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sexta-feira, 31 de março de 2017

RESENHA | Preacher #6: Guerra ao Sol





Garth Ennis e Steve Dillon voltam com tudo neste sexto volume de Preacher, uma das HQs mais violentas, bizarras e profanas lançadas na década de 90 pelo selo adulto Vertigo, da DC Comics. Nela acompanhamos as viagens do reverendo Jesse Custer - que divide o corpo com a entidade meio anjo, meio demônio chamada Gênesis, que lhe dá o poder da Palavra de Deus -, através do interior dos EUA, na companhia de uma matadora de aluguel fracassada e um vampiro irlandês beberrão, enquanto é perseguido por uma organização ultrassecreta que deseja provocar o Armagedom e estabelecer a Nova Ordem Mundial. Após um quarto volume constituído basicamente de histórias de origem e fillers, e um quinto com um enredo bem fraquinho, dessa vez temos uma história realmente com a cara de Preacher, e isto quer dizer que ela esbanja violência, nudez, palavrões e personagens bizarros em situações mais bizarras ainda.

Este encadernado começa com o especial Guerra Solitária, história de origem de ninguém menos do que o maior adversário de Jesse Custer: Herr Starr. Garth Ennis finalmente descortina o passado do vilão, narrando sua trajetória desde quando ele era um membro descontente do esquadrão de elite antiterrorismo alemão GSG 9, até se tornar o segundo em comando na hierarquia do Graal. Esta história nos ajuda a entender a motivação por trás dos atos de Starr, identificando precisamente o momento em que ele percebeu que precisava fazer alguma coisa para mudar o rumo que a humanidade estava seguindo. O problema é que, aparentemente, ele é o único capaz de levar a cabo tal missão, já que até mesmo no Graal ele enxerga um enorme potencial desperdiçado numa fé cega e ignorante, motivo pelo qual ele começa sua campanha soliária (que dá nome ao especial) para usurpar o lugar do Grande Pai. De quebra, também começamos a entender o porquê dele exibir tendências sexuais tão bizarras, o que o tornam um vilão incomum. Se por um lado ele parece tão ameaçador, quando o vemos entre 4 paredes com uma mulher é impossível levá-lo a sério. Este especial conta com a arte de Peter Snejbjerg, o qual consegue manter a qualidade estabelecida por Dillon para a obra. 

A Origem de Herr Star

Após este especial a história volta ao ponto em que o quinto volume terminou: Jesse indo encontrar um indígena no Monument Valley, que lhe fornece uma droga (peiote) capaz de fazer com que ele acesse as memórias de Gênesis e possa descobrir enfim o paradeiro de Deus. A história começa meio arrastada, com muita falação, principalmente entre o casal Jesse e Tulipa, que sempre que tem a oportunidade traz de volta a velha mágoa dele tê-la deixado para trás na França, e entre Tulipa e Cassidy, que no volume anterior declarara seu amor pela moça, plantando a semente da discórdia que causaria tantos problemas no futuro. Ao mesmo tempo, outras peças são movimentadas no tabuleiro para ocuparem suas devidas posições: Herr Star, que aqui demonstra até onde vai a influência do Graal dentro do governo dos EUA, e o Santo dos Assassinos, que vem em busca de respostas para seu passado.

Quando todas as peças finalmente estão em seus lugares ocorre a tal Guerra ao Sol que dá nome ao encadernado, e que guerra é essa, meu camarada! Mais uma vez Steve Dillon nos presenteia com um verdadeiro espetáculo visual, exibindo uma arte em perfeita harmonia com o roteiro mirabolante e espalhafatoso de Garth Ennis. Basicamente esta batalha possui todos os ingredientes da luta vista em Orgulho Americano: o Graal tentando capturar Jesse com todos os meios necessários, o Santo Alargando chumbo nos soldadecos, e o grupo de Jesse no fogo cruzado; a única diferença é que a batalha acontece em campo aberto, ao invés do castelo de Massada. Até aí nenhuma novidade, embora um pouco de ação, tiros e tripas esvoaçando não façam mal a ninguém; mas desta vez há uma nova peça no tabuleiro: Tulipa. E a moça não deixa a desejar ao esbanjar seus incríveis talentos como exímia atiradora, e mais uma vez a vida de Jesse depende da pontaria infalível do seu grande amor.

