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quarta-feira, 1 de março de 2017

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer Origens - Volume 7: O Coração do Menino Morto


Como tudo que é bom um dia acaba, assim foi com a passagem do roteirista britânico Jamie Delano pela revista solo do mago mais cínico dos quadrinhos, John Constantine. Após 37 edições mensais e uma anual, chegou o momento dele ceder a cadeira para o irlandês Garth Ennis, responsável por uma das fases mais aclamadas do título. Após décadas de espera angustiante, os fãs brasileiros finalmente puderam ter em sua coleção o arco final de histórias escritas por Delano, em um encadernado em capa cartão e papel pisa brite (a nova publicação, que deverá ser lançada este ano, virá com papel LWC) lançado pela Panini Comics em 2014.

Delano conclui com chave de ouro a última saga de Hellblazer de sua autoria, e, assim como no caso de Grant Morrison em Homem Animal, com total liberdade criativa para contar a história que ele queria. Isso com certeza fez com que a qualidade do roteiro subisse a um nível bem superior ao das sagas anteriores, embora a qualidade da arte em alguns momentos prejudique um pouco a qualidade do produto final, mas deixarei para falar disso mais adiante.

Delano usa e abusa de simbolismos, artifícios metalinguísticos e referências ao ocultismo moderno, tendo como principal influência o polêmico mago e ocultista do século XIX, Aleister Crowley. Seguindo o caminho do volume anterior, o autor continua se afastando da temática sobrenatural e do horror para explorar o psicológico de John Constantine, buscando em eventos de seu passado a explicação para sua vida ser tão estranha e conturbada. No início deste volume vemos um Constantine mais amargurado, melancólico e autodestrutivo do que nunca, e motivos não faltam: desde sua estreia nas páginas do Monstro do Pântano, o anti-herói já sacrificou diversos amigos em prol de sua guerra santa contra o sobrenatural, enfrentou demônios e sociedades secretas, e até mesmo um serial killer, que o obrigou a tomar medidas extremas até mesmo para alguém como ele. Mas, com a ajuda de Marj, Mercury e a xamã Zed - que novamente cruzam o caminho do mago -, ele irá descobrir que a causa de seu tormento possui raízes muito mais profundas, remontando a um crime que ele cometeu quando ainda estava no útero da mãe!

Constantine Encara seu Destino

A cereja do bolo fica por conta da edição nº40, a qual nos apresenta uma espécie de realidade alternativa, onde um Constantine que tomou decisões totalmente diferentes na vida se tornou um poderoso e respeitado mago. O final que Delano cria para esta história é perfeito, justamente porque ele poderia ser considerado um final definitivo para as aventuras de Constantine, se a DC Comics assim o quisesse, e ao mesmo tempo deixa o destino do mago em aberto para os próximos roteiristas. Esta edição foi ilustrada por Dave McKean, artista responsável pelas primeiras capas de Hellblazer e The Sandman, além da aclamada Graphic Novel Batman: Asilo Arkham. A arte surreal de McKean não é o que se pode considerar "convencional", e geralmente costuma dividir opiniões: enquanto uns amam de paixão e defendem ferozmente seu estilo como uma forma de arte mais complexa e abstrata, outros simplesmente a detestam. Quanto à minha opinião, confesso que não sou muito fã do cara, embora, neste caso, a arte de McKean acabe sendo a melhor do encadernado, em comparação com a arte de Sean Philips, a qual está bem aquém daquilo que ela viria a se tornar futuramente; e com Steve Pugh, com sua arte suja e desleixada.

Para finalizar, este encadernado conta ainda com um interlúdio de duas edições na qual Delano faz críticas aos maus tratos aos animais (assunto que ele iria abordar mais a fundo em sua passagem pelo Homem Animal), um conto extraído de Hellblazer Secret Files e outras duas histórias isoladas que ele escreveu anos depois de sua saída - Hellblazer 84 e 250 -, sendo a primeira uma história absurda sobre a mãe do taxista Chas e um demônio em forma de macaco travesti!

Se você é fã de Constantine, não perca esta excelente oportunidade de ter em mãos não apenas este encadernado, mas todos os da fase Origens, pois é a primeira vez que este material é relançado em ordem cronológica, não apenas aqui no Brasil, mas também nos EUA. A fase de Jamie Delano, apesar de seus altos e baixos, foi a que estabeleceu os principais elementos da mitologia do anti-herói - os acontecimentos de Newcastle, a apresentação do melhor amigo de Constantine, o taxista "Chas" (inclusive este personagem foi uma homenagem de Delano à sua antiga profissão!) e da sobrinha de aquela m3r%@ de filme estrelado por Keanu Reeves e a série água com açúcar da NBC.

Boa leitura, e até Hellblazer Infernal!

sábado, 31 de dezembro de 2016

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer - Origens Volume 6: O Homem de Família



O sexto e penúltimo volume da coleção Hellblazer Origens, que reúne as 40 primeiras edições da revista solo do anti-herói aspirante a mago John Constantine, foi um presente da Panini para os fãs por trazer uma coletânea de edições totalmente inéditas aqui nas terras tupiniquins. Este encadernado contém a continuação e conclusão da saga O Homem de Família, uma das melhores histórias da era Jamie Delano.

