sexta-feira, 31 de março de 2017

RESENHA | Preacher #6: Guerra ao Sol





Garth Ennis e Steve Dillon voltam com tudo neste sexto volume de Preacher, uma das HQs mais violentas, bizarras e profanas lançadas na década de 90 pelo selo adulto Vertigo, da DC Comics. Nela acompanhamos as viagens do reverendo Jesse Custer - que divide o corpo com a entidade meio anjo, meio demônio chamada Gênesis, que lhe dá o poder da Palavra de Deus -, através do interior dos EUA, na companhia de uma matadora de aluguel fracassada e um vampiro irlandês beberrão, enquanto é perseguido por uma organização ultrassecreta que deseja provocar o Armagedom e estabelecer a Nova Ordem Mundial. Após um quarto volume constituído basicamente de histórias de origem e fillers, e um quinto com um enredo bem fraquinho, dessa vez temos uma história realmente com a cara de Preacher, e isto quer dizer que ela esbanja violência, nudez, palavrões e personagens bizarros em situações mais bizarras ainda.

Este encadernado começa com o especial Guerra Solitária, história de origem de ninguém menos do que o maior adversário de Jesse Custer: Herr Starr. Garth Ennis finalmente descortina o passado do vilão, narrando sua trajetória desde quando ele era um membro descontente do esquadrão de elite antiterrorismo alemão GSG 9, até se tornar o segundo em comando na hierarquia do Graal. Esta história nos ajuda a entender a motivação por trás dos atos de Starr, identificando precisamente o momento em que ele percebeu que precisava fazer alguma coisa para mudar o rumo que a humanidade estava seguindo. O problema é que, aparentemente, ele é o único capaz de levar a cabo tal missão, já que até mesmo no Graal ele enxerga um enorme potencial desperdiçado numa fé cega e ignorante, motivo pelo qual ele começa sua campanha soliária (que dá nome ao especial) para usurpar o lugar do Grande Pai. De quebra, também começamos a entender o porquê dele exibir tendências sexuais tão bizarras, o que o tornam um vilão incomum. Se por um lado ele parece tão ameaçador, quando o vemos entre 4 paredes com uma mulher é impossível levá-lo a sério. Este especial conta com a arte de Peter Snejbjerg, o qual consegue manter a qualidade estabelecida por Dillon para a obra. 

A Origem de Herr Star

Após este especial a história volta ao ponto em que o quinto volume terminou: Jesse indo encontrar um indígena no Monument Valley, que lhe fornece uma droga (peiote) capaz de fazer com que ele acesse as memórias de Gênesis e possa descobrir enfim o paradeiro de Deus. A história começa meio arrastada, com muita falação, principalmente entre o casal Jesse e Tulipa, que sempre que tem a oportunidade traz de volta a velha mágoa dele tê-la deixado para trás na França, e entre Tulipa e Cassidy, que no volume anterior declarara seu amor pela moça, plantando a semente da discórdia que causaria tantos problemas no futuro. Ao mesmo tempo, outras peças são movimentadas no tabuleiro para ocuparem suas devidas posições: Herr Star, que aqui demonstra até onde vai a influência do Graal dentro do governo dos EUA, e o Santo dos Assassinos, que vem em busca de respostas para seu passado.

Quando todas as peças finalmente estão em seus lugares ocorre a tal Guerra ao Sol que dá nome ao encadernado, e que guerra é essa, meu camarada! Mais uma vez Steve Dillon nos presenteia com um verdadeiro espetáculo visual, exibindo uma arte em perfeita harmonia com o roteiro mirabolante e espalhafatoso de Garth Ennis. Basicamente esta batalha possui todos os ingredientes da luta vista em Orgulho Americano: o Graal tentando capturar Jesse com todos os meios necessários, o Santo Alargando chumbo nos soldadecos, e o grupo de Jesse no fogo cruzado; a única diferença é que a batalha acontece em campo aberto, ao invés do castelo de Massada. Até aí nenhuma novidade, embora um pouco de ação, tiros e tripas esvoaçando não façam mal a ninguém; mas desta vez há uma nova peça no tabuleiro: Tulipa. E a moça não deixa a desejar ao esbanjar seus incríveis talentos como exímia atiradora, e mais uma vez a vida de Jesse depende da pontaria infalível do seu grande amor.

