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domingo, 22 de abril de 2018

Batman: Cataclismo e Terra de Ningém



Não é fácil morar em Gotham City. Assolada por todo tipo de criminosos, desde gangues de traficantes a assassinos fantasiados mentalmente insanos, o lar do soturno vigilante conhecido como Batman já foi o marco zero de uma epidemia de ebola que quase dizimou a sua população. Como se isto não bastasse para obrigar até o mais corajoso cidadão a fazer as malas e se mandar para Metrópolis ou Central City, Gotham também foi o epicentro de um terremoto de 7.6 pontos na escala Richter que transformou a cidade em uma grande pilha de escombros e a mandou de volta à Idade das Pedras. 

Numa época em que o cinema catástrofe estava na moda (filmes como Volcano, Twister e Armageddom são apenas alguns exemplos), um time de roteiristas composto por Alan Grant, Doug Moench e Chuck Dixon resolveu trazer o tema para as páginas dos quadrinhos. Só havia um pequeno probleminha de ordem geológica com esta ideia: para quem não sabe, Gotham City supostamente estaria localizada na costa leste dos Estados Unidos, perto de Nova York e Washington, uma região do país em que terremotos não são nem um pouco comuns - eles costumam acontecer lá pelas bandas da costa oeste, tipo na Califórnia. Tal fato, porém, não impediu os distintos roteiristas de apostar na ideia de um grande terremoto atingindo a cidade do Cavaleiro das Trevas.

Cataclismo, como ficou conhecida esta saga, foi um grande crossover que se desenrolou nas páginas das revistas Batman, Detective Comics, Shadow of the Bat (A Sombra do Morcego), Asa Noturna, Azrael, Mulher Gato e Robin, nos meses de março e abril de 1998. Na primeira parte deste arco acompanhamos o mesmo evento - o terremoto - sob a ótica do Batman e seus afiliados. Enquanto o Homem Morcego precisa escapar da destruição da mansão Wayne e da Batcaverna, os outros membros da batfamília precisam fazer das tripas o coração para resgatar o maior número possível de civis dos desmoronamentos. A segunda parte é focada na busca por um "novo" vilão que alega ter sido o responsável pelo terremoto e ser capaz de provocar um segundo, caso suas exigências não sejam atendidas. Em um universo em que coexistem seres capazes de destruir toda uma cidade (ou até mesmo o planeta), ninguém duvida de tais alegações, e aqui vemos o Batman assumir o perfil de detetive para descobrir a identidade deste vilão. O final desta história só prova o quanto os criminosos de Gotham City são os mais criativos e ousados de todo o Universo DC. 



Capa da versão americana de Cataclismo

A arte de Cataclismo é bastante afetada pelo formato da série, em que artistas diferentes contribuem com os desenhos em cada edição. Isto gera uma falta de uniformidade que acaba afetando a qualidade da obra como um todo. A grande importância de Cataclismo, porém, foi ela ter sido o ponto de partida para a grandiosa maxissérie que conduziu o universo do Morcego dos tenebrosos anos 90 para os ares mais frescos do século 21: Terra de Ninguém

Nesta história, o governo dos EUA, influenciado pela opinião de que Gotham não valia o esforço de reconstrução devido ao seu extenso histórico de criminalidade e corrupção, decide abandonar a cidade e decretá-la "Terra de Ninguém". Em outras palavras, aqueles que decidiram ficar na cidade após o decreto foram entregues à própria sorte e perderam o direito à cidadania americana. As pontes que ligavam a cidade ao continente foram derrubadas, os túneis bloqueados, e uma força militar permanente foi posicionada em suas fronteiras para impedir qualquer um de entrar ou sair da cidade. Do lado de dentro de Gotham uma nova ordem social foi instaurada, na qual antigos valores e instituições não existiam mais. Num mundo em que "fósforos valem mais do que uma câmera", e a úncia lei que existe é a do mais forte, os gothamitas se dividiram em tribos, umas formadas por membros de gangues de rua, outras encabeçadas pelos mais proeminentes vilões da cidade, como o Pinguim e o Duas Caras, e outras ainda pelos antigos agentes da ordem: o ex-comissário de polícia James Gordon e seus "rapazes de azul", e o time do Morcego. 


Gotham City Dividida

A ideia por trás de Terra de Ninguém foi concebida pelo editor Jordan B. Gorfinkel, e levada à cabo por um seleto time de roteiristas, dentre os quais se destacaram Bob Gale, Scott Beatty, Devin K. Grayson e Greg Rucka. Foram cerca de 80 edições e mais de 2.000 páginas de histórias em quadrinhos publicadas durante todo o ano de 1999, compreendendo todo o período desde que Gotham foi decretada Terra de Ninguém até a reabertura de suas fronteiras. 

A história principal se desenrolou nas páginas dos quatro principais títulos do Morcego na época - Batman, Detective Comics, Shadow of the Bat e Legends of the Dark Knight -, e foi dividia em diversos arcos de histórias individuais e interligadas. Uma Nova Ordem Sem Lei, escrita por Bob Gale e  fantasticamente desenhada por Alex Maleev (Demolidor, fase do Bendis) nos apresenta a nova Gotham City, com todas as suas nuances políticas e divisões territoriais, através do relato de Barbara Gordon, a Oráculo. É nesta história que somos apresentados à nova Batgirl, posto que estava vago desde que Barbara fora aleijada pelo Coringa. Uma frase chama muito a atenção quando a heroína detém dois trombadinhas, e um deles a desdenha pelo fato dela ser mulher: 


"Se você fosse um valentão e apamnhasse de uma mulher, ia admitir? Ou ia dizer que foi um cara enorme com dois metros de altura, forte e com garras? Avisem seus amigos... enqunto tiver gente em Gotham, vai ter um MORCEGO."


A nova Batgirl

Uma das melhores coisas que aconteceram em Terra de Ninguém foi o protagonismo dado a James Gordon. O ex-Comissário de polícia tenta manter Gotham, ou pelo menos uma parte dela, civilizada, enquanto tudo ao seu redor desmorona em caos e barbárie. Para isso ele precisa tomar decisões difíceis - algumas até moralmente duvidosas -, como se aliar a um perigoso vilão para impedir que seu território seja engolido por inimigos. É o que vemos em Ligações Perigosas e A Marca de Cain, de Greg Rucka e Kelley Puckett, respectivamente. As cosias ficam ainda piores em Fruto da Terra, também de autoria de Rucka, quando Billy Pettit, um oficial intransigente e linha-dura, provoca um racha entre os "rapazes de Azul", deixando o território de Gordon ainda mais fragilizado.

Apesar de todos estes percalços, a tarefa mais difícil de Gordon, entretanto, é equilibrar sua posição como líder com sua relação amorosa com a policial Sarah Essen, a qual reprova sua teimosia em não aceitar a ajuda do Batman. Acontece que, após o terremoto, Batman havia deixado a cidade para tentar impedir que ela virasse uma Terra de Ninguém, utilizando-se da influência política de Bruce Wayne, e Gordon não perdoou o herói por acreditar que ele também havia abandonado a cidade em seu pior momento.