Tulipa "Largando o Aço" nos Soldados do Graal

Ao final do conflito ocorre uma grande reviravolta no roteiro, e mais uma vez Garth Ennis prova que, por mais absurda seja a situação que ele coloque seus personagens, ela sempre pode piorar mais. Starr, que já havia perdido uma orelha e ganhado uma horrível cicatriz na cabeça, agora tem que lidar com a perda de mais uma parte de seu corpo, e da maneira mais grotesca. Tal perda, no entanto, só serve para alimentar ainda mais seu ódio por Jesse.

Quanto ao pastor, o final deste encadernado marca o cisma que finalmente põe um fim à divertida parceria entre Jesse e Cassidy, quando o vampiro finalmente mostra as suas presas (perdão pelo trocadilho) e revela o quão sádico e egoísta ele pode ser. Mas se Jesse perde um amigo, logo após ele ganha um mais fiel, um de quatro patas, que faz sua introdução na última edição. Além de tudo isso, Garth Ennis ainda tem tempo para desenvolver o arco do Cara de Cu, que começa a descobrir o preço da fama.

Guerra ao Sol aproxima a missão de Jesse ainda mais de seu final épico, mas Garth Ennis ainda tem algumas histórias para contar antes de aposentar o irreverente pastor. A pergunta é: por tudo que Jesse tem passado até então, será que essa busca ainda valerá a pena? Não percamos os próximos desenvolvimentos! Assim como os demais volumes, esta HQ foi publicada pela Panini Books, em capa dura e papel couchê.

Boa diversão!

Capa de Preacher: Guerra ao Sol, por Glenn Fabry

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

[RESENHA] Preacher #4: Histórias Antigas



O quarto volume de Preacher, série visceral de autoria de Garth Ennis e Steve Dillon, que narra as aventuras do pastor Jesse Custer em sua busca nada convencional pelo Divino, dá uma pausa na trama principal para apresentar as histórias de origem de dois importantes personagens da saga: o Santo dos Assassinos e o Cara de Cu. A história do Santo se prova importante pelos eventos que ocorrem nos próximos volumes da saga, porém a do Cara de Cu serve apenas para saciar a curiosidade dos leitores e, de quebra, vender mais revistas. Para finalizar, este encadernado ainda conta com uma aventura solo de Jody e T.C. - os canalhas responsáveis pela criação de Jesse em Angelville -, e esta é ainda mais dispensável que a anterior.

Mas o que realmente mais desanima neste volume é a arte, devido à total ausência de Steve Dillon, cujos desenhos já são a marca registrada da série. Estes três especiais contam com a participação dos artistas convidados Steve Pugh, Carlos Ezquerra e Richard Case; em todos eles a arte é nada mais do que competente, e não deixa a desejar, porém ler Preacher sem os desenhos de Steve Dillon não é a mesma coisa.

No especial O Santo dos Assassinos, Garth Ennis declara todo o seu amor pelo gênero do Western, ao finalmente poder contar uma história que se passa no tempo das diligências. Embora irlandês, o autor cresceu vendo filmes de faroeste, e a série Preacher é repleta de referências a este tão famoso estilo, como por exemplo a figura de John Wayne, uma espécie de amigo imaginário de Jesse que age como um tipo de conselheiro para o reverendo. Para quem não sabe, John Wayne, também conhecido como o Duque, foi um reverenciado ator que protagonizou diversos filmes de faroeste, dentre eles Bravura Indômita, Rio Vermelho e Os Comancheros.

O Santo dos Assassinos

A história do Santo, contudo, não acrescenta quase nada ao gênero, sendo, por outro lado, um grande clichê: tem o matador sem coração que encontra o verdadeiro amor; a gangue de malfeitores liderada por um bandido vil e sem escrúpulos; a pacata cidade que acaba se tornando palco de um banho de sangue. O que diferencia esta história das demais é justamente o fator sobrenatural: quando morre, o assassino faz um pacto com o Anjo da Morte para dar cabo de sua vingança contra aqueles que o prejudicaram.

