Mostrando postagens com marcador Livro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livro. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de maio de 2017

RESENHA | A Torre Negra, Livro 3: As Terras Devastadas


As Terras Devastadas é o terceiro volume de A Torre Negra, série antológica do aclamado escritor norte-americano Stephen King. Famoso por escrever livros de suspense e terror, como Carrie, O Iluminado e It, A Coisa, King mostra toda sua versatilidade ao se aventurar nas misteriosas paragens do Mundo Médio, onde fantasia e ficção científica se confundem em meio à jornada de Roland Dechain, o Último Pistoleiro, e seus companheiros rumo à mítica Torre Negra, nexo de todo o tempo e espaço.

No primeiro volume, intitulado O Pistoleiro, acompanhamos a perseguição de Roland ao enigmático Homem de Preto, conhecemos um pouco de seu passado no extinto reino de Gilead, e também aprendemos uma lição muito importante, a mais importante que há para saber sobre o pistoleiro: ele não deixará nada nem ninguém ficar entre ele e sua preciosa Torre. Essa lição é aprendida da forma mais trágica possível, quando Roland é obrigado a escolher entre a vida do menino Jake Chambers e a Torre Negra. Roland escolhe a Torre, obviamente, sacrificando a vida de seu filho simbólico, tal como Abraão fizera com Isaque. Ao morrer pela segunda vez (a entrada de Jake no Mundo Médio se dera através de sua morte na Nova York do nosso mundo), o garoto profere as palavras que viriam a ditar o tom da próxima fase da aventura do pistoleiro:


"Vá então, há outros mundos além deste!" 

Na fronteira do seu mundo conhecido, Roland se depara com três portas que se abrem para a Nova York do nosso mundo, cada uma para uma diferente época. Assim começa A Escolha dos Três, segundo volume da série, que trata do recrutamento do ka-tet de Roland, aqueles que estavam predestinados a compartilhar seu destino: Eddie Dean, um viciado em heroína da década de 80; e Susannah Holmes, uma ativista dos direitos dos negros paraplégica da década de 60, a qual também sofre de um distúrbio mental que a faz alternar entre duas personalidades completamente opostas entre si. O terceiro indivíduo que Roland deveria recrutar era Jack Mort, um psicopata que já havia cruzado os caminhos de Jake e Susannah, mas devido à sua natureza maligna Roland o deixou para morrer nos mesmos trilhos do trem que amputara as pernas de Susannah. Este ato, contudo, teve lá suas consequências, pois, com a morte de Mort (o trocadilho foi inevitável), quem seria o terceiro integrante da equipe de Roland? É esta pergunta que este terceiro volume se propõe a resolver, entre outras questões.

As Terras Devastadas começa com Roland e seu ka-tet tentando descobrir uma forma de encontrar Jake e levá-lo para o Mundo Médio. O leitor poderia então se perguntar: "Ué, mas Jake nao havia morrido no primeiro livro?" A resposta é sim, e não! Confuso? Calma que eu explico: Roland matara Jack Mort antes dele assassinar Jake no nosso mundo, e isso acabou criando um bizarro paradoxo temporal, no qual o menino estava vivo (e assim contrariando os eventos de O Pistoleiro) e morto ao mesmo tempo. Agora imagine uma pessoa que está viva, mas cuja mente tenta a todo custo se convencer de que está morta. Esta é a situação de Jake, e a única forma de corrigir este problema é levando-o para o mundo de Roland. Esta travessia é feita no melhor estilo Stephen King, que invoca seus talentos como escritor de histórias de terror para levar os nervos do leitor ao limite, utilizando um recurso que ele já havia usado em It, A Coisa, e que aqui funciona igualmente bem: uma Casa Mal Assombrada. No caso de Jake, porém, seu problema não está no que reside dentro da Mansão, e sim na Mansão propriamente dita. A passagem que narra o retorno de Jake ao Mundo Médio é uma das mais emocionantes e tensas de toda a série, e é também a origem de um dos maiores problemas de Roland; este desdobramento, entretanto, fica para outra resenha.

A Passagem de Jake

Além do retorno de Jake, King finalmente decide fornecer para seus ávidos leitores um pouco mais de informação sobre a Torre Negra. A mais importante delas é sobre os Feixes de Luz, que são doze feixes de energia que sustentam a Torre Negra e que se conectam com os Doze Portais, cada um deles protegido por um dos Doze Guardiões. Como estão ligados à Torre, estes feixes oferecem um caminho, um ponto de partida para a jornada em direção à Torre Negra, que finalmente tem seu início no portal do Urso, após Roland e seu ka-tet derrotarem o gigantesco urso ciborgue Shardik. Eles iniciam a viagem a partir do portal do Urso em direção ao portal da Tartaruga, e aqui é importante ressaltar a associação que King faz com a grande tartaruga que aparece no final de It, A Coisa, pois, como já foi mencionado na resenha de O Pistoleiro, esta série de livros trás diversas menções e referências a elementos de outras obras do autor, estabelecendo uma espécie de "Universo Compartilhado Stephen King".

Ainda sobre os Feixes de Luz, a tecnologia da qual eles são feitos foi criada pelos habitantes originais do mundo de Roland, chamados Grandes Anciões. Apesar do nome pomposo, todos os sinais deixam claro que estes "seres superiores" eram na verdade seres humanos comuns, porém dotados de um amplo conhecimento tecnológico, que muitas vezes é confundido com magia. Assim como a nossa, a civilização desses Grandes Anciões rumou para um holocausto nuclear, ou algo bem pior do que isso (se é que é possível existir algo pior do que um apocalipse nuclear), mergulhando o mundo de Roland em uma Idade das Trevas sem fim, e transformando-o na terra devastada de que fala o título. Durante todo o livro o autor explicita essa grande mudança pela qual passou o Mundo Médio, seja pelo fato de nenhum relógio funcionar direito naquele mundo, ou por simples abelhas não serem mais capazes de construir uma colmeia. Além disso, as "Terras Devastadas" não podem ser entendidas apenas no sentido literal da expressão: seu significado também abrange as pessoas que vivem nessas terras, a maioria velhos e velhas sem qualquer esperança no mundo em que vivem, cercados por anarquia, maldade e tragédias. No entanto, é nas ruínas da cidade de Lud - e na desolação que jaz além desta - que o ka-tet de Roland finalmente compreende a extensão da desolação que é o mundo de Roland, e o real significado da expressão "o mundo seguiu adiante".