E falando no Cruzado de Capa, é muito divertido vê-lo tendo que se adaptar à nova geografia da cidade, bem como a suas novas manias sociais, como a identificação de territórios por meio de pichações. No início, ele tenta absorver para si a tarefa de tentar salvar a cidade do domínio dos vilões, como nos seus primeiros dias de combate ao crime, porém em determinado ponto e acaba percebendo que precisa de ajuda, e reúne mais uma vez a batfamília, que havia sido dispersada após o terremoto, delegando missões específicas a cauda um dos integrantes. Infelizmente, os arcos de histórias vividos pelos agentes do Morcego que servem de tie-ins para a trama principal são o grande ponto fraco desta saga, devido à baixa qualidade dos seus roteiros e desenhos. Acompanhar o Robin enfrentando o Caça-Ratos, Azrael lidando com um homicida dançarino de flamenco e o Asa Noturna tomando o controle de Blackgate das mãos do KGBesta torna-se totalmente desnecessário. Somente o arco da Mulher-Gato salva, e não por causa de sua qualidade, mas por estar diretamente ligado aos eventos finais de Terra de Ninguém. 


Legends of the Dark Knight #119 - Ligações Perigosas 1

Foi durante Terra de ninguém que a Arlequina, famosa parceira de crimes do Coringa, fez a sua estreia no universo regular da DC Comics. Criada pela talentosa dupla Paul Dinni e Bruce Timm exclusivamente para a série animada do Batman em 1992, a personagem caiu rapidamente na graça dos fãs, e no ano seguinte já apareceu nas páginas da revista The Batman Adventures, a qual não integrva a cronologia oficial do Morcego. Assim, em outubro de 1999, foi lançado o especial Batman: Arlequina, aquela com a famosa capa desenhada por Alex Ross que exibia o Coringa vestindo um smoking e dançando com a Arlequina. Esta história, além de narrar a origem da vilã, também explica a ligação dela com a Hera Venenosa, que mais tarde viria a ser explorada na HQ Sereias de Gotham

Uma das coisas que fica claro nesta primeira aparição da Arlequina, e nas que viriam a seguir, é a natureza abusiva do seu relacionamento com o Palhaço do Crime, o qual, a despeito de toda a devoção da moça, a trata com extrema violência, tanto verbal como física. Foi principalmente esta relação que David Ayer falhou em mostrar em seu Esquadrão Suicida, preferindo mostrar os dois vilões como um casalzinho apaixonado.



Capa do Especial Batman - Arlequina


Conforme a saga vai rumando para sua épica (e trágica) conclusão, no arco Fim de Jogo, o ritmo das histórias começa a ficar mais frenético. Batman e Gordon, obviamente, voltam a se tornar aliados, proporcionando a incrível cena em que o herói tenta mais uma vez revelar a sua identidade secreta para o policial, que se recusa a encará-lo sem o capuz. Aqui fica revelado o que todos nós já suspeitamos há tempos: que ele já sabe quem o Batman é por trás da máscara desde a saga Ano Um, porém esta informação nunca foi importante para ele.

É perto do final que Lex Luthor aparece como o grande "salvador" de Gotham, ao apoiar a revogação da lei que transformou a cidade em uma Terra de Ninguém. Suas reais intenções, porém, se revelam nem um pouco altruístas: seu objetivo era se tornar dono de grande parte das propriedades de Gotham, por meio de aquisições fraudulentas. É claro que seu plano acaba sendo exposto pelo Batman, porém a popularidade que ele angariou como bem-feitor da cidade acabou levando-o posteriormente a se eleger presidente dos Estados Unidos da América. 

Mas quem verdadeiramente brilha no final de Terra de Ninguém é o Coringa. Quando tudo parecia estar se encaminhando para uma solução satisfatória o vilão executa sua cartada final, sequestrando todos os bebês nascidos na cidade durante o último ano. Apesar de ter seu plano desbaratado, ele inflige outra tragédia na vida de James Gordon, atingindo outra pessoa de sua família. O confronto final entre Gordon e o Coringa traz a melhor cena deste arco, sem sombra de dúvida. O ex-comissário tem a chance de acabar de uma vez por todas com o vilão, mas opta por não fazê-lo, e ao invés disso dispara contra o joelho do Coringa, que, mesmo em meio à dor, faz piada com a ironia da situação: a de que ele provavelmente não andaria mais, assim como a filha de Gordon (numa referência aos eventos de A Piada Mortal).


Batman Revela sua Identidade Secreta

Seja por seu tamanho exagerado, que intimida a maioria dos leitores, ou por ser fruto da esquecível década de 90, Terra de Ninguém é uma fase que poucos fãs de do Batman conhecem, e por isso mesmo muitos deles desconhecem seu enorme legado. O jogo Batman - Arkham City, o filme Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, de Christopher Nolan, e a saga Ano Zero, escrita por Scott Snyder durante a ase dos Novos 52, se inspiraram claramente em diversos elementos de Terra de Ninguém. Ainda assim, foi um período de grandes acontecimentos para a cronologia do Batman, e uma das passagens mais divertidas da trajetória do herói dos quadrinhos.

Batman: Terra de Ninguém ficou muito tempo longe das prateleiras, até recentemente, quando foi republicada no Brasil pela editora Eaglemoss, em uma coleção especial em seis volumes de capa dura, incluindo a saga Cataclismo. Esta edição traz todo o run principal da saga, porém deixa de fora o especial da Arlequina, que foi publicado separadamente pela Panini Comics. Boa leitura!


Batman - Terra de Ninguém (Eaglemoss)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

RESENHA | Justiça


Muitos de nós, fãs incondicionais de quadrinhos de super heróis, crescemos assistindo àquele famoso desenho animado dos Superamigos, da Hanna-Barbera, que trazia os mais importantes personagens da DC Comics em sua versão animada (se você foi um dos que assistiram este desenho, saiba, meu amigo, que está ficando velho!). Muitos de nós, aliás, tivemos nosso primeiro contato com personagens como Batman, Superman e Mulher Maravilha através desta animação. Havia uma temporada deste desenho - intitulada O Desafio dos Superamigos -, em que os super heróis enfrentavam uma sinistra equipe formada por alguns dos maiores super vilões da DC Comics da época: a Legião do Mal. Foi desta série que veio a inspiração para a criação de Justiça, uma maxi-série em 12 edições concebida pela lenda viva da nona arte Alex Ross (Marvels, Reino do Amanhã, Terra X), com roteiros de Jim Krueger (Terra X) e lápis de Doug Braithwaite.