A História de Você-Sabe-Quem mostra a motivação para a tentativa de suicídio fracassada que fez com que o adolescente Eugene Root conseguisse as grotescas cicatrizes que lhe garantiram a famosa alcunha de Cara de Cu. É aquela conhecida história do adolescente que se sente incompreendido, que sofre nas mãos de um pai violento e uma mãe ausente, e na escola ainda tem que lidar com buyling. Todas essas desventuras - as quais a maioria de nós, nascidos nas décadas de 80 e 90, já passamos - faz com que o jovem tome uma decisão errada que irá afetar toda sua vida.

Garth Ennis usa este roteiro para tratar sobre a influência que os ídolos modernos exercem sobre seus fãs, tanto através de sua música como principalmente através de seu comportamento. As referências ao Nirvana e seu vocalista Kurt Cobain, que cometeu suicídio em 1994, estão por toda parte. O autor voltaria a abordar este tema mais para a frente, no arco do Cara de Cu da série regular. Embora seja um personagem predominantemente de alívio cômico na série regular, este especial sobre o Cara de Cu possui uma pesada carga dramática ao abordar a questão do suicídio entre jovens.


Eugene Root, Antes de se Tornar o Cara de Cu

Por último, Os Bons Camaradas nos mostra a dupla Jody e T.C. cruzando o caminho de um policial e uma advogada que estão fugindo de uma gangue. A trama segue o velho clichê dos filmes de ação dos anos 90, porém temperada com cenas de violência explícita e o humor negro de Garth Ennis. Vale a leitura apenas como diversão, mas não acrescenta em nada à história original.

Então é isso, meninos e meninas. Espero que tenham gostado desta resenha, nos vemos por aqui numa próxima postagem. Lembrando que Preacher Vol. 4 foi publicado no Brasil em capa dura pela Panini Books. Boa leitura!

terça-feira, 25 de outubro de 2016

[RESENHA] Preacher #5: Rumo ao Sul + HOMENAGEM A STEVE DILLON (1962-2016)

Steve Dillon

Estava eu navegando na Internet no dia 22 de Outubro quando me deparo com uma triste notícia: a nona arte acabava de perder um grande colaborador, o artista britânico Steve Dillon, vítima de uma ruptura do apêndice. Sim, aquela doença escrota que causa dores escrotas e que pode ser resolvida com uma simples operação. Infelizmente a vida real não é como nos quadrinhos, onde a morte não é definitiva, e sempre é possível voltar com um reboot ou um soco na realidade.

Dillon ficou famoso no mundo dos quadrinhos principalmente por sua colaboração com o roteirista Garth Ennis em Hellblazer e Preacher, da DC/Vertigo e Justiceiro da Marvel. Os dois possuíam uma conexão que poucos artistas conseguem alcançar na atualidade: os desenhos de Dillon eram capazes de traduzir completamente o espírito dos roteiros loucos de Ennis, e o desenhista é um dos raros casos em que um leitor pode abrir uma HQ e de cara reconhecer seus desenhos, sem precisar ler os créditos.

Para homenagear Steve Dillon, resolvi antecipar a resenha do volume 5 de Preacher, uma vez que o próximo volume, seguindo a sequência das minhas postagens, seria Histórias Antigas, que é justamente uma coletânea com os especiais de Preacher desenhados por outros artistas. Como a falta dessas histórias não afeta o entendimento do Volume 5 - que é totalmente desenhado por Dillon -, resolvi antecipar este volume.

Les Enfants du Sang

É em Preacher Volume 5: Rumo ao Sul, que as coisas começam a dar realmente errado para o trio Jesse, Tulipa e Cassidy. Garth Ennis deixa a ação um pouco de lado para explorar a relação entre estes três personagens, em especial o aspecto "confiança".  Enquanto o Reverendo Mais Irreverente do Mundo precisa recuperar a confiança de sua amada, traída quando ele a abandonara em um hotel na França para lutar contra o Graal sozinho, o vampiro irlandês, durante um porre, revela que está perdidamente apaixonado por Tulipa. É claro que a loira recusa o beberrão, mas fica numa verdadeira sinuca de bico, pois Cassidy e Jesse são grandes amigos, e ela tem medo de estragar essa amizade revelando que o melhor amigo do seu namorado quer furar o olho dele. Assim, vivendo nessa tensão invisível, o trio viaja para Nova Orleans, onde eles irão encontrar um velho amigo de Cassidy, que irá utilizar magia vodu para que Jesse se conecte com a entidade Gênesis e possa descobrir o paradeiro de Deus, com quem ele quer acertar as contas.

