 foi publicado no Brasil em capa dura pela Panini Books. Boa leitura!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

[RESENHA] Homem Animal - Fase Grant Morrison


Antes de 1988, o Homem Animal era um personagem do terceiro escalão da DC Comics, fadado ao esquecimento, tanto que o primeiro supergrupo do qual ele fez parte foi o dos Heróis Esquecidos! A  aventura de maior destaque de Buddy Baker, alter-ego do herói capaz de absorver as habilidades de animais próximos, havia sido uma curta participação no megaevento Crise nas Infinitas Terras, e ainda assim, passou quase despercebido. Após a grande Crise que reformulou o universo compartilhado da DC Comics, alguns personagens de menor destaque da editora foram entregues a roteiristas lá do Velho Mundo, como foi o caso do Monstro do Pântano, cujas histórias passaram a ser escritas pelo inglês Alan Moore, e Sandman, que sob o gênio de Neil Gaiman tornou-se um grande sucesso de crítica e vendas. A então editora Karen Berger escalou o escocês Grant Morrison para os roteiros de Homem Animal, e deu carta branca para ele fazer o que quiser com o personagem. O que ele fez deixou os fãs de quadrinhos de queixo caído.

Morrison satiriza a condição do Homem Animal, apresentando-o em sua primeira edição como ele realmente era visto pelos leitores: um herói de quinta categoria. Casado e com um casal de filhos pequenos, o aspirante a herói trabalha como dublê de filmes, mas praticamente depende da esposa, que é desenhista de storyboards. O autor dá bastante destaque para este lado mais "família" do Homem Animal, e desde o começo agrada ao não apelar para aquele velho tabu dos quadrinhos de que um super herói não pode ter uma família. É até interessante notar a cumplicidade entre Buddy e Ellen quando vemos o herói exercitando as suas habilidades com a ajuda da esposa.

Além do uniforme, a principal mudança estabelecida por Morrison foi o tom da HQ: as histórias do Homem Animal passaram a abordar temáticas sociais sérias, principalmente no que tange aos maus tratos sofridos pelos animais. Morrison, que é vegetariano e faz parte de grupos de defesa dos animais, teve a brilhante sacada de usar um super herói cujos poderes advém do mundo animal para levantar a bandeira da causa para os leitores da revista. Assim, o Homem Animal se tornou vegetariano e passou a participar ativamente de grupos de defesas dos animais. Três histórias se destacam neste sentido: o primeiro arco, que vai até a edição 4, no qual ele aborda as atrocidades cometidas a animais em testes de laboratórios; Entre o Demônio e o Azul Profundo do Mar, na qual ele expõe o brutal costume dos habitantes das ilhas Faroé, na Dinamarca, de assassinar centenas de golfinhos quando eles passam pelas ilhas no verão (existe um vídeo no YouTube que mostra como é este festival, mas já aviso que as cenas são fortíssima); e por último há O Evangelho Segundo o Coiote.


O Evangelho Segundo o Coiote é uma história emblemática na qual Morrison dá aos leitores uma pequena dica da direção que seus roteiros irão tomar daqui para a frente. Esta é uma obra espetacular, repleta de metalinguagem e que nos leva a refletir sobre como a violência se torna cada dia mais banal. Uma prova disso é a forma como tratamos com tranquilidade nossos filhos (e nós quando éramos crianças) assistirem a animais digladiando-se uns com os outros em desenhos animados aparentemente inocentes, como Tom e Jerry, Papa-Léguas, Looney Tunes, dentre outros. O Coiote da história é nada mais nada menos do que uma sátira ao personagem da Looney Tunes, que tenta de toda forma capturar o Papa-Léguas, mas sempre acaba se dando mal. Na trama de Morrison, o Coiote se cansa de tanta violência e procura seu Criador, um homem misterioso segurando um pincel. O Criador aceita a súplica por paz do Coiote, mas o condena a viver no "mundo real" (mais tarde você irá entender porque usei aspas), onde ele recebe um novo corpo. Só que esta nova existência para o Coiote é ainda pior que a anterior, pois, para que haja paz em seu mundo, ele precisa sofrer, e a primeira coisa que lhe acontece ao reencarnar no mundo real é ser atropelado por um caminhão. Só que, assim como nos desenhos, ele nunca morre, mesmo sofrendo os piores tipos de morte, e sempre ressuscita; a analogia com Jesus Cristo, que se sacrificou para salvar a humanidade de seus pecados, é bem evidente. Morrison faz um paralelo sutil entre a realidade do mundo animado do Coiote e a nossa realidade quando vemos o destino da moça apresentada no inicio da história, e a sanha assassina que move o caminhoneiro, que culpa o Coiote por suas desventuras. Assim como no mundo dos desenhos, a principal força que move o nosso mundo é a violência.