Legião do Mal - Alex Ross (acima) / Superamigos (abaixo)

Se existe um motivo básico para ler esta história, sem sombra de dúvida é a fabulosa arte de Alex Ross. Cada quadro do artista é, literalmente, uma pintura, que impressiona por sua aparência realística, apesar da caracterização clássica dos personagens (não é mistério para ninguém que Alex Ross é um entusiasta do estilo clássico da Era de Prata dos quadrinhos). Somente ele para desenhar um Superman ultrarrealista vestindo seu famoso uniforme azul, amarelo e vermelho, e com a cueca por cima da calça! E o que dizer das splash pages mostrando, nos mínimos detalhes, épicas cenas de batalha entre diversos heróis e vilões da DC: um verdadeiro prato cheio para os fãs de histórias de super heróis em sua forma mais clássica! No entanto, seria injusto atribuir todo o crédito da arte apenas a Alex Ross, já que nesta nesta Graphic Novel em particular ele colaborou com o desenhista britânico Doug Braithwaite, o qual forneceu os esboços a lápis sobre os quais Ross pintou. Felizmente, o estilo do traço de Braithwaite é bastante parecido com o de Alex Ross, de modo que o resultado foi um verdadeiro amálgama da arte de ambos.

Superman, por Alex Ross

Mas não é só por causa da belíssima arte que vale a pena ler Justiça: o roteiro de Jim Krueger também tem seus méritos. A premissa básica de Justiça é bastante interessante: e se os maiores super vilões do planeta decidissem empregar seus dons, normalmente utilizados em crimes mesquinhos ou em planos de dominação mundial, para resolver os problemas da humanidade? É justamente isto que acontece no primeiro ato de Justiça: motivados por um pesadelo compartilhado, no qual a Liga da Justiça falha em salvar o mundo de um Armagedom nuclear, os vilões decidem se unir e fazer aquilo que os maiores heróis do planeta não se dispuseram a fazer até então: curar doenças, resolver o problema da fome, transformar desertos em florestas, enfim, melhorar a vida dos humanos comuns. A grande questão é: será que todos estes atos são genuinamente altruístas, ou há algum plano maligno por trás de tudo? Pois, ao mesmo tempo em que anunciam seu plano de salvação para o planeta, os vilões lançam um ataque orquestrado e avassalador contra a Liga da Justiça, inutilizando seus membros mais poderosos.

Ataque à Mulher Maravilha

Um ponto negativo do enredo de Justiça é justamente o fato de o conceito principal da trama não ser desenvolvido ao longo da história, que embarca em uma linha mais voltada para o embate clássico entre heróis e vilões. Além disso, falta coragem quando nenhum dos heróis derrubados sofre qualquer dano permanente, mesmo o Aquaman, que tem um pedaço do cérebro cirurgicamente removido por Brainiac. Mesmo a questão das identidades civis dos membros da Liga da Justiça, descobertas durante o ataque da Legião do Mal, é resolvida de maneira simples e rápida, para que, ao final, o status quo dos heróis continue o mesmo de antes. Ao final de Justiça, absolutamente nada muda para os heróis, a não ser o conhecimento de que eles não são, afinal, invencíveis. Mas esta é, por si só, a essência da Era de Prata: de que, apesar de tudo parecer que irá dar errado no começo, os verdadeiros heróis encontrarão as forças para dar a volta por cima e fazer com que tudo volte ao normal.

A conclusão da história é nada menos do que épica, e faz jus ao título que Alex Ross originalmente usaria: Vs (Versus). É herói contra vilão, ou melhor, em alguns casos, chega a ser herói contra herói, já que os vilões voltam os pupilos dos membros da Liga da Justiça contra seus antigos mentores. Numa batalha que toma grande parte das três últimas edições, vários heróis da DC Comics tomam parte do conflito: além da Liga e dos Jovens Titãs, temos a Patrulha do Destino, os Homens Metálicos e a Família Marvel (não, não estou falando dos Vingadores!). Sendo esta uma história com o dedo de Alex Ross, um personagem que ganha bastante destaque é o Capitão Marvel, que tem diversas cenas excelentes ao lado do Superman.

O Capitão Marvel

Apesar do grande número de personagens, o roteirista soube onde colocar cada um deles e empregar seus poderes com bastante eficiência, até mesmo personagens secundários como o Homem Elástico ou os Homens Metálicos. E por falar nos coloridos robôs do Dr. Magnus, não se pode concluir uma resenha de Justiça sem falar nas controversas armaduras usadas pelos heróis da Liga da Justiça no confronto final com a Legião do Mal. Alex Ross nunca escondeu que o preço para publicar Justiça foi criar uma linha de personagens que a DC pudesse utilizar para vender bonecos. Esta não foi a primeira vez que uma editora fez isso, tampouco a última; contudo, Krueger insere a necessidade das armaduras de forma bem natural e coerente em seu roteiro, de modo que o novo visual não causa nenhum problema à história em si, a não ser por ter tirado o glamour das cenas finais, que teriam sido muito melhores com os heróis em seus trajes clássicos.

A Liga da Justiça com suas Armaduras

Não ouso dizer que Justiça seja um clássico, um divisor de águas para o gênero, uma obra-prima dos quadrinhos; porém ela é uma excelente pedida para quem gosta de uma boa história de super heróis, repleta de ação, planos mirabolantes, reviravoltas e dezenas dos personagens mais clássicos da Editora das Lendas lutando entre si, tudo isso retratado com uma arte soberba. Justiça é uma homenagem a uma era dos quadrinhos em que as coisas eram mais simples e ingenuamente otimistas, quando os enredos ainda não haviam sido contaminados pelo cinismo da década de 80. Enfim, Justiça é uma carta de amor escrita e desenhada por um grande fã para outros fãs.

E se o amigo leitor estiver se perguntando como fazer para ler esta HQ, existem algumas opções: a primeira é ler as edições individuais que foram publicadas pela Panini na época do lançamento, e que com sorte podem ser encontradas no Mercado Livre; a segunda, e mais indicada, é adquirir a Edição Definitiva lançada por esta mesma editora no Brasil, uma versão de luxo lindíssima publicada em tamanho grande, maior que o formato americano (mais comumente utilizado pela Panini). O problema desta edição é que, assim como todas as edições definitivas publicadas pela Panini, ela se esgota muito rápido nos sites de venda, então não é nada fácil encontrá-la à venda. Mas não perca a esperança: por último há a versão da Eaglemoss, que saiu na coleção de Graphic Novels da DC da editora inglesa nos números #27 e #28, e que podem ser encontrados facilmente no site da editora. Boa leitura!

Capa da Edição Definitiva de Justiça

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

RESENHA | Lendas


Superman, Batman, Mulher Maravilha, Flash... não é à toa que a DC Comics é conhecida como a editora das Lendas: seus personagens estão por aí há mais de 75 anos, povoando o imaginário popular, e fizeram parte da infância de milhões de pessoas mundo afora. Além dos quadrinhos, eles estão nos desenhos animados, nos filmes, nas figuras de ação, colecionáveis, mochilas e camisetas. É este conceito de "lenda" que os roteiristas John Ostrander e Len Wein utilizam na minissérie Lendas, primeiro grande crossover com os heróis da DC após a Crise nas Infinitas Terras, e publicada nos EUA de novembro de 1986 a abril de 1987. A poeira ainda estava baixando após o grande reboot que redefiniu a origem das maiores heróis da DC, e agora era preciso forjar novas lendas e estabelecer as já existentes, dentre as quais a principal equipe de super heróis da editora: a Liga da Justiça. A arte de Lendas ficou a cargo do talentosíssimo John Byrne, famoso roteirista/desenhista por trás de uma das melhores fases dos X-Men nos quadrinhos e por ter reformulado a origem do Superman. 

