Mostrando postagens com marcador Marvel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marvel. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de março de 2019

Justiceiro: No Princípio



O Justiceiro (Punisher, no original) é um dos meus personagens favoritos da Marvel Comics, atrás apenas do Demolidor. Ele não é um herói no sentido estrito da palavra, afinal, não é comum ver heróis estourando o crânio de criminosos com uma escopeta, mas possui um senso moral bastante claro: infligiu a lei ou se associou com criminosos, então é vala. Simples assim - sem julgamento, sem apelação, sem segundas chances. O motivo para isso, é claro, encontra-se por trás de uma tragédia pessoal: Frank Castle, alter-ego do Justiceiro, era um ex-fuzileiro norte americano que lutou na Guerra do Vietnã e que, após voltar do conflito, viu sua esposa e filhos serem brutalmente assassinados diante de seus olhos, pegos no fogo cruzado entre duas gangues rivais. A partir de então ele passou a viver em uma constante guerra de um homem só contra todo tipo de crime, guerra esta que só acabará no dia em que ele morrer, e talvez nem assim (já explico).

O Justiceiro estreou nos quadrinhos em meados da década de 70, inicialmente como um vilão do Homem Aranha, mas depois assumiu o status de anti-herói, aparecendo de vez em quando nas páginas do Cabeça de Teia. Só em 1986 o Justiceiro ganharia uma revista própria e teria seu verdadeiro nome revelado. Ele passou por vários roteiristas, teve boas e más fases, a pior delas quando ele morre e se transforma em uma espécie de anjo vingador matador de demônios. Que fase hein! Mas então, em meados dos anos 2000, o escritor irlandês Garth Ennis (Hellblazer, Preacher) recebeu a incunbência de tocar a revista do Justiceiro. E não poderia haver casamento mais perfeito entre escritor e personagem: o estilo de escrita de Ennis, com toda sua violência, personagens bizarros e situações inusitadas, tudo isso misturado com críticas políticas ácidas à sociedade moderna, combinaram perfeitamente bem com as histórias do Justiceiro. Para ficar ainda melhor, o escritor também ficou responsável pelas histórias do anti-herói no selo MAX da Marvel, voltado para o público adulto. Neste selo, todos os limites criativos foram removidos e Garth Ennis pôde levar o Justiceiro ao limite. Justiceiro - No Princípio, lançado em 2018 pela Panini Comics, é um encadernado de luxo de reúne os dois primeiros arcos desta série, mais a minissérie especial Born.

Capitão Frank Castle no Vietnã

Em Born (Agosto/2003) acompanhamos o capitão Frank Castle já no final da Guerra do Vietnã. Ele é retratado como um viciado em combate, alguém que não aceita que o conflito está no fim, simplesmente porque quer continuar apertando o gatilho. Esta história também levanta uma pergunta muito interessante sobre a origem do Justiceiro: será que ele se tornou quem é por causa do assassinato de sua familía, ou esta tragédia teria sido apenas o catalisador para o desejo pela violência que já existia antes?

A arte de Born ficou a cargo de Darick Robertson, que retrata de forma fidedigna os cenários tropicais do Vietnã e as cenas de combate na selva, recheadas de violência explícita.

Após um breve texto explicando o contexto do período da Guerra Vietnã em que Born se passa, e que agrega bastante valor a este volume da Panini, temos os dois primeiros arcos de Justiceiro MAX: No Princípio (edições 1 a 6) e Inferno Irlandês (edições 7 a 12).

O Justiceiro

No Princípio (Março/2004) começa com mais um dia comum de trabalho na vida do Justiceiro: ele invade uma festa de aniversário do chefão da máfia italiana e chacina praticamente todo mundo lá. Ele então acaba virando alvo de um assassino da máfia chamado Nick Cavella e de uma célula da CIA, que para capturá-lo conta com a ajuda de seu antigo ajudante, o hacker conhecido como Micro. Uma das melhores partes deste arco é justamente o intenso diálogo entre Frank e Micro, que Garth Ennis usa para tecer críticas às campanhas militaes americanas pós-11 de Setembro. E, embora seja muito prazeroso assistir (sim, eu leio este quadrinho como se estivesse asssistindo a um filme de ação!) o Justiceiro sentar bala em todo tipo de bandido, o escritor deixa claro que este desejo de sangue e justiça encarnado pelo Justiceiro e que inspira tantos da "nova direita" brasileira, não passa de um instinto natural, uma espécie de alívio ou desejo por compensação diante de tanta dor causada pelo crime, pois este nunca terá fim, já que é uma condição natural da humanidade. Você mata um, e outros dois ocupam seu lugar. E justamente por causa desta guerra sem fim Frank Castle se tornou um homem amargurado, incapaz de viver uma vida de felicidade.

Mas este arco não traz apenas diálogos, senão não estaríamos falando de um enredo assinado por Garth Ennis. Os personagens únicos, como os capangas Caneta e Pitsy, e as cenas absurdas, como quando o agente Roth tem suas bolas literalmente arrancadas, estão lá. Além disso, há muitas, muitas cenas de tiroteio, com direito a tripas e globos oculares voando para todos os lados, tudo isso retratado na arte incrível de Lewis Larosa.


Em Inferno Irlandês (Agosto/2004), Garth Ennis aborda um tema recorrente em suas histórias: as mazelas vividas pelos imigrantes irlandeses na América. Esta história é curiosa porque nela o Justiceiro é um coadjuvante, alguém que caiu de paraquedas no meio de um conflito entre quatro gangues irlandesas da Cozinha do Inferno que estão disputando a herança de um velho chefão do crime. Mais uma vez Ennis surpreende com personagens no mínimo incomuns, como um irlandês negro (os criminosos irlandeses nunca foram muito chegados nos "manos"), uma gangue de piratas do rio e um ex-terrorista que sobreviveu à explosão de uma bomba, mas que ficou com o rosto desfigurado. A arte deste arco ficou com Leandro Fernandez, que faz um excelente trabalho.

Justiceiro em Ação

Justiceiro - No Princípio, apresenta a versão definitiva do Justiceiro, sob o olhar do escritor irlandês Garth Ennis. Com histórias mais "pé no chão" e focadas no mundo real, ainda assim o estilo único do roteirista se destaca, com seu humor ácido e violência gráfica explícita. Esta versão do maior anti-herói da Marvel também serviu de inspiração principal para a série da Netflix estrelada por John Bernthal. Por fim, vale destacar o excelente trabalho realizado pelo capista Tim Bradstreet, que deu uma marca especial à série.

Capa de Punisher MAX 1 e do Volume 1 da coleção da Panini

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

RESENHA | Os Supremos - Volume 1


A chegada do ano 2000 encontrou o mercado de quadrinhos em crise, devido às quedas sucessivas de vendas registradas nos anos anteriores, e a editora que mais sofreu com esta crise foi a Marvel Comics, que no final da década de 90 encontrava-se a beira da falência. Os motivos dessa crise foram vários: os leitores da época simplesmente se cansaram das imensas e complicadas sagas que dominavam as publicações dos anos 90 (como estamos falando da Marvel, cito como único exemplo a Saga do Clone do Homem Aranha), a ideia de personagens coloridos e com nomes espalhafatosos já não era mais tão atrativa, os roteiristas sofriam da falta de ideias originais, e imaginavam que apenas violência exagerada associada a traços absurdos seriam o suficiente para prender os leitores. Somando-se a estes fatores uma enorme bagagem cronológica que era necessário absorver para entender tudo que estava acontecendo com a miríade de super heróis que vovoavam as HQ's, chegou-se à fórmula perfeita para uma debandada de leitores para outras mídias. No meu caso, na época com 11-12 anos, os filmes das franquias Harry Potter e O Senhor dos Anéis, e animes como Dragon Ball Z eram muito mais interessantes do que quadrinhos.

