domingo, 12 de março de 2017

RESENHA | A Torre Negra, Livro 1: O Pistoleiro



A Torre Negra é uma das obras mais importantes da carreira do escritor norte-americano Stephen King, por diversas razões: seja pelo tempo que ele levou para pô-la no papel - foram 33 anos entre o primeiro e o último livro -, ou pelo tamanho da obra em si, que conta com 7 volumes e um tie-in, a verdade é que o próprio escritor a considera sua obra prima. Ela é, também, a sua obra mais pessoal: no ano de 1999 Stephen King quase morreu ao ser atropelado por uma minivan enquanto caminhava nos arredores de sua casa de veraneio, e ele resolveu abordar este assunto em um dos livros da Torre Negra, inserindo a si próprio como personagem da obra. Há quem considere esta uma atitude egocêntrica e narcisista, outros até mesmo corajosa, entretanto, polêmicas à parte, a verdade é que ele conseguiu criar um épico de fantasia moderna que arrastou milhões de leitores para se juntar ao último pistoleiro, Roland Deschain, e seu ka-tet (aqueles unidos pelo destino) em sua busca pela famosa Torre Negra. Muitas foram suas inspirações para construir este vasto e complexo universo: o poema inglês Childe Roland to the Dark Tower Came ("Childe Roland à Torre Negra Chegou"), de Robert Browing, é uma delas, assim como as lendas arturianas, o cinema western, O Mágico de Oz, e até mesmo a trilogia O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien - tudo isto em meio a inúmeras referências à cultura pop do século XX. Outro aspecto interessante desta série literária é que ela faz menção a personagens, lugares e até acontecimentos de diversos outros livros de King, criando um espécie de amálgama que une todas as suas obras em único e coeso Multiverso.

Toda grande jornada tem um começo, e o começo da busca de Roland pela Torre Negra se dá em O Pistoleiro, livro escrito em 1970, quando Stephen King tinha apenas 19 anos (grave este número, pois ele tem uma importância cabalística para a série e também para o próprio King) e publicado em cinco partes na revista The Maganize of Fantasy & Science Fiction entre 1978 e 1981. Apenas em 1982 esta história seria publicada como um livro único. Justamente por ter sido escrito bem no início da carreira de Stephen King, uma das peculiaridades deste livro é a forma da escrita de King, que difere bastante de outros trabalhos do autor, de modo que quase não dá para perceber que estamos lendo uma de suas histórias. O próprio autor declara em sua introdução que ele só viria a encontrar a sua "voz" para obra a partir do segundo livro, e é o que realmente acontece: é clara a diferença dos textos de um livro para o outro. No entanto, isto não faz este um livro ruim, apenas diferente.

Roland e a Torre Negra, pelo Ilustrador Michael Whelan

A história de O Pistoleiro, bem como grande parte da série A Torre Negra, se passa em um universo alternativo - ou num possível futuro do nosso (isso não fica muito claro) -, em que tudo está em decadência, inclusive a humanidade, a qual perdeu quase toda sua capacidade criativa e tecnológica, provavelmente como consequência de um holocausto nuclear. É o que o protagonista e diversos outros personagens chamam de "o mundo seguiu adiante". No crepúsculo deste mundo prosperou o reino de Gilead, último bastião da humanidade contra o caos e a deterioração que contaminaram o mundo. Este reino era protegido pelos pistoleiros, uma ordem semelhante a dos cavaleiros da Idade Média, porém ao invés de espadas eles portavam pistolas. Mas mesmo Gilead caiu, graças, em grande parte, à atuação do feiticeiro conhecido por vários nomes: Marten, Walter das Sombras, ou, mais comumente, apenas O Homem de Preto. Pouco se sabe sobre ele, apenas que "o homem de preto fugia pelo deserto, e o pistoleiro ia atrás."

