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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

[RESENHA] Homem Animal - Fase Grant Morrison


Antes de 1988, o Homem Animal era um personagem do terceiro escalão da DC Comics, fadado ao esquecimento, tanto que o primeiro supergrupo do qual ele fez parte foi o dos Heróis Esquecidos! A  aventura de maior destaque de Buddy Baker, alter-ego do herói capaz de absorver as habilidades de animais próximos, havia sido uma curta participação no megaevento Crise nas Infinitas Terras, e ainda assim, passou quase despercebido. Após a grande Crise que reformulou o universo compartilhado da DC Comics, alguns personagens de menor destaque da editora foram entregues a roteiristas lá do Velho Mundo, como foi o caso do Monstro do Pântano, cujas histórias passaram a ser escritas pelo inglês Alan Moore, e Sandman, que sob o gênio de Neil Gaiman tornou-se um grande sucesso de crítica e vendas. A então editora Karen Berger escalou o escocês Grant Morrison para os roteiros de Homem Animal, e deu carta branca para ele fazer o que quiser com o personagem. O que ele fez deixou os fãs de quadrinhos de queixo caído.

Morrison satiriza a condição do Homem Animal, apresentando-o em sua primeira edição como ele realmente era visto pelos leitores: um herói de quinta categoria. Casado e com um casal de filhos pequenos, o aspirante a herói trabalha como dublê de filmes, mas praticamente depende da esposa, que é desenhista de storyboards. O autor dá bastante destaque para este lado mais "família" do Homem Animal, e desde o começo agrada ao não apelar para aquele velho tabu dos quadrinhos de que um super herói não pode ter uma família. É até interessante notar a cumplicidade entre Buddy e Ellen quando vemos o herói exercitando as suas habilidades com a ajuda da esposa.

Além do uniforme, a principal mudança estabelecida por Morrison foi o tom da HQ: as histórias do Homem Animal passaram a abordar temáticas sociais sérias, principalmente no que tange aos maus tratos sofridos pelos animais. Morrison, que é vegetariano e faz parte de grupos de defesa dos animais, teve a brilhante sacada de usar um super herói cujos poderes advém do mundo animal para levantar a bandeira da causa para os leitores da revista. Assim, o Homem Animal se tornou vegetariano e passou a participar ativamente de grupos de defesas dos animais. Três histórias se destacam neste sentido: o primeiro arco, que vai até a edição 4, no qual ele aborda as atrocidades cometidas a animais em testes de laboratórios; Entre o Demônio e o Azul Profundo do Mar, na qual ele expõe o brutal costume dos habitantes das ilhas Faroé, na Dinamarca, de assassinar centenas de golfinhos quando eles passam pelas ilhas no verão (existe um vídeo no YouTube que mostra como é este festival, mas já aviso que as cenas são fortíssima); e por último há O Evangelho Segundo o Coiote.


O Evangelho Segundo o Coiote é uma história emblemática na qual Morrison dá aos leitores uma pequena dica da direção que seus roteiros irão tomar daqui para a frente. Esta é uma obra espetacular, repleta de metalinguagem e que nos leva a refletir sobre como a violência se torna cada dia mais banal. Uma prova disso é a forma como tratamos com tranquilidade nossos filhos (e nós quando éramos crianças) assistirem a animais digladiando-se uns com os outros em desenhos animados aparentemente inocentes, como Tom e Jerry, Papa-Léguas, Looney Tunes, dentre outros. O Coiote da história é nada mais nada menos do que uma sátira ao personagem da Looney Tunes, que tenta de toda forma capturar o Papa-Léguas, mas sempre acaba se dando mal. Na trama de Morrison, o Coiote se cansa de tanta violência e procura seu Criador, um homem misterioso segurando um pincel. O Criador aceita a súplica por paz do Coiote, mas o condena a viver no "mundo real" (mais tarde você irá entender porque usei aspas), onde ele recebe um novo corpo. Só que esta nova existência para o Coiote é ainda pior que a anterior, pois, para que haja paz em seu mundo, ele precisa sofrer, e a primeira coisa que lhe acontece ao reencarnar no mundo real é ser atropelado por um caminhão. Só que, assim como nos desenhos, ele nunca morre, mesmo sofrendo os piores tipos de morte, e sempre ressuscita; a analogia com Jesus Cristo, que se sacrificou para salvar a humanidade de seus pecados, é bem evidente. Morrison faz um paralelo sutil entre a realidade do mundo animado do Coiote e a nossa realidade quando vemos o destino da moça apresentada no inicio da história, e a sanha assassina que move o caminhoneiro, que culpa o Coiote por suas desventuras. Assim como no mundo dos desenhos, a principal força que move o nosso mundo é a violência.