O Coiote

No epílogo de O Evangelho Segundo o Coiote temos um vislumbre de uma mão segurando um pincel pintando o sangue do Coiote, enquanto o Homem Animal observa a cena silenciosamente. Com isso já podemos perceber que Grant Morrison pretende extrapolar a barreira que separa o leitor de suas histórias, o mundo dos quadrinhos do mundo real, o Homem Animal do seu "Criador". De fato, toda a trama construída desde O Evangelho Segundo o Coiote culmina no inusitado encontro entre criatura e criador, que acontece apenas na edição 26, mas é justamente o caminho que o autor usa para chegar até este clímax (ou anticlímax, para alguns), é que causa tantos problemas.

Quem já leu as histórias de Morrison está acostumado com seu estilo narrativo nem um pouco convencional. Muitas vezes, após terminar de ler uma história escrita pelo escocês, não é incomum que o leitor fique sem entender nada, como se tivesse deixado alguma informação crucial para trás. Os roteiros de Morrison costumam ser bastante complexos - complexos até demais -, ele não entrega nada "mastigadinho": muitas vezes é preciso reler tudo para começar a entender. Para piorar, seus roteiros geralmente não são lineares, ou seja, você se depara com alguma cena completamente fora de contexto, que só fará sentido algumas edições à frente.

Assim, conforme as edições vão passando, vemos pouco a pouco as peças do quebra cabeças se unindo, e todos os eventos aparentemente desconexos que foram apresentados conduzem o Homem Animal até a pior e mais dramática experiência já vivida pelo personagem. Diante da catástrofe que se abate sobre o herói, o vemos em uma busca enlouquecida por vingança, e depois, quando ele percebe que esta não tem sabor qualquer, por respostas. Morrison destrincha ainda mais suas habilidades metalinguísticas quando nos apresenta o Limbo, o mundo para onde vão os personagens descartados, e quando vemos os personagens apagados da linha do tempo da DC Comics com a Crise tentando voltar à existência. A cena mais emblemática deste momento é quando vemos as várias versões do Asilo Arkham sobrepondo-se umas às outras. Não é coincidência que tal evento ocorra justamente nas dependências do famoso sanatório das histórias do Batman, um local onde as fronteiras entre o real e do imaginário se confundem, e que foi o palco de outra obra elogiadíssima de Grant Morrison: Asilo Arkham - Uma Séria Casa em um Sério Mundo.

O Homem Animal Encontra seu "Criador" 

O tão aguardado encontro entre o Homem Animal e Grant Morrison é chocante. Eu mesmo só vi outro autor fazer coisa semelhante: Stephen King, que colocou a si mesmo como personagem de sua famosa saga A Torre Negra. Assim como nesta obra, o autor executa um Deus Ex Machina para interferir e mudar o destino de seus personagens. O encontro do Homem Animal com seu roteirista é exatamente o que imaginamos que seria o nosso com nosso Criador. Ele obtém finalmente as respostas que tanto queria para a loucura que tem sido sua vida, embora essas respostas não sejam as que ele imaginava. É impossível não fazer uma analogia ente o que acontece em Homem Animal 26 e nossas próprias vidas: será que nós somos apenas personagens em uma história? Seriam nossas tragédias apenas um forma de entretenimento para seres superiores? Existe realmente o livre arbítrio, ou todas as nossas ações já foram pré-determinadas por nosso Criador? O autor ainda aproveita para fazer uma crítica ao gosto das pessoas por violência como forma de entretenimento, usando o próprio título do Homem Animal como exemplo, no qual ele utilizara cenas de violência para atrair o leitor, sem as quais ninguém jamais se interessaria pelos temas mais importantes abordados por ele, como a causa dos animais.

Independentemente do gosto pelos roteiros de Grant Morrison, que, assim como uva passas, ou você ama ou você odeia, é inegável seu talento como escritor, e a profundidade de seus enredos, por mais impenetráveis que eles possam ser. Contudo, eu não poderia finalizar esta resenha sem falar da arte que permeia as páginas de Homem Animal. Por quase todas as edições os desenhos ficaram a cargo dos artistas Chas Truog e Doug Hazlewood, e eles desempenharam este papel com absoluta competência. Seus desenhos são limpos e agradáveis de se olhar, e justamente a regularidade dos artistas ao longo das 26 edições colaborou para o sucesso desta obra. Por fim, as belíssimas capas são assinadas por ninguém menos que Brian Bolland, de Batman: A Piada Mortal e Camelot 3000. Aqui no Brasil Homem Animal 1-26 foi publicada pela Panini Comics em três encadernados em capa cartão e papel LWC. Boa leitura!