O problema é que toda vez que eles seguem os conselhos de Cassidy dá em alguma merda (vide o Retalhador Picador, de Preacher #1), e dessa vez não é diferente. Agora eles irão cruzar o caminho dos Enfants du Sang, um grupo de jovens góticos aspirantes a vampiro que têm uma rixa com Cassidy. Além disso, Xavier, o sacerdote vodu cuja ajuda eles vão procurar, é um antigo desafeto do vampiro, devido a um caso misterioso do passado, envolvendo uma mulher. Pelo visto, não é a primeira vez que Cassidy fura o olho de um amigo.


Durante o ritual vodu Jesse descobre, por meio de Gênesis, sobre a verdadeira história do Santo dos Assassinos (que é revelada no Volume 4: Histórias Antigas), bem como o verdadeiro causador de toda a desgraça na vida do matador. Cassidy reencontra os Enfants du Sang, com resultados nada agradáveis para ele, e é Tulipa quem tem que resolver a parada, mostrando mais uma vez que ela é a integrante mais fodona do trio, pelo menos quando está com uma arma na mão.

Esta história ainda conta com o retorno de um personagem que há muitas edições não dava as caras: o Cara de Cu. O bizarro adolescente consegue finalmente encontrar o pastor Jesse Custer, mas será que finalmente ele terá coragem de se vingar?

Esta história apresenta o enredo mais fraquinho até agora, porém continua repleto de situações absurdas e engraçadas, a maior parte delas protagonizada pelo Cara de Cu, que inacreditavelmente começa a galgar seu caminho de astro do rock. Confesso que de início não gostei muito desse lance de triângulo amoroso no trio de protagonistas, porém isto irá se mostrar importante no futuro da série e para sua conclusão. Os desenhos de Steve Dillon continuam sensacionais, com seu estilo simples e ao mesmo tempo detalhista. O que chama a atenção, como sempre, é a caracterização dos personagens e suas expressões, que são o marco deste incrível artista, que com certeza fará muita falta aos quadrinhos de um modo geral.

Preacher #5 foi publicada no Brasil pela Panini Books em um encadernado em uma edição de luxo com capa dura e papel couchê. Boa leitura!


sexta-feira, 8 de julho de 2016

[RESENHA] Preacher #2: Até o Fim do Mundo


Após a enxurrada criativa do final dos anos 80, o mundo dos quadrinhos enfrentou uma baita ressaca nos anos seguintes. A década de 1990 foi a época dos roteiros mirabolantes, como o da famigerada Saga do Clone do Cabeça-de-Teia; da arte absurda que pretendia apresentar praticamente todos os personagens de quadrinhos como halterofilistas, espelhando o que acontecia no cinema, com a ascensão dos grandes heróis de ação como Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Jean Claude Van Damme. Na linha principal da DC Comics a tendência foi de destruir o mito da invencibilidade de seus maiores heróis. O  mundo ficou chocado quando soube da morte do Homem de Aço nas mãos de um novo vilão chamado Apocalypse. Quase ao mesmo tempo, foi a vez do Cavaleiro das Trevas sucumbir diante de um inimigo mais forte e mais inteligente. E quantos fãs não ficaram órfãos de seu grande herói quando o Guardião Esmeralda decidiu se tornar um vilão ao assumir a identidade de Parallax?

