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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

RESENHA | Watchmen



Como seria o nosso mundo se os super heróis existissem de verdade? O que a presença de um ser dotado de poderes verdadeiramente autênticos e ilimitados representaria para o equilíbrio de poder entre as nações? Como o vigilantismo seria encarado pela população das grandes cidades? Que tipo de pessoa se arriscaria a sair todas as noites para lutar contra criminosos vestindo uma fantasia? Na aclamada Graphic Novel Watchmen, publicada entre setembro de 1986 e agosto de 1987 pela DC Comics, Alan Moore e Dave Gibbons se propõem a responder a essas e outras perguntas, num enredo cínico e pessimista que parodia o gênero dos super heróis e desconstrói diversos conceitos sobre o quais ele se estabeleceu desde os anos 1940.

Inicialmente Alan Moore pretendia utilizar os heróis da Charlton Comics, cujos personagens haviam sido incorporados pela DC Comics após sua falência, porém a editora tinha outros planos para o Capitão Átomo, o Besouro Azul e o Questão, de modo que Alan Moore e Dave Gibbons tiveram que conceber personagens totalmente novos para povoar o universo de Watchmen. Tanto melhor. O mundo em que esta história se passa também era completamente independente da continuidade regular da editora, o que deu bastante liberdade para Alan Moore contar sua história sem se preocupar com possíveis repercussões na continuidade do Universo DC. Apesar de muito parecido com o nosso, o mundo de Watchmen possuía algumas diferenças cruciais, provocadas pela presença dos heróis fantasiados. Por exemplo, graças ao Dr. Manhattan os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Richard Nixon permaneceu como presidente até os anos 1980.

Moore estabeleceu uma mitologia própria para os super heróis que povoavam aquele universo, estabelecendo que existiram duas gerações distintas de heróis: a primeira, nascida nos anos 1940, marcou a alvorada dos "aventureiros mascarados", os quais mais tarde de juntaram e formaram os "Homens-Minuto"; já a segunda geração surgiu durante a década de 60, em meio a todas as grandes mudanças sociais pelas quais os EUA estavam passando, e acabou sendo forçada a se aposentar após a sanção de uma lei que tornava ilegais os vigilantes. No entanto, alguns desses heróis continuaram na ativa, como o Comediante e o Dr. Manhattan, que trabalhavam para o governo, e o psicótico Rorschach, que mesmo procurado pela polícia continuou em sua cruzada contra o crime.

Os Minute-Man (acima) e os Combatentes
do Crime (abaixo)

A trama principal de Watchmen começa com o assassinato do herói conhecido como Comediante, embora "herói" não seja o termo mais adequado para definir uma figura tão polêmica como Edward "Eddie" Blake. Conhecido por um cinismo constante com relação à sociedade e uma postura quase sempre violenta, ele não possui muitos amigos, e apenas o vigilante Rorschach se interessa em conduzir uma investigação sobre sua morte. Esta investigação o arrasta para dentro de uma conspiração política que planeja destruir o mundo em um holocausto nuclear provocado pela guerra entre os EUA e a URSS, mas para que este plano tenha sucesso, a ameaça dos heróis remanescentes precisa ser removida, principalmente o todo-poderoso Dr. Manhattan, que é manipulado psicologicamente para deixar a Terra e abrir caminho para a escalada armamentista russa. Além de Rorschach, outros dois heróis aposentados são forçados a voltar à ativa: Coruja e Espectral. Ambos haviam pendurado os uniformes por vontade própria, o primeiro por considerar que seu período como vigilante não passou de uma fantasia ridícula de adolescente que se prolongou até a vida adulta, e a segunda como uma forma de se recusar a seguir o caminho imposto pela mãe, a primeira Espectral. 

Apesar do excelente roteiro, o que mais chama a atenção em Watchmen é sua narrativa gráfica. A HQ é um verdadeiro laboratório onde Alan Moore e Dave Gibbons experimentaram diversas técnicas narrativas de vanguarda, como metalinguagem, fractais, simbolismos e conceitos filosóficos. Texto e desenhos de conversam entre si e se complementam em uma narrativa coesa e inteligente. A arte de Dave Gibbons é repleta de detalhes, cada um deles dotado de um significado importante para a trama. Sejam as inúmeras referências ao perfume "Nostalgia" ou à empresa de fechaduras "Gordian Knot", a história é repleta de simbolismos que remetem a ideias centrais para o enredo. Watchmen ainda conta com uma trama paralela, uma espécie de história dentro da história, chamada Contos do Cargueiro Negro, a qual, de início, parece deslocada em sem sentido para a trama principal, mas quando se analisa a conclusão de ambas, percebe-se que na verdade as duas contam a mesma história. 

A estrutura gráfica de Watchmen também e outro aspecto interessante da Graphic Novel. Gibbons utilizou um padrão de nove quadros por página que se repete em todas as edições, com pequenas variações para permitir quadros maiores. Na edição #5, intitulada Terrível Simetria, em apologia a Rorschach, vemos a aplicação deste padrão levada ao extremo. Se o leitor prestar bastante atenção perceberá que a disposição dos quadros da primeira metade desta edição é "refletida" na segunda metade, formando um impressionante padrão simétrico. O exato centro deste padrão ocorre entre as páginas 14 e 15, e a partir daí, a página 16 reflete a página 13, a 17 a 12 e daí por diante. Imagine a dificuldade para se executar tamanha tarefa, e ainda por cima com todas as limitações de prazo impostas pela editora!

A "Terrível Simetria" 

A conclusão de Watchmen é arrebatadora, e, apesar disso, agridoce. O mundo é salvo, porém ao custo da consciência dos heróis, que precisam esconder a terrível verdade por trás da conspiração do "matador de mascarados" para que a paz seja mantida. Não é um final fácil de ser digerido, porém é o único possível, um verdadeiro cheque-mate de roteiro.

Nem preciso dizer que Wachmen é uma HQ obrigatória para os verdadeiros fãs de quadrinhos. Ela é uma obra para se ler e reler diversas vezes, e a cada leitura pode-se descobrir um novo detalhe ou se maravilhar com a imponência de uma história que, apesar de ter sido produzida há mais de 30 anos, continua atual. Ela marcou a alvorada das HQ's voltadas para o público adulto, redefinindo o gênero das histórias em quadrinhos de super heróis ao abordar temas como política, sexualidade e violência, raramente vistos juntos em uma história de banda desenhada americana até então. 

