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sexta-feira, 14 de abril de 2017

RESENHA | THOR: Em Nome do Pai



"Deuses e homens mortais compartilham uma qualidade. Para saber quem somos, devemos matar nossos pais. Para os mortais, isto é uma metáfora, um meio de dizer que você deve sair da sombra de seu pai e decidir quem você e sem buscar aprovação ou permissão. Mas para um deus, isto significa algo completamente diferente." - Odin

Se há uma constante nas aventuras de Thor, o Deus do Trovão da Marvel, é a relação conturbada que ele mantém com seu pai, Odin, o governante supremo de Asgard. Pai e filho sempre tiveram uma convivência difícil, marcada por discussões e desavenças. Embora Thor fosse o filho "predileto" de Odin, suas atitudes impetuosas volta e meia causavam problemas para o monarca, que chegou ao ponto de banir o próprio filho e obrigá-lo a viver entre os humanos como um reles mortal. Apesar de tudo, Odin sempre nutriu amor por sua prole, o que ficou provado quando ele se sacrificou para que Thor e Asgard continuassem vivos, pelo menos por um tempo. Então veio o Ragnarok, quando Thor liderou os deuses asgardianos em sua última batalha, na qual pereceram, e, anos depois, foi este mesmo Deus do Trovão quem os trouxe de volta à existência, com exceção de um: Odin. Neste segundo arco de histórias no comando dos roteiros da revista Thor, J. M. Straczynski se propõe a explicar por que Thor tomou a controversa decisão de não ressuscitar o próprio pai, revisitando o passado de Odin a fim de entender a natureza da relação entre ele e Thor. Além disso, o autor também se utiliza desta temática para revelar o verdadeiro motivo do Pai de Todos ter decidido adotar o filho de seu maior inimigo, e porque escondeu de todos o fato de Balder também ser seu filho, reconciliando assim a origem do personagem com sua contraparte mitológica.

A história começa logo após Thor ter trazido de volta à vida todos os asgardianos. Completamente exaurido, ele entra em uma espécie de câmara de descanso, que simula uma situação intermediária entre a vida e a morte, e finalmente descobre o paradeiro de Odin. Os dois travam um diálogo interessante, através do qual ficamos sabendo como era a relação entre Odin e seu pai, o deus Bor, bem como quais foram as circunstâncias da morte do avô de Thor e como isso se relacionou com a decisão de Thor de manter o pai esquecido. Este encontro é narrado nos dois primeiros capítulos deste arco, cujos desenhos ficaram a cabo do alemão Marko Djurdjevic, que conseguiu manter a qualidade da arte, embora não ostentando o mesmo estilo de Olivier Coipel.

Thor e Odin Juntos Conta Surtur

Straczynski tece uma trama intrincada, juntando aos poucos cada elemento individual do quebra cabeças, inclusive os acontecimentos do passado de Odin, para revelar o grandioso plano de Loki de finalmente derrotar o irmão. É impressionante o cuidado do roteirista com cada aspecto do estratagema, e para aqueles que gostam do tema viagem no tempo, esta história é um prato cheio, já que Loki manipula até mesmo eventos que já aconteceram para influenciar a decisão de alguns personagens. Retcons são sempre artifícios arriscados, e não são poucos os roteiristas que acabam errando a mão ao tentar reescrever a história de um personagem ou um determinado evento de sua cronologia, mas Straczynski cumpre bem esse desafio, apresentando um enredo que faz sentido e não soa forçado, e ainda por cima nos proporciona uma empolgante história de origem para o vilão Loki.

O personagem que mais se destaca, sem dúvida, é o Deus da Trapaça. Conforme visto no volume anterior, Loki retornou dos mortos num corpo de mulher. Ele (ou ela, sei lá) é de longe a personagem mais cativante desta HQ, principalmente devido a seu senso de humor cínico. Straczynski faz dela uma vilã fria, ardilosa e extremamente manipuladora - características que viriam a ecoar em sua representação no cinema por Tom Hiddleston. O motivo de sua encarnação feminina começa a ser revelado nesta história, e faz parte de uma importante subtrama envolvendo o par romântico de Thor, a Lady Sif, que, assim como Odin, não havia retornado dos mortos. Outro personagem que merece menção é Balder, conhecido por ser um grande amigo de Thor. Ele é um dos elementos-chave do plano de Loki, e, embora não confiando plenamente nele(a), acaba aceitando alguns de seus conselhos e entrando em seu jogo de manipulação.