Em meio a todo este caos a Vertigo - divisão de histórias para adultos da DC - encontrou seu caminho para a ascensão ao empregar em suas fileiras roteiristas da escola britânica, como Neil Gaiman, Grant Morrison e Garth Ennis, os quais seguiram totalmente na contramão ao optar contar histórias ambientadas no mundo real, com personagens até certo ponto normais, que conheciam e viviam os mesmos problemas que os leitores. Tais histórias eram recheadas de elementos do gênero da fantasia, do sobrenatural e de horror urbano, e tinham menos restrições ao abordar temas como sexo, drogas e violência explícita. Uma das séries mais famosas e polêmicas que nasceram neste contexto foi Preacher, escrita pelo irreverente Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon, e que causou um verdadeiro alvoroço ao trazer para suas páginas repletas de sangue, sexo, palavrões e personagens bizarros elementos considerados sagrados pela religião cristã, não poupando nem mesmo a Suprema Divindade. Esta série contou com 75 edições, incluindo especiais, e acabou de ser publicada aqui nas terras tupiniquins em um conjunto de 9 encadernados de luxo. Você pode conferir a resenha sobre a primeira edição clicando aqui. Neste texto irei resenhar sobre o segundo volume: Até o Fim do Mundo. Antes, porém, gostaria de fazer um pequeno resumo da história até aqui.

Em A Caminho do Texas, o primeiríssimo volume da coleção, foi visto que uma entidade sobrenatural chamada Gênesis, fruto da relação proibida entre um anjo e um demônio, se fundiu à alma do pastor texano Jesse Custer, conferindo a ele o dom da Palavra de Deus - o poder de obrigar qualquer pessoa a fazer qualquer coisa que ele ordenar. Enquanto foge do fodástico matador Santo dos Assassinos, na companhia de sua ex-namorada Tulipa e do engraçadíssimo vampiro irlandês Cassidy, Jesse acaba descobrindo o segredo que os anjos protegem a todo custo: Deus abandonou o Paraíso, e Seu paradeiro é desconhecido. Ele decide então ir atrás do Criador e obrigá-Lo a prestar contas por seu sumiço. A questão é que Deus não quer ser encontrado, e a insistência de Jesse irá fazer com que seu passado volte para assombrá-lo.

Marie L'Angelle

É justamente sobre isto que trata o segundo volume, intitulado Até o Fim do Mundo: o passado do reverendo Jesse Custer. O primeiro volume deixou muitas perguntas em aberto, como por que Jesse, sendo tão irreverente, violento e alcoólatra, veio a se tornar logo um pastor de igreja evangélica, bem como por que ele abandonou Tulipa sem mais nem menos para seguir este caminho. A resposta para todas estas perguntas se encontram no passado, antes mesmo dele nascer. Assim, somos levados, por meio de flashbacks muito bem construídos, até o momento em que seus pais, Christina L'Angelle e o ex-combatente da guerra do Vietnã John Custer, se conhecem; como foi sua feliz infância junto do casal; e como essa curta felicidade acabou no momento em que os capangas de sua avó, Marie D'Angelle, os encontraram e os obrigaram a ir morar em Angelville, a casa da família na Lousiana.

Marie D'Angelle é um daqueles vilões que rapidamente cativam o público pelo elevado grau de maldade que praticam. Ela é uma velha decrépita, incapaz de andar sem a ajuda de uma cadeira de rodas, e que sobrevive com a ajuda de aparelhos; porém sua maldade não tem limites, e rapidamente nos pegamos odiando-a e torcendo ferrenhamente para que seu fim esteja a altura de seus atos. Ela vem de uma família cristã puritana, cuja maior tradição é fazer com que todos os homens sigam o caminho do sacerdócio. A missão da vida de Marie é fazer Jesse voltar aos caminhos do Senhor, mas não vou estragar a experiência do leitor revelando as crueldades que ela perpetra ao protagonista para conseguir lograr êxito neste objetivo, essa é uma experiência que você precisa ter por si próprio. Fatalmente a jornada de Jesse acaba levando-o novamente a Angelville, para o acerto de contas final com a família de sua mãe. Mas se você pensa que desta vez a luta será fácil, devido a habilidade conferida por Gênesis, está terrivelmente enganado: Marie conta com um poderoso e imprevisto aliado, de modo que a Palavra de Deus é ineficaz contra ela e seus asseclas.

Jesse e Tulipa

Esta é uma história de independência, de um homem que precisa se libertar das imposições de sua família e tomar as rédeas do próprio destino. E também é, de certa forma, uma história de amor, pois é justamente o sentimento entre Custer e Tulipa que lhe dá motivação e forças para superar um inimigo aparentemente tão mais forte. Não preciso nem falar que Jesse finalmente consegue realizar seu segundo grande objetivo: levar Tulipa para a cama! E devo dizer que essa parte da história, quando os dois fazem as pazes, é bem melosa, mas felizmente os dois formam um casal bem carismático.