Era consenso na Casa das Ideias que a solução para este problema passava por uma "volta às origens" de seus principais personagens, porém um reboot como o que a DC empreendera no final da década de 80 com a Crise nas Infinitas Terras estava fora de questão: um evento desta magnitude na Marvel poderia trazer mais problemas do que soluções; além disso, a própria Marvel já havia tentado algo parecido com o crossover Heróis Renascem, que se tornara um verdadeiro desastre e só piorara a situação da editora. Foi então que o advogado Bill Jemas propôs a criação de um novo selo, que mostraria os principais personagens da Marvel nos seus primeiros anos, mas com as histórias contextualizadas para o início do ano 2000. Esta foi a gênese do Universo Ultimate, que nasceu com a publicação de Homem Aranha Ultimate, escrita pelo então novato Brian Michael Bendis. Depois do Teioso, os X-Men também receberam uma versão Ultimate, mas ainda faltava entrar neste bolo os Heróis Mais Poderosos da Terra. Para escrever e desenhar a versão Ultimate dos Vingadores foram convocados Mark Millar e Bryan Hitch, que acabavam de encerrar sua passagem pela HQ Authority, da Wildstorm, e o que eles fizeram... bem, eles simplesmente presentearam os fãs de quadrinhos com uma das melhores obras da década de 2000!

Os Supremos

A tarefa de contar a história do primeiro encontro dos Vingadores não era nada fácil. Como juntar um grupo de heróis tão diferentes entre si em uma narrativa coerente e convincente, capaz de agradar aos exigentes leitores do Novo Milênio? Mark Millar manteve alguns dos elementos mais clássicos da história dos Vingadores, como o Capitão América ter permanecido congelado desde a 2ª Guerra Mundial, porém todo o resto foi alterado, e a organização de espionagem S.H.I.E.L.D. teve um papel central na reunião dos heróis, em especial Nick Fury, que no Universo Ultimate teve sua etnia alterada para se parecer com o ator Samuel L. Jackson (sim, o ator já estava escalado para viver o diretor da S.H.I.E.L.D. antes mesmo que o Universo Marvel nos Cinemas fosse criado!). Fury reúne os Vingadores, que aqui recebem o nome nada modesto de Os Supremos, como uma carta na manga dos governo dos EUA contra ameaças que as forças armadas comuns não fossem capaz de lidar (mutantes, seres humanos aprimorados, alienígenas, etc.). Millar aproveita o contexto histórico da época - as intervenções militares dos EUA no Oriente Médio após os atentados de 11 de Setembro - para introduzir a ideia das "pessoas de destruição em massa", uma nova modalidade de arma utilizada pelo Tio Sam para intimidar seus inimigos, e o autor não poupa críticas à política de guerra implementada por George W. Bush. 

Outro aspecto marcante do roteiro de Mark Millar são seus personagens. Uma das grandes diferenças entre os heróis da Marvel e da DC é que, enquanto na editora das Lendas seus heróis são quase deuses, fazem tudo certo e praticamente não têm defeitos, os heróis da Marvel são mais humanos, passam pelos mesmos problemas e dificuldades que as pessoas comuns, entretanto, mesmo para os padrões da Marvel os Supremos são humanizados ao extremo. O Capitão América é um homem de 80 anos preso no corpo de um jovem de 30, ultraconservador e que resolve aquilo que acha errado com os punhos; o Gigante e a Vespa possuem problemas sérios de relacionamento (uma das cenas mais polêmicas da HQ foi protagonizada pelo casal); o Hulk é um monstro no sentido mais literal, perverso, depravado e assassino; e Tony Stark... este continua sendo um bêbado, mas um bêbado divertido. Apesar das mudanças citadas, estes personagens mantiveram a essência de suas contrapartes do universo regular, o que não se pode falar do Thor. O Deus do Trovão foi o que sofreu alterações mais profundas em Os Supremos. Em nenhum momento da história fica claro se ele é de fato um deus ou apenas um hippie maluco com superpoderes (esta questão só seria respondida no segundo volume). Pelo menos ele continua sendo um dos personagens mais badass do supergrupo. 

O Hulk

A arte de Bryan Hitch é simplesmente sensacional, e casa perfeitamente com o roteiro de Mark Millar. Seus desenhos são bastante detalhistas, suas cenas de ação são nada menos que cinematográficas. Ele manda muito bem nas expressões faciais dos personagens que desenha, conseguindo transparecer os sentimentos de cada um, o que é muito bom para uma história que carece dos chamados balões de pensamento. Muitos personagens retratados na trama são baseados em pessoas reais, já que ele utilizou muitas fotografias para desenhar. O artista também pesquisou muito para que tudo soasse extremamente real, principalmente nas cenas que se passavam no período da 2ª Guerra. 

Não considero que Os Supremos tenham revolucionado o gênero das histórias de equipes de super heróis (esta HQ não faz nada que Watchmen ou The Authority não tenham feito: humanizar personagens, desconstruir o conceito do herói perfeito, mostrar os heróis sendo autoritários e violentos, etc.), mas foi uma HQ que elevou os principais heróis da Marvel a um novo patamar, e deixou um importante legado. O principal foi ter sido a semente para o Universo Cinematográfico da Marvel. Se você ler esta HQ e compará-la com o filme Os Vingadores, de 2012, perceberá que os roteiristas praticamente adaptaram o primeiro volume de Os Supremos no primeiro filme da franquia. E o motivo disso é bastante simples: o roteiro de Mark Millar é realista ao ponto de consideramos possível a existência de um grupo assim, mas também espalhafatoso como qualquer história de super-heróis.

Os Supremos - Volume 1 foi concebido como uma minissérie em 13 edições, e saiu na coleção de Graphic Novels de capa preta da Salvat em duas edições que compilaram os dois arcos da trama. Se você é um apenas um leitor que vai consumir esta história, se divertir com ela e depois seguir em frente, a coleção da Salvat está de bom tamanho. Mas se você for, além de leitor de quadrinhos, um colecionador exigente, que se preocupa com a qualidade e o acabamento do material, aí eu recomendo a Edição Definitiva da Panini, que está belíssima (e dependendo da promoção que você pegar sai até mais barato comprar a Edição Definitiva do que os dois volumes da Salvat).Seja qual for a sua escolha, saiba que terá em mãos uma HQ de qualidade, daqueles poucos tipos em que roteiro e arte se combinam para produzir uma verdadeira obra de arte. Boa leitura!

Capa da Edição Definitiva de Os Supremos Vol. 1

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

RESENHA | Homem de Ferro: Extremis


Apesar do Homem de Ferro ser um dos heróis mais famosos da atualidade, graças, em grande parte, à brilhante atuação de Robert Downley Jr. no papel de Tony Stark nos filmes da Marvel, o personagem possui poucas histórias em quadrinhos solo realmente boas, o que não é de espantar já que, até meados da década de 2000, ele era um herói do segundo escalão da Casa das Ideias, conhecido apenas pelo público consumidor de quadrinhos. No entanto, esta condição começou a mudar após o reboot que o Universo Marvel dos quadrinhos sofreu durante a controversa saga Vingadores: A Queda, após a qual todos os principais títulos da editora foram zerados. Extremis foi o primeiro arco da nova fase da revista The Invencible Iron Man (Vol. 4), e durou seis edições que foram publicadas entre os anos de 2006 e 2007. Escrita por Warren Ellis e desenhada pelo bósnio Adi Granov, esta saga teve como objetivo reformular o Homem de Ferro para uma nova geração de leitores, e serviu como principal fonte de inspiração para o roteiro do filme Homem de Ferro, de 2008, que tornou o Vingador Dourado um dos ícones da cultura geek.

A história se inicia quando um cientista da empresa Futurepharm contrabandeia um soro experimental para um grupo terrorista de extrema direita (será coincidência que o soro seja chamado de Extremis?), como forma de testar o experimento em uma cobaia humana. Esta substância, meio biológica meio eletrônica, foi criada com o intuito de emular as características do soro do supersoldado do Capitão América, e tem a capacidade de reescrever a "planta" do corpo humano que existe dentro do cérebro, substituindo-a por uma totalmente nova e aprimorada. Uma das cientistas-chefe deste projeto, a Drª Maya Hansen, antiga colega de Tony Stark, resolve pedir a sua ajuda para solucionar este problema de segurança, fazendo com que o Homem de Ferro entre em rota de colisão com os terroristas.