Como vilão para este arco foi escolhido Darkseid, que é talvez o vilão mais imponente da DC Comics. Desta vez os planos do soberano de Apokolips não incluem uma invasão em larga escala ao planeta Terra; seu estratagema é muito mais sutil: ele pretende destruir a imagem dos super heróis, fazendo com que eles sejam odiados pela população que um dia juraram proteger. Para este intento, ele envia para a Terra seu servo Glorioso Godfrey, o qual, disfarçado de líder fanático, incita a população através de discursos inflamados na TV contra os heróis fantasiados, e influenciando o presidente dos EUA a promulgar um ato institucional proibindo os vigilantes mascarados. 

Darseid Dialoga com o Vingador Fantasma

Ao contrário de outras HQs publicadas na época (Watchmen, O Cavaleiro das Trevas), Lendas possui um tom mais otimista e esperançoso, tentando resgatar o verdadeiro ideal super heroico. Em alguns momentos o roteiro chega até a soar um pouco ingênio - principalmente no final, quando os heróis são salvos pelas crianças, os únicos a ainda acreditarem nos super heróis. Não há muito espaço para desenvolvimento de personagens: tirando o esquentadinho Guy Gardner - que faz as vezes de Lanterna Verde oficial da Terra na ausência de Hal Jordan -, todos os demais super heróis são extremamente nobres e honrados, não ostentando nenhum defeito que os aproximem dos meros mortais. 

O Esquadrão Suicida

Como já foi mencionado anteriormente, Lendas não só estabeleceu alguns ícones da editora, como também produziu novas lendas para a posteridade. Uma delas foi o surgimento da Força-Tarefa X, também conhecida como Esquadrão Suicida. O grupo original era composto pelo coronel Rick Flag, o Pistoleiro, Magia, Capitão Bumerangue, Tigre de Bronze e Arrasa-Quarteirão, e respondia diretamente a Amanda Waller, que fez sua estreia nas páginas de Lendas. Desde então ela já era uma das mulheres mais badass dos quadrinhos; apesar de não possuir nenhum superpoder, apenas com seu gênio forte e métodos nem um pouco ortodoxos ela consegue dominar os mais perigosos supervilões da editora, e superar todo tipo de preconceito, tanto por ser uma mulher em posição de autoridade como por ser negra.

Primeira Aparição de Amanda Waller

Apesar de não ser a HQ de origem da Liga da Justiça - nas páginas de Lendas a equipe já existia, com a antiga formação do período pré-Crise (Caçador de Marte, Nuclear, Vibro, Cigana, Homem Elástico, Gládio e Vixen) -, Lendas foi responsável por revitalizar a Liga ao introduzir uma nova formação para o famoso supergrupo, novamente com personagens mais clássicos. Outros heróis, que não ocupavam uma posição de destaque havia muitos anos, também foram introduzidos na equipe, como o Capitão Marvel (atualmente Shazam), o Senhor Destino (responsável por juntar os heróis) e o Bezouro Azul (herói da extinta Charlton Comics).

A minissérie Lendas foi publicada pela Panini Comics na série Grandes Clássicos DC e mais recentemente na excelente coleção Lendas do Universo DC - Darkseid. Esta segunda edição está bastante caprichada, embora seja de capa cartão e papel off-set, é uma edição muito bonita e compensa bastante pelo preço. Boa leitura!

Capa de Lendas do Universo DC - Darkseid

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

RESENHA | Watchmen



Como seria o nosso mundo se os super heróis existissem de verdade? O que a presença de um ser dotado de poderes verdadeiramente autênticos e ilimitados representaria para o equilíbrio de poder entre as nações? Como o vigilantismo seria encarado pela população das grandes cidades? Que tipo de pessoa se arriscaria a sair todas as noites para lutar contra criminosos vestindo uma fantasia? Na aclamada Graphic Novel Watchmen, publicada entre setembro de 1986 e agosto de 1987 pela DC Comics, Alan Moore e Dave Gibbons se propõem a responder a essas e outras perguntas, num enredo cínico e pessimista que parodia o gênero dos super heróis e desconstrói diversos conceitos sobre o quais ele se estabeleceu desde os anos 1940.

Inicialmente Alan Moore pretendia utilizar os heróis da Charlton Comics, cujos personagens haviam sido incorporados pela DC Comics após sua falência, porém a editora tinha outros planos para o Capitão Átomo, o Besouro Azul e o Questão, de modo que Alan Moore e Dave Gibbons tiveram que conceber personagens totalmente novos para povoar o universo de Watchmen. Tanto melhor. O mundo em que esta história se passa também era completamente independente da continuidade regular da editora, o que deu bastante liberdade para Alan Moore contar sua história sem se preocupar com possíveis repercussões na continuidade do Universo DC. Apesar de muito parecido com o nosso, o mundo de Watchmen possuía algumas diferenças cruciais, provocadas pela presença dos heróis fantasiados. Por exemplo, graças ao Dr. Manhattan os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Richard Nixon permaneceu como presidente até os anos 1980.

Moore estabeleceu uma mitologia própria para os super heróis que povoavam aquele universo, estabelecendo que existiram duas gerações distintas de heróis: a primeira, nascida nos anos 1940, marcou a alvorada dos "aventureiros mascarados", os quais mais tarde de juntaram e formaram os "Homens-Minuto"; já a segunda geração surgiu durante a década de 60, em meio a todas as grandes mudanças sociais pelas quais os EUA estavam passando, e acabou sendo forçada a se aposentar após a sanção de uma lei que tornava ilegais os vigilantes. No entanto, alguns desses heróis continuaram na ativa, como o Comediante e o Dr. Manhattan, que trabalhavam para o governo, e o psicótico Rorschach, que mesmo procurado pela polícia continuou em sua cruzada contra o crime.