Tulipa "Largando o Aço" nos Soldados do Graal

Ao final do conflito ocorre uma grande reviravolta no roteiro, e mais uma vez Garth Ennis prova que, por mais absurda seja a situação que ele coloque seus personagens, ela sempre pode piorar mais. Starr, que já havia perdido uma orelha e ganhado uma horrível cicatriz na cabeça, agora tem que lidar com a perda de mais uma parte de seu corpo, e da maneira mais grotesca. Tal perda, no entanto, só serve para alimentar ainda mais seu ódio por Jesse.

Quanto ao pastor, o final deste encadernado marca o cisma que finalmente põe um fim à divertida parceria entre Jesse e Cassidy, quando o vampiro finalmente mostra as suas presas (perdão pelo trocadilho) e revela o quão sádico e egoísta ele pode ser. Mas se Jesse perde um amigo, logo após ele ganha um mais fiel, um de quatro patas, que faz sua introdução na última edição. Além de tudo isso, Garth Ennis ainda tem tempo para desenvolver o arco do Cara de Cu, que começa a descobrir o preço da fama.

Guerra ao Sol aproxima a missão de Jesse ainda mais de seu final épico, mas Garth Ennis ainda tem algumas histórias para contar antes de aposentar o irreverente pastor. A pergunta é: por tudo que Jesse tem passado até então, será que essa busca ainda valerá a pena? Não percamos os próximos desenvolvimentos! Assim como os demais volumes, esta HQ foi publicada pela Panini Books, em capa dura e papel couchê.

Boa diversão!

Capa de Preacher: Guerra ao Sol, por Glenn Fabry

terça-feira, 28 de março de 2017

RESENHA | Mulher Maravilha: Deuses e Mortais



É praticamente impossível falar da Mulher Maravilha unicamente no contexto das histórias em quadrinhos, quando ela é muito mais do que isso: Diana Prince é simplesmente a primeira e maior super heroína de todos os tempos; ela é um ícone cultural, um símbolo do movimento feminista, inspiração para todas as mulheres do mundo que desejam ser livres, autênticas e independentes. Ela foi criada em 1941 pelo psicólogo William Moulton Marston, famoso pela invenção do polígrafo - a versão real do Laço da Verdade -, como uma alternativa aos heróis masculinos que predominavam nos quadrinhos. Até então, as personagens femininas dessas histórias não passavam de mocinhas ingênuas que precisavam ser resgatadas ou preocupadas matronas responsáveis por costurar os uniformes dos filhos heróis. Com o surgimento de uma super heroína capaz de lutar em pé de igualdade com qualquer personagem masculino, Marston acreditava mandar uma mensagem para todas as meninas dos EUA de que elas não eram inferiores aos homens, de que elas eram capazes de conquistar os direitos que lhes eram negados, como votar, escolher qual carreira seguir, ou ocupar cargos de liderança em grandes companhias.

Ao lado do Superman e Batman, a Mulher Maravilha constitui um dos três pilares principais da DC Comics. Sua revista foi publicada ininterruptamente desde a década de 40 até 1887, quando sobreveio o fatídico reboot dos títulos da editora, sob o pomposo título Crise nas Infinitas Terras. Com a Crise todos os diversos universos paralelos, com suas diversas linhas temporais e versões alternativas dos heróis, foram eliminados da cronologia, e roteiristas de renome foram convocados para reformular os principais heróis da editora. Frank Miller criou o aclamado Ano Um do Batman, enquanto John Byrne revitalizava o mito do Superman em O Homem de Aço. Coube a George Pérez assumir o legado da Mulher Maravilha e criar uma história de origem completamente nova e atualizada para a Princesa das Amazonas, que havia morrido pelas mãos do Antimonitor nas últimas páginas da Crise. O resultado, o arco de histórias intitulado Deuses e Mortais (Mulher Maravilha v2, 1-7), foi uma das fases mais aclamadas da Mulher Maravilha, e que até hoje serve de base e inspiração para todos os escritores que passam pela revista solo da Princesa Amazona.