Watchmen já foi adaptada para o cinema em 2009 no longa dirigido por Zack Snyder, e recentemente foi noticiado que ela será adaptada em uma série de TV produzida pela HBO. A própria DC Comics decidiu dar continuidade à história concebida por Alan Moore, incorporando-a ao seu universo regular com a vindoura saga Doomsday Clock. Mas nada disso se compara a ler o material original - aqui no Brasil esta história já foi publicada e republicada diversas vezes, e se eu pudesse indicar uma edição que eu considero perfeita, seria a Edição Definitiva da Panini Comics, a qual conta ainda com dezenas de páginas extras, incluindo as concepções iniciais de Alan Moore para os personagens da Charlton. Boa leitura!

Capa de Edição Definitiva de Watchmen

segunda-feira, 10 de abril de 2017

RESENHA | Superman: Para o Homem que Tem Tudo


Na cultura ocidental é comum que o aniversariante receba presentes daqueles que lhe são próximos, e muitos de nós já nos deparamos com a inusitada situação de não saber o que dar para aquele amigo ou parente que é bem de vida, já que, sendo esta pessoa acostumada a tudo de melhor, dificilmente um presente oferecido por alguém com baixo poder aquisitivo poderia proporcionar-lhe mais do que uma simples lembrança afetuosa (embora isso de forma alguma desmereça o presente). Agora imagine este caso aplicado ao Superman: o que um cara dotado de superforça, supervelocidade e a habilidade de voar, habilidades que fazem dele o homem mais poderoso do mundo, poderia desejar? Esta é a premissa básica de Para o Homem que Tem Tudo, HQ escrita por Alan Moore e publicada na edição anual da revista do Superman, em 1985, pela DC Comics. Ao lado de seu parceiro de Watchmen, o artista Dave Gibbons, Alan Moore convida o leitor para descobrir qual o maior desejo do Homem de Aço.

A narrativa começa mostrando Kal-El vivendo uma vida normal e feliz em Krypton, seu planeta natal; seus pais estão vivos, ele é casado, tem filhos e um emprego comum. No entanto, tudo isso não passa de uma amarga armadilha, uma ilusão provocada por um de seus inimigos, o alienígena amarelo conhecido como Mongul. Somos então transportados para a Fortaleza da Solidão, onde Mulher Maravilha, Batman e Robin, que tinham ido visitar o Superman por ocasião de seu aniversário, descobrem que o kriptoniano encontra-se numa espécie de transe, causado por um parasita chamado Clemência Negra. A planta (ou fundo, ou planta-fungo) se alimenta da força vital do hospedeiro em troca da realização de seu maior desejo, e a única forma da vítima se livrar da paralisia é desistindo do próprio sonho.

Novamente o britânico Alan Moore acerta em cheio ao traduzir a verdadeira essência do herói para as páginas desta HQ: mais do que o brutamontes superpoderoso que muitos roteiristas sem imaginação gostam retratar, o Superman de Alan Moore é dotado das características que consagraram o personagem como um símbolo do genuíno heroísmo: nobreza, bondade e desprendimento sem limites, mesmo que isso acabe se convertendo para ele em autossacrifício. Seu maior desejo não é obter riquezas, casar-se com o amor de sua vida, Lois Lane, ou até mesmo ver seus inimigos finalmente derrotados. Tudo que ele quer é apenas viver uma vida comum, ser mais um na multidão, um simples trabalhador anônimo que tem um lar para voltar ao final de um dia exaustivo de trabalho. Como Superman, no entanto, isso não passa de um sonho, pois sua enraizada educação moral lhe impede de não fazer nada enquanto houver injustiça no mundo, quando ele tem todos os meios para impedi-la. E é aí que reside a crueldade do enredo de Alan Moore: quando finalmente o Homem de Aço consegue o que quer, ele precisa abdicar de seu sonho para ajudar os amigos.

Kal-El e sua Família

Em algum nível de sua consciência, Superman sabe que tudo não passa de ilusão e, conforme Mongul vai derrotando um a um os heróis na Fortaleza da Solidão, o mundo idílico que a Clemência Negra criou na mente do Super começa a desmoronar. A outrora gloriosa civilização kriptoniana passa a exibir sintomas de decadência, sua população se divide em facções que se odeiam entre si, a Família El se torna alvo de extremistas que a acusam de fascismo, chegando ao ponto da prima do Superman ser espancada quase até a morte por uma turba furiosa. Até mesmo Jor-El, seu pai biológico, que sempre fora uma de suas maiores inspirações, lhe decepciona, ao tornar-se o líder de um grupo religioso radical que quer recuperar a antiga glória kriptoniana a qualquer custo. Todos estes eventos parecem ser criados pelo próprio subconsciente do Superman, talvez como um artifício para alerta-lo do perigo em que se encontra, ou até mesmo como um reflexo da iminente derrota de seus amigos pelas mãos de Mongul. A técnica empregada por Moore e Gibbons, mostrando os acontecimentos nas duas linhas narrativas - a realidade dentro da cabeça do Superman e a luta contra Mongul na "casa" do herói - convergindo para um clímax emocional demonstra a maturidade e genialidade dos dois artistas, cujo entrosamento atingiria seu ápice na minissérie Watchmen.

Alan Moore, conhecido por seus roteiros maduros, respeita (e até certo ponto homenageia) a forma como os quadrinhos eram feitos na chamada Era de Bronze. Ver os heróis fantasiados indo visitar o Super Homem em seu aniversário ou Batman repreendendo o Robin (Jason Todd) por ter pensamentos impuros em relação à Mulher Maravilha demonstram isto perfeitamente. Embora seja uma obra complexa, com um roteiro "cabeça", o quesito ação não deixa a desejar, com excelentes cenas de luta, e quem acaba surpreendendo de forma positiva nesta história é o Robin, pois, sendo apenas um adolescente e ainda por cima sem poderes, acaba sendo o principal responsável pela derrota de Mongul.