Os Minute-Man (acima) e os Combatentes
do Crime (abaixo)

A trama principal de Watchmen começa com o assassinato do herói conhecido como Comediante, embora "herói" não seja o termo mais adequado para definir uma figura tão polêmica como Edward "Eddie" Blake. Conhecido por um cinismo constante com relação à sociedade e uma postura quase sempre violenta, ele não possui muitos amigos, e apenas o vigilante Rorschach se interessa em conduzir uma investigação sobre sua morte. Esta investigação o arrasta para dentro de uma conspiração política que planeja destruir o mundo em um holocausto nuclear provocado pela guerra entre os EUA e a URSS, mas para que este plano tenha sucesso, a ameaça dos heróis remanescentes precisa ser removida, principalmente o todo-poderoso Dr. Manhattan, que é manipulado psicologicamente para deixar a Terra e abrir caminho para a escalada armamentista russa. Além de Rorschach, outros dois heróis aposentados são forçados a voltar à ativa: Coruja e Espectral. Ambos haviam pendurado os uniformes por vontade própria, o primeiro por considerar que seu período como vigilante não passou de uma fantasia ridícula de adolescente que se prolongou até a vida adulta, e a segunda como uma forma de se recusar a seguir o caminho imposto pela mãe, a primeira Espectral. 

Apesar do excelente roteiro, o que mais chama a atenção em Watchmen é sua narrativa gráfica. A HQ é um verdadeiro laboratório onde Alan Moore e Dave Gibbons experimentaram diversas técnicas narrativas de vanguarda, como metalinguagem, fractais, simbolismos e conceitos filosóficos. Texto e desenhos de conversam entre si e se complementam em uma narrativa coesa e inteligente. A arte de Dave Gibbons é repleta de detalhes, cada um deles dotado de um significado importante para a trama. Sejam as inúmeras referências ao perfume "Nostalgia" ou à empresa de fechaduras "Gordian Knot", a história é repleta de simbolismos que remetem a ideias centrais para o enredo. Watchmen ainda conta com uma trama paralela, uma espécie de história dentro da história, chamada Contos do Cargueiro Negro, a qual, de início, parece deslocada em sem sentido para a trama principal, mas quando se analisa a conclusão de ambas, percebe-se que na verdade as duas contam a mesma história. 

A estrutura gráfica de Watchmen também e outro aspecto interessante da Graphic Novel. Gibbons utilizou um padrão de nove quadros por página que se repete em todas as edições, com pequenas variações para permitir quadros maiores. Na edição #5, intitulada Terrível Simetria, em apologia a Rorschach, vemos a aplicação deste padrão levada ao extremo. Se o leitor prestar bastante atenção perceberá que a disposição dos quadros da primeira metade desta edição é "refletida" na segunda metade, formando um impressionante padrão simétrico. O exato centro deste padrão ocorre entre as páginas 14 e 15, e a partir daí, a página 16 reflete a página 13, a 17 a 12 e daí por diante. Imagine a dificuldade para se executar tamanha tarefa, e ainda por cima com todas as limitações de prazo impostas pela editora!

A "Terrível Simetria" 

A conclusão de Watchmen é arrebatadora, e, apesar disso, agridoce. O mundo é salvo, porém ao custo da consciência dos heróis, que precisam esconder a terrível verdade por trás da conspiração do "matador de mascarados" para que a paz seja mantida. Não é um final fácil de ser digerido, porém é o único possível, um verdadeiro cheque-mate de roteiro.

Nem preciso dizer que Wachmen é uma HQ obrigatória para os verdadeiros fãs de quadrinhos. Ela é uma obra para se ler e reler diversas vezes, e a cada leitura pode-se descobrir um novo detalhe ou se maravilhar com a imponência de uma história que, apesar de ter sido produzida há mais de 30 anos, continua atual. Ela marcou a alvorada das HQ's voltadas para o público adulto, redefinindo o gênero das histórias em quadrinhos de super heróis ao abordar temas como política, sexualidade e violência, raramente vistos juntos em uma história de banda desenhada americana até então. 

Watchmen já foi adaptada para o cinema em 2009 no longa dirigido por Zack Snyder, e recentemente foi noticiado que ela será adaptada em uma série de TV produzida pela HBO. A própria DC Comics decidiu dar continuidade à história concebida por Alan Moore, incorporando-a ao seu universo regular com a vindoura saga Doomsday Clock. Mas nada disso se compara a ler o material original - aqui no Brasil esta história já foi publicada e republicada diversas vezes, e se eu pudesse indicar uma edição que eu considero perfeita, seria a Edição Definitiva da Panini Comics, a qual conta ainda com dezenas de páginas extras, incluindo as concepções iniciais de Alan Moore para os personagens da Charlton. Boa leitura!

Capa de Edição Definitiva de Watchmen

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

RESENHA | John Constantine, Hellblazer - Infernal Volume 2: Sangue Real


Quem acompanha a revista Hellblazer desde a fase capitaneada por Jamie Delano até as primeiras edições da fase Garth Ennis já percebeu que a vida de John Constantine não é um mar de rosas; na verdade, dizer isto seria até generosidade demais: a verdade é que a vida de John Constantine é uma m&rd@! Todos aqueles que se consideram seus amigos acabam morrendo, as mulheres que ele namora ou encontram o mesmo fim ou o abandonam, e toda vez que ele pensa que vai sossegar e viver o resto de sua vida em paz, alguma assombração, demônio ou entidade sobrenatural aparece para virar sua vida de ponta cabeça. Mas agora as coisas parecem finalmente estar se acertando. Ele se livrou de um câncer de pulmão, colocou o Primeiro dos Caídos em cheque-mate e de quebra ganhou o coração da bela irlandesa Kit Ryan. Pelo menos por algumas edições, Constantine está feliz.

Na trama principal deste encadernado - o segundo volume da coleção da Panini Comics que compila toda a fase de Garth Ennis à frente da revista Hellbalzer - um importante membro da família real britânica é possuído por um demônio chamado Calibraxis, e começa a assassinar pessoas aleatoriamente e de forma brutal. Por razões legais óbvias, em nenhum momento o nome do personagem é revelado, mas pelas pistas deixadas pelo autor trata-se do príncipe Charles. Para quem não vive no Reino Unido ou não é fã de carteirinha da prole da Rainha Elisabeth II, fica meio difícil pescar as referências, porém com um pouco de pesquisa dá para entender algumas coisas (segue aqui um pequeno guia da realeza londrina). Constantine é então chamado para resolver o caso e salvar a imagem do distinto príncipe, mas é claro que ele irá resolver tudo nos seus termos.

O Príncipe Possuído

Durante a investigação, Constantine acaba descobrindo uma informação chocante: o demônio que possuiu o príncipe é o mesmo que, um século atrás, deixou um rastro de sangue pela velha Londres ao possuir o corpo do assassino conhecido como Jack, o Estripador. A maioria das críticas na Internet sobre esta história a colocam em um patamar inferior aos outros arcos de Garth Ennis, e o principal motivo foi o autor dar uma versão simplista para a história do assassino serial mais famoso do mundo, principalmente se comparada à obra consagrada de Allan Moore sobre o tema, Do Inferno. Em primeiro lugar, é até covardia querer comparar uma história de Garth Ennis com um enredo escrito pelo mago dos quadrinhos, já que o estilo de ambos é muito diferente. Em segundo lugar, a referência a Jack, o Estripador é feita apenas para fisgar a atenção do leitor e nada mais; não tem nenhuma importância real para a trama, e se fosse omitida da história faria muito pouca diferença no resultado final. O único objetivo de Sangue Real é achincalhar com os governantes do Reino Unido, e por meio disso fazer uma crítica social. Isto o irlandês faz muito bem.