O Nascimento da Mulher Maravilha

George Pérez manteve os elementos principais da história de Diana, os quais remontam até sua crianção por W. M. Marston: a Ilha Paraíso, as amazonas, o piloto Steve Trevor, o torneio para decidir quem o levaria de volta ao "mundo do patriarcado", o laço da verdade. Outros aspectos sofreram alterações, como a Mulher Maravilha ser capaz de voar, o que tornou dispensável o icônico Avião Invisível. A Mitologia Grega consiste em uma das principais inspirações de Pérez para sua visão da amazona. Os deuses do Olimpo não apenas existem, mas interferem nas vidas dos personagens, seja para o bem (concedendo os poderes da Mulher Maravilha) ou para o mal (fomentando o ódio e a violência nas mentes dos líderes militares do planeta).

O apelo feminista da personagem, que é o principal legado de W. M. Marston, não é deixado de lado por Pérez, que, em plena década de 80, quando a expressão "empoderamento feminino" ainda não era utilizada, constrói um enredo repleto de personagens femininas fortes, como a Drª. Julia Kapatelis e a simpática e gorducha Etta Candy, e recheada de simbolismos, como a ideia de as amazonas sempre portarem seus braceletes como lembrança do período em que foram escravas dos homens. O próprio vilão escolhido para esta saga, Ares, o Deus da Guerra da Mitologia Grega, encarna características predominantemente masculinas - dominação pela força, ódio e violência (o que não quer dizer que todos os homens sejam assim) - que contrastam com o clamor por justiça, o amor e o carinho tão particulares às mulheres (o que não quer dizer que todas as mulheres sejam assim).

Ares, o Deus da Guerra

O roteiro de Deuses e Mortais é simples e eficiente, e a arte refinada e repleta de detalhes de George Perez é espetacular. Esta é sem dúvida a origem definitiva da Mulher Maravilha, e olha que eu conheço pelo menos mais três por aí (Terra Um, Novos 52 e Rebirth), mas todas elas são apenas releituras atualizadas de Deuses e Mortais. Com o filme solo da Mulher Maravilha estreando em junho deste ano, esta HQ é uma ótima pedida para quem quer conhecer mais a história da Princesa das Amazonas nos quadrinhos.

Mulher Maravilha: Deuses e Mortais está sendo publicado pela Panini Comics na série Lendas do Universo DC: Mulher Maravilha Vol. 1, com capa cartão e papel offset; mas quem deseja ter este material em edição de luxo também pode aguardar um pouco mais, pois ele faz parte da coleção de Graphic Novels DC da Eaglemoss, se eu não me engano na edição 38. Boa leitura!


domingo, 26 de março de 2017

O que eu achei do trailer de LIGA DA JUSTIÇA?



Finalmente saiu o tão aguardado trailer de Liga da Justiça, filme da DC/Warner que reunirá pela primeira vez os maiores heróis da editora contra uma poderosa ameaça vinda do espaço. O longa está previsto para estrear no dia 16 de novembro de 2017, segundo o calendário divulgado pela própria Warner. Sendo um dos filmes mais aguardados pelos fãs de quadrinhos, eu não poderia deixar de falar o que achei do trailer, e sobre alguns detalhes que me deixaram bastante intrigado. Antes, porém, para quem ainda não viu, segue o trailer propriamente dito, e a sinopse do filme. 



Movido por sua fé restaurada na humanidade e inspirado pelo sacrifício do Superman, Bruce Wayne conta com a ajuda de sua nova aliada, Diana Prince, para enfrentar um inimigo ainda maior. Juntos, Batman e Mulher Maravilha trabalham rápido para encontrar e recrutar uma equipe de meta-humanos para se opor à nova ameaça. Mas apesar da formação dessa liga de heróis sem precedentes - Batman, Mulher Maravilha, Aquaman, Flash e Ciborgue - pode ser tarde demais para salvar o planeta de um ataque de proporções catastróficas.

Vamos aos comentários!