A Torre, os Feixes de Luz e os Doze Portais

Stephen King faz um excelente trabalho no quesito desenvolvimento de personagens. É clara a evolução de Eddie e Susannah entre os segundo e o terceiro livros. Eddie, já livre da influência da heroína, da qual era prisioneiro, agora precisa lidar com outro tipo de grilhão: a sombra representada pelo finado Henry, seu irmão mais velho, o qual dedicara toda sua vida a sabotar Eddie, de forma a disfarçar sua própria inaptidão. Os constantes abusos e humilhações deixaram sequelas na personalidade de Eddie, que tornou-se incapaz de reconhecer seu próprio valor. Mas a busca pela Torre não permite dúvidas, e é o amor de Susannah que possibilita o nova-iorquino a superar este obstáculo. Já Susannah, que representa a síntese de suas outras duas personalidades - Odetta Holmes e Detta Walker -, mostra-se cada vez mais uma mulher ímpar ao conseguir usar com sabedoria os melhores atributos de cada uma: a ternura e compaixão de Odetta, e, quando preciso, a tenacidade de Detta.

Roland, por sua vez, precisa reaprender a ter amigos. É sabido que ele já fez parte de outro ka-tet, formado por seus amigos da infância, e que em algum momento de sua busca pela Torre eles foram mortos. Agora ele precisa transformar Eddie e Susannah em pistoleiros, e os dois parecem ter nascido para o ofício. Mas enquanto Susannah demonstra ser uma aluna promissora, é com Eddie, e sua aparente incapacidade de levar as coisas a sério, que Roland tem mais problemas. Quanto a Jake, o menino enxerga Roland como um pai substituto, e não parece guardar mágoas por ter sido abandonado no passado, principalmente depois que Roland recebe a chance de se redimir por este pecado. Há ainda um quinto personagem que se junta ao ka-tet de Roland, antes da chegada a Lud: o mascote Oi. Oi é um zé-trapalhão, uma mistura de cachorro com guaxinim dotado de uma pequena dose de inteligência, a qual, aliada a um profundo afeto por Jake, lhe permite realizar os feitos mais heroicos. Ele é o responsável pelas cenas mais engraçadas e também pelas mais emocionantes do livro, e sem dúvida merece o título de personagem mais carismático da trama.

Jake e Oi

No que diz respeito a vilões, As Terras Devastadas não deixa a desejar. Em Lud somos apresentados a Gasher e ao Homem do Tique-Taque, que conseguem fazer com que o leitor tenha medo pela vida dos protagonistas, uma vez que são personagens completamente imprevisíveis e sem qualquer escrúpulo. Além destes há também a aparição de uma misteriosa entidade, um homem apelidado de Estranho Sem Idade, alguém sobre o qual o Homem de Preto alertara Roland. Este indivíduo, que aparentemente possui poderes mágicos, guarda uma certa semelhança com o principal antagonista do livro A Dança da Morte, também de King. Mas quem rouba a cena mesmo é a inteligência artificial encarnada na forma de um trem de monotrilho chamado Blaine. Ardiloso, insuportavelmente convencido e com tendências suicidas, este peculiar personagem é uma mistura de HAL 9000 com o dragão Smaug e Gollum. Blaine. Ele representa a única esperança de Roland de alcançar a Torre e também sua maior ameaça, já que sua compulsão charadas do tipo "O que é o que é?" o levará a fazer de tudo para participar de uma última competição de enigmas antes de finalmente atingir a "clareira no final do caminho".

Personagens bem construídos, uma boa ambientação, focada na mitologia em torno dos Feixes de Luz e da Torre Negra, cenas de ação frenéticas e bem orquestradas, e vilões realmente ameaçadores fazem de As Terras Devastadas o melhor livro da série A Torre Negra até agora. Se este livro tem um defeito, é o seu final. Não que seja um final ruim, até porque, não há um final. Stephen King proporcionou um dos cliffhangers mais angustiantes do mundo da literatura, quando resolveu encerrar o livro bem quando a competição de enigmas tem seu início. A diferença de tempo entre o lançamento do terceiro e do quarto volumes foi de 6 anos, então imagino a angústia dos leitores d'A Torre Negra que tiveram que esperar todos este tempo para saber como Roland e seu ka-tet escaparam da morte certa. Como todos os livros desta série já foram publicados, então os novos leitores não precisarão passar por isso, o que ameniza um pouco esta decisão do escritor.

Para esta resenha utilizei a edição publicada pela editora Suma de Letras, cuja capa encabeça esta postagem, e encontra-se disponível nas principais livrarias do país em versão física e digital. Boa leitura, e até a próxima resenha!

terça-feira, 25 de abril de 2017

RESENHA | Neil Gaiman - Deuses Americanos


Deuses Americanos é considerada a obra prima do escritor e quadrinista britânico Neil Gaiman, conhecido por ser o roteirista da aclamada HQ Sandman. Lançado em 2001, este livro ganhador dos prêmios Hugo, Nebula e Bram Stoker é uma mistura de road trip, mitologia, suspense e uma pitadinha de terror. A versão que utilizei nesta resenha é a chamada Edição Preferida do Autor, uma espécie de versão estendida da edição original, contando com um acréscimo de cerca de 12.000 palavras, segundo o próprio autor, e foi publicada aqui no Brasil pela Editora Intrínseca numa edição com acabamento diferenciado.

A trama gira em torno do ex-presidiário com o nome incomum de Shadow, que é liberado de sua pena sob regime condicional após a morte da esposa, Laura Moon. Completamente sem rumo, Shadow é contratado como guarda-costas de um velho trambiqueiro que chama a si próprio de Sr. Wednesday. Sua vida então vira de cabeça para baixo quando ele se vê no meio de uma guerra invisível entre duas facções: de um lado os antigos deuses, dos mais variados panteões, liderados por Wednesday, cuja verdadeira identidade é Odin, da mitologia nórdica (aqui o autor usou um jogo de palavras, já que o termo para o quarto dia da semana em inglês deriva da expressão "Dia de Woden", nome pelo qual Odin era conhecido na antiga Bretanha); do outro lado estão os deuses modernos, encarnações dos novos objetos de culto da humanidade, como a Internet, a Mídia, o Mercado, a Aviação, etc.