Mongul

Além do roteiro excelente, um ponto positivo para esta HQ sem dúvida é a arte. O traço de Gibbons é impecável, no mesmo nível dos melhores desenhistas da época. Sua caracterização dos personagens está perfeita, com destaque para o Homem de Aço e Mongul, que aqui é retratado como um vilão intimidador e cruel. A diagramação é inteligente, sem exageros, e em diversas situações ele utiliza o recurso de narrar eventos paralelos - os quais em algum momento irão se interligar - em uma mesma página, como na sequência final em que vemos de um lado Robin tentando livrar Batman da Clemência Negra enquanto Superman luta com Mongul.

Para o Homem que Tem Tudo é uma história indispensável para fãs do Superman, e para aqueles que curtem quadrinhos em geral, por se tratar de um verdadeiro clássico. Esta obra já sofreu diversas adaptações: o desenho animado Liga da Justiça Sem Limites adaptou esta história com bastante fidelidade, e a série de TV da Supergirl recriou o enredo do Alan Moore, com a diferença de que lá Superman foi substituído pela prima. Aqui no Brasil esta HQ foi publicada no encadernado em capa dura O Que Aconteceu ao Homem de Aço, da Panini, que reuniu as contribuições do gênio britânico Alan Moore nas histórias do Superman em um único volume a um preço bastante acessível.

Boa leitura!

Superman por Dave Gibbons

quarta-feira, 5 de abril de 2017

RESENHA | O Que Aconteceu ao Homem de Aço?



Não precisa ser um conhecedor profundo do assunto para saber que histórias em quadrinhos - pelo menos os quadrinhos mainstream -, raramente possuem final. Às vezes uma ou outra revista, devido a uma queda nas vendas ou algo que o valha, é descontinuada, e o personagem principal do título é colocado para hibernar; mas em um ano, cinco ou uma década depois, não importa, algum editor resolve que é a hora daquele herói voltar a dar as caras e algum roteirista corajoso é contratado para ressuscitá-lo. Assim sendo, conclusões definitivas em histórias em quadrinhos são praticamente impossíveis de ocorrer, e o motivo disso é puramente comercial: qual empresa deixaria de ganhar dinheiro com personagens como Superman, Batman, Homem Aranha ou Wolverine ao decidir dar um final para suas histórias, um final de verdade, definitivo, como final de novela ou o último episódio de uma série? Mas houve um caso em que os fãs de um famoso super herói puderam finalmente conhecer a história final deste personagem, e, para estes fãs em específico, caso resolvessem parar de ler quadrinhos, as aventuras do herói em questão haviam de fato chegado ao fim. O herói em questão, a propósito, foi o Superman. "Ah, mas as histórias do Superman continuam sendo publicadas até hoje!", alguém poderia argumentar, e com razão. De fato, a revista do Superman nunca foi descontinuada, porém houve um Superman cujas histórias tiveram um final, um Superman que finalmente pôde enfim descansar em paz, porque seus vilões finalmente haviam sido derrotados. Este Superman foi o Superman pré-Crise.

Durante um ano inteiro, de abril de 1985 a março de 1986, um mega evento chacoalhou as fundações do Universo DC: foi a Crise nas Infinitas Terras, que tinha o estoico propósito de reinicializar todos os títulos da editora, de certa forma anulando tudo o que havia acontecido antes e reintroduzindo seus personagens para uma toda uma nova geração de leitores, uma geração mais madura e exigente. O tempo dos enredos inocentes havia acabado; Frank Miller, com seu O Cavaleiro das Trevas, e Alan Moore, com Watchmen, tinham garantido que isso acontecesse. Sendo o Superman o principal herói da DC, ele certamente não ficaria de fora do processo de reestruturação da editora. Mas lembra que eu falei que no mundo dos quadrinhos finais são bastante raros? Pois bem, o editor da revista do Homem de Aço, Julio Schwartz, vislumbrando o fim de uma era, no caso a era do Superman pré-Crise, teve uma brilhante ideia: e se as últimas edições de Superman e Action Comics, as duas revistas nas quais as histórias do herói eram publicadas, narrassem realmente a última aventura do Superman? Esta seria uma oportunidade única de prestar uma homenagem não somente ao personagem, mas a todos aqueles que fizeram parte de sua mitologia: Lois Lane, Perry White, Lana Lang, Jimmy Olsen, Lex Luthor, Brainiac, Bizarro, Krypto, o Supercão, a Legião de Super Heróis, e tantos outros. Com isso em mente, a primeira pessoa que ele cogitou para levar a cabo esta missão foi Jerry Siegel, co-criador do Superman: nada mais justo do que aquele que deu o pontapé inicial fosse quem apagaria as luzes e fecharia a porta. No entanto, por problemas de agenda Jerry não pode fazer parte do projeto, e quem acabou sendo o escolhido para roteirizar a última história do Homem do Amanhã foi um jovem e talentoso britânico que vinha fazendo bastante sucesso na revista do Monstro do Pântano e com a minissérie Watchmen: Alan Moore. Já para a arte desta história nunca houve nenhum outro nome senão o de Curt Swan, desenhista veterano nas revistas do Superman desde a década de 60: até hoje sua versão do herói, que também é considerada a versão definitiva, serve como modelo para inúmeros artistas.

Clarck Kent é Desmascarado

Alan Moore desenvolveu um enredo coerente, no qual pôde inserir praticamente todos os principais personagens do universo do Superman, sem, contudo, deixar que qualquer um deles se tornasse redundante ou desnecessário. Todos têm uma função no enredo, assim como todos obtêm algum tipo de conclusão, embora nem todos consigam ter o tão sonhado final feliz. A história já começa nos revelando que o Superman está morto. Há dez anos. Com direito a monumento com estátua na praça e tudo que um finado herói tem direito. Lois Lane, agora Lois Elliot, recebe em sua casa um repórter do Planeta Diário que veio entrevistá-la sobre os últimos dias do Superman. Assim, toda a história do crepúsculo do maior herói do planeta é narrada por Lois; é irônico que a pessoa que escreveu a matéria que apresentou o herói ao mundo tenha que testemunhar sobre sua morte.