Primeiro de tudo, gostaria de salientar que estou me esforçando ao máximo para não criar muitas expectativas acerca deste filme. O motivo é óbvio: ano passado tivemos duas bombas atômicas cinematográficas seguidas da DC/Warner, que atendem pelos nomes de Batman Vs. Superman: A Origem da Justiça e Esquadrão Suicida. Ambos elevaram o hyppe dos fãs aos máximo com trailers muito bem editados, mas acabaram dando um banho de água fria na maior parte dos fãs quando estrearam. Os principais quesitos que levaram ao fisco de ambos foram uma péssima edição, tom mal empregado e, principalmente, falhas de roteiro. Além disso, Liga foi dirigida por Zack Snider, mesmo diretor de BvS, e co-responsável pelo desastre do ano passado. Contudo, eu gosto de algumas obras do Snyder, como Homem de Aço e Watchmen, e ainda acredito que ele tem tudo para fazer um grande filme (se os roteiristas e editores não tiverem feito m** de novo!)


Passando para o trailer propriamente dito, ele começa nos mostrando Bruce Wayne chegando a uma região costeira, gelada e inóspita, parecida com o Alasca ou algum país nórdico da Europa. É lá onde vive Arthur Curry (Jason Momoa), o Aquaman, que nos quadrinhos é o herdeiro do Trono de Atlântida, sendo um mestiço humano/atlante. O filme deve seguir mais ou menos por esta linha, mas retrata o herói como um homem amargurado que afoga suas mágoas no álcool, mas que ainda consegue utilizar seus poderes para o bem. No trailer vemos o herói salvar um homem (provavelmente Bruce Wayne) dos mares revoltos.


A origem do Ciborgue (Ray Fisher) muito provavelmente será retratada no filme, até porque temos vislumbres do herói cibernético antes de sofrer o trágico acidente que o deixou desmembrado, quando ele ainda era um jogador de futebol americano. O trailer também apresenta seu pai, o Dr. Silas Stone, vivido por Joe Morton, e uma Caixa Materna, que é uma espécie de computador vivo que serve aos chamados Novos Deuses. Conforme foi visto em BvS, é essa caixa a responsável pela transformação de Victor Stone no Ciborgue.


A seguir vemos novamente a cena do encontro entre Bruce Wayne (Ben Affleck) e Barry Allen (Ezra Miller), que nas horas vagas atua como o Flash. Não tem como não comparar esta cena com aqiela em que Tony Stark se encontra com Peter Parker em Capitão América: Guerra Civil. Assim como Barry, mais uma vez a Warner chegando atrasada! Além desta cena também aparecem outras com o Flash em ação, vestindo seu um uniforme que mais parece uma armadura. Após isso vemos a (re)apresentação do Batman de Ben Affleck, numa cena de ação no melhor estilo do Homem Morcego: se balançando numa batcorda e jogando uma batbomba em um parademônio de Apokolips.

Após isso somos apresentados à equipe inteira, com a voz da Mulher Maravilha ao fundo declarando o retorno da Era dos Heróis, numa clássica analogia com os heróis da Mitologia Grega. Essa foi uma das partes do trailer que me deixaram mais extasiado, pois os heróis da DC sempre foram vistos pela editora e pelos fãs como seres muito superiores que os humanos, quase como semideuses, entidades que vigiam o planeta do alto.

O trailer continua mostrando uma sequência de impressionantes cenas de ação, focando nos heróis que ainda não apareceram pra valer nos filmes anteriores: Aquaman, Ciborgue e Flash. Em quase todas as cenas os escolhidos para servirem de sacos de pancada são os parademônios de Darkseid, que aqui aparecem retratados com bastante fidelidade às suas contrapartes dos quadrinhos.




O trailer prossegue mostrando várias cenas focadas naquele que provavelmente será o líder dessa Liga: o Batman. Curiosamente, é dele uma das cenas mais engraçadas do trailer, quando o Flash lhe pergunta qual o seu super poder e ele responde secamente: "Sou rico." E isso resume 100% a essência do personagem: ele pode fazer o que quiser, até mesmo reunir os maiores heróis do mundo, simplesmente porque tem rios de dinheiro pra bancar isso tudo! Outra novidade do trailer é a aparição do Crawler, o novo brinquedinho do Cavaleiro das Trevas: um veículo fortemente armado dotade de quatro pernas mecânicas. 