Deixando de lado as polêmicas, esta não é a melhor história de Garth Ennis, mas também não é a pior. Seu enredo é mediano, a conclusão do arco segue a mesma linha das histórias do maior mago e vigarista do mundo, com ele resolvendo o caso utilizando mais astúcia do que magia propriamente dita. Já a explicação das circunstâncias da possessão do príncipe e as motivações do verdadeiro vilão da história deixaram um pouco a desejar.

Esta obra possui alguns marcos dignos de nota. Foi nela que Constantine e Kit Ryan começaram a morar juntos, sob a condição de que J. C. não a envolveria em seus problemas místicos (alguém aqui ainda acha que isso não vai acontecer?). O personagem Nigel Archer, um jornalista revolucionário de esquerda com poderes sobrenaturais e que constantemente se envolve nas tramas de Constantine, é introduzido neste arco. E na edição #52 o ilustrador Glenn Fabry fez a sua estreia desenhando as capas de Hellblazer, numa relação que perdurou por dezenas de edições.

Capa da Edição #52, por Glenn Fabry

Se a trama principal não agrada a todos os gostos, uma coisa é incontestável: é nas histórias curtas que este encadernado realmente brilha. Logo na primeira edição somos apresentados ao "Senhor da Dança", o espírito (irlandês, é claro) da farra. Ele está deprimido porque acredita que desde a chegada do cristianismo os homens pararam comemorar sua data (por acaso, o Natal) como antes, em meio a banquetes, danças, surubas, etc, mas Constantine mostra para ele que nem tudo está perdido, e que o espírito irlandês ainda está muito vivo em alguns lugares. Foi nesta edição que o desenhista Steve Dillon fez sua estreia em Hellblazer.

A edição seguinte é talvez a melhor deste volume. Nela somos apresentados ao Rei dos Vampiros, que pretende transformar Constantine num bebedor de sangue. Ela é a melhor história deste encadernado simplesmente pela sua conclusão, bem a la Constantine, que pode ser comparada à conclusão do arco Hábitos Perigosos, já que ele derrota o Rei dos Vampiros utilizando toda sua malandragem e astúcia, escapando ileso de ser devorado vivo por um bando de mortos-vivos. E possível notar que Garth Ennis faz algumas referências à Brigada dos Encapotados, um grupo de magos e ocultistas que se reune pela primeira vez na HQ Os Livros da Magia, escrita por Neil Gayman em 1991.

A terceira e última edição curta é Conte até 10, uma espécie de horror psicológico protagonizado por Constantine, e que se passa dentro de uma lavanderia à noite. Esta edição foi escrita por um tal de John Smith, um pseudônimo bastante comum utilizado por escritores ingleses que não querem ser reconhecidos em determinada obra, e se passa em um período não definido da cronologia do anti-herói. Em suma, é uma história tapa buraco.

John Constantine, Hellblazer -  Infernal Volume 2 reúne as edições #49 a #55 da revista Hellblazer, publicadas nos EUA em 1992, em um encadernado com capa cartão e papel  LWC, com roteiros de Garth Ennis e John Smith, e desenhos de William Simpson, Sean Philips e Steve Dillon.

Espero que tenham gostado desta resenha. Para acessar minhas análises dos outros volumes, clique aqui. Boa leitura! 

Capa de Hellblazer - Infernal Vol. 2

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

RESENHA | Os Supremos - Volume 1


A chegada do ano 2000 encontrou o mercado de quadrinhos em crise, devido às quedas sucessivas de vendas registradas nos anos anteriores, e a editora que mais sofreu com esta crise foi a Marvel Comics, que no final da década de 90 encontrava-se a beira da falência. Os motivos dessa crise foram vários: os leitores da época simplesmente se cansaram das imensas e complicadas sagas que dominavam as publicações dos anos 90 (como estamos falando da Marvel, cito como único exemplo a Saga do Clone do Homem Aranha), a ideia de personagens coloridos e com nomes espalhafatosos já não era mais tão atrativa, os roteiristas sofriam da falta de ideias originais, e imaginavam que apenas violência exagerada associada a traços absurdos seriam o suficiente para prender os leitores. Somando-se a estes fatores uma enorme bagagem cronológica que era necessário absorver para entender tudo que estava acontecendo com a miríade de super heróis que vovoavam as HQ's, chegou-se à fórmula perfeita para uma debandada de leitores para outras mídias. No meu caso, na época com 11-12 anos, os filmes das franquias Harry Potter e O Senhor dos Anéis, e animes como Dragon Ball Z eram muito mais interessantes do que quadrinhos.

Era consenso na Casa das Ideias que a solução para este problema passava por uma "volta às origens" de seus principais personagens, porém um reboot como o que a DC empreendera no final da década de 80 com a Crise nas Infinitas Terras estava fora de questão: um evento desta magnitude na Marvel poderia trazer mais problemas do que soluções; além disso, a própria Marvel já havia tentado algo parecido com o crossover Heróis Renascem, que se tornara um verdadeiro desastre e só piorara a situação da editora. Foi então que o advogado Bill Jemas propôs a criação de um novo selo, que mostraria os principais personagens da Marvel nos seus primeiros anos, mas com as histórias contextualizadas para o início do ano 2000. Esta foi a gênese do Universo Ultimate, que nasceu com a publicação de Homem Aranha Ultimate, escrita pelo então novato Brian Michael Bendis. Depois do Teioso, os X-Men também receberam uma versão Ultimate, mas ainda faltava entrar neste bolo os Heróis Mais Poderosos da Terra. Para escrever e desenhar a versão Ultimate dos Vingadores foram convocados Mark Millar e Bryan Hitch, que acabavam de encerrar sua passagem pela HQ Authority, da Wildstorm, e o que eles fizeram... bem, eles simplesmente presentearam os fãs de quadrinhos com uma das melhores obras da década de 2000!

Os Supremos

A tarefa de contar a história do primeiro encontro dos Vingadores não era nada fácil. Como juntar um grupo de heróis tão diferentes entre si em uma narrativa coerente e convincente, capaz de agradar aos exigentes leitores do Novo Milênio? Mark Millar manteve alguns dos elementos mais clássicos da história dos Vingadores, como o Capitão América ter permanecido congelado desde a 2ª Guerra Mundial, porém todo o resto foi alterado, e a organização de espionagem S.H.I.E.L.D. teve um papel central na reunião dos heróis, em especial Nick Fury, que no Universo Ultimate teve sua etnia alterada para se parecer com o ator Samuel L. Jackson (sim, o ator já estava escalado para viver o diretor da S.H.I.E.L.D. antes mesmo que o Universo Marvel nos Cinemas fosse criado!). Fury reúne os Vingadores, que aqui recebem o nome nada modesto de Os Supremos, como uma carta na manga dos governo dos EUA contra ameaças que as forças armadas comuns não fossem capaz de lidar (mutantes, seres humanos aprimorados, alienígenas, etc.). Millar aproveita o contexto histórico da época - as intervenções militares dos EUA no Oriente Médio após os atentados de 11 de Setembro - para introduzir a ideia das "pessoas de destruição em massa", uma nova modalidade de arma utilizada pelo Tio Sam para intimidar seus inimigos, e o autor não poupa críticas à política de guerra implementada por George W. Bush. 