Em seus últimos dias, Superman começou a sofrer uma série de ataques coordenados de seus antigos vilões. Bizarro, Metallo, Homem Brinquedo colocaram as pessoas que ele mais amava em risco. Até mesmo a identidade civil do Superman foi revelada ao público. Sem alternativas, ele levou sua família e os amigos mais prezados para sua Fortaleza da Solidão, no Ártico, a qual acabou sendo sitiada por um exército de vilões. A Fortaleza se tornou então o palco de alguns dos momentos mais trágicos desta HQ, e Alan Moore não tem pena do coração do leitor ao matar alguns personagens queridos ao longo da batalha. Se você tem coração mole e adora animaizinhos de estimação, vai derramar rios de lágrimas em determinado momento da trama. Não vou dar spoilers, mas é feio, muito feio...

Superman Chora

Superman se viu tão acuado por seus inimigos, de uma maneira que ele jamais havia sido, que em certa altura da trama vemos o grande herói literalmente desmoronar e começar a chorar. Você não entendeu errado: a parada tava tão sinistra que o próprio Superman, o homem mais forte do planeta, o Homem de Aço, o Último Filho de Krypton, chorou. Mas é claro que ele acabou dando a volta por cima, com uma ajudinha de alguns aliados, e conseguiu finalmente descobrir quem era a mente por trás de todos esses ataques. Não vou dizer quem é, para não dar spoilers, mas posso dizer que neste ponto vemos o quanto Alan Moore é um roteirista brilhante: o maior inimigo do Superman, aquele que o humilhou, que causou a morte de tantos amigos, era alguém de quem ele não poderia ter suspeitado. Moore teve que alterar alguns aspectos deste personagem para poder fazer a história funcionar, mas ainda assim a solução encontrada por ele foi genial.

Superman foi então colocado diante de uma difícil decisão: algo precisava ser feito para impedir que este inimigo ferisse seus amigos, e precisava ser uma solução definitiva. Entre manter seu juramento de nunca matar ou salvar aqueles a quem amava, é claro que o Superman optou pelo caminho do auto sacrifício. É neste ponto que eu percebo o quão bem Alan Moore conseguiu entender o Superman. Diferentemente do Batman, que se esconde por trás do disfarce de Bruce Wayne, Clark Kent é a verdadeira identidade do Superman. Muito mais do que um super herói, o Superman é um símbolo, uma representação de todos os nobres ideais que norteiam a vida de Clark Kent, ideais de justiça, liberdade e retidão de caráter ensinados pelos pais terráqueos. E se ele fizesse qualquer coisa que maculasse estes ideais, então ele não poderia mais ser um símbolo de nada, e não haveria outra escolha senão "matar" o Superman. E é justamente isso o que Clark Kent faz: ele mata o Superman.

É sobre isso que se trata esta história, da morte do Superman, não uma morte física, mas a morte do símbolo.


Se você gostou desta resenha e se interessou por essa história, pode encontrá-la em uma edição de luxo publicada pela Panini (clique aqui para ver esta edição), juntamente com outras duas histórias de Alan Moore para o personagem, dentre as quais a clássica Para o Homem que Tem Tudo, sobre a qual falarei em breve. Boa leitura!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

[RESENHA] A Liga Extraordinária - Volume 1



Imagine uma equipe de super-heróis formada por um grande herói nacional, uma bela e perigosa espiã, um gênio da tecnologia, um cientista que se transforma em um monstro incontrolável quando está com raiva, e um homem com um poder incomum e um caráter duvidoso. Se você pensou nos Vingadores, não poderia estar mais enganado! Estou falando sobre a Liga Extraordinária, criada pelo mago dos quadrinhos Alan Moore para ser uma espécie de Liga da Justiça da Era Vitoriana.  

Juntamente com o artista Kevin O’Neil, Moore reúne nesta premiada HQ lançada entre os anos 1999 e 2000 pela America’s Best Comics um inusitado grupo de personagens saídos diretamente da literatura fantástica da Inglaterra do século XIX: Allan Quartermain (As Minas do Rei Salomão), Wilhemina Murray (Drácula), Capitão Nemo (As Vinte Mil Léguas Submarinas), Dr. Jackyl/Hyde (O Médico e o Monstro), e Hawley Griffin (O Homem Invisível). Eles são reunidos pelo agente do serviço secreto britânico Campion Bond (ancestral do famoso espião James Bond) a mando de seu chefe, o misterioso Sr. M, para impedir que o criminoso chinês conhecido como Doutor (Fu Manchu) utilize uma revolucionária tecnologia bélica para destruir o Império Britânico. 

O Submarino do Capitão Nemo, O Nautilus

É impressionante a fidelidade com que Alan Moore tratou cada um dos personagens, conseguindo realizar a proeza de inseri-los num mesmo universo sem causar estranheza aos leitores de seus livros de origem; o autor demonstra um conhecimento quase enciclopédico acerca de um sem número de obras literárias, das mais famosas e clássicas às mais obscuras, de modo que nos entrega uma Graphic Novel rica em detalhes e repleta de referências. Nem mesmo as datas lhe passam despercebidas: a cronologia dos eventos da HQ segue a mesma linha temporal dos livros em que se baseia: os eventos de Drácula e O Homem Invisível se passam em 1897, um ano antes dos eventos de A Liga Extraordinária. Além disso, ele emprega vários outros personagens ficcionais como pano de fundo para sua trama: quando a equipe vai a Paris, encontra-se com o detetive Auguste Dupin, do famoso conto Os Assassinatos da Rua Morgue , de Edgar Allan Poe (ele até sugere que Edward Hyde seria o tal orangotango que teria matado as duas mulheres no conto); e quando os seguimos até o norte de Londres para solucionar o misterioso caso das “concepções imaculadas”  em um instituto correcional para moças, descobrimos que a dona do estabelecimento é a dominatrix Rosa Coote, que aparece em vários contos sexuais do século XIX, e uma das moças que foram abusadas sexualmente é Polyanna Whittier, da comédia de Eleanor H. Porter. Estas são apenas algumas referências que eu pude garimpar desta obra, mas há ainda tantas outras que o meu parco conhecimento literário não conseguiu discernir. Sem dúvida, esta HQ é um convite a explorar o magnífico universo dos livros.

Auguste Dupin

O primeiro ato deste volume é empregado para apresentar os integrantes da liga e estabelecer as relações entre eles, e ver as interações entre personagens tão incomuns é tão ou mais interessante do que a própria trama em que estão inseridos. Alan Moore utiliza em seu enredo a mesma fórmula que empregara na premiadíssima Watchmen, mostrando um lado mais humano – e muito mais sombrio – dos membros do grupo. Um exemplo claro disso é a abordagem que ele faz do famoso explorador colonial Allan Quartermain, considerado o precursor de Indiana Jones. No início da história ele aparece irreconhecível, vivendo em um albergue como um mendigo viciado em ópio, e durante toda a trama acompanhamos a luta do velho herói para se livrar do vício.