Uma grata surpresa é a aparição de Mera, a mulher do Aquaman, tão badass quanto o marido. Ela aparece entre dois soldados atlantes (pena que não dá para ver detalhadamente suas armaduras, mas pelo que dá pra ver estão incríveis) e aparentemente protegendo uma das Caixas Maternas, provavelmente aquela em poder dos Atlantes. Conforme já foi divulgado, há 3 Caixas Matenras na Terra: uma em poder dos humanos (certamente a que está com o Ciborgue), outra com Atlântida e a última com as Amazonas. Muito provavelmente essas caixas fornecerão uma explicação mais racional para os poderes dos atlantes e das amazonas. Assim como foi feito com o Thor da Marvel, a questão dos deuses será explicada pela tecnologia. A cena abaixo mostra uma batalha entre as amazonas (ou talvez suas ancestrais) e os parademônios numa planície deastada, e eu suponho que seja um fashback da origem das Amazonas, mostrando como elas obtiveram sua Caixa Materna. Tal informação deve ser dada pela Mulher Maravilha, que reconhecerá o artefato sob a posse do Ciborgue ou de seu pai. 

 


Outra cena mostra um pouco da história do Flash. Vemos o rapaz falando com um homem em um presídio que deve ser seu pai. Nos quadrinhos, o pai de Barry Allen é injustamente acusado do assassinato da esposa. 


 

Mais cenas de ação são mostradas, as mais legais envolvendo o Batman e seu novo e aprimorado Batmóvel. É bastante óbvia a inspiração do visual deste veículo com o empregado no jogo Batman: Arkham Knight. Logo depois vemos o trio MM, Araman e Ciborgue entrando em uma espécie de base alienígena, ou talvez no interior de una espaçonave (embora eu ache improvável que os invasores cheguem à Terra em espaçonaves; acho que será mais como no primeiro arco da Liga nos Novos 52, quando os invasores chegam em Boom Tubes (que nos quadrinhos são portais interdimensionais produzidos pelas Caixas Maternas).

O trailer se aproxima do final com a clássica cena com Batman no telhado com o Comissário Gordon (J. K. Simons), mencionando o fato do Batman ter "voltado a trabalhar em equipe". Mais uma vez fica claro para os fãs que no passado o Batman do DCU já teve uma Batfamília. No final temos uma divertida cena mostrando o Aquaman na "garupa" do Batmóvel preparando-se para atacar mais alguns pobres coitados parademônios. Isso mostra o quanto a DC/Warner está disposta a inserir humor em suas novas produções, em respostas às críticas dos fãs ao tom excessivamente sombrio de BvS.

 
 


Então é isso! O trailer acaba, sem, contudo, mostrar grandes segredos do filme, o principal deles o retorno do Superman (Henry Cavill) e eu queria muito, mas muito mesmo, que continuasse assim. Uma das grandes falhas de BvS foi justamente o fato de os trailers terem entregado praticamente a história inteira do filme, tirando toda a surpresa que aquelas cenas iriam causar caso não tivessem sido previamente divulgadas. Infelizmente essa tem sido uma prática comum aos grandes estúdios, até mesmo na concorrência: foi broxante o trailer de Guerra Civil ter mostrado a primeira aparição do Homem Aranha.

A aí, animado para o filme? Caso tenha notado mais alguma coisa que eu não reparei ou tenha uma nova teoria sobre a história por trás de Liga da Justiça, não deixe de comentar! 

quarta-feira, 22 de março de 2017

RESENHA | A Torre Negra, Livro 2: A Escolha dos Três


Leitura Prévia:
"E a Torre está mais próxima."

Assim termina o segundo livro da saga A Torre Negra, mais famosa antologia do escritor norte-americano Stephen King. Apesar do otimismo do autor, a verdade é que neste segundo passo da busca de Roland, o último pistoleiro do Mundo Médio, pela mística Torre Negra, a verdade é que há pouco avanço neste sentido. Todo o enredo de A Escolha dos Três se resume à missão de Roland em recrutar companheiros para auxiliá-lo nesta busca; os mesmos companheiros que haviam sido profetizados num jogo de tarô pelo Homem de Preto ao final de O Pistoleiro - primeiro livro da saga. São eles: o Prisioneiro, a Dama das Sombras e a Morte. O pistoleiro vai de encontro a eles através de portais que são abertos unicamente para ele ao longo de uma praia no litoral oeste de seu mundo. Estes portais, na forma de portas comuns de madeira, conectam o mundo de Roland com o nosso mundo, mais especificamente com a cidade de Nova York, em diferentes épocas.