Desde que deixou de ser coadjuvante nas páginas do Monstro do Pântano para estrear sua própria revista, Constantine já enfrentou demônios, fantasmas e sociedades secretas; porém agora ele se depara com um adversário completamente diferente, o pior que ele já enfrentou até então: o serial killer conhecido como o Homem de Família! Uma infeliz coincidência acabou fazendo com que Constantine descobrisse a identidade do assassino (clique aqui para ler minha resenha sobre o volume anterior, quando este encontro aconteceu), e agora o psicopata irá atrás da família do mago, forçando-o a tomar uma difícil decisão, que poderá condenar ainda mais a sua alma.

Constantine Pondera Sobre seu Adversário

Delano aproveita o tema "família" para continuar expandindo a construção de John Constantine enquanto personagem, ao revelar mais detalhes sobre sua infância, a morte da mãe, sua relação conturbada com o pai, e seus primeiros passos dentro do universo obscuro da magia. Ele também deixa o caminho preparado para outros roteiristas ao mostrar que a sobrinha de Constantine, Gemma Masters, também possui a propensão para o sobrenatural.

O roteirista também faz um bom trabalho ao traçar o perfil do assassino em série conhecido como Homem de Família. Desde a primeira edição ele não faz mistério sobre a identidade do psicopata; é impressionante o fato de que o assassino mais procurado do país seja um simpático idoso que passa seus dias em uma casa de repouso, onde ninguém suspeita de suas verdadeiras intenções. Em concordância com o que se sabe hoje a partir de estudos psicológicos realizados em assassinos em série, o autor aborda os traumas da infância de Samuel Morris, como possível fonte de seus distúrbios psicológicos, e expõe o desprezo pelas outras pessoas e pela sociedade que ele nutre em seus pensamentos, ocultos pela máscara de cidadão de bem.

Também vale a pensa ressaltar que os eventos de O Homem de Família reverberam em outra HQ da Vertigo: Sandman, na edição Os Colecionadores. Nesta história acontece uma convenção de assassinos em série da qual o Homem de Família é o convidado de honra, mas os eventos de Hellblazer fazem com que este seja substituído pelo Coríntio, um dos pesadelos fugitivos de Morfeus. Minha resenha sobre este arco pode ser acessada aqui.

Constrantine Enfrenta o Cão

Além do arco O Homem de Família, este encadernado ainda contém algumas histórias curtas, como Novos Truques, na qual Constantine precisará impedir que o mundo seja dominado por um buldogue! A melhor parte da história é a forma que ele emprega para derrotar o demônio canino, utilizando nada mais do que pura astúcia (e algum conhecimento sobre o comportamento de cães!). Em Os Domingos São Diferentes Jamie Delano deixa mais uma vez seus ideais políticos transparecerem em seus roteiros, ao fazer uma crítica ácida ao modo como o capitalismo se apropriou dos ideais das décadas de 60 e 70, como a defesa pelo meio ambiente, a sustentabilidade e a globalização.

Finalmente, O Bicho Papão traz um prelúdio para a última história de Delano à frente dos roteiros de Hellblazer, que será finalizada no próximo volume. Nesta história vemos um John Constantine prestes a sucumbir ante os terríveis acontecimentos de sua vida, entre a morte de amigos e decisões cruéis que precisara tomar. Neste caminho onde a depressão e atitudes inconsequentes e autodestrutivas assombram a consciência do mago, ele irá se deparar com a ajuda de antigas aliadas para encarar a verdadeira razão pela qual sua vida é uma grande história de horror, mas isso fica para a próxima resenha.

Este volume teve a participação de diversos artistas dentre os quais Ron Tiner, Steve Pugh e Sean Phillips, e ainda conta com um material exclusivo em que são apresentados diversos ancestrais de John Constantine, os quais  já apareceram em algumas histórias, até mesmo de outros títulos, como é o caso de Johanna Constantine, em Sandman. Para quem se interessou por esta leitura, a HQ tema desta resenha foi publicada pela Panini Comics. Boa leitura!

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer - Origens Volume 4: A Máquina do Medo

John Constantine

Na guerra entre o Céu e o Inferno, John Constantine - exorcista, demonologista e mestre das artes ocultas - nunca tomou partido em nenhum lado que não o dele mesmo. Quando jovem, convencido de suas habilidades e querendo impressionar uma garota, ele acabou mexendo com forças além de sua capacidade, e sua arrogância acabou causando a morte de uma garotinha. Este evento deixou profundas marcas em sua personalidade: a culpa corroeu a sua sanidade, levando-o a adotar um estilo de vida autodestrutivo baseado em álcool e cigarros; passou a ter uma visão ácida e pessimista sobre o mundo e a sociedade; e se mostrou incapaz de manter qualquer tipo de laço afetivo, encarando as pessoas apenas como meios para alcançar seus objetivos ou como cartas a serem descartadas em um jogo quando necessário. Recentemente, quando pego no fogo cruzado entre as forças celestes e infernais, frustrou os planos de dominação espiritual de ambas, mesmo sabendo que arruinaria a vida de sua ex-namorada Zed no processo. No entanto, o mago encontrou uma chance de redenção quando, fugindo da polícia, se escondeu entre os hippies nômades da Turba da Liberdade, onde conheceu Marj e sua filha paranormal Mercury. Quando a menina foi sequestrada por uma misteriosa corporação, ele foi forçado a voltar a Londres e ao velho combate; só que desta vez ele não iria lutar por uma causa egoísta, e sim para salvar uma vida.