A Armadura do Homem de Ferro

O roteiro de Warren Ellis é simples, porém eficaz em sua proposta de estabelecer um novo status quo para o Homem de Ferro. Ao mesmo tempo em que ele revisa a origem do herói, trazendo-a para um contexto mais atual, o roteirista britânico rompe com o antigo paradigma de que homem e máquina são entidades separadas, ou seja, de que a armadura do Homem de Ferro era apenas uma ferramenta utilizada pelo ser humano que a vestia. De maneira ousada, Warren Ellis elimina este abismo que separava o homem da máquina, fundindo-os em um novo ser humano aprimorado. E o mais interessante é que, ao fazer isso, ele traça um paralelo com a primeira origem do herói: na história de 1963, o fabricante de armas Tony Stark é atingido por estilhaços após a detonação de uma de suas próprias bombas, e para sobreviver ele desenvolve uma armadura que lhe permite ficar vivo; agora, Tony é novamente ferido, desta vez em um combate com o terrorista aprimorado pelo Extremis, e, com a ajuda da Drª Maya, ele utiliza o próprio Extremis para armazenar os circuitos de controle da armadura do Homem de Ferro dentro de seus próprios ossos. De bônus, ele ganha o poder de se comunicar com artefatos eletrônicos com a própria mente. Muita gente torceu o nariz para esta mudança, alegando que Warren Ellis teria ido longe demais ao transformar o Homem de Ferro em um ser humano aprimorado, porém na minha opinião este foi um caminho natural para um personagem cujos poderes dependem de tecnologia em plena era da revolução tecnológica.

Armadura Original do Homem de Ferro

Outra característica positiva do enredo de Extremis são os diálogos entre os personagens. Em diversas ocasiões, Warren Ellis suscita o debate sobre o aspecto moral e ético do financiamento militar de descobertas tecnológicas e suas consequências na consciência do protagonista. Duas das cenas mais marcantes desta HQ são a entrevista de Tony Stark a um repórter de documentário e ativista de direitos humanos, que atribui a Stark a responsabilidade pelas mortes de inocentes causadas pelas armas comercializadas por sua empresa, e o diálogo entre Tony e Maya com seu antigo mentor, "Sal" Kennedy, um cientista excêntrico dado ao consumo de cogumelos psicotrópicos e crítico radical de cientistas que vendem sua ética em troca de financiamento para suas pesquisas, ainda que por objetivos nobres. Esta dicotomia presente no caráter de Tony Stark também é aproveitada no roteiro do filme de 2008, e um dos principais fatores motivadores para a construção da armadura do Homem de Ferro, como uma forma do herói compensar as mortes que causou.

A arte de Adi Granov é exuberante em todo o seu realismo. Não poderia haver um ilustrador melhor para uma história do Homem de Ferro. Seu traço e suas cores conferem uma solidez impressionante às armaduras de Tony Stark, e o design das armaduras do Homem de Ferro desenhadas por ele é um dos mais bonitos que já vi até hoje - moderno, mas sem abrir de mão das características clássicas. As cenas de ação também são muito bem trabalhadas, e, embora a violência exacerbada, tão comum aos roteiros de Warren Ellis, esteja presente em seus quadros, é claramente atenuada para adequar a obra à faixa etária dos principais consumidores, através de um uso inteligente de sombras e da mudança na cor do sangue, por exemplo. A arte de Adi Granov chamou a atenção do cineasta John Fraveau, diretor dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro, que convidou o desenhista para trabalhar na arte conceitual dos filmes da Marvel.

A Nova Armadura do Homem de Ferro

Um roteiro inteligente e corajoso aliado à uma arte impecável faz de Homem de Ferro: Extremis é uma das melhores histórias do Homem de Ferro, superada talvez apenas por Guerra Civil e O Demônio na Garrafa. Ela é um excelente ponto de partida para os novos leitores que querem conhecer mais sobre a trajetória do personagem nos quadrinhos, mas não têm saco para ler todo o material prévio do herói.

Extremis foi publicada recentemente na coleção de capa preta da Salvat, e também pela Panini Comics na coleção Marvel Deluxe, que reúne as principais sagas da Marvel após A Queda em encadernados com excelente acabamento de luxo, de modo que este material está facilmente acessível. Boa leitura!

Capa da Edição Deluxe de Homem de Ferro: Extremis

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

RESENHA | Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson - Volume 3


Não é raro no mundo dos quadrinhos que um quadrinista tenha seu nome mais intimamente ligado a um personagem do que a outros, ainda assim são raros os casos como o de Frank Miller e do Demolidor. Das melhores histórias já publicadas do herói cego de Hell's Kitchen, a grande maioria foi escrita por Miller, tanto que ele é reconhecido pelos fãs como o "criador moral" do Demolidor. Desde a criação do personagem em 1964 por Stan Lee e Bill Everett (e não podemos esquecer de Jack Kirby, que concebeu o visual do herói), não houve outro roteirista/artista que tenha acrescentado tantos elementos a sua mitologia como Frank Miller. Ele enriqueceu a origem do herói, sem, contudo, alterar os alicerces já estabelecidos pelos criadores, mas acrescentando elementos novos, como a anti-heroína Elektra, antigo amor dos tempos de faculdade de Matt Murdock e que retorna a Nova York como uma assassina de aluguel, e Stick, um velho cego que foi uma espécie de mentor para Matt quando ele sofreu o acidente que tirou sua visão, ensinando-o a controlar seus sentidos ampliados. E Miller foi ainda mais longe ao desconstruir a versão de bom pai de Jack "Batalhador" Murdock, ao revelar que o pai de Matt era um homem falho e com problemas de violência. Falarei mais sobre este último tópico mais adiante nesta resenha.

Frank Miller começou a trabalhar com o Demolidor primeiramente como desenhista, em 1979, e em 1981 assumiu também os roteiros; a partir de então não apenas salvou o título do cancelamento, como também alçou o Demolidor ao patamar dos heróis mais populares da Marvel. Um dos motivos que fez com que esta fase alcançasse tamanho sucesso foi porque, dentre outros fatores, Frank Miller redefiniu o tom da revista, deixando para trás a inocência da Era de Prata para desenvolver enredos mais ácidos e pessimistas, e estabeleceu um padrão que seria seguido pela maioria dos roteiristas de quadrinhos nos anos seguintes. Ele conseguiu alcançar em seus roteiros o equilíbrio perfeito entre uma história de super herói, com todas as suas características clássicas, e uma trama policial noir, que é o tipo de história com o qual ele sempre preferiu trabalhar, mas que não tinha muito espaço dentro dos quadrinhos mainstreen. O Demolidor deixou de enfrentar vilões extravagantes e fantasiados para lidar com criminosos de rua, traficantes de drogas e gangsteres, como Wilson Fisk, o Rei do Crime, o qual foi brilhantemente trabalhado pelo autor para ser o maior adversário do Demolidor. Isso não quer dizer que os antigos vilões mascarados tenham sido completamente abolidos das histórias; pelo contrário, eles passaram a ser utilizados sob uma nova ótica, como o Mercenário, que se transformou em um assassino psicopata obcecado por destruir o Demolidor, e o Gladiador, que se regenerou e começou a fazer terapia para tratar de sua loucura.

Outra característica marcante da passagem de Miller por Demolidor é a arte. Os desenhos de Miller são inovadores, seu estilo de desenhar e a forma como ele utiliza os quadros potencializam e complementam a narrativa, lembrando muito o estilo do lendário Will Eisner. Mas nem todo o crédito pertence ele, já que em quase todas as edições ele contou com a colaboração de Klaus Janson, que, apesar de ter ficado a cargo da finalização da arte, recebeu cada vez mais liberdade conforme o autor se dedicava mais aos roteiros. Nas últimas edições Janson respondia por quase toda a arte, enquanto Miller apenas lhe entregava esboços.

A épica fase de Miller como artista e roteirista da revista Demolidor foi publicada na íntegra pela Panini Comics em três encadernados de luxo. Eu já avaliei os dois primeiros volumes, e o leitor poderá acessar estas resenhas clicando aqui aqui. O terceiro volume engloba as edições #183 a #191 e uma edição What if? #28, que mostra uma realidade alternativa onde o Demolidor se torna um agente da S.H.I.E.L.D. É uma historinha divertida, porém nada mais do que isso, portante não irei falar mais sobre ela nesta resenha.