Este volume ainda conta com a primeira parte do arco do Graal, um organização ultra-secreta que há milênios é responsável por proteger a sagrada linhagem do Messias, e aqui mais uma vez vemos a irreverência do autor com temas considerados por muitos como sagrados. Nesta saga ele eleva o nível de sua criatividade para o bizarro ao máximo: o próprio vilão, Herr Starr, cujo visual ao estilo Sagat causa uma certa intimidação, já começa a história sendo enrabado por engano por um gigolô! Além disso, tem um tal de Jesus DeSade, um milionáriuo que promove festas hedonistas regadas de bebibas e drogas, onde todas as formas de sexo são liberadas (e incentivadas!), e que protagoniza uma cena absurda envolvendo um tatu.

A Festa de Jesus DeSade

Jesse e Tulipa reencontram Cassidy, que volta a acompanha-los em suas aventuras em definitivo, e resolvem ajudá-lo a vingar a morte de sua namorada, indo atrás dos bandidos que lhe forneceram as drogas que causaram a sua overdose; esses traficantes são os mesmos que tiraram a honra de Herr Starr, que decide ir atrás deles em busca de vingança, enquanto ao mesmo tempo está atrás de Jesse, a quem ele quer transformar no próximo Messias e assim chegar ao topo do Graal. E por fim Jesus DeSade quer a droga para sua orgia, a mesma que causou a morte da ex do Cassidy. Os caminhos de todos estes personagens convergem inevitavelmente para a festa de DeSade, a qual termina com muito sangue e corpos, e com Cassidy sendo levado por engano para a sede do Graal, na França. Neste confronto finalmente vemos a que veio Tulipa, que deixa seus companheiros masculinos no chinelo ao revelar todas as suas habilidades com armas de fogo.

Garth Ennis prova que continua sendo um roteirista excepcional; seu maior talento, na minha opinião, não está nos roteiros, muitas vezes simplistas, apelando descaradamente para artifícios toscos como coincidências explicar alguns fatos; seu grande talento se manifesta na elaboração de personagens autênticos e carismáticos, indo desde a bruxa má Marie D'Angelle até o controverso Starr, passando pelos pervertidos T.C. e DeSade e o maligno Jody. A arte de Dillon continua afiada e muito competente, embora às vezes pareça que alguns personagens tenham as mesmas feições. Não posso deixar de mencionar a arte das capas de Glenn Fabry, que são um espetáculo à parte.

Conforme já mencionado na resenha anterior, Preacher foi publicada pela Panini Comics em uma série de encadernados em capa dura com excelente qualidade, e pode ser adquirida nas principais lojas especializadas e comic shops do Brasil.

Boa leitura!

Capa de Preacher #2, por Glenn Fabry

segunda-feira, 30 de maio de 2016

[RESENHA] Preacher #1: A Caminho do Texas


Preacher é uma polêmica história em quadrinhos lançada na década de 1990 pelo selo Vertigo da DC Comics, que é uma linha editorial mais voltada para o público adulto. O irlandês Garth Ennis ficou responsável pela estória, enquanto Steve Dillon ficou a cargo da arte. Glenn Fabry desenhou as incríveis capas desta obra. Atualmente existe uma série de TV homônima sendo exibida pelo canal AMC (o mesmo de The Walking Dead), a qual é baseada nesta obra.

Esta HQ possui todos os requisitos de um bom quadrinho adulto. Sexo, drogas and Rock'n Roll: confere! Palavrões, homor negro e muita bizarrice: confere! Violência explícita, com direito a tripas jorrando do ventre das pessoas, maxilares sendo arrancados por balas, cabeças explodindo, rostos sendo esfolados: Ah meu Deus, quem crê diz Amêm!: confere! Mas esta HQ criou muita polêmica na época por tratar de temas como homofobia, racismo e principalmente religião, e quem conhece os trabalhos de Garth Ennnis sabe que esse irlandês safado e boca suja não tem medo ou pudor de lidar com o politicamente incorreto.