O Terror

Em A Máquina do Medo, quarto volume da coleção Origens, que reune as primeiras 40 edições da revista Hellblazer, o roteirista de quadrinhos inglês Jamie Delano dá continuidade à busca de Constantine pela jovem Mercury, levando o anti-herói a uma investigação envolvendo sociedades secretas modernas, conspirações políticas, espionagem e o uso de armas psíquicas para controle social. Logo na primeira edição Delano mostra que está bem à vontade à frente do título ao empregar uma técnica narrativa na qual os acontecimentos são narrados por meio de cartas trocadas entre os principais personagens. Por meio destas cartas ele também aproveita para informar o leitor onde cada peça está posicionada no tabuleiro da trama.

Constantine, agora com um novo visual, está de volta a Londres à caça dos raptores de Mercury; Marj e o resto da Turba da Liberdade está na Escócia com a Nação Pagã, um grupo de místicos que vive isolado, imitando o estilo de vida dos celtas, e liderado por ninguém menos do que Zed; já Mercury está presa na sede da Geotroniks ajudando os cientistas a aprisionarem os pesadelos de pessoas que sofrem de terríveis fobias - os "assustadinhos", segundo a menina - dentro da Máquina do Medo. A princípio ela pensa estar ajudando essas pessoas a se livrarem de seus medos, mas logo descobre que está na verdade criando uma abominável criatura feita de puro medo, e começa a traçar seu plano de fuga.

Constantine Salva Simon Hugues


Se o primeiro ato desta longa saga (ao todo A Máquina do Medo conta com 9 edições da revista Hellblazer) teve como objetivo apresentar os novos personagens e dar uma amostra do poder da Máquina do Medo, o segundo ato abrange a investigação de Constantine, que se alia a um improvável grupo de indivíduos que também tiveram as vidas afetadas pela Geotroniks: Geofrey Talbot, um ex-policial obstinado querendo vingar a morte de sua exposa; Simon Hugues, um jornalista gay que sofreu uma tentativa de assassinato ao investigar misteriosos suicídios envolvendo a empresa Geotroniks; e Sergei, um espião russo especializado em armas paranormais.

Juntos eles descobrem a Geotroniks é uma empresa de fachada comandada pela maçonaria, criada com o intuito de desenvolver uma arma psíquica capaz de causar histeria e pânico em massa com o objetivo de incitar uma crise que levaria a um novo panorama político sob o controle dos maçons. Vemos aqui que Delano bebe da fonte das teorias de conspiração envolvendo o controle mental para fins de dominação política. Quem nunca ouviu falar do projeto militar norte-americano conhecido como HAARP, o qual supostamente empregaria um conjunto de antenas que emitiriam ondas eletromagnéticas em frequências específicas que seriam capazes de induzir certos estados emocionais na população (clique aqui para saber mais).

Os Aliados de Constantine

O terceiro ato reintroduz o elemento mágico na narrativa, que sofre uma súbita reviavolta, levando a história numa direção totalmente diferente, para decepção de alguns leitores. Constattine descobre que o verdadeiro inimigo não é a Geotroniks nem os maçons que a controlam, mas um mago renegado que está tentando trazer ao mundo uma entidade conhecida como Jallakuntilliokan, através de um sangrento ritual em que vidas humanas são sacrificadas. E Jamie Delano não tem pena de mandar para o abate os mesmos personagens que ele previamente introduzira na trama, reforçando o argumento de que todos aqueles que se metem nos negócios de Constantine acabam encontrando um triste fim.

Jamie Delano, admitidamente adepto de ideais de esquerda e crítico do liberalismo econômico, não se detém ao expor suas ideias, ainda que disfarçadas pela aura mística e sobrenatural de suas histórias. A ganância das grandes empresas em lucrar explorando os recursos naturais do planeta (no caso as Linhas de Ley), a política conservadora predominante na Inglaterra dos anos 80 que levou muitas pessoas à pobreza, e a perseguição imposta às minorias como negros, gays e imigrantes permeiam as páginas de A Máquina do Medo. Mas o tema que prevalece neste encadernado é justamente o papel da mulher na sociedade moderna. Delano utiliza diversas figuras de linguagem para explicar que as guerras, o medo e todas as mazelas presentes na história contemporânea da humanidade são sintomas da dominação masculina, seja na política, na economia e até na religião. Ele também desconstrói o conceito das Linhas de Ley apresentados previamente, explicando que elas teriam sido criadas por sacerdotes homens na tentativa de dominar e canalisar o poder da Terra que fluia pelas linhas originais, através dos monumentos megalíticos.


Webster Invoca o Jallakuntilliokan

Partindo do princípio que a Terra é um organismo vivo, ela também possui os aspectos jungianos de anima e animus (feminino e masculino, criatividade e racionalidade, caos e ordem), mas a Máquina do Medo e os sacrifícios oferecidos por Webster fazem a metade masculina do espírito da Terra se materializar na forma de um grande dragão, o Jallakuntilliokan. Para reequilibrar a balança, Constantine deverá participar de um ritual de hieros gamus com Zed e Marj que irá fortalecer a metade feminina. Achei brilhante da parte de Delano dar esta oportunidade para Zed se vingar do mago na mesma moeda com a qual ele a afundara: através do sexo. 

Um ponto negativo que deve ser ressaltado é que a conclusão da trama ficou bem parecida com o final do arco Gótico Americano de Alan Moore, na qual dois conceitos opostos e materializados em uma imagem que pode ser apreendida pela mente do leitor se unem no final para trazer um novo equilíbrio. A diferença é que a abordagem de Moore é mais completa, englobando facilmente os aspectos feminino e masculino da história de Delano, que acaba soando repetitiva para quem já leu a obra de Alan Moore. Outro defeito da conclusão é que Delano não mostra os destinos que cada um dos personagens tomou após o grande cataclisma que marca o final da história, deixando algumas pontas soltas que ele só viria a amarrar no último volume desta coleção. 