Se em O Pistoleiro era notável a diferença da escrita de King em relação às suas demais obras (lembre-se que ele escreveu O Pistoleiro quando ainda tinha 19 anos), em A Escolha dos Três ele está em sua melhor forma. Sua escrita é fluida, dinâmica, envolvente; King parece conversar com o leitor, ao invés de simplesmente contar uma história. Seu maior talento, contudo, reside na criação de personagens: nenhum deles é raso e unidimensional; cada personagem que surge na trama é dotado de um traço de personalidade próprio e uma história de vida única, mesmo aqueles considerados secundários para a trama (é impossível não sentir pena do dono da farmácia ou da dupla de policiais que cruzam o caminho de Roland durante o terceiro ato). Merecem destaque os três (ou quatro) principais da trama: o próprio Roland, o viciado em heroína Eddie Dean, e Odetta Holmes, uma ativista dos direitos dos negros paralítica e que sofre de dupla personalidade. 

Eddie é o Prisioneiro, e num primeiro momento associamos sua "prisão" como sendo a dependência química que ele tem da heroína; no entanto, conforme Stephen King nos revela mais sobre seu passado, percebemos que seu cativeiro é ainda mais complexo, e está ligado à relação com o irmão Henry Dean, o "eminente e sábio viciado". Mas é Odetta Holmes, a Dama das Sombras, quem realmente rouba a cena neste livro, mais especificamente sua contraparte psíquica, a maligna, pervertida Detta Walker. Enquanto toda bondade ficou concentrada na primeira, Detta herdou todos os traços negativos da personalidade de Odetta. O mais incrível sobre esta personagem é que cada uma das metades desconhece a existência da outra, e toda vez que elas trocam de lugar seu subconsciente inventa uma história sobre o que teria acontecido em sua "ausência", de modo que ela não sofre com períodos de amnésia comuns a pessoas que têm este tipo de quadro psicológico. Odetta/Detta ainda sofre com um grave problema físico: quando jovem ela teve metade das duas pernas decepada em um acidente de trem, que na verdade não foi um acidente. Mas não pense que, sendo paraplégica ela é inofensiva: assim como uma serpente, mesmo se arrastando ela consegue ser a criatura mais ardilosa do livro, e dá muito trabalho para os brancos putos Eddie e Roland. King aproveita a história de Odetta/Detta para tocar na questão dos problemas raciais pelos quais os negros norte-americanos passaram durante as décadas de 50 e 60, tema recorrente de outras obras do autor, como o livro It.

Eddie e Odetta/Detta

Além de recrutar novos membros para seu ka-tet (palavra no idioma do Roland para definir um grupo de pessoas unidos por um mesmo destino), Roland precisa lidar com seus próprios, e tão urgentes quanto, problemas. Logo no prefácio deste livro, King toma uma decisão que me deixou completamente estarrecido. Roland - outrora o maior de todos os pistoleiros -, tem os dois primeiros dedos da mão direita decepados pelas lagostrosidades, umas criaturinhas parecidas com lagostas que habitam a praia onde a história se desenrola. Quando isto aconteceu eu pensei: pronto, agora o cara conseguiu ferrar de vez com a melhor característica do seu protagonista, que é justamente de ser um grande atirador! Felizmente, o pistoleiro ainda consegue atirar com a mão esquerda, e mesmo doente (além de tudo o mais suas feridas começam a gangrenar) ele ainda consegue ser um dos mais mortais atiradores que eu já tenha ouvido falar, haja vista a cena insana do tiroteio no restaurante do narcotraficante Enrico Balazar, a qual não tem como deixar de comparar com as cenas dos filmes do Quentin Tarantino.

A Escolha dos Três é quando realmente a história d'A Torre Negra começa, não apenas por ser o livro que ditaria o ritmo e o estilo de escrita de todos os demais da saga, mas porque ele apresenta os personagens centrais desta grande trama que só começará a se desenrolar a partir do próximo volume. A Torre Negra foi publicada aqui no Brasil pelas editora Suma de Letras e Ponto de Leitura, e pode ser encontrada facilmente nas principais livrarias do país.

Boa leitura!