A ação segue um ritmo frenético, quase cinematográfico, que é uma característica marcante dos roteiros de Moore. Ele nos conduz através das ruas apertadas do Cairo, passando por Paris, com suas torres de aço e zepelins, até os bairros orientais dominados pelas tríades da velha Londres em plena Revolução Industrial. Tal história, corretamente adaptada, renderia um magnífico filme de ação. Essa ideia não passou despercebida por Hollywood, que se propôs a adaptar a HQ para o cinema, mas conseguiu mais uma vez estragar uma obra já pronta ao tentar americanizar demais a trama (chegando ao ponto de acrescentar um personagem norte-americano à liga) e engarrafa-la dentro dos moldes dos filmes "para a família toda", suprimindo a violência e o viés adulto tão presentes da obra de Moore.

A Selvageria de Edward Hyde

Ao final do segundo ato a trama sofre uma reviravolta quando o verdadeiro vilão é revelado. Não vou dar spoilers sobre sua identidade, apenas que ele vem das histórias do famoso detetive Sherlock Holmes. Inclusive temos um vislumbre de uma das cenas mais icônicas dos livros de Sir Arthur Conan Doyle retratadas neta HQ.

Dizer que o sucesso desta Graphic Novel se deve exclusivamente ao seu roteirista seria no mínimo injusto. Esta obra não seria o que é hoje sem a belíssima contribuição do desenhista Kevin O'Neil, com seus traços exagerados e quase caricatos. Ele consegue retratar com perfeição o universo steampunk concebido por Moore, que pode ser visto na Londres futurista onde o Canal da Mancha é transposto por uma gigantesca ponte ladeada por imponentes esculturas representando o poder e a hegemonia do Império Britânico, ou nas poderosas máquinas voadoras empregadas pelo vilão. Os grandes quadros recheados de detalhes e nuances empregados por O'Neil e onde o colorista Benedict Dimagmaliw nos apresenta um verdadeiro desfile de cores são um espetáculo à parte, e outra característica marcante desta obra prima da nona arte.

Guerra nos Céus de Londres

Item obrigatório para apreciadores de boas histórias em quadrinhos, A Liga Extraordinária é uma verdadeira aula sobre como fazer histórias de equipes de super-heróis. Quem dera pudéssemos ter mais histórias da Liga da Justiça ou dos Vingadores como esta, menos focadas em espetáculos pirotécnicos cósmicos e personagens extravagantes, e mais propícias a apresentar uma boa trama focada em personagens bem trabalhados e seus problemas internos, sem, contudo, abrir mão da ação e do bom humor.

Esta HQ já foi publicada aqui no Brasil pela Panini Books num encadernado de luxo com 420 páginas recheadas de extras, em capa dura e papel couchê. Boa leitura!

Capa de A Liga Extraordinária - Vol. 1

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

[RESENHA] Batman: A Piada Mortal

O Coringa

A Piada Mortal é uma história em quadrinhos publicada em 1988 pela DC Comics, escrita pelo aclamado roteirista britânico Alan Moore e com a arte assinada pelo magistral Brian Bolland. Esta obra é uma das mais icônicas do Batman,  sendo considerada uma das melhores histórias do Cruzado de Capa ao lado de clássicos como O Cavaleiro das Trevas e Ano Um, ambas de Frank Miller. Ela foi publicada no formato one-shot, ou seja, os eventos desta HQ não se conectariam com as histórias publicadas na mensal do Batman, ou era isso o que se pretendia antes que as decisões criativas de Moore deixassem perplexos os leitores de tão ousadas  e impactantes, de tal maneira que foi inevitável que acabasse fundindo-se à cronologia oficial do Homem Morcego.

Mas o que de tão especial assim Alan Moore fez para que esta HQ ficasse tão famosa?, você deve estar se perguntando. Em primeiro lugar, ela forneceu uma história de origem “plausível” para o arqui-inimigo do Batman, o Coringa. Até então os fãs tinham apenas a história contada na edição 168 da revista Detective Comics, na qual foi revelado que o vilão, antes de tornar o Coringa, era o famoso criminoso conhecido como o Capuz Vermelho, que atuara nos primeiros anos de Batman como combatente do crime, e cuja identidade nunca havia sido descoberta. Após um encontro com o Batman na Fábrica de Baralhos Monarca, ele caiu em um tanque de rejeitos químicos e acabou se transformando no Coringa.

Capa da Detective Comics #168

Alan Moore aproveita grande parte desta história, mudando apenas alguns detalhes, como o fato de que o Capuz Vermelho na verdade era uma identidade assumida por vários "buchas de canhão" usados por uma quadrilha de ladrões para distrair a polícia. Moore insere um elemento psicológico crucial, sobre o qual montou o argumento central de A Piada Mortal: o de que só é preciso um dia ruim para levar uma pessoa normal à loucura. Moore revela então que o Coringa, devido a sérios problemas financeiros e uma esposa grávida que ele era incapaz de sustentar, aceitou um trabalho para realizar um assalto na Fábrica de Baralhos Monarca. Porém os ladrões são surpreendidos quando tentavam atravessar as instalações da empresa de produtos químicos ACE, e quando o Batman surge na cena do crime o Coringa acaba caindo em um tanque de produtos químicos e sofrendo a mutação que o transformaria no criminoso mais perigoso e instável de Gotham City. Note que, nas duas histórias o elemento em comum é a presença do Homem Morcego na criação do Coringa, e que este evento foi responsável por criar um laço de ódio que uniria estes dois personagens para sempre. 
É importante ressaltar também que esta não se trata de uma origem definitiva, uma vez que o próprio vilão deixa claro ao final da história que ele não sabe se as lembranças apresentadas ao leitor na forma de flashbacks realmente aconteceram  da forma como foram mostradas:
"Algumas vezes me lembro de um jeito. Outras vezes, de outro... Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha! AH AH AH!
Como o leitor pode perceber, esta declaração também demonstra a extensão da loucura do Coringa, uma vez que toda sua vida até o momento em que ele se torna o Palhaço do Crime não tem nenhuma importância real para ele.