O Coiote

No epílogo de O Evangelho Segundo o Coiote temos um vislumbre de uma mão segurando um pincel pintando o sangue do Coiote, enquanto o Homem Animal observa a cena silenciosamente. Com isso já podemos perceber que Grant Morrison pretende extrapolar a barreira que separa o leitor de suas histórias, o mundo dos quadrinhos do mundo real, o Homem Animal do seu "Criador". De fato, toda a trama construída desde O Evangelho Segundo o Coiote culmina no inusitado encontro entre criatura e criador, que acontece apenas na edição 26, mas é justamente o caminho que o autor usa para chegar até este clímax (ou anticlímax, para alguns), é que causa tantos problemas.

Quem já leu as histórias de Morrison está acostumado com seu estilo narrativo nem um pouco convencional. Muitas vezes, após terminar de ler uma história escrita pelo escocês, não é incomum que o leitor fique sem entender nada, como se tivesse deixado alguma informação crucial para trás. Os roteiros de Morrison costumam ser bastante complexos - complexos até demais -, ele não entrega nada "mastigadinho": muitas vezes é preciso reler tudo para começar a entender. Para piorar, seus roteiros geralmente não são lineares, ou seja, você se depara com alguma cena completamente fora de contexto, que só fará sentido algumas edições à frente.

Assim, conforme as edições vão passando, vemos pouco a pouco as peças do quebra cabeças se unindo, e todos os eventos aparentemente desconexos que foram apresentados conduzem o Homem Animal até a pior e mais dramática experiência já vivida pelo personagem. Diante da catástrofe que se abate sobre o herói, o vemos em uma busca enlouquecida por vingança, e depois, quando ele percebe que esta não tem sabor qualquer, por respostas. Morrison destrincha ainda mais suas habilidades metalinguísticas quando nos apresenta o Limbo, o mundo para onde vão os personagens descartados, e quando vemos os personagens apagados da linha do tempo da DC Comics com a Crise tentando voltar à existência. A cena mais emblemática deste momento é quando vemos as várias versões do Asilo Arkham sobrepondo-se umas às outras. Não é coincidência que tal evento ocorra justamente nas dependências do famoso sanatório das histórias do Batman, um local onde as fronteiras entre o real e do imaginário se confundem, e que foi o palco de outra obra elogiadíssima de Grant Morrison: Asilo Arkham - Uma Séria Casa em um Sério Mundo.

O Homem Animal Encontra seu "Criador" 

O tão aguardado encontro entre o Homem Animal e Grant Morrison é chocante. Eu mesmo só vi outro autor fazer coisa semelhante: Stephen King, que colocou a si mesmo como personagem de sua famosa saga A Torre Negra. Assim como nesta obra, o autor executa um Deus Ex Machina para interferir e mudar o destino de seus personagens. O encontro do Homem Animal com seu roteirista é exatamente o que imaginamos que seria o nosso com nosso Criador. Ele obtém finalmente as respostas que tanto queria para a loucura que tem sido sua vida, embora essas respostas não sejam as que ele imaginava. É impossível não fazer uma analogia ente o que acontece em Homem Animal 26 e nossas próprias vidas: será que nós somos apenas personagens em uma história? Seriam nossas tragédias apenas um forma de entretenimento para seres superiores? Existe realmente o livre arbítrio, ou todas as nossas ações já foram pré-determinadas por nosso Criador? O autor ainda aproveita para fazer uma crítica ao gosto das pessoas por violência como forma de entretenimento, usando o próprio título do Homem Animal como exemplo, no qual ele utilizara cenas de violência para atrair o leitor, sem as quais ninguém jamais se interessaria pelos temas mais importantes abordados por ele, como a causa dos animais.