Loki

O final concebido por Straczyski para este arco é trágico para o Deus do Trovão, que, mais uma vez, acaba sem o seu martelo, o Mjolnir, destruído na batalha contra Bor. Loki finalmente consegue realizar seu maior objetivo, e o mais impressionante é que ele(a) não precisa mover um músculo para tanto. Tudo é feito por outros, sem nem perceber que estavam fazendo a vontade do(a) deus(a). Todos estes eventos convergem para culminar no próximo grande arco do Thor, pois, como descobrimos no final, Loki estava agindo em conluio com outro grande vilão do Universo Marvel. Apesar de ter sua própria trama, basicamente girando em torno do tema paternidade e de mostrar o desenrolar do plano de Loki, Thor: Em Nome do Pai também funciona como um prelúdio para o evento Thor: O Cerco, que envolve outros personagens e equipes da Marvel.

Thor, Balder e Loki

Thor: Em Nome do Pai foi publicada nas edições #7-12 da revista Thor (Volume 3) e #600 do Volume 1 (no meio do jogo a Marvel resolveu reverter a revista Thor para sua numeração original, o que eu acho um péssimo hábito das editoras, pois tais decisões só servem para confundir a cabeça dos novos leitores), como sequência direta do arco Thor: O Renascer dos Deuses (veja aqui minha resenha sobre esta HQ). Felizmente existem os encadernados, e esta história foi publicada aqui no Brasil pela Panini na coleção Marvel Deluxe, num encadernado em capa dura de qualidade impecável. Com um enredo e uma arte de qualidade excepcional, considero esta obra um item obrigatório para os fãs do Thor, e uma excelente pedida para novos leitores interessados em acompanhar as aventuras do Deus do Trovão sem precisar revisitar a antiga cronologia. Dito isto, só me resta desejar: Boa Leitura!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

RESENHA | THOR: O Renascer dos Deuses



Todo fim é um novo começo. Para Thor, o Deus do Trovão esta frase não poderia fazer mais sentido!

Em 2004 a Marvel Comics resolveu que o herói já havia dado tudo que tinha que dar e que era hora do Vingador Nórdico hibernar, literalmente. E assim aconteceu o Ragnarok, quando não apenas Thor, mas todos os habitantes de Asgard e demais integrantes do universo mitológico do herói passaram para a inexistência. Mas o descanso durou pouco. Apenas três anos depois o roteirista J. Michael Straczynski recebeu a importante incumbência de ressuscitar Thor e seus companheiros, e, com a colaboração do talentoso artista francês Olivier Coipel (responsável pela arte de Dinastia M), o escritor cumpriu esta missão com grande estilo.

O retorno de Thor acontece sem grandes rodeios ou explicações mirabolantes. O cara é um deus, e, enquanto as pessoas "acreditarem" nele, ele não pode morrer (mais ou menos como em Deuses Americanos, livro de Neil Gaiman sobre a imigração dos deuses do Velho Mundo para a América). Além disso, ele não volta do "limbo" sozinho: junto em ele vem o médico Donald Blake, antigo alter-ego do herói, com quem volta a dividir o corpo. O retorno do Dr. Blake é justificado pela necessidade de uma interação de Thor com os humanos, já que a nova Asgard é erguida em pleno estado de Oklahoma, no meio oeste americano. Esta interação entre as figuras divinas e os humanos comuns é uma das coisas mais interessantes deste roteiro, embora eventualmente acabe caindo no velho clichê do romance proibido entre seres de naturezas diferentes. Como um dos objetivos desta história era não apenas ressuscitar Thor, mas revitalizá-lo para as próximas gerações, o artista Olivier Coipel aproveitou para realizar algumas mudanças na aparência do personagem, modernizando sua armadura, mas sem abandonar algumas de suas características clássicas. O Thor de Coipel também deixou de parecer um rockstar americano para assumir as feições brutas de um europeu nórdico.

Asgard

Sendo o primeiro deus a voltar, cabe a Thor a missão de ressuscitar os demais deuses. Estes estavam em estado "adormecido" dentro de corpos de outros seres humanos, e Thor precisa encontrá-los um a um e libertá-los. Com o controle de quem poderá voltar ou não, seu intento é trazer de volta apenas aqueles com menos probabilidades de lhe trazer problemas no futuro, mas é claro que os planos do herói são frustrados por Loki, o Deus da Trapaça, que acaba induzindo o irmão adotivo a libertar todos os deuses adormecidos. A nova versão de Lóki é um dos pontos altos do enredo, já que, por algum motivo o vilão retornou em um corpo feminino. Além da mudança física, ele - ou melhor, ela - alega ter retornado arrependida dos seus erros antigos e determinada a provar que é uma nova pessoa. Será que ela consegue enganar alguém?