Muito do que é visto em Deuses Americanos guarda certa semelhança com o que o autor já havia feito em Sandman, como o uso de metalinguagem para personificar conceitos abstratos, atribuindo-lhes características humanas. Enquanto lá haviam os Perpétuos, aqui ele trabalha com a noção de divindade. Deuses existem, mas estão longe de ser aqueles seres todo-poderosos e superiores que imaginamos: eles caminham entre nós, têm e empregos normais e são movidos pelas mesmas paixões. Neil Gaiman contradiz o conceito de que os seres humanos são dependentes de seus deuses, revelando uma outra realidade: são eles que precisam de nós, de nossa crença, de nossa devoção, sem o que eles ficam cada vez mais fracos, até que, se forem completamente esquecidos, acabam morrendo. Desta forma, é a fé o objeto de disputa entre as duas facções de divindades. Mesmo os deuses modernos, retratados com muito mais poder e influência que os antigos, possuem em seu íntimo o medo de ficarem obsoletos, pois a raça humana está em constante progresso, e algo que hoje é novidade e detém a atenção de milhões de pessoas amanhã ficará ultrapassado e logo será esquecido pelas próximas gerações. Foi o que aconteceu com a máquina de escrever no advento do computador pessoal, o qual já está sendo posto de lado pelos smarthphones. E quem sabe o que virá a seguir?

Neil Gaiman faz jus aos prêmios que recebeu e se confirma como um dos maiores escritores modernos com seu estilo de escrita envolvente; ele é um desses raros escritores que conseguem transportar o leitor, se não de corpo, pelo menos de mente e coração para dentro das páginas de seus livros, de modo que é quase impossível parar de ler depois que se começa. Seus textos são inteligentes, os personagens, embora improváveis, são cativantes, e os diálogos muito bem construídos. Eu separei algumas frases que me causaram grande impacto durante minha primeira leitura desta obra, só para o leitor sentir um gostinho do que o autor apresenta em Deuses Americanos.


"Você precisa entender essa coisa de ser deus. Não é magia. É só ser você, mas aquele você em que as pessoas acreditam. É ser a essência concentrada e aumentada de si mesmo. É se transformar em trovão, ou no poder de um cavalo galopante, ou em sabedoria. Você absorve toda a fé e fica maior, mais legal, mais do que humano. Você cristaliza. (...) Então, um dia esquecem que existe, não acreditam mais em você e não fazem mais sacrifícios... não se importam, e quando você percebe, está misturando cartas ara confundir quem passa na esquina da Broadway com a Rua 43."


"Existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartão de crédito e de auto-estrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância."


"Eu sou a mãe dos idiotas. Sou a televisão. Sou o olho que tudo vê, sou o mundo do raio catódico. Sou a expositora de tetas. O pequeno altar em torno do qual a família se reúne para louvar. 
- Você é a televisão? Ou é alguém dentro da televisão?
- A televisão é o altar. Eu sou a entidade para quem as pessoas fazem os sacrifícios. 
- O que elas sacrificam?
- O tempo de vida, principalmente - respondeu Lucy. - Às vezes, umas às outras."


"Olha, este país não é bom para os deuses."


Uma das coisas que se pode notar nos textos acima é que Neil Gaiman faz uma crítica ao estilo de vida norte-americano, o qual, em certa medida, acaba influenciando o modo de vida de todo o mundo ocidental. Este estilo de vida, fruto do consumismo exacerbado dos nossos tempos, é marcado pelo desapego, não aquele que tem a ver com humildade, mas num sentido de não se dar o devido valor às coisas: tudo é mesquinho, tudo é descartável ou substituível, desde objetos até pessoas. Neste contexto, nem as crenças ficam de fora: qualquer divindade ou religião pode ser facilmente trocada por outra que pareça oferecer mais vantagens, e códigos morais são flexibilizados para se adequarem a estas mudanças.

Nesta jornada para conhecer o âmago do que seria o espírito americano, o autor nos leva junto com Shadow numa viagem pelos recônditos secretos dos EUA, evitando os grandes cartões postais e metrópoles retratadas quase à exaustão nos filmes e seriados de TV. Ao invés disso, somos apresentados a locais pouco conhecidos, mas que atraem nosso interesse e instigam nossa imaginação, como a atração de beira de estrada House on the Rock, no Wisconsin, a Rock City, na Georgia - com sua vista dos sete Estados -, e o esquecido centro geográfico dos Estados Unidos, localizado próximo a Lebanon, no Kansas.

Além da história principal, o livro possui vários interlúdios, compostos por contos que narram a vinda de algumas divindades e criaturas mitológicas junto com imigrantes do Velho Mundo para a América. Embora em alguns momentos quebrem o ritmo da trama central, estes contos rendem boas histórias, como o da entidade Bilquis, outrora a Rainha de Sabá, que atua como prostituta em Los Angeles, ou o do ifrit (gênio) árabe que trabalha como taxista numa Nova York sem tempo para relacionamentos, ou ainda a saga do casal de gêmeos africanos vendidos como escravos e arrastados à força para um Novo Mundo onde pessoas de pele negra eram consideradas inferiores a animais. Há ainda uma trama secundária na qual Shadow se vê no centro de um mistério que paira sobre a pacata cidadezinha de Lakeside, onde todo ano crianças e adolescentes desaparecem sem deixar rastros durante o inverno. A resolução deste enigma segue o mesmo script da história principal: tal como nos truques com moedas realizados pelo protagonista, Gaiman deixa a verdade diante das vistas do leitor enquanto atrai sua atenção para outras coisas.

Por fim, não poderia finalizar esta resenha sem falar sobre os personagens que povoam as páginas de Deuses Americanos, já que são eles o ponto mais alto desta leitura. Por incrível que pareça, Shadow é um protagonista morno, sem sal. Sua apatia e aparente indiferença diante de todas as situações fantásticas pelas quais passa ao longo da jornada com Wednesday chega a ser irritante em alguns momentos; mesmo com a justificativa do luto pela esposa - a perda da pessoa que ele mais amava e as circunstâncias da morte faz com que nada mais importe para ele - não seria suficiente para explicar a ausência de questionamentos por parte do personagem. A volta de Laura do mundo dos mortos, ao invés de tirá-lo da catarse, só faz mergulhá-lo ainda mais na introspecção. Porém a falta de carisma de Shadow é compensada em dobro pela simpatia de Wednesday. Mesmo sendo um tremendo vigarista, salafrário e pervertido, Odin logo de cara conquista o leitor com sua presença de espírito e senso de humor. Outros personagens também se destacam, como Laura Moon, o garoto técnico, Samantha Black Crow (é dela um dos monólogos mais impressionantes do livro), o rabugento Czernobog e o velhinho simpático Hinzelmann.