Demolidor vs. Justiceiro

O terceiro volume começa com uma história que ilustra muito bem o tom mais maduro do roteiro de Miller, quando vemos o Demolidor tendo que lidar com um problema que assolava as grandes metrópoles americanas naquela época, e que ainda é um dos grandes desafios da nossa sociedade atual: o tráfico de drogas. Para piorar ainda mais a situação, temos a chegada do vigilante Justiceiro a Nova York, após ele ter fugido da prisão na última edição do volume anterior (fato que deixar passar batido em minha resenha, sorry!). Apesar de fazerem praticamente a mesma coisa - combater criminosos -, Demolidor e Justiceiro divergem na forma como lidar com os bandidos. O Demolidor, sendo um advogado em sua identidade civil de Matt Murdock, acredita fielmente no sistema judiciário, a quem confia o destino dos malfeitores, enquanto Frank Castle, movido por um desejo de vingança pela morte de sua família, vive uma cruzada solitária na qual ele é juiz, júri e executor. A concepção de ambos possui falhas, já que o sistema judiciário pode ser manipulado para que um indivíduo culpado seja absolvido, e um homem com sede de justiça pode ser enganado pelas circunstâncias e assassinar uma pessoa inocente. Esta história serve principalmente para definir de uma vez por todas um importante aspecto do código moral do Demolidor, que é o de não matar criminosos.

Além do Justiceiro, neste volume temos a participação de outra personagem do universo Marvel: a Viúva Negra. No passado ela e o Demolidor foram parceiros no combate ao crime por um tempo, além de amantes, e agora ela volta a Nova York durante uma investigação aos misteriosos ninjas do Tentáculo. O retorno da desta organização marca o início da conclusão da saga iniciada lá em Demolidor #168, quando fomos apresentados à Elektra. Desde que apareceu pela primeira vez, Elektra rapidamente conquistou uma legião de fãs, por vários motivos: seu visual era impressionante; seu estilo de lutar era único nos quadrinhos até então (naquela época ninjas, katanas, shurikens e sais não eram muito comuns em histórias ocidentais, e Frank Miller foi um dos principais divulgadores desta cultura nos EUA); sua relação de amor/ódio com o Demolidor não seguia o velho padrão do herói e da mocinha indefesa; e por fim, tinha o seu comportamento. Naquela época estava se popularizando o conceito dos anti-heróis, os quais transitavam na zona cinzenta entre o bem e o mal, desempenhando o papel de vilão ou de herói de acordo com seus interesses.

Apesar do amor dos fãs por Elektra, o destino da moça já estava traçado na cabeça do autor: para sua história funcionar, ela precisava morrer. E, para desespero dos leitores, ele concretizou esta ideia ao fazer o Mercenário assassiná-la, empalando-a com suas próprias adagas em Daredevil #181. Esta morte causou um grande alvoroço no mundo dos quadrinhos, principalmente reações de ódio a Frank Miller por ter matado uma das raras personagens femininas fortes da época. Muitos fãs também criticaram o autor por ter usado o infame artifício narrativo conhecido hoje como "mulher na geladeira¹", que consiste em provocar algum tipo de violência a uma personagem feminina apenas para atingir o protagonista homem (Alan Moore sofreu o mesmo tipo de crítica quando decidiu fazer o Coringa aleijar e estuprar Barbara Gordon em Batman: A Piada Mortal).

O Tentáculo Ataca

Seja como for, no mundo dos quadrinhos a morte raramente é definitiva e, algumas edições depois, Miller começou a preparar o terreno para a volta de Elektra do mundo dos mortos, e os ninjas do Tentáculo desempenharam um importante papel na ressurreição da moça, bem como um personagem que havia sido apresentado no volume anterior, o antigo mentor de Matt. Stick era na verdade o líder de um grupo de ninjas chamados Virtuosos (The Chaste, no original), os quais eram os principais antagonistas do Tentáculo. Muita coisa é revelada sobre o passado de Elektra neste arco, e passamos a entender um pouco mais os motivos que a fizeram empregar suas habilidades para matar pessoas, ao invés de protegê-las, como o Demolidor.

Como era de se esperar, Elektra ressuscita, porém sem que o Demolidor saiba que ela retornou, e a jovem, agora com um novo visual, deixa Nova York para viajar pelo mundo, jurando nunca mais rever seu amor. Na verdade, Frank Miller, seja lá por qual motivo - emocional ou comercial - não queria que sua criação fosse utilizada em outras histórias, fossem do Demolidor ou de outro herói da editora, e para isso fez um acordo com o então editor Raph Macchio para que seu desejo fosse respeitado. Este acordo valeu por dez anos, até que a Marvel, durante a crise financeira pela qual a editora passou na década de 90, resolveu trazer de volta a personagem, contrariando Frank Miller, que após isso rompeu de vez com a Casa das Ideias.

Voltando à década de 80 e aos tempos áureos de Miller à frente do Demolidor, a saga da ressurreição de Elektra também trouxe a conclusão do embate do Demolidor com o Rei do Crime. Talvez os fãs que esperavam uma solução mais definitiva tenham ficado um pouco decepcionados, já que este confronto permaneceu em um impasse. Wilson Fisk é muito poderoso para ser derrotado por um único homem, que, como já foi visto, não tem como modus operandi matar seus adversários; mas, por outro lado, ele também precisa do Demolidor para aterrorizar seus subordinados e fazê-los pensar que precisam de seu comando e proteção. Sendo assim, herói e vilão estão presos um ao outro, e ainda terão muitos embates nos anos vindouros, o maior deles também escrito por Frank Miller e considerado a melhor história do Demolidor: A Queda de Murdock.

Roleta Russa

Por último, não posso finalizar esta resenha sem falar sobre a melhor história deste encadernado, e também considerada por muitos a melhor edição escrita por Miller durante esta primeira fase na qual ele esteve à frente da revista do Demolidor. Nesta edição inteiramente desenhada por Miller e arte-finalizada por Terry Austin, o herói visita o Mercenário, que encontrava-se tetraplégico desde a última luta entre os dois, e ambos começam a jogar Roleta Russa, enquanto o Demolidor conta para seu inimigo uma trágica história sobre um menino que era fascinado pelo herói e seu vilão. Neste conto Miller desmascara todo o glamour que envolve o conceito dos super heróis para expor a verdadeira natureza destes indivíduos: a de que eles não passam de valentões usando os punhos para conseguir o que querem, e que esta imagem violenta é vendida como exemplo para as crianças. Para ilustrar este fato, Miller desmistifica a natureza altruísta do pai de Matt Murdock, até então considerado a principal inspiração do herói, revelando que Jack "Batalhador" Murdock era um homem com problemas alcoólicos e comportamento abusivo, e chegou a agredir o filho quando era criança. Roleta Russa é a história mais sentimental e psicológica de toda esta fase de Frank Miller à frente do Demolidor, e deixou uma importante lição: a de que heróis não são perfeitos, eles podem cometer erros, e estes erros podem influenciar as pessoas que acreditam e contam com eles.

Esta fase do Homem Sem Medo foi muito importante não só para a mitologia do herói cego da Marvel, como também fez parte do movimento que revolucionou a indústria dos quadrinhos na década de 80, o qual mudou a percepção das pessoas de que gibi é coisa de criança, e que os quadrinhos poderiam evoluir para contar histórias mais maduras, que jovens e adultos pudessem ler. Frank Miller esteve na vanguarda deste movimento, sendo o responsável por duas obras icônicas que quebraram paradigmas: Demolidor: A Queda de Murdock e Batman: O Cavaleiro das Trevas. Esta fase de Miller e Janson também inspirou adaptações do personagem para outras mídias, como o infame filme de 2003 estrelado por Ben Afflexk, e a consagrada série de TV produzida pela Netflix. Há ainda diversos personagens e arcos sobre os quais eu não falei ao longo destas três resenhas pois, se fosse falar de todos eles, meus textos ficariam maiores do que já estão. Recomendo a quem ficou interessado que vá ler o material fonte, que se encontra facilmente disponível em qualquer loja de quadrinhos. Boa leitura!