Finalmente, também é preciso reintroduzir Thor no universo Marvel, e não há forma melhor do que mostrá-lo confrontando o Homem de Ferro. Só para contextualizar, durante o megaevento Guerra Civil, que dividiu todo o universo Marvel dos quadrinhos em dois lados - team Capitão vs. team Homem de Ferro -, a facção de Tony Stark utilizou um clone cibernético do Thor na batalha contra os partidários do Capitão América, no que acabou resultando em um dos momentos mais trágicos daquela história. Quando o verdadeiro Thor volta dos mortos, é claro que ele fica sabendo da história e resolve ensinar ao Homem de Ferro uma pequana lição sobre não profanar o DNA de um deus morto.

A "Nova" Loki

O arco de histórias que trata do retorno dos deuses à Terra foi publicado nas edições 1-6 da revista Thor (2007) e foi compilado em um encadernado de luxo pela Panini: Thor: O Renascer dos Deuses e também na coleção preta da Salvat. Esta HQ resgata um dos mais importantes personagens da Marvel para uma nova geração de leitores de quadrinhos, e vale a pena sua leitura tanto pelo enredo quanto pela arte impressionante de Coipel. Para quem deseja começar a ler as histórias do Thor e não sabe por onde começar, este é um ótimo ponto de partida, por iniciar uma nova fase na vida do herói pós-Ragnarok.

Boa leitura!

Thor Vs. Homem de Ferro

terça-feira, 14 de março de 2017

RESENHA | THOR: Ragnarok


Mitologia é um conceito bastante explorado no mundo dos quadrinhos, devido ao seu grande repertório de divindades, heróis e criaturas fantásticas. Há quem considere os heróis atuais versões modernas para os heróis da antiguidade, e se pararmos para pensar um pouco sobre o assunto constatamos que isto faz todo sentido. Na antiguidade o mito de divindades e heróis, os quais, assim como hoje, eram seres humanos com capacidades excepcionais, era disseminado através de histórias, muitas vezes contadas de forma oral, embora diversos registros escritos tenham sobrevivido ao passar dos séculos. A única diferença é que hoje há uma maior facilidade para a propagação dessas histórias, e diversos meios para fazê-lo: os quadrinhos são apenas um deles; outros meios são os livros, filmes, animes, etc. Talvez os exemplos mais icônicos da influência da mitologia nos quadrinhos sejam a Mulher Maravilha, na DC Comics, e o Thor, um dos principais super heróis da Marvel Comics. É sobre este último que eu gostaria de falar na resenha de hoje.

Na mitologia nórdica, Thor é o deus do trovão, filho de Odin, o "Pai de Todos". Ele é conhecido por empunhar o martelo Mjolnir, capaz de destruir montanhas. Sem que muitas pessoas saibam, este deus nórdico é reverenciado até os dias atuais, tendo seu nome associado ao terceiro dia da semana, que em inglês é Thursday (Dia de Thor!).  Em 1962 os roteiristas Stan Lee (aquele mesmo velhinho que costuma aparecer nas cenas pós créditos dos filmes da Marvel) e Larry Lieber, juntamente com o desenhista Jack Kirby (outra lenda das HQs) transportaram Thor do mito para os quadrinhos, transformando-o em um super herói com viés de divindade. Ele estreou nas páginas da 83ª edição da revista Jorney Into Mistery , na qual o deus do trovão trocava de corpo com o médico Donald Blake toda vez que este batia sua bengala de madeira no chão. Ele também seria um dos membros fundadores da superequipe Vingadores, à qual ele é filiado até os dias atuais. Stan Lee e Kirby foram responsáveis por ampliar e consolidar o universo de Thor nos quadrinhos, trazendo para as páginas da revista diversos elementos da mitologia nórdica, como Asgard, Odin, o irmão maléfico de Thor, Loki, Balder, Lady Sif, dentre outros. Muitos roteiristas os sucederiam, construindo sobre os alicerces que eles estabeleceram; alguns com êxito, como Walt Simonson, responsável por uma das fases mais adoradas pelos fãs; já outros não conseguiram lidar com este grande legado e entregaram histórias fracas. Foi justamente após um destes ciclos de histórias ruins, marcado por uma grande baixa das vendas da revista, que a Marvel decidiu cancelar de vez o título do Thor. Em 2004, pegando carona na saga A Queda, que marcou o fim (temporário) dos Vingadores, Michael Avon Oeming e Daniel Berman escreveram Thor: Ragnarok, uma história que tinha como objetivo dar um fim digno a Thor e a todos os habitantes de Asgard.