Há ainda muitas coisas que eu poderia falar sobre este livro, no entanto isso acabaria tirando a graça da leitura. Deuses Americanos é um livro estranho, de múltiplas facetas, e cabe ao leitor tirar suas próprias conclusões.

Boa leitura!

P.S.: Deuses Americanos será adaptado para uma série de TV exibida pelo canal Starz, dos mesmos produtores de Hannibal. Veja os trailers da primeira temporada aqui e aqui.

quarta-feira, 22 de março de 2017

RESENHA | A Torre Negra, Livro 2: A Escolha dos Três


Leitura Prévia:
"E a Torre está mais próxima."

Assim termina o segundo livro da saga A Torre Negra, mais famosa antologia do escritor norte-americano Stephen King. Apesar do otimismo do autor, a verdade é que neste segundo passo da busca de Roland, o último pistoleiro do Mundo Médio, pela mística Torre Negra, a verdade é que há pouco avanço neste sentido. Todo o enredo de A Escolha dos Três se resume à missão de Roland em recrutar companheiros para auxiliá-lo nesta busca; os mesmos companheiros que haviam sido profetizados num jogo de tarô pelo Homem de Preto ao final de O Pistoleiro - primeiro livro da saga. São eles: o Prisioneiro, a Dama das Sombras e a Morte. O pistoleiro vai de encontro a eles através de portais que são abertos unicamente para ele ao longo de uma praia no litoral oeste de seu mundo. Estes portais, na forma de portas comuns de madeira, conectam o mundo de Roland com o nosso mundo, mais especificamente com a cidade de Nova York, em diferentes épocas.

Se em O Pistoleiro era notável a diferença da escrita de King em relação às suas demais obras (lembre-se que ele escreveu O Pistoleiro quando ainda tinha 19 anos), em A Escolha dos Três ele está em sua melhor forma. Sua escrita é fluida, dinâmica, envolvente; King parece conversar com o leitor, ao invés de simplesmente contar uma história. Seu maior talento, contudo, reside na criação de personagens: nenhum deles é raso e unidimensional; cada personagem que surge na trama é dotado de um traço de personalidade próprio e uma história de vida única, mesmo aqueles considerados secundários para a trama (é impossível não sentir pena do dono da farmácia ou da dupla de policiais que cruzam o caminho de Roland durante o terceiro ato). Merecem destaque os três (ou quatro) principais da trama: o próprio Roland, o viciado em heroína Eddie Dean, e Odetta Holmes, uma ativista dos direitos dos negros paralítica e que sofre de dupla personalidade. 

Eddie é o Prisioneiro, e num primeiro momento associamos sua "prisão" como sendo a dependência química que ele tem da heroína; no entanto, conforme Stephen King nos revela mais sobre seu passado, percebemos que seu cativeiro é ainda mais complexo, e está ligado à relação com o irmão Henry Dean, o "eminente e sábio viciado". Mas é Odetta Holmes, a Dama das Sombras, quem realmente rouba a cena neste livro, mais especificamente sua contraparte psíquica, a maligna, pervertida Detta Walker. Enquanto toda bondade ficou concentrada na primeira, Detta herdou todos os traços negativos da personalidade de Odetta. O mais incrível sobre esta personagem é que cada uma das metades desconhece a existência da outra, e toda vez que elas trocam de lugar seu subconsciente inventa uma história sobre o que teria acontecido em sua "ausência", de modo que ela não sofre com períodos de amnésia comuns a pessoas que têm este tipo de quadro psicológico. Odetta/Detta ainda sofre com um grave problema físico: quando jovem ela teve metade das duas pernas decepada em um acidente de trem, que na verdade não foi um acidente. Mas não pense que, sendo paraplégica ela é inofensiva: assim como uma serpente, mesmo se arrastando ela consegue ser a criatura mais ardilosa do livro, e dá muito trabalho para os brancos putos Eddie e Roland. King aproveita a história de Odetta/Detta para tocar na questão dos problemas raciais pelos quais os negros norte-americanos passaram durante as décadas de 50 e 60, tema recorrente de outras obras do autor, como o livro It.

Eddie e Odetta/Detta

Além de recrutar novos membros para seu ka-tet (palavra no idioma do Roland para definir um grupo de pessoas unidos por um mesmo destino), Roland precisa lidar com seus próprios, e tão urgentes quanto, problemas. Logo no prefácio deste livro, King toma uma decisão que me deixou completamente estarrecido. Roland - outrora o maior de todos os pistoleiros -, tem os dois primeiros dedos da mão direita decepados pelas lagostrosidades, umas criaturinhas parecidas com lagostas que habitam a praia onde a história se desenrola. Quando isto aconteceu eu pensei: pronto, agora o cara conseguiu ferrar de vez com a melhor característica do seu protagonista, que é justamente de ser um grande atirador! Felizmente, o pistoleiro ainda consegue atirar com a mão esquerda, e mesmo doente (além de tudo o mais suas feridas começam a gangrenar) ele ainda consegue ser um dos mais mortais atiradores que eu já tenha ouvido falar, haja vista a cena insana do tiroteio no restaurante do narcotraficante Enrico Balazar, a qual não tem como deixar de comparar com as cenas dos filmes do Quentin Tarantino.

A Escolha dos Três é quando realmente a história d'A Torre Negra começa, não apenas por ser o livro que ditaria o ritmo e o estilo de escrita de todos os demais da saga, mas porque ele apresenta os personagens centrais desta grande trama que só começará a se desenrolar a partir do próximo volume. A Torre Negra foi publicada aqui no Brasil pelas editora Suma de Letras e Ponto de Leitura, e pode ser encontrada facilmente nas principais livrarias do país.