Anima e Animus

Este encadernado ainda conta com uma história que serve como prelúdio para a próxima saga: O Homem de Família. Trata-se de um conto chamado Da Ficção para a Vida, e é sobre um antigo conhecido de Constantine chamado Jerry O'Flynn, um negociante muito carismático que está sendo perseguido por personagens de histórias de ficção. Aparentemente Jerry serviu como inspiração para personagens de vários escritores, e por isso passou a viver mais nas páginas de ficção do que no mundo real (sim, concordo que é uma loucura, mas uma loucura literária!). Este pequeno conto é repleto de easter-eggs oriundos da literatura britânica: nele podemos ver o pirata cego Pew (do livro A Ilha do Tesouro), Tarzan, o lobo dos Três Porquinos, o assassino chinês Fu Manchu, Bill Sikes (Oliver Twist), e até mesmo Sherlock Holmes. E estes foram só os que eu consegui identificar, porque ainda tem muitos outros! Além disso, podemos notar uma interessante metáfora, utilizada por Delano para alfinetar os executivos que detém os direitos de praticamente todos os personagens de ficção criados do século XX para cá: tais personagens seriam "prisioneiros" do copyright, já que eles não podem ser usados em nenhuma outra mídia a não ser por aqueles que detém seus "direitos". Os únicos personagens livres hoje em dia são aqueles pertencentes ao domínio público, como é o caso do próprio Sherlock Holmes, que não pertence a empresa nenhuma e qualquer diretor, escritor ou artista pode fazer uso de sua imagem.



Jerry é Capturado

Por último, mas não menos importante, é preciso falar que a chegada dos desenhistas Mark Buckingham e Alfredo Alcala melhoraram em muito a qualidade dos desenhos, que estão no mesmo nível de John Ridgway das primeiras edições. Ron Tiner, que assina a arte do capítulo final, também apresenta um traço mais agradável do que os desenhistas dos últimos dois volumes.

A Máquina do Medo foi publicada em terras tupiniquins pela Panini Books num encadernado com capa cartão e papel pisa britte (papel de menor qualidade, do mesmo tipo dos quadrinhos antigos, mais adequado para o tipo de colorização usada na época). Boa leitura!

Capa do Volume 4 de Hellblazer Origens

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer - Origens Volume 3: Newcastle & A Máquina do Medo Ato I


Desde que John Constantine apareceu pela primeira vez nas páginas da mensal do Monstro do Pântano, seu passado sempre esteve envolto em uma aura de mistério, principalmente no que diz respeito a uma certa história envolvendo um exorcismo malsucedido na cidade inglesa de Newcastle. Tal fato foi um divisor de águas na vida do mago mais cara de pau dos quadrinhos, quando sua arrogância e desrespeito pela magia o fizeram cometer um erro que custou a alma de uma criança e sua própria sanidade. Neste volume o escritor Jamie Delano finalmente levanta o véu que antes cobria este mistério e surpreende os leitores com uma história macabra e trágica.

Em "Newcastle: Um Gostinho do que Está por Vir", Delano mergulha ainda mais no universo de horror adulto, com uma história envolvendo invocações de demônios, pedofilia e feitiços arcanos. Ele nos apresenta um Constantine jovem e impulsivo, que no final dos anos 70, além de aprendiz das artes místicas, atuava como vocalista da banda de rock new wave Membrana Mucosa, juntamente com seu parceiro Gary Lester - o mesmo viciado em heroína que o anti-herói sacrificou no primeiro volume.

A Verdadeira Forma de Nergal

Delano conduz Constantine ao seu embate final contra Nergal, agora revelado como o mesmo demônio que causara a morte da menina em Newcastle. A forma que o roteirista usa para explicar a derrota do monstro, no entanto, é o que deixa a desejar. Desde o início ele sugere que os eventos de Newcastle foram apenas um aperitivo, um "gostinho do que estava por vir". Mas o que veio depois acabou não atendendo às expectativas: a trama acaba se encerrando rápido demais, e quem lê tem a impressão de um coito interrompido. O campo de batalha não poderia ser mais fora de contexto: ele situa a batalha entre mago e demônio num fictício universo digital!. Numa época em que computadores ainda eram novidade e a grande rede era um universo desconhecido e inexplorado - e justamente por isto cercado de mitos, tal escolha até faria sentido, mas não hoje em dia. O ponto positivo é que mais uma vez ele mostrou que não é preciso ter superpoderes para derrotar um inimigo mais forte, quando se tem astúcia  um pouco de coragem para botar em ação um plano tão mirabolante.


Constantine Desafia Nergal

A 13ª edição, intitulada "Na praia", funciona como um interlúdio entre o arco de Newcastle e a grande saga A Máquina do Medo. Nela o autor critica a política energética baseada em energia nuclear da Inglaterra, devido ao risco a que a população que vive próximo à usinas nucleares está exposta. É preciso lembrar que, apenas dois anos antes desta revista ser publicado, o mundo inteiro havia testemunhado as consequências de um acidente nuclear de grandes proporções em Chernobyl, na Ucrânia. Quase 30 anos depois, o assunto ainda é motivo de muita discussão entre políticos, industriais e ambientalistas, após o acidente na usina de Fukushima, no Japão, forçar diversas nações a repensar suas formas de obtenção de energia.