Independentemente do gosto pelos roteiros de Grant Morrison, que, assim como uva passas, ou você ama ou você odeia, é inegável seu talento como escritor, e a profundidade de seus enredos, por mais impenetráveis que eles possam ser. Contudo, eu não poderia finalizar esta resenha sem falar da arte que permeia as páginas de Homem Animal. Por quase todas as edições os desenhos ficaram a cargo dos artistas Chas Truog e Doug Hazlewood, e eles desempenharam este papel com absoluta competência. Seus desenhos são limpos e agradáveis de se olhar, e justamente a regularidade dos artistas ao longo das 26 edições colaborou para o sucesso desta obra. Por fim, as belíssimas capas são assinadas por ninguém menos que Brian Bolland, de Batman: A Piada Mortal e Camelot 3000. Aqui no Brasil Homem Animal 1-26 foi publicada pela Panini Comics em três encadernados em capa cartão e papel LWC. Boa leitura!

Capa de O Evangelho Segundo o Coiote

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer - Origens Volume 5: Histórias Raras




Histórias Raras introduz uma pausa na história principal que o roteirista Jamie Delano vinha tecendo desde a edição 1 da revista solo do mago mais trambiqueiro da Vertigo; após a inédita (no Brasil) edição anual de Hellblazer e o primeiro capítulo da próxima grande saga de Constantine - O Homem de Família -, Delano tira uma breve folga  para reorganizar as ideias e é substituído temporariamente por ninguém menos do que Neil Gaiman (Sandman) e Grant Morrison (Homem Animal), dois gênios das HQs que dispensam apresentações. Os artistas que participam desta sobra são David Lloyd, Ron Tiner, Bryan Talbot e Dave McKean, que ilustra a edição roteirizada por Neil Gaiman. Para quem não sabe, Dave McKean é o artista por trás das capas de Hellblazer e Sandman, e também trabalhou com Morrison ilustrando a famosa Graphic Novel do Batman Asilo Arkham: Uma Séria Casa em um Sério Mundo.
 
Hellblazer Anual 1 nos mostra Constantine saindo do sanatório Ravenscar e voltando para a velha Londres, onde tem um encontro com uma misteriosa mulher de cabelos negros. É importante reparar que Ravenscar, mais precisamente o local onde o hospício foi construído, está profundamente ligado a Constantine e à história de sua família, como nos mostra o conto O Santo Sanguinolento. Nele conhecemos um antigo ancestral do mago: Kon-Sten-Tyn, que foi pupilo de Merlin e substituto de Arthur Pendragon como rei da Dumonia (no século XI a Inglaterra ainda não era um único país, sendo dividida em vários reinos). Ravenscar era sua Camelot, e a vida de Kon-Sten-Tyn foi marcada pela longa batalha entre o paganismo e o cristianismo. Seu ódio pelos cristãos era tamanho que ele chegou a oferecer a vida de dois filhos para a Deusa (pelas descrições pode-se supor que a divindade adorada por Kon-Sten-Tyn era a deusa neopagã Ceridwen) a fim de obter mais tempo de vida para se dedicar a esta causa.

Em determinado momento Merlin diz uma frase que resume bem a vida de Kon-Sten-Tyn: “Ravenscar não passa de uma toca inútil, um covil cercado que oferece abrigo vão às bestas do anacronismo. (...) O seu reinado chegou com cinco séculos de atraso.” Kon-Sten-Tyn estava lutando inutilmente contra um poder o qual ele não poderia jamais vencer; ele não percebia que o mundo estava mudando e que, para não ser engolido pelo esquecimento, precisava se adaptar. Este é um conceito interessante, pois pode ser aplicado em diversas situações da vida humana. Muitas pessoas ficam presas às regras e costumes de determinada época, e suas mentes não evoluem junto com o mundo, de modo que não percebem as mudanças pelas quais ele passou.

Assim como o distante ancestral, Constantine também tem sua dose de anacronismo, que pode ser percebido em seu encontro com Martin Peters, antigo colega músico que atendia pelo nome de Destructo Vermin Gobsmack. Nas décadas de 60-70, Martin havia lutado contra o "sistema" junto com Constantine; mas enquanto o mago permaneceu fiel às suas ideias, Martin agora trabalhava para o governo, apoiando Margareth Tatcher e a guerra contra a Argentina pelas Ilhas Falklands. Este encontro leva à segunda parte deste anual: o videoclipe “Venus in the Hardsell”, ou Vênus do Varejo, como ficou traduzido aqui no Brasil o clipe do maior sucesso da banda punk de Constantine, a Membrana Mucosa.