Boa leitura!

domingo, 12 de março de 2017

RESENHA | A Torre Negra, Livro 1: O Pistoleiro



A Torre Negra é uma das obras mais importantes da carreira do escritor norte-americano Stephen King, por diversas razões: seja pelo tempo que ele levou para pô-la no papel - foram 33 anos entre o primeiro e o último livro -, ou pelo tamanho da obra em si, que conta com 7 volumes e um tie-in, a verdade é que o próprio escritor a considera sua obra prima. Ela é, também, a sua obra mais pessoal: no ano de 1999 Stephen King quase morreu ao ser atropelado por uma minivan enquanto caminhava nos arredores de sua casa de veraneio, e ele resolveu abordar este assunto em um dos livros da Torre Negra, inserindo a si próprio como personagem da obra. Há quem considere esta uma atitude egocêntrica e narcisista, outros até mesmo corajosa, entretanto, polêmicas à parte, a verdade é que ele conseguiu criar um épico de fantasia moderna que arrastou milhões de leitores para se juntar ao último pistoleiro, Roland Deschain, e seu ka-tet (aqueles unidos pelo destino) em sua busca pela famosa Torre Negra. Muitas foram suas inspirações para construir este vasto e complexo universo: o poema inglês Childe Roland to the Dark Tower Came ("Childe Roland à Torre Negra Chegou"), de Robert Browing, é uma delas, assim como as lendas arturianas, o cinema western, O Mágico de Oz, e até mesmo a trilogia O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien - tudo isto em meio a inúmeras referências à cultura pop do século XX. Outro aspecto interessante desta série literária é que ela faz menção a personagens, lugares e até acontecimentos de diversos outros livros de King, criando um espécie de amálgama que une todas as suas obras em único e coeso Multiverso.

Toda grande jornada tem um começo, e o começo da busca de Roland pela Torre Negra se dá em O Pistoleiro, livro escrito em 1970, quando Stephen King tinha apenas 19 anos (grave este número, pois ele tem uma importância cabalística para a série e também para o próprio King) e publicado em cinco partes na revista The Maganize of Fantasy & Science Fiction entre 1978 e 1981. Apenas em 1982 esta história seria publicada como um livro único. Justamente por ter sido escrito bem no início da carreira de Stephen King, uma das peculiaridades deste livro é a forma da escrita de King, que difere bastante de outros trabalhos do autor, de modo que quase não dá para perceber que estamos lendo uma de suas histórias. O próprio autor declara em sua introdução que ele só viria a encontrar a sua "voz" para obra a partir do segundo livro, e é o que realmente acontece: é clara a diferença dos textos de um livro para o outro. No entanto, isto não faz este um livro ruim, apenas diferente.

Roland e a Torre Negra, pelo Ilustrador Michael Whelan

A história de O Pistoleiro, bem como grande parte da série A Torre Negra, se passa em um universo alternativo - ou num possível futuro do nosso (isso não fica muito claro) -, em que tudo está em decadência, inclusive a humanidade, a qual perdeu quase toda sua capacidade criativa e tecnológica, provavelmente como consequência de um holocausto nuclear. É o que o protagonista e diversos outros personagens chamam de "o mundo seguiu adiante". No crepúsculo deste mundo prosperou o reino de Gilead, último bastião da humanidade contra o caos e a deterioração que contaminaram o mundo. Este reino era protegido pelos pistoleiros, uma ordem semelhante a dos cavaleiros da Idade Média, porém ao invés de espadas eles portavam pistolas. Mas mesmo Gilead caiu, graças, em grande parte, à atuação do feiticeiro conhecido por vários nomes: Marten, Walter das Sombras, ou, mais comumente, apenas O Homem de Preto. Pouco se sabe sobre ele, apenas que "o homem de preto fugia pelo deserto, e o pistoleiro ia atrás."

É com esta fatídica frase que Stephen King abre o primeiro livro, e ela resume perfeitamente seu enredo: trata-se da perseguição de Roland ao Homem de Preto através de um escaldante deserto e pelos túneis sob as montanhas em busca de respostas acerca da mítica Torre Negra. Stephen King não faz nenhum tipo de introdução inicial sobre o universo de Roland, jogando o leitor diretamente no meio da história, o que causa uma certa confusão no começo. Mas aos poucos as coisas vão se ajustando, as respostas vão vindo e logo, sem perceber, o leitor está completamente envolvido pela busca do pistoleiro, ansiando pelo encontro entre Roland e o Homem de Preto, quando as respostas para várias perguntas são reveladas, e outras tantas perguntas são criadas. O diálogo final entre os dois antagonistas é impressionante, por levantar questões bastante profundas que fazem a pessoa refletir por horas e horas. 

A melhor parte desta história, contudo, é a relação entre Roland e o garoto Jake Chambers, personagem introduzido mais ou menos na metade da trama. Ele é a ligação entre o mundo de Roland e o nosso: o menino teria morrido no nosso mundo, na cidade de Nova York, e simplesmente aparecido no deserto que Roland estava atravessando enquanto perseguia o Homem de Preto. Os dois desenvolvem uma relação pai/filho bastante interessante, o que acaba se provando o teste mais difícil que o pistoleiro precisa passar para provar seu comprometimento para com a busca. Stephen King cria a sua própria versão da ponte de Khazad-dûm, propiciando um clímax angustiante para esta primeira aventura de Roland Deschain.

Roland e Jake Chambers, pelo Ilustrador Michael Whelan
O Pistoleiro não é um dos melhores livros da saga da Torre, justamente por Stephen King não estar em seu auge como escritor, mas ainda assim é um excelente livro, um pouco complexo para se compreender no começo, mas recheado de ação e violência (afinal, estamos falando de um pistoleiro aqui, e do melhor deles), elementos fantásticos e diálogos empolgantes. King não contém seu vocabulário, de modo que palavrões e sexo são coisas tratadas corriqueiramente na trama, por isso - e principalmente pela complexidade da trama - não é adequada para crianças, embora isso dependa de cada um. Como eu já mencionei mai acima, este é apenas o começo das aventuras de Roland, e os próximos livros prometem trazer aventuras muito mais épicas, portanto junte-se a nós nesta jornada em busca da Torre Negra, e boa leitura!