A Grande Batalha do Ragnarok

Ragnarok significa "O Crepúsculo dos Deuses" e é a versão nórdica para o Apocalipse cristão (inclusive alguns historiadores acreditam que o Ragnarok tenha sido inspirado na escatologia cristã). Ele possui algumas variações, mas basicamente trata-se de como ps inimigos dos deuses se aliam para situar Asgard. Os deuses são convocados para a batalha pela trombeta de Heimdall, e neste confronto quase todos perdem a vida: Odin tomba diante de Fenrir - um monstruoso lobo filho de Loki -, mas é vingado por seu filho Vidal; Thor cai após matar Jormungand, a grande serpente, também filha do deus da trapaça; e Heimdall e Loki matam um ao outro em batalha. No fim Surtur, rei dos gigantes de fogo, queima o mundo inteiro, mas a Terra ressurge após um tempo, e é repovoada pelos humanos e deuses sobreviventes. Este é o Ragnarok conforme a mitologia, porém Oeming e Berman aproveitaram poucos elementos dessas histórias.

A HQ começa mostrando o plano de Loki para finalmente destruir os deuses e governar Asrgard: ele se alia ao gigante de fogo Surtur e consegue replicar o Mjolnir. O deus da trapaça distribui essas novas armas para seus asseclas e faz um ataque avassalador a Thor e seus amigos. Com esta vantagem ele rapidamente espalha a destruição ao longo dos nove reinos, e finalmente consegue realizar seu maior intento. Apesar de ser uma das partes favoritas dos fãs, principalmente daqueles aficionados pela mitologia nórdica e pela cultura medieval, enfim, fãs de O Senhor dos Anéis, para mim esta primeira parte é uma das piores fases do arco. Tudo acontece muito rápido e sem muitas explicações. A conquista de Asgard não é nem sequer mostrada, nem a morte de Balder - estes acontecimentos, que renderiam ótimas imagens pelo lápis da desenhista Andrea Divito, são apenas mencionados em diálogos. Ao invés disso, os autores resolvem trazer os Vingadores para a história, de maneira gratuita e desnecessária, apenas para depois dispensá-los sem qualquer motivo concreto. A impressão que se tem é que eles somente apareceram para ajudar a dar uma turbinada nas vendas da HQ, através da associação do arco com a famosa equipe da Marvel. Outro ponto negativo é a grande quantidade de personagens: os autores resolveram homenagear cada personagem que já passou pela revista do deus viking e lhes dar algum tipo de conclusão, a exemplo do que Alan Moore fizera na despedida do Homem de Aço pré-crise. Isto acaba acarretando uma certa dificuldade de entendimento da história para aqueles que não conhecem a fundo a mitologia do Thor dos quadrinhos.

O Ataque de Loki

A trama começa a melhorar lá pelo final da quarta edição de Ragnarok, quando Thor decide trilhar o mesmo caminho que seu pai Odin seguira em busca de sabedoria. Neste ponto a história se aventura pela natureza mitológica do personagem, com sua viagem às raízes da árvore Yggdrasil, onde fica o Poço de Mimir, local em que ele precisa fazer um sacrifício ainda maior do que seu pai para obter o poder de impedir a ruína dos deuses. No entanto, a história sofre uma grande reviravolta, que muda completamente a perspectiva do herói acerca do Ragnarok: a real ameaça aos deuses é revelada, e Thor, que antes queria impedir o evento, agora precisa levá-lo à cabo até sue final.

Thor: Ragnarok é uma história bem mediana, com um roteiro vacilante, feito de bons e péssimos momentos. O que realmente salva nesta história é a arte de Andrea Divito. A artista italiana usa de abusa de splash pages, e seu estilo de desenho se encaixa perfeitamente na pegada fantástica que inspirou o roteiro de Oeming e Bernan. Basta reparar no Thor que ela desenha, mais Parecido com um guerreiro saído direto de um jogo de RPG.

Recomendo esta HQ apenas para título de curiosidade quanto a esta fase do herói, mas se o objetivo é tentar antecipar alguma coisa da trama do próximo filme do deus do trovão nos cinemas, que possui título homônimo a esta trama, já vou logo avisando que ela não foi inspiração para o roteiro do longa, o qual, pelo que tudo indica, bebe da fonte de histórias mais atuais do Thor, como O Indigno Thor, e também da saga Planeta Hulk. Boa leitura!