Barbara Gordon é Baleada

O segundo acontecimento que gerou mais polêmica em A Piada Mortal foi o momento em que o Coringa atira à queima roupa na barriga da Barbara Gordon, a filha do Comissário de Polícia de Gotham City e Batgirl nas horas vagas, aleijando-a e condenando-a a uma cadeira de rodas. A cena impressiona pela frieza com que o Coringa muda completamente o destino de uma importante personagem da batfamília. Hoje é quase impossível que um leitor de quadrinhos não saiba de antemão o que acontece à Barbara quando vai ler esta história, devido ao hype que ela possui entre a nerdaiada, mas fico imaginando como foi para os primeiros leitores testemunharem a moça, inocente e despreocupada, atendendo a porta de casa e dando de cara com um Coringa completamente insano vestido com camisa havaiana e máquina fotográfica, apontando uma arma para ela e puxando o gatilho enquanto sorri.. Muita coragem desse Alan Moore fazer uma coisa dessas, não é? Mas ele não para por aí: embora isto não fique totalmente claro, ele deixa implícito que o Coringa abusa sexualmente de Barbara enquanto ela está incapacitada, e ainda tira fotografias do ato para depois torturar psicologicamente o pobre pai da moça. Fico pensando na repercussão que tal cena causaria se esta HQ fosse lançada nos dias de hoje, devido ao forte movimento feminista, que luta ferrenhamente contra a tendência dos roteiristas de usarem personagens femininas apenas como "donzelas em perigo", muitas vezes usadas como alvos pelos vilões com o intuito de atingir seus inimigos, devido ao laço afetivo entre elas e os heróis. O próprio Alan Moore - criador de várias personagens femininas fortes e um dos primeiros roteiristas a tratar abertamente do caso dos abusos cometidos pela sociedade machista contra as mulheres - em uma entrevista já declarou se arrepender de ter tomado esta decisão. Mas o que está feito está feito, e, embora as feministas torçam o nariz, na minha opinião foi uma decisão acertada, no contexto da história.

Gordon é Torturado

Embora o Coringa não precise necessariamente de motivos para fazer as loucuras que faz, desta vez ele tem um plano: ele quer provar que qualquer pessoa pode ficar como ele, desde que tenha um dia ruim. Assim, a cobaia escolhida para este experimento é o Comissário Jim Gordon, que para o maníaco é um exemplo perfeito de homem normal. Por isso ele fez o que fez à Barbara, e obriga o velho a ficar passeando por um parque de diversões abandonado em um carrinho enquanto assiste às fotografias de sua filha ensanguentada e sofrendo todo tipo de abuso. Realmente o Coringa passou dos limites. Outro ponto interessante é que desta vez o Palhaço não se cerca de seus capangas habituais: nada de bandidos vestidos de palhaços; desta vez seus "aliados" são aberrações de circo: anões, mulher barbada, siameses, todo tipo de excluído da sociedade ordinária.
Após saber o que o Coringa fez, Batman parte sozinho para resgatar seu mais antigo aliado das garras do louco. E a relação entre o herói e o vilão é explorada com excelência pelo mago das HQs. Fica muito claro a dicotomia entre estes dois personagens: apesar de antagônicos, um não existe sem um outro, eles se completam. Assim como o Coringa, o Batman também teve um dia ruim - no caso, o dia em que seus pais foram mortos - , e assim como o Coringa, o Batman também enlouqueceu, de certa forma. Afinal, que homem são, após perder a família, decidiria sair por aí todas as noites vestido de morcego para combater criminosos? A própria jornada do Batman é uma espécie de loucura, uma obsessão, pois ele sabe que jamais obterá sucesso, mas continua mesmo assim. Onde o caminho dos dois se divide é que o Coringa desistiu do mundo, acreditando que tudo não passa de piada, e isso tira todas as amarras psicológicas que impede que um ser humano saia por aí matando todo mundo sem motivo. Ele é, sob todos os aspectos, um autêntico agente do caos. Já o Batman é um agente da ordem, que não descansa enquanto não vê aquilo que ele acredita ser a "justiça" ser realizada. E assim, os dois continuam sua luta infindável, até que um acabe finalmente matando o outro. Isto é debatido durante toda a história, desde o começo, quando o Batman vai visitar o Coringa no Asilo Arkham:
"Talvez você me mate. Talvez eu te mate. Talvez mais cedo. Talvez mais tarde. Eu só queria estar certo de que realmente tentei mudar as coisas entre nós. "

O Final Dúbio

Há quem acredite que, ao final da história, o Batman realmente mata o Coringa. Tal hipótese foi levantada há alguns anos pelo também roteirista de quadrinhos Grant Morrison. Na última página, vemos o Batman e o Coringa rindo juntos de uma piada (sim, o Batman está rindo!). Não é possível dizer com certeza, mas parece que o Batman coloca as mãos no pescoço do Coringa, porém a imagem vai descendo até se fixar em uma poça d'água. Assim, há aqueles que acreditam que o Batman cansou de vez das maldades do vilão e resolveu pôr um fim em sua vida, estrangulando-o. A animação que saiu este ano que adapta esta história também segue por este caminho, atiçando ainda mais as discussões engtre os fãs. Considerando que esta HQ não era para integrar a cronologia do Batman, não é difícil imaginar que Alan Moore sutilmente quis mostrar o confronto derradeiro entre o herói e o vilão. Para mim, pessoalmente, trata-se de um final em aberto, tal qual o final de Inception, filme de Christopher Nolan. Parafraseando o Coringa, se é pra ter um final, que seja um final de múltipla escolha!
Por fim, é preciso falar sobre a arte de Brian Bolland. Os desenhos detalhistas, a diagramação simples, constituída na maior parte das vezes por quadros retangulares lado a lado, dão a impressão de que não estamos apenas lendo uma história em quadrinhos, mas vendo um filme. Quanto às cores, existem duas versões: a original, tal qual foi publicada, por John Higgins; e a nova edição lançada recentemente e com a colorização feita pelo próprio Bolland, tal qual ele imaginou que deveria ter sido. A nova colorização, na minha opinião, ficou muito mais bonita, tornando uma obra que já era perfeita ainda melhor. A maior diferença fica por conta dos flashbacks, que na nova versão aparecem em preto e branco, apenas com as cores mais quentes (vermelho, por exemplo) destacadas.