P.S.: Para quem já concluiu a leitura de toda a saga, recomendo fortemente que a releia desde o princípio, com a certeza de que terá outra visão da história quando já se conhece o final. Isto é mais acentuado ainda no primeiro livro, pois ele contém inúmeras pistas do final da saga, que só quem conhece poderia entendê-las. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

[RESENHA] A Roda do Tempo, Livro 1: O Olho do Mundo



A Roda do Tempo é uma série literária escrita pelo autor norte americano Robert Jordan (1948-2007), composta por 14 livros, publicados ao longo de mais de 20 anos, mais uma prequel. Tal como O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, e as Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, A Roda do Tempo é um épico do gênero da alta fantasia, no qual os eventos da trama se passam em um universo fictício, povoado por uma numerosa gama de seres fantásticos, cada qual com sua cultura, história e idioma próprios. Jordan também se inspirou em elementos de diversas religiões, como o Cristianismo e o Hinduísmo, para estabelecer as bases de seu universo, além de recorrer ao monomito de Joseph Campbell como estrutura narrativa para a história do protagonista Rand al'Thor.

Como acontece com diversas sagas, sejam elas de fantasia ou ficção científica, que se estendem por muitos anos, tomando grande parte da vida de seu criador, A Roda do Tempo correu o risco de ficar inacabada quando Robert Jordan faleceu, vítima de uma doença cardíaca, antes da publicação do 12º livro da série. Para alívio dos fãs a obra foi terminada por Brandon Sanderson (autor da trilogia Mistborn), apontado pela própria viúva de Jordan como o mais capacitado para levar a cabo esta grande missão, utilizando-se como base as anotações de Jordan.

A Roda do Tempo intimida os leitores iniciantes por vários motivos. O primeiro deles é o tamanho da obra, que, como já mencionei, é composta por 14 livros, o que não seria um problema tão grande se eles não tivessem mais de 500 páginas cada um, com alguns beirando as mil páginas. O que faz com que os livros sejam tão extensos é o nível de detalhamento que Jordan impõe ao enredo, descrevendo à exaustão cada detalhe dos vários e peculiares lugares percorridos pelos personagens, da aparência das pessoas e criaturas que eles encontram, bem como das roupas que estão vestindo, e até mesmo de cada refeição feita por eles. De certa forma isso enriquece a leitura, mas por outro lado pode cansar o leitor mais casual que quer apenas se divertir com uma aventura que não precise consumir diversas horas só para atravessar um capítulo do livro. Por fim, outro aspecto da obra, pelo menos no primeiro livro, que pode afastar novos leitores é a sensação de deja vu que se tem ao ler alguns trechos, uma vez que muito do que é mostrado já foi abordado em outras obras de fantasia. A Jornada do Herói pode ser claramente identificada na aventura de Rand al'Thor: o jovem pastor que vive tranquilamente em um vilarejo isolado e pacato precisa deixar a paz da sua vila para entrar em uma aventura na qual irá passar pelas mais difíceis agruras, da qual depende o destino de todo o mundo. Aqui está presente a figura o Escolhido, tão presente na literatura moderna, indo desde o rei Arthur Pendragon até Bilbo e Frodo Bolseiro, Harry Potter e Neo (Matrix). Em todos esses casos, o Escolhido conta com a ajuda de um poderoso e sábio mentor, que irá ajudá-lo a superar seus medos e ensiná-lo a usar o poder que ele está destinado a possuir para derrotar a figura do Mal.

Em O Olho do Mundo, porta de entrada para o universo de A Roda do Tempo, o Escolhido é Rand - o Dragão Renascido -, alguém que pode tanto salvar o mundo como levá-lo à ruína. A responsável por guiá-lo em sua jornada é Moiraine, uma mulher que pertence à ordem das Aes Sedai, que são mulheres capazes de canalizar o Poder Único, a manifestação da magia no universo de Jordan. Ela e seu Guardião Lan precisam escoltar Rand e seus amigos Mat e Perrin - além das jovens Egwene e Ninaeve e o menestrel Thom Merrilin - da aldeia de Campo de Emond até a cidade de Tar Valon, sede da ordem das Aes Sedai, pois eles estão sendo caçados por criaturas maléficas enviadas pelo principal antagonista da série, Ba'alzamon, também conhecido como o Tenebroso ou Sh'aytan. Esta primeira parte do livro possui praticamente a mesma estrutura narrativa de A Sociedade do Anel: os jovens de Campo de Emond podem ser comparados aos hobbits do Condado (em ambos os casos, inclusive, eles cultivam e comercializam uma erva usada para fumo); Moiraine encarna a figura de Gandanf; e Lan, assim como sua contraparte Aragorn, é o herdeiro de um reino que optou por viver como um guerreiro solitário. Eles estão a todo tempo fugindo de Trollocs, criaturas bestiais lideradas pelos Myrdraal, cavaleiros encapuzados vestidos de preto que instilam o pavor em suas presas (qualquer semelhança com os Nazgul não é mera coincidência).

Após a separação do grupo em Shadar Logoth a trama diverge da estrutura de O Senhor dos Anéis, e é a partir daí que para mim a história começa a ficar mais interessante, com destaque para as aventuras vividas por Perrin e Egwene com os Latoreiros, os fanáticos religiosos Mantos Brancos, e o Amigo dos Lobos Elyas. Dentre os viajantes de Campo de Emond Perrin é o personagem mais bem desenvolvido neste livro, principalmente após ele descobrir suas recém adquiridas habilidades. Ao contrário de Perrin, durante praticamente todo o livro Rand permanece da mesma forma, recusando-se a aceitar sua verdadeira origem e acrescentando muito pouco à história, de modo que chega a ser estranho que os outros o enxerguem como uma espécie de líder. Mat, que surge como um alívio cômico no começo da história, após Shadar Logoth se torna um companeheiro de viagem insuportável e ranzinza, embora haja um motivo para isso, mas também, pelo menos neste livro, não acrescenta muito. Com isso, o protagonismo acaba recaindo sobre Moiraine, a qual não tem pudor em utilizar seu vasto arsenal mágico contra os adversários que os perseguem, e é a responsável pelas cenas mais empolgantes do livro. Ao contrário de outras obras de fantasia, nas quais a magia é quase sempre empregada como um último recurso e muitas vezes de maneira velada, em O Olho do Mundo seu uso é liberado, não sendo poucas as vezes em que nos sentimos estar dentro de um jogo de RPG.