Tudo começa em uma cidadezinha do Texas chamada Annville, onde o nosso protagonista, o pastor Jesse Custer, conduz os sagrados trabalhos à frente da pequena igreja local. Em um culto dominical, em meio à pregação de Custer, quando a igreja estava lotada (ela normalmente não é assim, mas neste dia em particular a congregação compareceu em peso devido aos eventos que ocorreram na noite de sábado, protagonizados por este mesmo pastor), uma entidade espiritual chamada Gênesis se apossa do corpo de Jesse Custer, e, devido à energia liberada no processo, a igreja é incinerada e os fiéis reduzidos a ossos carbonizados, Ao mesmo tempo, chegam à cidade Tulipa O'Hare, ex-namorada de Jesse, e o vampiro irlandês Cassidy, que, devido à eventos que poderiam ser chamados de coincidência, acabam se envolvendo com os acontecimentos na pequena igreja texana.

Tulipa e Cassidy
Não demora muito até que os três estejam na mira da polícia local, que foi chamada devido à explosão da igreja. O que eles não esperavam é que a entidade que possuiu Jesse lhe deu o poder chamado de "A Palavra de Deus", que lhe dá a capacidade de obrigar qualqer pessoa a fazer exatamente tudo o que ele ordenar. Mas não é apenas da polícia que eles precisam fugir. No Paraíso, os anjos chamados Adefins precisam corrigir a todo custo o erro de terem deixado Gênesis escapar para a Terra, mesmo que para isso precisem ressuscitar o Santo dos Assassinos e enviá-lo no encalço de Jesse e seus amigos. O resultado, como já era de se esperar, é uma mistura louca de fogo, morte e muito, muito sangue.

A primeira parte deste volume termina com o trio de amigos descobrindo que Gênesis é na verdade um ser que não pertence nem ao Céu nem ao Inferno, pois é filho de um anjo com uma "demônia". E não somente isso, mas o Criador, o Deus Todo-Poderoso, abandonou o Paraíso, deixando-o sob a supervisão dos anjos, e seu paradeiro até então é desconhecido, Jesse então decide partir em uma missão de encontrar Deus para tentar convencê-Lo a retornar às Suas divinas responsabilidades, enquanto tenta desesperadamente levar sua ex para a cama.

A Palavra de Deus
A segunda parte se passa em Nova York, quando Cassidy leva Jesse e Tulipa para conhecer um velho amigo seu que pode dar informações sobre o paradeiro de Deus. Mas eles acabam cruzando o caminho de um assassino em série apelidado pela imprensa de Retalhador Picador. Nem preciso dizer o que acontece com quem cai nas garras desse serial killer, né? Também somos apresentados a uma dupla incomum de detetives que estão investigando este caso: John Tool, um policial negro e atrapalhado que não conseguiria resolver caso algum se não fosse por seu parceiro, Paulie Bridges, o orgulho do departmaneto, mas extremamente violento e homofóbico. Mas em Preacher nem tudo é o que parece, e todos os personagens dessa saga guardam segredos que vão fazer a cabeça do leitor explodir, metaforicamente falando, é claro.

O que mais gostei nesta série, além da excelente estória , repleta de ação, surpresas e reviravoltas, e da arte competente de Steve Dillon, foram os personagens. Sem eles seria apenas mais uma estória sobrenatural qualquer. O que dizer de Cassidy, responsável por eu dar altas gargalhadas enquanto lia esta revista? Você está ali, tenso querendo saber como os personagens vão escapar de uma situação aparentemente insolúvel, e o vampiro irlandês manda uma pérola de humor negro que faz você se mijar de tanto rir, Ou o Cara de Cu, com a sua cara de... bem, de cu! E principalmente o Santo dos Assassinos, este pistoleiro absolutamente fodástico, que não à toa é o padroeiro de todos os assassinos.

Se você é religioso fanático e não se sente a vontade com histórias que abordem com cinismo e humor o assunto religião, ou se é daqueles que ficam de frescurinha quando vês cenas de violência e palavrão, passa longe, pois você não é o público alvo de Preacher! Para quem se interessou por esta obra, a Panini Comics compilou todas as 75 edições em 9 encadernados de luxo, em capa dura e papel couchê, que podem ser encontradas nas principais lojas de produtos geek do país. Boa leitura!

Capa da Primeira Edição de Preacher