Capa do Volume 3
Notas:

1 - O termo "Mulher na Geladeira" surgiu por causa de um evento que ocorreu na edição #54 de Lanterna Verde, de 1994. Nesta história o substituto de Hal Jordan, Kayle Rayner, ao chegar em casa descobre que sua namorada havia sido assassinada pelo Major Força, o qual esquartejou a moça e colocou os pedaços dela na geladeira para provocar o herói. Saiba mais em http://nodeoito.com/mulheres-na-geladeira.

domingo, 27 de agosto de 2017

RESENHA | Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson - Volume 2



Criado em 1964 pela dupla Stan Lee e Bill Everett, durante o turbilhão criativo em que surgiram personagens como o Quarteto Fantástico, o Homem Aranha, os X-Men e os Vingadores, o Demolidor é um dos heróis mais clássicos da Casa das Ideias. No entanto, ao final da década de 70 a revista do Demolidor encontrava-se à beira do cancelamento, devido a uma sucessão de histórias ruins. Foi por volta desta época que o artista Frank Miller, após desenhar o Demolidor em duas histórias com o Homem-Aranha, foi convidado pelo editor Jim Shooter para fazer a arte da revista solo do Demolidor, em parceria com o roteirista Roger Mackenzie. Dois anos depois Miller também assumiu o roteiro do título, acumulando as duas funções, e Klaus Janson, que se tornaria seu principal colaborador ao longo dos anos, ficou com a arte-final.

Com o completo controle criativo da revista, Frank Miller mudou completamente o formato das histórias do Demolidor, substituindo as aventuras curtas nas quais o herói enfrentava o "vilão da vez" por pequenos arcos de histórias que duravam algumas edições, cujos eventos estavam interligados e faziam parte de uma trama maior. O tom das histórias, antes mais leve e ingênuo, se tornou cada vez mais sombrio e realista, característica que viria a marcar os trabalhos de Miller. Este primeiro run do famoso quadrinista com o Demolidor até hoje é considerado um dos melhores momentos do herói nos quadrinhos, quando foram lançadas as bases que estabeleceram toda a mitologia do herói cego de Hell's Kitchen: seu relacionamento com a anti-heroína Elektra Nachios, a rivalidade mortal entre o Demolidor e o Mercenário, e o estabelecimento do Rei do Crime - antigo vilão reaproveitado do Homem-Aranha -, como a maior nêmese do Homem Sem Medo.

Apesar da qualidade destas histórias e de sua importância, até hoje este material não havia recebido o tratamento que os fãs mereciam, até que a editora Panini Comics, embalada pelo sucesso da série do Demolidor da Netflix, resolveu publicar esta fase consagrada na íntegra e em formato de luxo, em três belos encadernados. Se no primeiro volume (clique aqui para acessar esta resenha) Frank Miller surpreende seus leitores com a forma ousada com a qual ele reconduziu o Rei do Crime ao seu posto, neste segundo encadernado testemunhamos um dos eventos mais importantes da história do Demolidor, e um dos mais icônicos dos quadrinhos de todos os tempos: a morte de Elektra!

Matt Murdock vs. O Tentáculo

No primeiro arco deste volume somos apresentados à organização criminosa de ninjas conhecida como Tentáculo. Alguém poderia pensar que ao inserir ninjas em uma história urbana policial seria ir na contramão do processo de aproximação da histórias do Demolidor com o mundo real, porém Miller o faz com maestria, e o resultado é simplesmente as melhores e mais bem desenhadas cenas de ação deste quadrinho. A paixão de Miller pela cultura japonesa nunca foi segredo para ninguém: ele foi um dos principais responsáveis pela disseminação dos mangás no Ocidente, e é possível perceber a influência deste estilo em várias de suas obras.

A ameaça do Tentáculo é a desculpa perfeita para reintroduzir uma personagem que havia conquistado os fãs desde que estreara: a mercenária grega Elektra, a antiga namorada de Matt Murdock dos tempos da faculdade. Aqui é revelado que ela era um membro renegado desta organização, e fora com eles que ela aprendera as técnicas de luta ninja. Apesar de estarem do lado oposto da lei e da moça negar veementemente seus sentimentos por Matt, quando ele se torna alvo do Tentáculo ela retorna a Nova York em seu auxílio. Esta volatilidade moral, principal característica dos anti-heróis, foi um dos fatores que fez com que os leitores simpatizassem rapidamente com ela, além, é claro, de seu visual incrível.

Outro personagem importante introduzido nesta história é o velho cego Stick. Stick fora o mentor de Matt Murdock quando ele ficou cego, e foi quem lhe ensinou a controlar seus sentidos ampliados. Assim como no caso de Elektra, Miller não hesita em fazer uso do retcon, um dos recursos narrativos mais usados nos quadrinhos, que é quando uma mudança importante é feita no passado de um personagem para explicar determinado evento de seu presente. Nesta história Stick tem um papel pequeno, porém importantíssimo: ele ajuda o Demolidor a recuperar seu sentido de radar após o herói tê-lo perdido quando atingido por uma explosão provocada pelos ninjas do Tentáculo.

O Treinamento com Stick 

No segundo arco o Demolidor tem novamente como adversário o Rei do Crime, que pretende eleger um prefeito para ser sua marionete no comando de Nova York. Wilson Fisk agora tem o controle completo de todas as quadrilhas criminosas da cidade, e é sem dúvida o inimigo mais poderoso do Demolidor. É impressionante o trabalho de desenvolvimento de personagem que Frank Miller fez com o Rei do Crime: anteriormente um personagem subaproveitado, nas mãos de Miller ele se tornou um vilão de primeira categoria. Apesar de sua enorme força física, ele não tem nenhum superpoder, e isso fez dele o personagem ideal para a história que Miller vinha construindo para o Demolidor. Ele é um adversário implacável, sempre agindo das sombras, fazendo sua vontade ser cumprida através medo e intimidação. Um de seus principais artifícios de persuasão é sua assassina particular, Elektra, que substituiu o Mercenário após ele ser preso.

Apesar de a maioria das pessoas concordar que o Rei é intocável, ainda há pessoas corajosas que o enfrentam, como o repórter Ben Urich. Este é outro personagem que cresceu nas mãos de Miller. Seu papel nas histórias do Demolidor é bem parecido com o do Comissário Gordon nas revistas do Batman: o de um homem obcecado pelo dever para com sua cidade a ponto de sacrificar sua própria vida pessoal. Porém, ao contrário de Gordon, ele não possui os meios de se defender, tornando-o um personagem muito vulnerável e dependente de seu amigo, o Demolidor. Uma das edições mais legais deste volume, chamada Adagas, mostra todos os eventos sob a ótica de Ben, quando ele está tentando expor a farsa da candidatura de Winston Cherryh, o que acaba colocando-o na mira das adagas sai de Elektra. É nesta edição que vemos o confronto entre ela e o Demolidor, numa cena de luta de tirar o fôlego.

Elektra vs. Demolidor

Embora o Rei do Crime seja o grande arqui-inimigo do Demolidor, o Mercenário ainda é o responsável pelas maiores mazelas que assolaram a vida pessoal de Matt Murdock. Ele está para o Demolidor como o Coringa está para o Batman; Frank Miller transformou um vilão fantasiado de boa pontaria em um assassino completamente psicótico, obcecado em se vingar do herói que o derrotara tantas vezes. Numa fuga espetacular da prisão, o Mercenário volta a Nova York e mata a mulher que o substituíra como a principal assassina do Rei do Crime. Numa cena carregada de emoção, vemos Elektra atravessar a cidade, mortalmente ferida, para morrer nos braços do único homem que amara. Esta tragédia marcaria para sempre a vida do Demolidor, e foi o ato que transformou o Mercenário em seu maior inimigo pessoal.

Não preciso nem mencionar que esta HQ é item obrigatório para qualquer fã do Demolidor. Dos três volumes publicados pela Panini desta fase, este é sem dúvida o melhor deles, por abordar eventos que marcariam para sempre a trajetória do Diabo da Guarda de Hell's Kitchen. Boa leitura!