Embora controversa, esta é sem dúvida uma das melhores histórias do Batman e item OBRIGATÓRIO na prateleira de quem se declara fã de quadrinhos. Foi publicada aqui no Brasil pela Panini Comics em capa dura e se encontra disponível nas melhores lojas especializadas, a um preço bem em conta. Boa leitura!

Famosa Capa de A Piada Mortal

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Gótico Americano - John Constantine Entra em Cena!

Inglês... parecido com o Sting... cínico, de moral duvidosa... apostador... fumante compulsivo. Estas são apenas algumas características do personagem sobre o qual decidi falar nesta minha segunda postagem aqui no Blog. Não se trata de um herói, pois ele não hesita em sacrificar amigos ou inimigos para conseguir o que quer; tampouco poderia ser considerado um vilão, pois, apesar de na maioria das vezes pensar apenas em si próprio, ainda há um pouco de bondade em seu coração, a ponto de desafiar tudo e todos para salvar as pessoas de que gosta. Mas chega de enrolação, pois com certeza você já sabe de quem estou falando: John Constantine, o Hellblazer!

Monstro do Pântano nº37

Nesta postagem irei falar sobre a primeira aparição do mago da DC/Vertigo nos quadrinhos. Nem todo mundo sabe, mas Constantine não começou sua carreira como protagonista, com um título próprio. Sua apresentação ao público se deu nas páginas da revista mensal do Monstro do Pântano, na edição 37, no auge da consagrada passagem do mago das HQ's Alan Moore pela revista do Musgoso. Moore assina a criação do mago e ocultista juntamente com Steve Bissete e John Totleben. Existe até uma lenda (alguns juram que é verdade) de que Alan Moore encontrou a sua criação cara a cara, em Londres. Saca só o relato:

“Um dia, eu estava em Westminster, em Londres – isso depois que eu tinha apresentado o personagem – e eu estava sentado em uma lanchonete. De repente, pelas escadas desceu John Constantine. Ele estava usando um sobretudo, não muito comprido – ele parecia – não, ele não parecia exatamente com o Sting. Ele parecia exatamente com John Constantine. Ele olhou para mim, me encarou diretamente nos olhos, sorriu, acenou quase conspiratoriamente, e então só andou por ali para o outro lado do balcão. Eu estava sentado ali e pensava, “devo ir até o canto e ver se ele está realmente ali, ou devo comer meu sanduíche e ir embora?” Optei pela segunda opção; pensei ser a mais segura. Eu não estou fazendo nenhuma declaração ou nada do tipo. Estou apenas dizendo que aconteceu. Historinha estranha”.


Primeira aparição de John Constantine

Feitas as devidas apresentações, vamos falar sobre a saga propriamente dita. Gótico Americano começa com John Constantine descobrindo que uma seita de feiticeiros sul-americanos chamada Brujeria pretende despertar uma entidade maligna primordial. Para uns, trata-se de uma força da natureza; para outros, seria a criatura mítica lovecraftiana Cthulhu; outros ainda consideram ser o próprio Satã. Independente de sua origem, uma coisa é certa: se esta criatura for invocada, o Paraíso e todas as dimensões espirituais serão destruídos e uma nova ordem será instaurada.Constantine descobre que, para obter a energia necessária para concluir a invocação, a Brujeria precisará aumentar a crença da população no místico e no sobrenatural. "Credulidade é poder..." - diz Constantine. Com certeza já dá para imaginar que eles não vão usar unicórnios, fadas e duendes para este propósito. A Brujeria faz surgir por todo o mundo aparições de criaturas clássicas do horror americano: vampiros, lobisomens, zumbis, fantasmas, e afins. Constantine então convence o Monstro do Pântano a viajar para várias partes dos Estados Unidos a fim de lidar com essas monstruosidades e assim se preparar para o que está por vir. É claro que o Monstro do Pântano não confia de imediato em Constanine, mas este o convence com promessas de conhecimento sobre sua verdadeira condição de Elemental da Terra.

Nas histórias que se seguem percebemos o talento de Alan Moore ao mesclar contos de terror clássicos com os problemas sociais que os EUA enfrentavam ao final da década de 80, e fico impressionado em como muitos deles ainda persistem até hoje. Em "A Maldição" (M. do P. #40) uma mulher no Maine, cansada das humilhações e exigências impostas às mulheres pela sociedade machista moderna, transforma-se em uma "lobimulher" e espalha o terror por sua cidade, onde originalmente havia uma aldeia indígena onde as mulheres eram trancafiadas em uma cabana escura durante o período menstrual. Moore e Bissete brincam com o gênero deterror ao nos mostrar a grotesca transformação de Phoebe, o lobo saindo de dentro da sua boca, abrindo caminho à força pela garganta da mulher, como se descartasse uma pele usada.

A "Lobimulher" Feminista

Já em "Mudanças Sulistas" (M. do P. #41) e "Frutos Estranos" (M. do P. #42), racismo e intolerância religiosa são abordados enquanto o Monstro do Pântano precisa interromper um círculo vicioso de ódio e violência, quando um grupo de escravos negros da Loisiana, chacinados por seus senhores brancos simplesmente por praticar seus rituais pagãos, retornam ao mundo dos vivos como zumbis para se vingar daqueles que os escravizaram no passado. "Dança dos Fantasmas" (M. do P. #45) é uma clara crítica às leis americanas que incentivam o porte de armas de fogo. Nesta bela estória, um grupo de amigos se perde dentro de uma mansão mal-assombrada em San Miguel, construída pela filha de um famoso fabricantes de armas, segundo a instrução de fantasmas, a fim de tentar reparar o mal causado pelas armas do pai. Estas são minhas estórias favoritas dessa primeira parte da saga. Existem ainda outras, mais bizarras e menos interessantes, que eu não vou mencionar aqui.