Para explicar a magia de seu universo Jordan utiliza de forma inteligente a metalinguagem, como no caso da própria Roda do Tempo que dá nome à série, e a forma como ela tece o Padrão das Eras. Outro exemplo é a divisão do Poder Único em saidin e saidar, suas metades masculina e feminina, respectivamente. Cada sexo possui mais familiaridade com um tipo de poder do que outro; por exemplo: enquanto homens são mais hábeis com fogo e terra, mulheres controlam melhor a água e o ar, e isso tem muito a ver com a diferença entre ambos. Normalmente, homens são mais violentos e sedentos por poder do que as mulheres, enquanto estas últimas são moldadas desde cedo para o cuidado e a cura. No entanto, não existem mais Aes Sedai homens, e os poucos que aparecem são caçados pelas Aes Sedai mulheres, devido à loucura que lhes acomete. Esta loucura advém da mácula que Ba'alzamon colocou na metade masculina do Poder Único. Isso enfraqueceu muito as Aes Sedai, pois as grandes obras mágicas, como é o caso do Olho do Mundo, precisam ser feitas com saidin e saidar juntas.

Conforme a história vai se aproximando de sua conclusão, dá para perceber claramente que a trama começa a ficar mais corrida, como se o autor tivesse percebido que enrolara demais ou tenha ficado cansado de escrever, de modo que alguns acontecimentos acabam carecendo de mais explicações, como é o caso do objeto que dá nome ao livro. Confesso que quando terminei de ler os três últimos capítulos minha primeira reação foi: "Tá, mas o que era esse tal Olho do Mundo afinal de contas, e por que era tão importante para dar nome ao livro, se o autor só gastou algumas poucas linhas para falar sobre ele?" Só depois de ler novamente a parte final do livro que entendi o que aconteceu a Rand no Olho do Mundo, embora a explicação tenha ficado implícita.

Embora sejam claras as inspirações em outras obras de fantasia e o velho apego ao maniqueísmo que dominou as obras literárias do século XX, A Roda do Tempo ainda é, por si só, uma grande representante do gênero da fantasia, tendo acrescentado, em igual medida, muita coisa nova e interessante para o gênero. O primeiro livro deixa muito em aberto, e muitas possibilidades a serem exploradas, principalmente devido aos três artefatos encontrados no Olho do Mundo, os quais, com certeza, serão abordados nas próximas edições. A Roda do Tempo está sendo publicada aqui no Brasil pela Editora Intrínseca, e até a data desta presente postagem encontra-se no quinto volume. Boa Leitura!

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

[RESENHA] Jurassic Park (LIVRO), de Michael Crichton


Esta é uma resenha muito especial, pois vou falar sobre um livro do qual particularmente eu gosto muito: Jurassic Park, ou, em português, Parque dos Dinossauros. Como fiz questão de frisar no título desta postagem, estou me referindo à obra literária escrita pelo mestre da ficção científica Michael Crichton, e não ao filme homônimo dirigido por Steven Spielberg que fez tanto sucesso na década de 1990, ainda que algumas comparações entre ambas as obras sejam inevitáveis.

Além da inquestionável qualidade narrativa de Crichton, este livro tem um lugar especial em minha estante devido ao fato de falar sobre essas criaturas incríveis que viveram e caminharam bem aí onde você está sentado há milhões e milhões de anos atrás, e sobre as quais sabemos tão pouco, na verdade apenas aquilo que é possível deduzir analisando seus esqueletos fossilizados, que foi praticamente a única evidência que restou deles após a grande extinção que os varreu da face da Terra e possibilitou que nós, seres humanos, pudéssemos nos tornar a raça dominante do planeta.

Desde que foram descobertos os primeiros fósseis de dinossauros, os assim chamados "Lagartos Terríveis" têm cativado a imaginação das pessoas, principalmente das crianças. E foi justamente quando eu ainda era um pequeno infante que me apaixonei pelos dinossauros, graças à influência de um amiguinho de escola, o Diego Ramalho - que hoje é professor de filosofia e não deve mais lembrar o que é um Parassaurolofo. Naquela época o filme de Spielberg tinha acabado de ser lançado e até hoje não esqueço o momento de espanto e encantamento que foi ver (na enorme tela de 14 polegadas da minha TV de tubos catódicos) o grande tiranossauro fazer picadinho de um jipe com duas crianças presas dentro da cabine do veículo. Como praticamente toda criança inocente dos anos 90 eu achava realmente que se tratava de um dinossauro de verdade, e fiquei triste quando minha mãe me explicou que aquilo na verdade era um grande boneco.

Escavação de um Esqueleto de Dinossauro

Anos depois descobri que o filme, que eu vira dezenas de vezes, era na verdade baseado em um livro, e que o escritor deste livro também havia escrito o roteiro do filme. Ainda assim, por algum motivo (talvez porque quando me tornei adolescente, imbuído de novos interesses, me afastei da maioria das minhas paixões da infância) demorei bastante tempo para ler o livro. Então, quando a Editora Aleph lançou esta bela edição cuja capa encabeça esta postagem, vi a excelente oportunidade de finalmente conhecer a história que deu origem ao filme. E que grata surpresa, pois, apesar de ter uma trama similar, as duas obras não poderiam ser mais diferentes!

A maior parte da história se passa na Ilha Nublar, localizada na Costa Rica, onde uma empresa de bioengenharia chamada Ingen construiu um parque semelhante a um zoológico que possibilitaria aos visitantes entrarem em contato com dinossauros reais, trazidos de volta à vida graças a avançadíssimas técnicas de clonagem. Michael Crichton utiliza a mesma fórmula empregada por ele em Westworld, filme de 1973 roteirizado e dirigido pelo escritor, no qual visitantes de um parque temático, pelo preço certo, podiam ter a sensação de voltar no tempo ao interagir com robôs customizados de caubóis, cavaleiros medievais e gladiadores romanos. Em ambas as obras, um mal funcionamento no parque faz com que as principais atrações saiam de controle e comecem a atacar os visitantes.

Embora esta seja basicamente uma história de aventura, com alguns traços de suspense e terror (Crichton não poupa o leitor com descrições de cenas de evisceração e desmembramentos), o lado da ficção científica - com ênfase no termo "científica" - não é deixado de lado. Uma das características mais marcantes dos livros de Crichton, e que está bastante presente em Jurassic Park, é o uso da ficção para demonstrar para o leitor alguma teoria científica de ponta. Quem ganha espaço nas páginas de Jurassic Park é a Teoria do Caos*, e o porta-voz de Crichton é o personagem Ian Malcolm, um matemático excêntrico que, mesmo cercado por um bando de velociraptores sanguinários encontra tempo para esmiuçar os seus postulados.