Na edição seguinte Delano muda completamente o rumo das histórias de Constantine, abandonando por um tempo o sobrenatural e místico para conduzir o leitor em uma trama que mescla espionagem, corporações obscuras, sociedades secretas, teoria da conspiração e alguns elementos paranormais.
Cansado de seu estilo de vida autodestrutivo e fugindo da polícia (o mago acabou levando a culpa pelo assassinato de seus vizinhos pelas mãos de Nergal), Constantine se refugia entre os remanescentes do famoso Comboio da Paz, um grupo de hippies que preferem a liberdade do campo à viver presos em cidades, viajando pelo interior do país de acampamento em acampamento em pequenos comboios de carros, vãs e ônibus. Lá ele conhece alguns personagens interessantes, muitos dos quais voltariam a dar as caras em outras edições: Mercury, uma simpática menina com poderes sensitivos; sua mãe Marj, com quem J.C. acaba se relacionando; e o engraçadíssimo Errol, um negro de cabelos rastafári que mais parece saído das praias da Jamaica, e chegado em dar uns "tapas". Além do modo de vida hippie, é claro que esse povo também é chegado numa magiazinha, senão não seria uma história de Constantine. Delano introduz neste arco conceitos como as Linhas de Ley, supostas correntes de energia que fluem em linha reta entre grandes nexos de poder, marcados geralmente por monumentos megalíticos, como o Stone Henge.

Constantine com os Hippies

Constantine acaba se estabelecendo com o grupo, não apenas como um disfarce para evitar a prisão, mas porque começa a gostar do estilo de vida do grupo. Infelizmente sua alegria dura pouco: durante uma batida da polícia, a jovem Mercury é sequestrada pela misteriosa corporação Geotronik, que planeja usá-la em seu audacioso empreendimento que une magia e tecnologia: a Máquina do Medo. Os misteriosos cientistas da Geotronik estão utilizando os circuitos das linhas de Ley para dispararem descargas de puro medo, e assim matarem literalmente de susto quem eles quiserem! A cena das pessoas no trem dominadas pelo pânico e atacando umas às outras me fez lembrar aquela cena da igreja no filme Kingsman: Serviço Secreto, que utiliza uma ideia parecida, substituindo medo por ódio.

A Cena do Trem

Com quase 20 edições à frente de Hellblazer, Delano continua se provando um excelente roteirista de HQs de terror, um escritor realmente digno de construir sobre as bases lançadas pelo mago dos quadrinhos - Alan Moore. Quanto à arte, só lamento que a DC Comics tenha designado para sua linha adulta desenhistas tão medianos, quando não incompetentes, justamente numa época em que a Vertigo foi responsável pelas melhores e mais criativas histórias da editora. Richard Piers Rayner, que substituiu o competente John Ridgway na edição 10, não convence como desenhista, entregando personagens com formas estranhas, e movimentos e expressões que os assemelham mais a bonecos ou manequins do que a pessoas de verdade. No entanto, há quem aprecie este tipo de arte - o que não é o meu caso -, alegando que ela reflete o conteúdo dos roteiros, que estão sempre beirando o lado mais obscuro e sujo da natureza humana.

Quanto ao encadernado em si, a Panini Comics dividiu a série em 7 encadernados, esfacelando os arcos em vários volumes. A versão americana, por exemplo, compila as 40 edições de Delano mais extras em apenas 4 volumes, de modo que a história de A Máquina do Medo é contada em apenas um encadernado. Mas, como diz o ditado: "para quem não tem nada a metade é o dobro", devemos ficar felizes e satisfeitos por termos a oportunidade de conhecer estas que foram as primeiras histórias de Constantine, sem contar que com menos páginas os encadernados saem mais em conta, o que é um grande alívio em tempos de crise.

Boa leitura!

Capa de Hellblazer Origens Vol. 3

sexta-feira, 1 de julho de 2016

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer - Origens Volume 2: Triângulos Infernais



John Constantine é um homem atormentado. Esta é a primeira impressão que se tem ao começar a ler o segundo volume de Hellblazer Origens, um conjunto de 7 encadernados que conta com as primeiras edições do título sob a tutela do roteirista Jamie Delano. O mago trapaceiro da DC/Vertigo continua sua pendenga contra os fundamentalistas da Cruzada da Ressurreição - os Línguas da Fogo -, e os demônios e delinquentes liderados por Nergal. A razão do tormento de Constantine é o fato de que ele começa a perceber que todos que se aproximam dele acabam morrendo ou encontrando um destino ainda pior. Apesar de tentar manter a aparência inabalável e até lidar com as piores situações com uma boa dose de humor, a culpa o corrói por dentro, a tal ponto que sua sanidade começa a se despedaçar. Nos questionamos se os fantasmas dos amigos mortos que ele vê não seriam apenas uma parte do seu subconsciente materializando este sentimento de culpa, através de uma forma que ele consiga entender. Tal afirmação fica ainda mais evidente quando o vemos ser perseguido por um fantasma que tem a aparência de quando ele estava bem, encorajando-o a sair da fossa.

Constantine é Assombrado por Si Memso

Se você pensa que não há como afundar mais, Constantine consegue descer mais fundo ao fazer um pacto com o demônio Nergal para impedir os Línguas de Fogo de trazerem ao mundo o seu próprio Messias, só que para isso ele precisará trair novamente uma pessoa que ama, e ainda permitir que o sangue do demônio corra em suas veias. Ele não permite, contudo, que Nergal saia vitorioso, e consegue ludibriá-lo ao fazer a profecia dos cruzados se cumprir com o Monstro do Pântano e Abby Cable.