Capa de O Evangelho Segundo o Coiote

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

[RESENHA] A Roda do Tempo, Livro 1: O Olho do Mundo



A Roda do Tempo é uma série literária escrita pelo autor norte americano Robert Jordan (1948-2007), composta por 14 livros, publicados ao longo de mais de 20 anos, mais uma prequel. Tal como O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, e as Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, A Roda do Tempo é um épico do gênero da alta fantasia, no qual os eventos da trama se passam em um universo fictício, povoado por uma numerosa gama de seres fantásticos, cada qual com sua cultura, história e idioma próprios. Jordan também se inspirou em elementos de diversas religiões, como o Cristianismo e o Hinduísmo, para estabelecer as bases de seu universo, além de recorrer ao monomito de Joseph Campbell como estrutura narrativa para a história do protagonista Rand al'Thor.

Como acontece com diversas sagas, sejam elas de fantasia ou ficção científica, que se estendem por muitos anos, tomando grande parte da vida de seu criador, A Roda do Tempo correu o risco de ficar inacabada quando Robert Jordan faleceu, vítima de uma doença cardíaca, antes da publicação do 12º livro da série. Para alívio dos fãs a obra foi terminada por Brandon Sanderson (autor da trilogia Mistborn), apontado pela própria viúva de Jordan como o mais capacitado para levar a cabo esta grande missão, utilizando-se como base as anotações de Jordan.

A Roda do Tempo intimida os leitores iniciantes por vários motivos. O primeiro deles é o tamanho da obra, que, como já mencionei, é composta por 14 livros, o que não seria um problema tão grande se eles não tivessem mais de 500 páginas cada um, com alguns beirando as mil páginas. O que faz com que os livros sejam tão extensos é o nível de detalhamento que Jordan impõe ao enredo, descrevendo à exaustão cada detalhe dos vários e peculiares lugares percorridos pelos personagens, da aparência das pessoas e criaturas que eles encontram, bem como das roupas que estão vestindo, e até mesmo de cada refeição feita por eles. De certa forma isso enriquece a leitura, mas por outro lado pode cansar o leitor mais casual que quer apenas se divertir com uma aventura que não precise consumir diversas horas só para atravessar um capítulo do livro. Por fim, outro aspecto da obra, pelo menos no primeiro livro, que pode afastar novos leitores é a sensação de deja vu que se tem ao ler alguns trechos, uma vez que muito do que é mostrado já foi abordado em outras obras de fantasia. A Jornada do Herói pode ser claramente identificada na aventura de Rand al'Thor: o jovem pastor que vive tranquilamente em um vilarejo isolado e pacato precisa deixar a paz da sua vila para entrar em uma aventura na qual irá passar pelas mais difíceis agruras, da qual depende o destino de todo o mundo. Aqui está presente a figura o Escolhido, tão presente na literatura moderna, indo desde o rei Arthur Pendragon até Bilbo e Frodo Bolseiro, Harry Potter e Neo (Matrix). Em todos esses casos, o Escolhido conta com a ajuda de um poderoso e sábio mentor, que irá ajudá-lo a superar seus medos e ensiná-lo a usar o poder que ele está destinado a possuir para derrotar a figura do Mal.

Em O Olho do Mundo, porta de entrada para o universo de A Roda do Tempo, o Escolhido é Rand - o Dragão Renascido -, alguém que pode tanto salvar o mundo como levá-lo à ruína. A responsável por guiá-lo em sua jornada é Moiraine, uma mulher que pertence à ordem das Aes Sedai, que são mulheres capazes de canalizar o Poder Único, a manifestação da magia no universo de Jordan. Ela e seu Guardião Lan precisam escoltar Rand e seus amigos Mat e Perrin - além das jovens Egwene e Ninaeve e o menestrel Thom Merrilin - da aldeia de Campo de Emond até a cidade de Tar Valon, sede da ordem das Aes Sedai, pois eles estão sendo caçados por criaturas maléficas enviadas pelo principal antagonista da série, Ba'alzamon, também conhecido como o Tenebroso ou Sh'aytan. Esta primeira parte do livro possui praticamente a mesma estrutura narrativa de A Sociedade do Anel: os jovens de Campo de Emond podem ser comparados aos hobbits do Condado (em ambos os casos, inclusive, eles cultivam e comercializam uma erva usada para fumo); Moiraine encarna a figura de Gandanf; e Lan, assim como sua contraparte Aragorn, é o herdeiro de um reino que optou por viver como um guerreiro solitário. Eles estão a todo tempo fugindo de Trollocs, criaturas bestiais lideradas pelos Myrdraal, cavaleiros encapuzados vestidos de preto que instilam o pavor em suas presas (qualquer semelhança com os Nazgul não é mera coincidência).