Ian Malcolm é contratado pela Ingen para, por meio de seus complicados cálculos, testar a viabilidade da atração turística. No entanto, as equações de Malcolm só mostraram que o parque estava fadado ao fracasso desde o início, por um simples motivo: os cientistas e engenheiros da Ingen estavam lidando com um sistema genuinamente complexo, e, portanto, imprevisível, como se fosse um sistema simples. Qualquer empreendimento que lide com seres vivos já é bastante complexo, ainda mais em se tratando de criaturas extintas há 65 milhões de anos.

O fundador da Ingen e idealizador do projeto do Parque dos Dinossauros, John Hammond, ignora completamente os alertas de Malcoln, em parte porque acredita em sua visão, e também porque precisa tornar o empreendimento lucrativo para seus investidores, sem os quais jamais poderia ter construído o parque. Quem está acostumado com o filme de Spielberg praticamente não reconhecerá aquele velhinho simpático do filme no John Hammond obcecado e sem escrúpulos do livro, de modo que até o carinho pelos netos, Lex e Tim, não passa de puro fingimento, um papel interpretado por ele para convencer os investidores de que o parque é seguro.

É claro que em um dado momento as coisas acabam saindo de controle; porém antes do caos se instaurar já haviam aparecido sinais de que alguma coisa estava errada com a ilha: acidentes durante construção, avistamentos de répteis estranhos no continente, ataques a crianças e idosos. Tudo isso faz com que os investidores enviem um grupo de inspetores de última hora para avaliar as instalações do parque. Este grupo é composto por Alan Grant, um renomado paleontólogo que assume o protagonismo da trama; Ellie Sattler, uma jovem paleobotânica e estagiária de Alan; Donald Genaro, um advogado que representa os investidores; e por último Ian Malcolm.

É quando este grupo está fazendo uma excursão pelo parque que os sistemas de controle sofrem uma pane geral, e todos os dinossauros escapam da ilha. Eles então precisam lutar pela sobrevivência, enquanto os técnicos e engenheiros no prédio de controle tentam reiniciar os sistemas. O enredo aqui é bem parecido com o filme, só que mais rico em detalhes. Há ainda diversas passagens que não foram inseridas na produção cinematográfica, mas apareceram em suas sequências, embora em circunstâncias diferentes, como a cena do aviário. O filme também ignora completamente a questão da fuga dos dinossauros para o continente, o que no livro adquire um status de missão principal.

A famosa Cena do Tiranossauro

Os personagens mais importantes do livro, no entanto, são os próprios dinossauros. Crichton apresenta uma grande variedade deles, e suas descrições são ricas em detalhes. A ideia de dinossauros concebida por ele, e transportada para os filmes graças a revolucionárias técnicas de animação digitail, até hoje está entranhada na imaginação das pessoas. Tal ideia, no entanto, nem sempre é a mais correta de acordo com as descobertas dos paleontólogos. Em exemplo clássico são os velociraptores, descritos por Crichton como dinossauros com cerca de 1,80 m de altura, quando suas versões reais mediam o equivalente a um cachorro médio (clique aqui para ver a comparação). Além disso, há indícios de que estas criaturas eram cobertas de penas, o que destrói ainda mais a imagem aterrorizante criada por Crichton.

O livro é dividido em blocos de capítulos representando cada uma das iterações que levam até o caos absoluto, e cada divisão é marcada por um interlúdio onde aparecem trechos da teoria de Malcolm e o desenho de um fractal, que são figuras ligadas à Teoria de Caos. Basicamente, um fractal é uma figura geométrica que tem uma interessante característica: cada parte que compõe a figura possui a forma da própria figura, como um floco de neve (clique aqui para saber mais). As primeiras imagens, bastante simples, ainda não nos possibilitam enxergar o todo, embora já possamos deduzir alguns de seus contornos; conforme as iterações vão avançando, ou seja, o sistema vai rumando ao caos, as figuras vão ficando mais elaboradas e podemos enxergar o problema em toda sua complexidade. Da mesma forma a trama vai progredindo, primeiro com sinais de que os dinossauros fugiram ao controle, até o momento em que eles dominam toda a ilha.

Esta edição da Aleph está bem bonita, feita com muito capricho para os fãs mais exigentes. As páginas possuem as bordas tingidas de vermelho vivo, fazendo alusão a sangue. As páginas iniciais são preenchidas com belíssimas ilustrações que remetem ao filme de Spielberg, como as ondulações na água denotando o famoso "tremor de impacto" que indica a aproximação de um T-Rex e o mosquito preso dentro do âmbar. Só senti falta de um pequeno detalhe, que é um mapa da Ilha Nublar com suas principais instalações. Na continuação, O Mundo Perdido, a editora corrige essa falha, apresentando um mapa da Ilha Sorna. Esta é, sem dúvida, uma excelente pedida para os fãs da franquia Jurassic Park que desejam conhecer este universo mais profundamente, sob o olhar de seu criador, além de ser recomendadíssimo para aqueles que gostam de uma ficção científica bem contada e plausível.

Para quem não conhece, Michael Crichton (1942-2008) é um escritor estadunidense de thrillers tecnológicos e também de obras de não ficção. Ficou famoso por ser o criador da série ER - Plantão Médico, e por livros como Jurassic Park, O Enigma de Andromeda, Congo e Presa, muitos do quais adaptados para o cinema. Ele teve até mesmo um dinossauro baseado com seu nome: Crichtonsaurus bohlini.



Velociraptor Segundo as Teorias Mais Recentes

*A Teoria do Caos começou a ganhar força na década de 60, quando Edward Lorentz divulgou sua teoria do "Efeito Borboleta": o bater das asas de uma borboleta em Tóquio pode causar uma tempestade em Nova York. Exageros à parte, a Teoria do Caos é um ramo muito importante da matemática que se propõe a estudar sistemas complexos, aqueles com um grande número de variáveis e iterações, muitas vezes representados por equações não-lineares. Uma característica fundamental desses sistemas é sua alta sensibilidade às condições iniciais. Foi estudado que, ao tentar representar matematicamente a formação de uma simples nuvem, uma alteração de 0,0000001% em uma das variáveis no início da formação pode gerar uma alteração gigantesca e completamente imprevisível no resultado final.