Embora obtenha sucesso em trazer para seu lado um aliado poderoso como o Monstro do Pântano, Constantine sofre várias baixas no seu próprio time, quando a Brujeria envia contra eles o assustador Invunche, que Moore retira diretamente do folclore chileno. Contantine não consegue impedir a invocação da entidade pela Brujeria em "Na Patagônia"  (M. do P. #48) , devido a uma traição no cerne de sua própria equipe. Mais amigos morrem - o próprio Constantine quase não sai vivo desta batalha. Confesso que fiquei boquiaberto com o ritual usado pelos feiticeiros para realizar a invocação. Não vou falar aqui o que eles fazem - é algo que você precisa ler sozinho, de madrugada e com as luzes apagadas. Só digo que é algo envolvendo uma cabeça, um corvo e uma pérola. Pelo menos dessa vez a maior parte da cena não é mostrada diretamente em imagens; o leitor apenas imagina o que está acontecendo pela descrição feita pelo sumo-sacerdote da Brujeria.

O temível Invunche
Agora a saga caminha a passos rápidos para sua épica conclusão. Enquanto o Monstro do Pântano viaja para as dimensões espirituais a fim de reunir seus aliados para a batalha vindoura - e aqui novamente Alan Moore pega emprestadas figuras clássicas do panteão mágico da DC Comics, como o Desafiador, Vingador Fantasma, Senhor Destino, Etrigan e Espectro -, Constantine têm de empregar novamente toda sua lábia e astúcia para convencer os mais poderosos magos da Terra a ajudarem-no a enfrentar o Mal que a Brujeria despertou. A maioria deles são medalhões da Era de Ouro e Prata dos Quadrinhos, como Barão Winter, Sargon, Zatara, Dr. Oculto. Além disso, ficamos sabendo que Constantine e a feiticeira Zatanna já foram namorados em sua juventude, e que costumavam frequentar reuniões em um certo grupo de estudos tântricos...

Constantine e os Feiticeiros


A chegada da entidade maligna divide as fileiras do próprio Inferno. Uma facção dos demônios se junta a Etrigan, enquanto que a outra saúda a chegada do novo poder em ascensão, e se volta contra seus próprios compatriotas; mas, falando de demônios, até que isso não é novidade nenhuma! Enquanto isso, na Terra, Constantine e seus companheiros se reunem em uma mesa redonda na casa mágica do Barão Winter para enviar suas energias espirituais até o exército que luta nas dimensões infernais. Mas a criatura libertada pela Brujeria é muito poderosa; Nem Etrigan e seus demônios ou o Vingador Fantasma e as hostes celestiais conseguem derrotá-la. O próprio Espectro, que é a personificação da vindança divina, tomba diante da entidade. Devo registrar aqui a minha decepção quanto à caracterização dos anjos feita por Bissete; se você está esperando encontrar criaturas imponentes, belas e com grandes asas resplandescentes, esqueça!

Embora Constantine tivesse alegado que não haveria risco para os membros de sua rodinha espiritual, alguns membros de sua equipe são literalmente fritados pela energia astral da criatura. Uma das mortes, não vou revelar de quem, me deixou muito chocado, devido às circunstâncias em que ocorreu.

E agora, finalmente, a conclusão. Se você ainda não leu e pretende ler, CUIDADO! SPOOOOOOILERS À FRENTE!

A criatura invocada pela Brujeria é na verdade a personificação do próprio mal, em seu significado mais puro. A cada desafiante que vem enfrentá-la é feita uma pergunta: "O que é o mal?" e todos oferecem respostas insatisfatórias. Apenas o Monstro do Pântano consegue dar a resposta que o Mal queria ouvir, naquele seu jeito devagar, devagarinho de falar:

"Eu perguntei ao Parlamento das Árvores... com todo o seu conhecimento... bem maior do que o meu... Eles pareciam insistir... em que não existe o mal... mas eu vi o mal... e aquela resposta... foi incompreensível para mim... Entretanto... Eles falaram de pulgões comendo folhas... joaninhas comendo pulgões... e depois sendo absorvidos pelo solo... nutrindo a folhagem. Eles indagaram... onde estava o mal... dentro desse ciclo... e me disseram... para olhar o solo. O solo negro... e rico em putrefata decomposição... mas a gloriosa vida... brota dele... e... mesmo deslumbrante... a vida que floresce... no final... se decompõe... no mesmo humus negro. Talvez o mal... seja o húmus... formado pela deterioração da virtude... e talvez... seja desse barro sinistro... que a virtude cresça mais forte."

O encontro do Mal com o Bem
E então a forma do Mal é revelada, e a do Bem... e quando elas se encontram, acontece uma coisa completamente inesperada, que só poderia ter vindo de uma mente como a de Alan Moore. É preciso entender primeiro o contexto histórico e cultural em que esta estória foi escrita. Os leitores dessa revista cresceram em plena Guerra Fria, quando o mundo encontrava-se polarizado pela disputa EUA vs URSS. E isso se refletia na maioria das artes, no cinema, na TV e histórias em quadrinhos também não ficaram de fora, de modo que a cultura americana era marcada por um forte maniqueísmo. Todas as aventuras resumiam-se em uma eterna luta do bem contra o mal, do céu contra o inferno, da luz contra as trevas, do herói contra o vilão. E o pior é que isso era incentivado pelo governo norte-americano! Alan Moore critica essa ideia, revelando com simples imagens e palavras em uma única splash page que o bem e o mal são uma coisa só, dois lados de uma mesma moeda, e que um precisa do outro. Já não existem mais heróis ou vilões; os heróis agora são capazes de errar, de cometer atrocidades, o super-homem não é mais aquela representação da perfeição humana; os vilões também são capazes de amar, de fazer o bem, de ter atitudes positivas. Bem e mal andam de mãos dadas nesse mundo, e não existe ninguém que seja só uma coisa ou outra.

DICA DE LEITURA: Se você gostou desse resumo e se interessou pela estória, recomendo a leitura da Saga do Monstro do Pântano, que condensa em 6 volumes toda a aclamada fase de Alan Moore na revista do Verdinho, publicada aqui nas terras tupiniquins pela Panini. Infelizmente, até esta presente data, todas as edições encontram-se esgotadas, a não ser nas mãos dos abutres do Mercado Livre, e não parece que a Panini pretenda relançar isso tão cedo. Mas se você procurar direitinho pela Internet, vai encontrar este material digitalizado e em excelente qualidade. Com certeza uma saga que vale a pena ler, não só pela qualidade visual, mas pelo conteúdo riquíssimo. Boa leitura!