Outro aspecto marcante do roteiro de Mark Millar são seus personagens. Uma das grandes diferenças entre os heróis da Marvel e da DC é que, enquanto na editora das Lendas seus heróis são quase deuses, fazem tudo certo e praticamente não têm defeitos, os heróis da Marvel são mais humanos, passam pelos mesmos problemas e dificuldades que as pessoas comuns, entretanto, mesmo para os padrões da Marvel os Supremos são humanizados ao extremo. O Capitão América é um homem de 80 anos preso no corpo de um jovem de 30, ultraconservador e que resolve aquilo que acha errado com os punhos; o Gigante e a Vespa possuem problemas sérios de relacionamento (uma das cenas mais polêmicas da HQ foi protagonizada pelo casal); o Hulk é um monstro no sentido mais literal, perverso, depravado e assassino; e Tony Stark... este continua sendo um bêbado, mas um bêbado divertido. Apesar das mudanças citadas, estes personagens mantiveram a essência de suas contrapartes do universo regular, o que não se pode falar do Thor. O Deus do Trovão foi o que sofreu alterações mais profundas em Os Supremos. Em nenhum momento da história fica claro se ele é de fato um deus ou apenas um hippie maluco com superpoderes (esta questão só seria respondida no segundo volume). Pelo menos ele continua sendo um dos personagens mais badass do supergrupo. 

O Hulk

A arte de Bryan Hitch é simplesmente sensacional, e casa perfeitamente com o roteiro de Mark Millar. Seus desenhos são bastante detalhistas, suas cenas de ação são nada menos que cinematográficas. Ele manda muito bem nas expressões faciais dos personagens que desenha, conseguindo transparecer os sentimentos de cada um, o que é muito bom para uma história que carece dos chamados balões de pensamento. Muitos personagens retratados na trama são baseados em pessoas reais, já que ele utilizou muitas fotografias para desenhar. O artista também pesquisou muito para que tudo soasse extremamente real, principalmente nas cenas que se passavam no período da 2ª Guerra. 

Não considero que Os Supremos tenham revolucionado o gênero das histórias de equipes de super heróis (esta HQ não faz nada que Watchmen ou The Authority não tenham feito: humanizar personagens, desconstruir o conceito do herói perfeito, mostrar os heróis sendo autoritários e violentos, etc.), mas foi uma HQ que elevou os principais heróis da Marvel a um novo patamar, e deixou um importante legado. O principal foi ter sido a semente para o Universo Cinematográfico da Marvel. Se você ler esta HQ e compará-la com o filme Os Vingadores, de 2012, perceberá que os roteiristas praticamente adaptaram o primeiro volume de Os Supremos no primeiro filme da franquia. E o motivo disso é bastante simples: o roteiro de Mark Millar é realista ao ponto de consideramos possível a existência de um grupo assim, mas também espalhafatoso como qualquer história de super-heróis.

Os Supremos - Volume 1 foi concebido como uma minissérie em 13 edições, e saiu na coleção de Graphic Novels de capa preta da Salvat em duas edições que compilaram os dois arcos da trama. Se você é um apenas um leitor que vai consumir esta história, se divertir com ela e depois seguir em frente, a coleção da Salvat está de bom tamanho. Mas se você for, além de leitor de quadrinhos, um colecionador exigente, que se preocupa com a qualidade e o acabamento do material, aí eu recomendo a Edição Definitiva da Panini, que está belíssima (e dependendo da promoção que você pegar sai até mais barato comprar a Edição Definitiva do que os dois volumes da Salvat).Seja qual for a sua escolha, saiba que terá em mãos uma HQ de qualidade, daqueles poucos tipos em que roteiro e arte se combinam para produzir uma verdadeira obra de arte. Boa leitura!

Capa da Edição Definitiva de Os Supremos Vol. 1

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

RESENHA | Batman: O Legado do Demônio


Gotham quase foi destruída por uma praga, se não fosse pela atuação do Cavaleiro das Trevas e seus ajudantes. No entanto, agora é a humanidade que corre perigo de extinção se uma praga ainda pior for liberada. O responsável, ou melhor, os responsáveis por esta nova epidemia são dois dos mais perigosos inimigos do Batman: Ra's al Ghul, líder supremo da organização criminosa internacional chamada Cabeça do Demônio, e Bane, um brutamontes com intelecto de gênio que ostenta o título de ter sido o único a quebrar o Morcego.

O Legado do Demônio foi um crossover publicado nas revistas Batman, Detective Comics, Shadow of the Bat, Catwoman e Robin, no ano de 1996, e foi uma continuação direta do arco Contágio. Como é característica dessas sagas que se espalham por vários títulos, diversos roteiristas e desenhistas colaboraram para esta história, mas neste caso quem mais se destacou foi o roteirista Chuck Dixon. Independentemente da qualidade de seus enredos, é impressionante a quantidade de títulos que ele capitaneou naquela época, todos ligados ao universo do Batman. Dos cinco títulos listados acima, ele esteve à frente de três. Já com relação à arte, nenhum nome desponta, mas isso já era esperado, já que a arte não costumava ser um dos pontos fortes dos quadrinhos publicados durante a década conhecida como a Idade das Trevas dos Quadrinhos. Os desenhos variam de ruim a regular, dependendo do título e do artista envolvido.

A Roda das Pragas

O roteiro, embora não proporcione nenhuma reviravolta impressionante ou traga uma ideia ousada ou revolucionária, cumpre bem sua função, que é divertir o leitor com uma boa história de aventura. A trama gira em torno da missão do Batman e seus dois principais discípulos, Robin e Asa Noturna, de impedir que os asseclas de Ra's al Ghul liberem um vírus mortal em 4 grandes cidades do mundo. O objetivo do vilão continua o mesmo: provocar a morte de grande parte da humanidade afim de tornar a vida no planeta sustentável, e garantir que sua descendência governe os que restarem. Só que desta vez ele escolheu outra pessoa para desposar sua filha Talia: o vilão Bane, que faz sua primeira aparição após o arco A Queda do Morcego.

Os roteiristas tentam resgatar o clima "Indiana Jones" dos primeiros encontros do Batman com Ra's al Ghul, com os espaços enclausurados e chuvosos da grande metrópole sendo substituídos por paisagens mais abertas e quentes dos desertos africanos. Até mesmo a cena do Batman lutando sem camisa (e de capuz!) travando uma batalha de espadas contra seu nêmese é reproduzida novamente na terceira edição do crossover, remetendo ao primeiro confronto entre os adversários lá em Batman #244, de 1972. Mas falta um pouco de bom senso aos roteiristas quando tentam empurrar goela abaixo dos leitores da virada do milênio, muito mais exigentes do que aqueles da década de 70, que uma civilização anterior a dos egípcios seria capaz de criar um dispositivo que manipulasse DNA para criar diversos tipos de vírus.