Capa do Volume 2

domingo, 14 de maio de 2017

RESENHA | Planeta Hulk


Criado em 1962 por duas lendas dos quadrinhos, Stan Lee e Jack Kirby, como uma versão moderna do Dr. Jakyll e sua contraparte monstruosa, o Dr. Hyde, o Incrível Hulk é o alter ego do cientista nuclear Bruce Banner, o qual, devido à exposição à radiação gama, se transforma nessa criatura esverdeada e superpoderosa quando submetido a um estresse psicológico, principalmente a raiva. Inicialmente cinza, ele já foi verde e até vermelho; já teve não apenas duas, mas quadro personalidades diferentes habitando seu corpo; já foi retratado como um brutamontes irracional que destrói tudo em seu caminho, e também como um ser de intelecto elevado e imbuído de heroísmo; já caiu de pau com o Coisa, o Demolidor, o Wolverine, o Thor, os Vingadores, enfim... já enfrentou quase todo o Universo Marvel, mas também já salvou o mundo inúmeras vezes. Ainda assim, seus feitos ruins acabaram pesando mais que suas boas ações na balança moral dos Iluminati, um grupo secreto formado pelos maiores heróis da Terra - Homem Elástico, Doutor Estranho, Homem de Ferro, Raio Negro e Namor -, que decidiram exila-lo para um planeta desprovido de vida inteligente onde ele não poderia ferir mais ninguém. Entretanto, a nave em que eles o colocaram foi interceptada por um buraco negro e acabou caindo no planeta Saakar, onde um imperador cruel promovia combates entre gladiadores para entreter a população oprimida. Hulk é então capturado e obrigado a participar desses jogos, lutando ao lado de outros monstros em batalhas sangrentas até a morte.

Pela primeira vez em sua vida, o Hulk está em casa!

Huk é Exilado da Terra

A ideia por trás do arco Planeta Hulk é simples. O roteiro de Greg Pak é baseado na história dos gladiadores da época do Império Romano, em especial Spartacus, um gladiador que se rebelou contra o Império e conseguiu reunir um grande exército de escravos que quase tomou Roma. Os artistas Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti pegam emprestados diversos elementos visuais da Roma antiga, como os trajes de legionário dos soldados do imperador e a armadura de gladiador usada por Hulk, com seus capacetes de penas e protetores para os braços.

Outra clara inspiração é a famosa "Jornada do Herói", conceito desenvolvido pelo antropólogo Joseph Campbell que estabelece os estágios percorridos pelo herói na maioria das histórias, desde os mitos da antiguidade aos filmes e quadrinhos modernos. Em Planeta Hulk acompanhamos ao longo de suas 15 edições o Hulk evoluir do gladiador Cicatriz Verde, como ficou conhecido após sua primeira batalha, para o "Filho de Sakaar", uma espécie de Messias profetizado que libertaria todas as raças daquele planeta de seus opressores, passando por vários estágios do monomito de Campbell.

A questão da dualidade de Hulk é muito bem trabalhada por Greg Pak. Estando em meio a todo tipo de alienígena, das mais variadas espécies, Hulk se torna apenas mais um entre tantos monstros. Hulk não é mais desprezado ou temido por seus companheiros devido à sua natureza violenta; pelo contrário, seu poder é necessário e útil para os gladiadores rebeldes, que o reconhecem como o herói que ele realmente é. Ao contrário do que acontecia na Terra, é quando retorna à forma humana que ele se torna um ser "diferente", e justamente por isso ele procura esconder essa sua natureza.

Hulk, Korg, Miek, Hiroim, Elloe e a Criatura da Ninhada

De início, ainda furioso por ter sido exilado por seus antigos amigos humanos e por ter sido escravizado, se recusa a enxergar seus companheiros de luta como amigos. Porém, o tempo e as experiências, geralmente de perda, pelas quais eles passam fazem com que se tornem mais que amigos: verdadeiros irmãos. Os companheiros de guerra de Hulk são: Miek, um ser pertencente a uma raça de criaturas insetoides de Saakar; Korg, uma das criaturas de pedra que foram os primeiros adversários do Thor; outro inseto, uma fêmea sobrevivente do povo da Ninhada; Elloe, filha de um senador do império acusado de subversão; e Hiroim, um renegado do povo das Sombras, de onde o imperador recruta seus principais guardas.

Embora exista uma grande gama de personagens, apenas alguns deles são desenvolvidos pelo roteirista, enquanto outros servem apenas como coadjuvantes com funções específicas no roteiro. É o caso de Korg, que na maior parte das vezes atua como guarda costas ou companheiro de luta de Hulk, e a criatura da ninhada, que após uma introdução sangrenta funciona apenas como parceira de Miek. É o insetoide, no entanto, que recebe mais enfoque: ao longo da história ele evolui, não apenas psicologicamente, mas fisicamente. Ele nutre um profundo ódio por aqueles que escravizaram e mataram seu povo, e este sentimento faz com que ele seja um dos membros mais valiosos do bando de Hulk. No entanto, quando a guerra acaba e Hulk finalmente traz a paz a Saakar, Miek quer continuar lutando, e isso trará sérios problemas para o Verdão.

Embora seja um vilão unidimensional - seu passado e motivações não são abordados com profundidade pelo roteiro - o Rei Vermelho, principal inimigo de Hulk em Planeta Hulk, cumpre bem o seu propósito na trama. Como qualquer imperador, ele é egocêntrico e se enxerga como o salvador do povo, embora não pense duas vezes em bombardear vilas e liberar vírus mortais em suas cidades apenas para destruir um inimigo que o humilhou publicamente. Além disso, ele é um lutador muito habilidoso, e conta com uma armadura hi-tech que o possibilita lutar quase que de igual para igual contra o Cicatriz Verde.

Rei Vermelho

Caiera, a Fortaleza
, é a principal guarda-costas do Rei Vermelho, e uma guerreira nata. Ela comanda as tropas do imperador em sua caçada pelo bando do Hulk, quando eles finalmente conseguem se livrar dos dispositivos que os obrigam a obedecer às ordens imperiais. Mas quando ela testemunha a crueldade de seu soberano, contrapondo-a com a honra e preocupação com o bem estar do povo de Saakar demonstrada por Hulk, a assassina acaba passando para o lado dos gladiadores, chegando a ter um relacionamento amoroso com o Verdão.

Outros adversários do Golias Esmeralda são os ferobôs, criaturas cibernéticas selvagens que vivem nas florestas de Saakar; a guarda da caveira, soldados robóticos que são um cruzamento de stormtroopers com o alien Predador, que atuam como guarda de elite do imperador; e os parasitas espaciais conhecidos como Espinhos, que infectam todas as formas de vida que tocam, transformando-as instantaneamente em monstros disformes. Por fim, esta saga conta ainda com a participação especial do Surfista Prateado, que surge num primeiro momento como antagonista do Hulk, mas que depois funciona como peça fundamental na rebelião dos gladiadores.

Hulk vs Surfista Prateado

Mesmo para aqueles fãs de quadrinhos que, assim como eu, não têm o Hulk entre seus personagens favoritos da nona arte, Planeta Hulk pode ser uma grata surpresa. Comecei a ler este encadernado mais por obrigação, mas terminei gostando muito da história. O enredo é simples e previsível, e isso não é de todo um defeito quando se está apenas atrás de uma boa história, e a arte é excelente, repleta de painéis muito bem desenhados e com cores vibrantes.

Planeta Hulk foi publicada em The Incredible Hulk #93-105, e Giant Size Hulk #1, entre 2006 e 2007, e rendeu uma sequência: Hulk Contra o Mundo, que mostra o retorno de Hulk à Terra para se vingar daqueles que o baniram. Aqui no Brasil Planeta Hulk saiu na coleção de Graphic Novels da Marvel pela Salvat, em dois encadernados, e em um belíssimo encadernado de luxo pela Panini. Também já foi adaptado para um filme animado em 2010, e diversos elementos de sua história irão aparecer no filme Thor: Ragnarok, o terceiro da franquia Thor. Mais um motivo para conferir esta excelente HQ!

Boa leitura!