Por que eu gastaria diversas linhas para falar sobre este clipe quando você mesmo pode assisti-lo, na interpretação da banda britânica Spiderlegs:


A participação de Jamie Delano neste encadernado se encerra com a abertura da saga O Homem de Família, na qual Constantine irá enfrentar um inimigo para o qual ele não está preparado: um homem comum. Comum no sentido de que ele não possui poderes sobrenaturais, embora o Homem de Família não possa ser considerado nem um pouco normal: ele é um serial killer! E não um serial killer qualquer, tampouco; ele é conhecido e reverenciado entre os próprios assassinos, chegando a ser mencionado na HQ Sandman, no arco Casa de Bonecas, onde é retratada uma convenção inédita entre assassinos seriais na qual o Homem de Família seria o convidado de honra.

Neste primeiro capítulo somos apresentados a este cruel e sádico assassino e seu modus operandi: o cara simplesmente gosta de assassinar famílias inteiras, de preferência aquelas aparentemente felizes, do tipo de comercial de margarina. A história parte do ponto em que parou no último volume, quando Constantine vai até a casa de um velho conhecido, Jerry O’Flyn, em busca de dinheiro, mas ele acaba descobrindo uma estranha ligação entre o excêntrico negociante e o Homem de Família, e meio sem querer acaba descobrindo a identidade do serial killer, e isso colocará a sua vida e de sua família em um perigo. No entanto, isto já é assunto para o próximo volume!

Constantine Descobre o Segredo de Jerry

As duas edições seguintes compõem um conto escrito pelo escocês Grant Morrison, no qual o mago visita uma velha amiga do sanatório Ravenscar numa pequena cidade inglesa chamada Thursdyke, onde os moradores resolvem organizar uma festa de Carnaval para esquecer dos problemas financeiros que a cidade vem passando. A história tem como tema principal a instalação de uma base nuclear nas proximidades da cidade, bem como o dilema moral enfrentado por seus habitantes: de um lado os riscos inerentes de se viver tão perto de uma base de mísseis nucleares americanos em solo britânico, de outro o tão esperado desenvolvimento econômico que a base poderia proporcionar para a cidade. Uma parte das habitantes é a favor da base, enquanto que outra é contra, e todas essas tensões afloram durante a tal festa de carnaval, que acaba se transformando em um verdadeiro show de horrores quando um cientista da base resolve testar um novo tipo de armamento: uma arma psíquica. Morrison se aproveita da mesma ideia utilizada por Delano em a Máquina do Medo, embora sua trama seja mais concisa e não se perca em meio a tantas reviravoltas desnecessárias.

Os desenhos pigmentados de David Lloyd casam perfeitamente com o clima da história, e Morrison consegue utilizar com eficiência o potencial da narrativa gráfica para impactar o leitor, fazendo uso de diversos recursos visuais, como as máscaras dos aldeões enlouquecidos (o pai descontente com a dedicação exclusiva da esposa ao bebê utiliza uma máscara grotesca de criança ao assassinar a mulher e o filho) e o mitra usado pelo padre da aldeia em formato de ogiva atômica. As três esferas da base de Flyindales estão sempre referenciadas na história, e podem ser vistas nas bolas de bilhar em uma mesa de sinuca e até nos três globos oculares que um homem arranca de seus cães de estimação usando um garfo. 

A Loucura Atinge os Cidadãos de Thusdyke

Histórias Raras se encerra com uma emocionante história de autoria de Neil Gaiman e desenhada com os traços surreais de Dave McKean, na qual descobrimos que nem todos os fantasmas são malignos; alguns simplesmente querem apenas... um abraço! Como todas as obras de Gaiman para a nona arte, é uma história que transcende o universo dos quadrinhos, possuindo uma elevada carga emocional, pois trata principalmente da forma como o ser humano trata um ao outro. A parte em que o mendigo simplesmente desaparece pois não tem ninguém para aquecê-lo no frio é uma triste metáfora para o isolamento que muitas pessoas se impõem frente à falta de empatia demonstrada pelas pessoas que as cercam, e como isso as faz definhar até o ponto de praticamente "desaparecer".


Um final digno para um excelente encadernado, cujo nível é bastante superior ao de seus antecessores, justamente por contar com as presenças ilustres e de peso de Morrison e Gaiman, que acrescentaram, cada um a sua maneira, uma visão própria a este incrível personagem que é John Constantine. Lembrando que esta obra foi publicada aqui no Brasil pela Panini Books em um encadernado com capa cartão e papel LWC,.

Boa leitura!

Capa do Volume 5