Este volume também apresenta o primeiro crossover entre duas revistas da Vertigo: Hellblazer e Monstro do Pântano, agora capitaneada por Rick Veith e Alfredo Alcala, os quais já haviam trabalhado com Alan Moore em sua brilhante fase na revista do Musgoso. Como acontece com a maioria das tramas compartilhadas por diferentes títulos, o leitor encontra dificuldade em acompanhar todo o desenvolvimento da história; são várias idas e vindas dos Estados Unidos e menções vagas aos Elementais - sem contar a cronologia confusa dos eventos - que, para quem não acompanha a revista do Monstro do Pântano o entendimento do plano de Constantine não é completo, e fica a sensação de estar deixando algo passar. E é exatamente por isso que resolvi fazer uma breve explanação sobre o que estava acontecendo na revista do Monstro do Pântano até então, e de que forma estes acontecimentos se relacionam com a trama de Delano.

Constantine Recebe o Sangue de Nergal

Após a suposta morte do Monstro do Pântano na parte final da grandiosa saga criada por Alan Moore, o Parlamento das Árvores começa a providenciar um substituto; porém o Elemental retorna de suas aventuras no espaço, e decide se retirar para os pântanos com sua "esposa" Abby. Como não podem ter dois elementais da Terra, o Monstro do Pântano é convocado pelo Parlamento e eles lhe dão duas opções: ou se junta a eles na Amazônia ou destrói o "Broto", que é o embrião do próximo Elemental. Mas a criatura se recusa a ser um assassino, e tampouco está disposto a abandonar a vida com Abby na Lousiana, e sua teimosia faz com que a Natureza comece a entrar em colapso. Após diversas encarnações malsucedidas do Broto (incluindo uma tentativa de possuir o corpo de Solomon Grundy), o Monstro do Pântano encontra a solução perfeita para seus dois problemas: a evolução do Broto e a tão sonhada paternidade, e é aí que Constanitne entra na história. A criatura só não contava que o mago tivesse tido a mesma ideia...

Em L'Adoration de la Terre o Monstro do Pântano possui o corpo de John Constantine, expulsando seu espírito para a dimensão astral, e com isso consegue acasalar com Abby e depositar nela sua "semente". Particularmente gosto de ver o humor do mago ao lidar com a Criatura dos Pântanos: em um determinado momento ele enrola um cigarro usando como fumo a erva que reveste o corpo do Monstro; em outro, vemos ele estragar o momento romântico da criatura com Abby ao voltar para seu corpo antes da hora. Se a mulher já não gostava do canalha, agora menos ainda; mas os dois acabam fazendo as pazes, ou pelo menos formando uma trégua em Triângulos Infernais, que empresta o título ao volume, justamente por lidar com essa espécie de "triângulo amoroso" que se forma entre J.C., Abby e o Monstro do Pântano.

O Monstro do Pântano e Abby Acasalam

O enredo de Delano continua afiado, porém acaba sofrendo com a decisão editorial de realizar o crossover de Hellblazer com Monstro do Pântano, culminando num adiamento da conclusão da saga iniciada no volume anterior. Quanto à arte de John Ridgway, que se despede do título na edição 9, há pouco do que se falar: seu desenho não é bonito, mas consegue transmitir com eficiência o clima sobrenatural e a decadência humana das histórias de Delano.

DICA DE LEITURA: Excelente enredo, arte não tão boa assim, mas vale a pena ler para conhecer as primeiras histórias do anti-herói mais querido da DC/Vertigo. História publicada pela Panini Books, um encadernado em capa cartão e papel pisa britte.

Capa de Hellblazer Origens Vol. 2

segunda-feira, 27 de junho de 2016

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer - Origens Volume 1: Pecados Originais


Em 1985 o aclamado quadrinista Alan Moore apresentava ao mundo, na fatídica edição 37 da revista Monstro do Pântano, um personagem que, embora fosse apenas um coadjuvante, nascera para brilhar como protagonista em seu próprio título. Seu nome era John Constantine, inglês oriundo da classe trabalhadora de Liverpool, e sua aparência, como os próprios criadores admitem, foi inspirada no vocalista da banda - também britânica - The Police, o Sting. Na maior parte das vezes ele usa um sobretudo bege surrado, e quase sempre é visto com um cigarro da marca silk cut nos lábios ou nos dedos. O que mais chamou a atenção do público, porém, não foi o seu visual, que pode ser considerado até comum e despretensioso para um personagem de quadrinhos, nem seus poderes - apesar de possuir um vasto conhecimento de magias ocultas, ele não costuma utilizar feitiços e encantamentos contra seus adversários, a não ser que seja forçado; o que fez John Constantine cair nas graças dos leitores e angariar uma legião de fãs pelo mundo foi o seu caráter duvidoso, o humor ácido, seu olhar cínico em relação ao mundo e a sociedade, e a astúcia com que manipula inimigos e aliados, sejam eles humanos, metahumanos, anjos ou demônios, para conseguir realizar seus objetivos.  Todas estas características o incluem no seleto grupo dos anti-heróis, dos quais ele foi um dos primeiros representantes nas histórias em quadrinhos.