Após a separação do grupo em Shadar Logoth a trama diverge da estrutura de O Senhor dos Anéis, e é a partir daí que para mim a história começa a ficar mais interessante, com destaque para as aventuras vividas por Perrin e Egwene com os Latoreiros, os fanáticos religiosos Mantos Brancos, e o Amigo dos Lobos Elyas. Dentre os viajantes de Campo de Emond Perrin é o personagem mais bem desenvolvido neste livro, principalmente após ele descobrir suas recém adquiridas habilidades. Ao contrário de Perrin, durante praticamente todo o livro Rand permanece da mesma forma, recusando-se a aceitar sua verdadeira origem e acrescentando muito pouco à história, de modo que chega a ser estranho que os outros o enxerguem como uma espécie de líder. Mat, que surge como um alívio cômico no começo da história, após Shadar Logoth se torna um companeheiro de viagem insuportável e ranzinza, embora haja um motivo para isso, mas também, pelo menos neste livro, não acrescenta muito. Com isso, o protagonismo acaba recaindo sobre Moiraine, a qual não tem pudor em utilizar seu vasto arsenal mágico contra os adversários que os perseguem, e é a responsável pelas cenas mais empolgantes do livro. Ao contrário de outras obras de fantasia, nas quais a magia é quase sempre empregada como um último recurso e muitas vezes de maneira velada, em O Olho do Mundo seu uso é liberado, não sendo poucas as vezes em que nos sentimos estar dentro de um jogo de RPG.

Para explicar a magia de seu universo Jordan utiliza de forma inteligente a metalinguagem, como no caso da própria Roda do Tempo que dá nome à série, e a forma como ela tece o Padrão das Eras. Outro exemplo é a divisão do Poder Único em saidin e saidar, suas metades masculina e feminina, respectivamente. Cada sexo possui mais familiaridade com um tipo de poder do que outro; por exemplo: enquanto homens são mais hábeis com fogo e terra, mulheres controlam melhor a água e o ar, e isso tem muito a ver com a diferença entre ambos. Normalmente, homens são mais violentos e sedentos por poder do que as mulheres, enquanto estas últimas são moldadas desde cedo para o cuidado e a cura. No entanto, não existem mais Aes Sedai homens, e os poucos que aparecem são caçados pelas Aes Sedai mulheres, devido à loucura que lhes acomete. Esta loucura advém da mácula que Ba'alzamon colocou na metade masculina do Poder Único. Isso enfraqueceu muito as Aes Sedai, pois as grandes obras mágicas, como é o caso do Olho do Mundo, precisam ser feitas com saidin e saidar juntas.

Conforme a história vai se aproximando de sua conclusão, dá para perceber claramente que a trama começa a ficar mais corrida, como se o autor tivesse percebido que enrolara demais ou tenha ficado cansado de escrever, de modo que alguns acontecimentos acabam carecendo de mais explicações, como é o caso do objeto que dá nome ao livro. Confesso que quando terminei de ler os três últimos capítulos minha primeira reação foi: "Tá, mas o que era esse tal Olho do Mundo afinal de contas, e por que era tão importante para dar nome ao livro, se o autor só gastou algumas poucas linhas para falar sobre ele?" Só depois de ler novamente a parte final do livro que entendi o que aconteceu a Rand no Olho do Mundo, embora a explicação tenha ficado implícita.

Embora sejam claras as inspirações em outras obras de fantasia e o velho apego ao maniqueísmo que dominou as obras literárias do século XX, A Roda do Tempo ainda é, por si só, uma grande representante do gênero da fantasia, tendo acrescentado, em igual medida, muita coisa nova e interessante para o gênero. O primeiro livro deixa muito em aberto, e muitas possibilidades a serem exploradas, principalmente devido aos três artefatos encontrados no Olho do Mundo, os quais, com certeza, serão abordados nas próximas edições. A Roda do Tempo está sendo publicada aqui no Brasil pela Editora Intrínseca, e até a data desta presente postagem encontra-se no quinto volume. Boa Leitura!