Bane

Batman: O Legado do Demônio com certeza não é um arco obrigatório nem um grande clássico do Homem Morcego, mas recomendo sua leitura para entender a cronologia de suas publicações. É o típico feijão com arroz do bem contra o mal, sem compromisso com arte ou roteiros inovadores, mas com a vantagem de ver o Batman e sua equipe enfrentarem dois dos vilões formidáveis de sua galeria. Esta história também funciona como a conclusão do arco Contágio, além de ter ganhado uma prequel em 4 edições intitulada Bane do Demônio, na qual Chuck Dixon narra como Bane e Ra's al Ghul se tornaram aliados. Boa leitura!  

Capa de Detective Comics #700

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

RESENHA | Batman: Silêncio


Batman: Silêncio (Hush) foi a principal saga do Cavaleiro das Trevas lançada no início dos anos 2000, entre os números 608 a 619 da revista Batman, da DC Comics. Esta maxissérie foi roteirizada por Jeph Loeb, que dispensa apresentações (Batman: O Longo Dia das Bruxas e Homem-Aranha Azul são apenas dois de seus trabalhos mais famosos), e desenhada por Jim Lee, aquele mesmo que nos anos 90 debandou da Marvel para fundar a Image Comics juntamente com outros artistas descontentes. A missão de Loeb não era nada fácil: levantar as vendas da revista do Morcegão após a ressaca que veio após a megassaga Terra de Ninguém nos anos 90, e uma sequência de histórias que variavam de medianas a ruins que vieram depois. O resultado foi uma Graphic Novel que figura entre as 10 melhores do Batman, de acordo com o site de entretenimento IGN.

O roteiro desta HQ tem a mesma estrutura de outros trabalhos do autor: trata-se basicamente de uma história de mistério, que, diga-se de passagem, é um dos talentos de Loeb. Há um novo vilão em Gotham City, chamado Silêncio, que está manipulando das sombras os principais vilões e aliados do Batman afim de atingi-lo, tanto física como psicologicamente. Um dos grandes problemas desta história, no entanto, é que na verdade não há mistério nenhum quanto à identidade de Silêncio, que desde as primeiras edições está na cara de quem se trata, e todas as tentativas de Loeb de dissuadir o leitor do contrário não passam de cortinas de fumaça e desculpas para inchar o roteiro desnecessariamente.

Silêncio

Apesar deste "pequeno" problema, ainda é possível dizer que Silêncio é uma boa história do Batman, e um dos motivos para afirmar isso é que nela vemos o Homem Morcego enfrentando quase toda sua Galeria de Vilões. Estão presentes na trama Coringa, Arlequina, Hera Venenosa, Charada, Ra's Al Ghul, Lady Shiva, Crocodilo, Espantalho, Cara de Barro e Duas Caras. Isso não é nenhuma surpresa, considerando que é uma marca registrada dos roteiros de Jeph Loeb o uso de tantos vilões em uma única trama. Ele já havia feito isso no passado também com o Batman e com o Homem Aranha, dois heróis com as mais formidáveis galerias de vilões dos quadrinhos. E um ponto positivo a ser destacado é que esses vilões não aparecem na trama à toa, cada um deles tem um papel muito bem definido pelo autor.

Além disso, Batman: Silêncio conta com um "bônus": o confronto entre o Cavaleiro das Trevas e o Homem de Aço. Qualquer autor que coloque os dois heróis para se enfrentar sempre sofrerá com a comparações com a luta escrita por Frank Miller em O Cavaleiro das Trevas, de modo que tem muita gente que torce o nariz para a luta que ocorre na edição #5 de Silêncio. De fato não é a melhor das lutas entre os dois heróis, mas até que gostei da conclusão da luta, especialmente a forma como o Batman encerra o combate (e não teve nada a ver com o nome das mães de ambos serem iguais!).

Batman vs Superman

Outra boa razão para ler Silêncio é que nela vemos novamente o Batman assumir o papel do Maior Detetive do Mundo. Ultimamente temos visto tanto o herói depender de tecnologia para realizar sua missão (da mesma forma como o Homem de Ferro da Marvel cada vez mais se transforma no Batman, o processo inverso também está acontecendo), que é um alívio quando finalmente o vemos empregar nada mais que suas habilidades mentais e táticas para solucionar um mistério. Neste contexto, ajuda muito o fato da história ser narrada pelo próprio Cruzado de Capa, através dos recordatórios, e eu já mencionei em outra resenha que Jeph Loeb tem um talento para usar este recurso dos quadrinhos como ninguém.

Através da narrativa de Bruce Wayne mergulhamos fundo em sua torturada psiquê, de modo que conseguimos enxergar o ser humano por baixo do capuz, um ser humano repleto de traumas e remorsos causados pelas várias tragédias pelas quais passou ao longo da carreira de vigilante. Estas tragédias o levaram a ser um homem solitário, pelo medo de que outras pessoas próximas a ele sofressem destinos parecidos com os de Barbara Gordon, Jason Todd e Sarah Essen (todos vítimas do Coringa, por sinal). Apesar disso, a Batfamília nunca parou de crescer, e Loeb defende a importância dos aliados do Morcego para que ele possa ser capaz de seguir em frente. Um destes aliados recebe atenção especial do autor sempre que ele passa pelas histórias do Batman: a Mulher Gato. Se em Vitória Sombria ela se afastou do Batman por perceber que ambos têm segredos demais para conseguirem ficar juntos, desta vez é o Homem Morcego quem baixa a guarda e revela à moça seu maior segredo, numa importante demonstração de confiança.

Batman e Mulher Gato 

Batman: Silêncio não é um grande clássico do Batman, o roteiro de Jeph Loeb é frágil e não sustenta a mesma qualidade de seus outros trabalhos, além de apresentar um vilão sem graça, porém rende uma boa diversão quando vemos o Batman lutar contra vários de seus principais inimigos, muito bem desenhados na arte incrível de Jim Lee e Scott Williams. Esta história deixou também um importante legado para a mitologia do Morcego: além de introduzir um novo vilão, ela aproximou ainda mais a Mulher Gato do herói (não por muito tempo), um importante vilão descobriu a identidade do Batman (não por muito tempo), o Duas Caras se regenerou (não por muito tempo) e também pavimentou o caminho para a volta de um importante personagem dos mortos.

Esta HQ foi lançada no Brasil em um encadernado de luxo pela Panini Comics (que infelizmente está esgotado há bastante tempo!) mas também pode ser encontrado na coleção de Graphic Novels DC da DC da Eaglemoss, em dois volumes. Boa leitura!

Capa do Encadernado Absolute Batman: Hush