Embora Alan Moore e os artistas Stephen Bissete e John Totleben tenham sido os responsáveis pela criação de Constantine, coube ao quadrinista inglês Jamie Delano a audaciosa e desafiadora missão de escrever os roteiros para a revista solo do anti-herói, intitulada Hellblazer, publicada sob o selo Vertigo da DC Comics. Enquanto os primeiros lançaram os fundamentos da construção deste incrível personagem, foi Delano quem consolidou as bases da mitologia do personagem e pavimentou o caminho para os seus sucessores, ao revelar alguns episódios do seu misterioso passado de Constantine, como o famigerado exorcismo que deu errado em Newcastle, o qual ajudou a explicar muito do caráter e motivação do anti-herói. Foi Delano quem apresentou pela primeira vez alguns personagens que iriam fazer parte da vida do protagonista, como o sempre presente taxista Chas, que se pode considerar o mais próximo de um amigo que ele tem, seus parentes mais próximos, como sua irmã Cheryl e a sobrinha Gemma, além da paranormal Zed e do criminoso feiticeiro Papa Meia-Noite.

A publicação de Hellblazer no Brasil, como tudo o mais na república das bananas, foi uma verdadeira zona. Números descontinuados e mudanças constantes de editoras fizeram da vida de quem queria acompanhar as desventuras do mago da DC um verdadeiro inferno. A própria fase Delano só teve os primeiros números publicados na revista do Monstro do Pântano, até que, anos depois, a Panini resolveu lançar uma coleção de encadernados com estas histórias, chamada John Constantine, Hellblazer - Origens. E é sobre o primeiro volume desta coleção que eu irei falar nesta resenha. Intitulada Pecados Originais, este encadernada reúne as seis primeiras edições da revista Hellblazer.

Constantine Enfrenta Mnemoth

Nas duas primeiras edições, Constantine precisa enfrentar Mnemoth, o espírito da fome, que está à solta nas ruas de Nova York graças à estupidez de um velho amigo dos tempos em que ele era vocalista da banda Membrana Mucosa: o viciado em heroína Gary Lester. A temática escolhida pelo autor para este capítulo é uma boa deixa para abordar os aspectos mais vis e decadentes da condição humana: a "fome" trabalhada por Delano engloba não apenas a necessidade física, mas as compulsões mais baixas do ser humano, como o vício em drogas, o desejo irracional por riquezas, o fanatismo religioso, e até mesmo a busca incessante pela forma física ideal. A arte crua e suja, repleta de rabiscos e hachuras de John Ridgway consegue imergir o leitor no mundo depravado e desprovido de valores morais por onde Constantine transita. Ela também consegue transmitir o clima de terror imprimido pelos roteiros de Delano, com seus exorcismos, demônios, viagens ao inferno, fantasmas e magia negra. A imagem que mostra Constantine encontrando Gary Lester em sua banheira, com o corpo coberto de insetos, provoca mais asco e choque do que terror propriamente dito.

Aqui vemos um Constantine atormentado pela culpa; quem acompanhou a saga Gótico Americano já pôde ter uma boa ideia do destino cruel daqueles que acabam chegando muito perto dele, e não é diferente desta vez: o ritual para deter Mnemoth envolve o sacrifício de mais um de seus "amigos". Para piorar, os fantasmas do passado voltam para lembrá-lo de seus pecados. Ciente de que a absolvição é apenas uma ilusão, ele procura o esquecimento no fundo de garrafas de uísque barato.

Os roteiros de Delano vão além do horror e suspense; o escritor, como a maioria dos quadrinistas britânicos de sucesso daquela época, como Alan Moore e Neil Gaiman, era um ferrenho crítico do conservadorismo de direita que dominava a Inglaterra de Margareth Tatcher em meados dos anos 1980, e das consequências sociais e econômicas que essas políticas causaram para os menos favorecidos. Como representante legítimo das massas, Constantine acaba se mostrando um canal perfeito para o autor extravasar as suas ideias. Este volume possui várias histórias assim, sendo as mais conhecidas, pela contundência com que os temas são tratados, Correndo Atrás e Quando Jonny Volta Marchando Para Casa.


Constantine Desafia Blathoxi

Na primeira Delano faz uma sátira ao modo de vida materialista da classe média inglesa da década de 1980, principalmente entre os yuppies. Para quem não sabe, a palavra yuppie vem da sigla YUP (jovem profissional urbano, já traduzido) e é um estereótipo para o grupo de jovens adultos bem sucedidos financeiramente, cujo principal comportamento é a busca incessante pelo sucesso profissional, e com isso possuir os melhores carros, as roupas da moda, os lançamentos tecnológicos mais recentes. São o completo oposto dos hippies, da geração anterior (anos 1960 e 1970). Nesta trama, demônios liderados pelo asqueroso Blathoxi negociam as almas dos yuppies desesperados por enriquecer rapidamente como se fossem ações em uma bolsa de valores. É brilhante o parelelo criado pelo autor quando compara as atitudes de certas pessoas, que deixam de lado valores importantes como amor próprio, dignidade, família e amigos, em troca de dinheiro e bens materiais, com a barganha feita entre os yuppies da história e Blathoxi: suas almas em troca de riquezas, mesmo isso significando vidas mais curtas. A forma como Constantine consegue derrotar Blathoxi é prova de que força bruta nem sempre resolve todos os problemas; às vezes é preciso ter astúcia e uma boa dose de coragem.