Capa do Encadernado Lançado pela Panini

domingo, 30 de abril de 2017

RESENHA | Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson - Volume 1


O super-heróis geralmente possuem uma característica especial que os tornam, em maior ou menor grau, superiores aos demais seres humanos: alguns são alienígenas e já nasceram com dons especiais, outros os receberam devido a um acidente cósmico ou alguma picada de inseto geneticamente modificado por radiação. O Demolidor, no entanto, tem como principal característica uma deficiência física: ele é CEGO. Numa típica demonstração de "como olhar o copo meio cheio", o advogado nova-iorquino Matthew "Matt" Murdock aprendeu a compensar a falta de visão ampliando seus outros sentidos - audição, tato, olfato - e chegou até a desenvolver um sentido sobressalente: uma espécie de radar, que lhe possibilita "enxergar" qualquer obstáculo que esteja ao seu redor.

Os créditos pela criação do Homem Sem Medo pertencem a Stan Lee e Bill Everett, com a ajuda do saudoso Jack Kirby, lá pelos idos de 1964. Seu nome original é Daredevil, que traduzido para o português significa algo como temerário, ousado ou intrépido, mas que em inglês assume a conotação de "alguém que desafia o diabo ou a morte", e é aplicado a pessoas que se colocam conscientemente em risco, como acrobatas e praticantes de esportes radicais. Como nenhuma destas palavras funcionaria bem para nomear um dos principais ícones da Marvel Comics na época, os tradutores brasileiros optaram por um nome que ao mesmo tempo mantivesse o "peso" do personagem e justificasse o duplo 'D' estampado em seu uniforme. Infelizmente, o termo Demolidor não conseguiu agregar o mesmo sentido de Daredevil, de modo que teria sido melhor se simplesmente tivessem mantido o original, como foi no caso do Batman.

Após um início promissor, a qualidade das histórias do herói cego da Cozinha do Inferno caiu drasticamente e o título, sofrendo com baixas vendas, teve sua publicação reduzida a uma periodicidade bimestral. Em 1981, no entanto, um jovem desenhista franzino chamado Frank Miller assumiu o título e resgatou o Demolidor do cancelamento, capitaneando, ao lado do arte-finalista Klaus Janson, uma das fases mais aclamadas do personagem. É o início desta fase que a Panini Comics compilou no encadernado de luxo Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson - Volume 1, lançado no final de 2014, reunindo as edições Demolidor #158-172 e Espetacular Homem Aranha #27-28.

Demolidor vs Mercenário

Apesar do nome de Frank Miller estampar a capa deste encadernado, ele só assumiu o roteiro da revista na edição 168. Até então Roger McKenzie vinha fazendo um trabalho razoável, intercalando histórias fracas com alguns arcos excelentes, dentre os quais Marcado para Morrer e Revelado. No primeiro o Demolidor precisa enfrentar o vilão Mercenário, que leva sua rivalidade com o herói a um nível mais pessoal. É possível perceber uma gradual mudança no tom das histórias, com o Demolidor tornando-se cada vez mais o "herói detetive", analisando evidências, disfarçando-se entre os criminosos para obter informações e derrotando seus adversários utilizando o preparo ao invés da força bruta.

Já no segundo arco vemos o jornalista Ben Urich - introduzido por McKenzie na edição 153 - deduzir a verdadeira identidade do Diabo da Guarda de Hell's Kitchen por meio de informações colhidas ao longo das edições anteriores. Quando o jornalista confronta Murdock no hospital após um duelo do herói com o Hulk, o advogado revela as circunstâncias que o forçaram a se tornar um vigilante uniformizado. Isto acaba oferecendo a oportunidade perfeita para o roteirista revisitar a história de origem do herói, mudando um ou outro detalhe, mas mantendo todas as bases estabelecidas por Stan Lee e Bill Everett, como o fato de o pai de Matt, o boxeador Jack "Batalhador" Murdock, se envolver com o criminoso conhecido como Arranjador; o acidente que provocou a cegueira de Matt (aqui provocado por militares transportando rejeitos radioativos, enquanto que na versão anterior o caminhão de produtos químicos pertencia à empresa Ajax); e o assassinato de Jack Murdock como motivação para a criação do Demolidor. 

A partir de Demolidor #168 Frank Miller assumiu o roteiro do título, acumulando as funções de escritor e desenhista. Ele elevou as mudanças iniciadas por McKenzie para um novo patamar: o tom mais urbano e realista que ele imprimiu em seus roteiros - e que viria a se tornar sua marca registrada - foi a semente para outras obras consagradas do autor, como O Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano Um, e Sin City. Miller deu novo fôlego à mitologia do herói ao introduzir personagens novos, como a assassina de aluguel Elektra Natchios, antigo amor da juventude de Matt Murdock, e revitalizar personagens já existentes, como o Mercenário, que fica cada vez mais psicótico e obcecado em derrotar o Demolidor, e principalmente o Rei do Crime, antigo vilão do Homem Aranha, que havia desistido da vida criminosa após conhecer sua esposa, Vanessa. O trágico que arco que narra o retorno de Wilson Fisk ao comando das quadrilhas criminosas de Nova York é um verdadeiro épico e disparada a melhor história deste encadernado, embora seja apenas o prelúdio para uma história bem maior, a ser conferida no próximo volume.

Elektra
 
Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson - Volume 1 é um encadernado indispensável para os fãs do Demolidor, uma rara oportunidade para ter na coleção uma das melhores fases deste personagem, uma vez que estas histórias não eram publicadas há muito tempo. Embora algumas delas deixem a desejar, principalmente por ainda trazerem resquícios de uma época mais fanfarrona dos quadrinhos, talvez por isso mesmo tenham sido mantidas no encadernado, para o que o leitor perceba o quão importante foi a contribuição de Frank Miller, não apenas para o Demolidor, mas para os quadrinhos como um todo.

Boa leitura!

Capa do Volume 1

sexta-feira, 14 de abril de 2017

RESENHA | THOR: Em Nome do Pai



"Deuses e homens mortais compartilham uma qualidade. Para saber quem somos, devemos matar nossos pais. Para os mortais, isto é uma metáfora, um meio de dizer que você deve sair da sombra de seu pai e decidir quem você e sem buscar aprovação ou permissão. Mas para um deus, isto significa algo completamente diferente." - Odin

Se há uma constante nas aventuras de Thor, o Deus do Trovão da Marvel, é a relação conturbada que ele mantém com seu pai, Odin, o governante supremo de Asgard. Pai e filho sempre tiveram uma convivência difícil, marcada por discussões e desavenças. Embora Thor fosse o filho "predileto" de Odin, suas atitudes impetuosas volta e meia causavam problemas para o monarca, que chegou ao ponto de banir o próprio filho e obrigá-lo a viver entre os humanos como um reles mortal. Apesar de tudo, Odin sempre nutriu amor por sua prole, o que ficou provado quando ele se sacrificou para que Thor e Asgard continuassem vivos, pelo menos por um tempo. Então veio o Ragnarok, quando Thor liderou os deuses asgardianos em sua última batalha, na qual pereceram, e, anos depois, foi este mesmo Deus do Trovão quem os trouxe de volta à existência, com exceção de um: Odin. Neste segundo arco de histórias no comando dos roteiros da revista Thor, J. M. Straczynski se propõe a explicar por que Thor tomou a controversa decisão de não ressuscitar o próprio pai, revisitando o passado de Odin a fim de entender a natureza da relação entre ele e Thor. Além disso, o autor também se utiliza desta temática para revelar o verdadeiro motivo do Pai de Todos ter decidido adotar o filho de seu maior inimigo, e porque escondeu de todos o fato de Balder também ser seu filho, reconciliando assim a origem do personagem com sua contraparte mitológica.

A história começa logo após Thor ter trazido de volta à vida todos os asgardianos. Completamente exaurido, ele entra em uma espécie de câmara de descanso, que simula uma situação intermediária entre a vida e a morte, e finalmente descobre o paradeiro de Odin. Os dois travam um diálogo interessante, através do qual ficamos sabendo como era a relação entre Odin e seu pai, o deus Bor, bem como quais foram as circunstâncias da morte do avô de Thor e como isso se relacionou com a decisão de Thor de manter o pai esquecido. Este encontro é narrado nos dois primeiros capítulos deste arco, cujos desenhos ficaram a cabo do alemão Marko Djurdjevic, que conseguiu manter a qualidade da arte, embora não ostentando o mesmo estilo de Olivier Coipel.

Thor e Odin Juntos Conta Surtur

Straczynski tece uma trama intrincada, juntando aos poucos cada elemento individual do quebra cabeças, inclusive os acontecimentos do passado de Odin, para revelar o grandioso plano de Loki de finalmente derrotar o irmão. É impressionante o cuidado do roteirista com cada aspecto do estratagema, e para aqueles que gostam do tema viagem no tempo, esta história é um prato cheio, já que Loki manipula até mesmo eventos que já aconteceram para influenciar a decisão de alguns personagens. Retcons são sempre artifícios arriscados, e não são poucos os roteiristas que acabam errando a mão ao tentar reescrever a história de um personagem ou um determinado evento de sua cronologia, mas Straczynski cumpre bem esse desafio, apresentando um enredo que faz sentido e não soa forçado, e ainda por cima nos proporciona uma empolgante história de origem para o vilão Loki.

O personagem que mais se destaca, sem dúvida, é o Deus da Trapaça. Conforme visto no volume anterior, Loki retornou dos mortos num corpo de mulher. Ele (ou ela, sei lá) é de longe a personagem mais cativante desta HQ, principalmente devido a seu senso de humor cínico. Straczynski faz dela uma vilã fria, ardilosa e extremamente manipuladora - características que viriam a ecoar em sua representação no cinema por Tom Hiddleston. O motivo de sua encarnação feminina começa a ser revelado nesta história, e faz parte de uma importante subtrama envolvendo o par romântico de Thor, a Lady Sif, que, assim como Odin, não havia retornado dos mortos. Outro personagem que merece menção é Balder, conhecido por ser um grande amigo de Thor. Ele é um dos elementos-chave do plano de Loki, e, embora não confiando plenamente nele(a), acaba aceitando alguns de seus conselhos e entrando em seu jogo de manipulação.

Loki

O final concebido por Straczyski para este arco é trágico para o Deus do Trovão, que, mais uma vez, acaba sem o seu martelo, o Mjolnir, destruído na batalha contra Bor. Loki finalmente consegue realizar seu maior objetivo, e o mais impressionante é que ele(a) não precisa mover um músculo para tanto. Tudo é feito por outros, sem nem perceber que estavam fazendo a vontade do(a) deus(a). Todos estes eventos convergem para culminar no próximo grande arco do Thor, pois, como descobrimos no final, Loki estava agindo em conluio com outro grande vilão do Universo Marvel. Apesar de ter sua própria trama, basicamente girando em torno do tema paternidade e de mostrar o desenrolar do plano de Loki, Thor: Em Nome do Pai também funciona como um prelúdio para o evento Thor: O Cerco, que envolve outros personagens e equipes da Marvel.

Thor, Balder e Loki

Thor: Em Nome do Pai foi publicada nas edições #7-12 da revista Thor (Volume 3) e #600 do Volume 1 (no meio do jogo a Marvel resolveu reverter a revista Thor para sua numeração original, o que eu acho um péssimo hábito das editoras, pois tais decisões só servem para confundir a cabeça dos novos leitores), como sequência direta do arco Thor: O Renascer dos Deuses (veja aqui minha resenha sobre esta HQ). Felizmente existem os encadernados, e esta história foi publicada aqui no Brasil pela Panini na coleção Marvel Deluxe, num encadernado em capa dura de qualidade impecável. Com um enredo e uma arte de qualidade excepcional, considero esta obra um item obrigatório para os fãs do Thor, e uma excelente pedida para novos leitores interessados em acompanhar as aventuras do Deus do Trovão sem precisar revisitar a antiga cronologia. Dito isto, só me resta desejar: Boa Leitura!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

RESENHA | THOR: O Renascer dos Deuses



Todo fim é um novo começo. Para Thor, o Deus do Trovão esta frase não poderia fazer mais sentido!

Em 2004 a Marvel Comics resolveu que o herói já havia dado tudo que tinha que dar e que era hora do Vingador Nórdico hibernar, literalmente. E assim aconteceu o Ragnarok, quando não apenas Thor, mas todos os habitantes de Asgard e demais integrantes do universo mitológico do herói passaram para a inexistência. Mas o descanso durou pouco. Apenas três anos depois o roteirista J. Michael Straczynski recebeu a importante incumbência de ressuscitar Thor e seus companheiros, e, com a colaboração do talentoso artista francês Olivier Coipel (responsável pela arte de Dinastia M), o escritor cumpriu esta missão com grande estilo.

O retorno de Thor acontece sem grandes rodeios ou explicações mirabolantes. O cara é um deus, e, enquanto as pessoas "acreditarem" nele, ele não pode morrer (mais ou menos como em Deuses Americanos, livro de Neil Gaiman sobre a imigração dos deuses do Velho Mundo para a América). Além disso, ele não volta do "limbo" sozinho: junto em ele vem o médico Donald Blake, antigo alter-ego do herói, com quem volta a dividir o corpo. O retorno do Dr. Blake é justificado pela necessidade de uma interação de Thor com os humanos, já que a nova Asgard é erguida em pleno estado de Oklahoma, no meio oeste americano. Esta interação entre as figuras divinas e os humanos comuns é uma das coisas mais interessantes deste roteiro, embora eventualmente acabe caindo no velho clichê do romance proibido entre seres de naturezas diferentes. Como um dos objetivos desta história era não apenas ressuscitar Thor, mas revitalizá-lo para as próximas gerações, o artista Olivier Coipel aproveitou para realizar algumas mudanças na aparência do personagem, modernizando sua armadura, mas sem abandonar algumas de suas características clássicas. O Thor de Coipel também deixou de parecer um rockstar americano para assumir as feições brutas de um europeu nórdico.

Asgard

Sendo o primeiro deus a voltar, cabe a Thor a missão de ressuscitar os demais deuses. Estes estavam em estado "adormecido" dentro de corpos de outros seres humanos, e Thor precisa encontrá-los um a um e libertá-los. Com o controle de quem poderá voltar ou não, seu intento é trazer de volta apenas aqueles com menos probabilidades de lhe trazer problemas no futuro, mas é claro que os planos do herói são frustrados por Loki, o Deus da Trapaça, que acaba induzindo o irmão adotivo a libertar todos os deuses adormecidos. A nova versão de Lóki é um dos pontos altos do enredo, já que, por algum motivo o vilão retornou em um corpo feminino. Além da mudança física, ele - ou melhor, ela - alega ter retornado arrependida dos seus erros antigos e determinada a provar que é uma nova pessoa. Será que ela consegue enganar alguém?

Finalmente, também é preciso reintroduzir Thor no universo Marvel, e não há forma melhor do que mostrá-lo confrontando o Homem de Ferro. Só para contextualizar, durante o megaevento Guerra Civil, que dividiu todo o universo Marvel dos quadrinhos em dois lados - team Capitão vs. team Homem de Ferro -, a facção de Tony Stark utilizou um clone cibernético do Thor na batalha contra os partidários do Capitão América, no que acabou resultando em um dos momentos mais trágicos daquela história. Quando o verdadeiro Thor volta dos mortos, é claro que ele fica sabendo da história e resolve ensinar ao Homem de Ferro uma pequana lição sobre não profanar o DNA de um deus morto.

A "Nova" Loki

O arco de histórias que trata do retorno dos deuses à Terra foi publicado nas edições 1-6 da revista Thor (2007) e foi compilado em um encadernado de luxo pela Panini: Thor: O Renascer dos Deuses e também na coleção preta da Salvat. Esta HQ resgata um dos mais importantes personagens da Marvel para uma nova geração de leitores de quadrinhos, e vale a pena sua leitura tanto pelo enredo quanto pela arte impressionante de Coipel. Para quem deseja começar a ler as histórias do Thor e não sabe por onde começar, este é um ótimo ponto de partida, por iniciar uma nova fase na vida do herói pós-Ragnarok.

Boa leitura!

Thor Vs. Homem de Ferro