Quando Jonny Volta Marchando Para Casa é, na minha opinião, a melhor história deste encadernado. Nela o autor traz à tona os horrores da Guerra do Vietnã, mostrando um outro lado da guerra que não aparece nos filmes de Hollywood; um lado onde o altruísmo e a bravura americanos tão exaltados nas telas são substituídos pela selvageria e covardia praticados por soldados desesperados, presos em uma guerra que não era deles, em solo estrangeiro e nas piores condições, e dominados pela tensão de não saberem até quando permaneceriam vivos. A crítica fica bem clara quando, no epílogo, Constantine observa um ex-combatente preso a uma cadeira de rodas, incapaz de realizar as tarefas mais simples, parado diante de uma vitrine de uma locadora de filmes com o cartaz: "Filmes que mostram como foi de verdade!"

Outro ponto abordado por Delano foram as consequências do conflito para aqueles que conseguiram retornar para casa, muitos deles com sequelas físicas e psicológicas; ao contrário do que aconteceu com seus pais ao voltarem da Segunda Guerra Mundial, estes soldados não foram recebidos como heróis, mas como párias, assassinos e genocidas. Nesta história, que se passa em uma cidadezinha do meio oeste americano chamada Liberty, Constantine testemunha o caso de Frank Ross, o único dos jovens da cidade a retornar do Vietnã, e justamente por isso ele é o mais odiado da cidade. Para piorar, os pais daqueles jovens que jamais retornaram, agora idosos, são convencidos por uma seita fundamentalista de que os filhos perdidos irão voltar para casa. Num esquema de deixar o bispo Macedo com inveja, os velhinhos iludidos participam de um esquema de pirâmide (para saber o que é isso, clique aqui) e acreditam que o milagre vai acontecer. O problema é que, quando os rapazes voltam, eles trazem a guerra consigo, transformando a pacata Liberty em uma "vietnamérica". A técnica narrativa de Delano ao mostrar cenas do passado se repetindo no presente é sensacional, a forma como os eventos se sucedem até culminar no explosivo desfecho que, apesar de chocante, também conforta pela redenção encontrada por um dos personagens.

Zed

À Espera do Homem marca o início da primeira grande saga de Hellblazer, durante a qual Constantine entra no fogo cruzado entre a Cruzada da Ressurreição e o Exérito da Danação, duas seitas, cristã e satanista, respectivamente, que estão em guerra pelo domínio espiritual do mundo. Ele acaba se envolvendo no conflito quando um maníaco pedófilo e satanista, membro do Exército da Danação, sequestra sua sobrinha Gemma. É nesta saga que J. C. conhece Zed, uma mulher intrigante que possui muitas características em comum com ele, incluindo o dom da paranormalidade, e que o ajuda a encontrar Gemma. O encontro dos dois acontece meio que por acaso, mas será que no mundo de Constantine existem coincidências? Como a própria Zed disse: "Eu estava esperando. Você me encontrou. Eu não sei o que eu estava esperando, você não sabe o que encontrou." Não demora muito para ele descobrir que a mulher, assim como ele, possui muitos segredos, e que está no centro da disputa entre o Exército da Danação e a Cruzada da Ressurreição.

O Monstro do Preconceito

Preconceito Extremo encerra este volume com um enredo que aborda o problema do preconceito sofrido por imigrantes, principalmente muçulmanos, e pelos homossexuais, pelos membros de grupos radicais de direita na Inglaterra. Delano usa a figura dos hooligans, jovens torcedores de times de futebol conhecidos por seu vandalismo e violência exagerada, para encarnar o preconceito abordado por ele, devido ao fato de muitos destes rapazes serem envolvidos com grupos de neonazistas, skinheads e radicais conservadores que canalizam seu ódio contra qualquer um que não seja europeu, branco e heterossexual. Nesta trama Nergal, demônio líder do Exército da Danação, envia uma bizarra criatura constituída por partes de corpos remendados de hooligans para capturar Zed.

Apesar de ter sido escrita na década de 1980, esta história não poderia ser mais atual: não faz muito tempo que acompanhamos nos noticiários internacionais e na Internet a situação delicada dos refugiados de guerra na Europa, e como isto está afetando a vida de todos no Velho Mundo, bem como os casos de homossexuais que são vítimas de violência unicamente por serem diferentes. Em pleno século XXI, quase 30 anos após esta história ter sido escrita, ainda hoje somos surpreendidos ao ligarmos nossas TV's, computadores ou smarthphones e descobrirmos que um lunático assassinou a sangue frio 50 pessoas simplesmente pelo fato deles decidirem ter relações com pessoas do mesmo sexo. Quando lidamos com estes fatos é que percebemos que, apesar de toda a evolução científica e tecnológica que vivenciamos ao longo dessas décadas, a mentalidade do ser humano evoluiu muito pouco.

Com roteiros adultos e complexos, e tramas baseadas no gênero do horror sobrenatural com boas doses de suspense, embora a arte não agrade a muitos, este é um material recomendadíssimo para aqueles que querem se iniciar nas histórias do mago mais carismático e cafajeste das HQ's. Como já mencionei anteriormente, esta HQ está sendo publicada pela Panini Comics em uma coleção de 7 encadernados, todos em capa cartão e papel pisa britte, o que causou algum descontentamento entre alguns colecionadores, já que este tipo de papel possui menor qualidade que o LWC, mais comumente usado neste tipo de publicação. No entanto, a Panini apenas seguiu o padrão norte-americano, que também adotou este tipo de papel, por ser mais adequado ao método de colorização adotado na época.

Boa leitura!

Capa de Hellblazer Origens Vol.1