É com esta fatídica frase que Stephen King abre o primeiro livro, e ela resume perfeitamente seu enredo: trata-se da perseguição de Roland ao Homem de Preto através de um escaldante deserto e pelos túneis sob as montanhas em busca de respostas acerca da mítica Torre Negra. Stephen King não faz nenhum tipo de introdução inicial sobre o universo de Roland, jogando o leitor diretamente no meio da história, o que causa uma certa confusão no começo. Mas aos poucos as coisas vão se ajustando, as respostas vão vindo e logo, sem perceber, o leitor está completamente envolvido pela busca do pistoleiro, ansiando pelo encontro entre Roland e o Homem de Preto, quando as respostas para várias perguntas são reveladas, e outras tantas perguntas são criadas. O diálogo final entre os dois antagonistas é impressionante, por levantar questões bastante profundas que fazem a pessoa refletir por horas e horas. 

A melhor parte desta história, contudo, é a relação entre Roland e o garoto Jake Chambers, personagem introduzido mais ou menos na metade da trama. Ele é a ligação entre o mundo de Roland e o nosso: o menino teria morrido no nosso mundo, na cidade de Nova York, e simplesmente aparecido no deserto que Roland estava atravessando enquanto perseguia o Homem de Preto. Os dois desenvolvem uma relação pai/filho bastante interessante, o que acaba se provando o teste mais difícil que o pistoleiro precisa passar para provar seu comprometimento para com a busca. Stephen King cria a sua própria versão da ponte de Khazad-dûm, propiciando um clímax angustiante para esta primeira aventura de Roland Deschain.

Roland e Jake Chambers, pelo Ilustrador Michael Whelan
O Pistoleiro não é um dos melhores livros da saga da Torre, justamente por Stephen King não estar em seu auge como escritor, mas ainda assim é um excelente livro, um pouco complexo para se compreender no começo, mas recheado de ação e violência (afinal, estamos falando de um pistoleiro aqui, e do melhor deles), elementos fantásticos e diálogos empolgantes. King não contém seu vocabulário, de modo que palavrões e sexo são coisas tratadas corriqueiramente na trama, por isso - e principalmente pela complexidade da trama - não é adequada para crianças, embora isso dependa de cada um. Como eu já mencionei mai acima, este é apenas o começo das aventuras de Roland, e os próximos livros prometem trazer aventuras muito mais épicas, portanto junte-se a nós nesta jornada em busca da Torre Negra, e boa leitura!

P.S.: Para quem já concluiu a leitura de toda a saga, recomendo fortemente que a releia desde o princípio, com a certeza de que terá outra visão da história quando já se conhece o final. Isto é mais acentuado ainda no primeiro livro, pois ele contém inúmeras pistas do final da saga, que só quem conhece poderia entendê-las. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

RESENHA | O Velho Logan



Na esteira do sucesso de Logan, o mais novo filme da franquia X-Men que traz a despedida de Hugh Jackman do papel de Wolverine, trago a resenha da HQ que inspirou este longa que tem sido sucesso de público e crítica desde sua estreia. Escrita por Mark Millar - aclamado roteirista responsável por obras como Guerra Civil, Kick-Ass e Superman: Red Son - e desenhada por Steve McNiven, esta história foi publicada pela Marvel Comics entre as edições 66 e 72 da revista Wolverine, além de uma edição em tamanho gigante contendo sua conclusão, nos anos de 2008 e 2009. Aqui no Brasil ela também foi publicada pela Salvat no volume 58 da coleção de Graphic Novels Marvel.

Assim como o filme estrelado por Jackman, o enredo de O Velho Logan se passa num futuro distópico, no qual o "carcaju" é um dos poucos heróis que restaram após os vilões finalmente dominarem o mundo. Mark Millar nos apresenta um Wolverine abalado não apenas fisicamente - devido à idade e ao fator de cura não funcionar mais tão bem quanto antes - mas também psicologicamente, graças a um evento traumático de seu passado que o fez abandonar a carreira de super-herói. Existe uma antiga lenda Cherokee que diz que há dois lobos - um bom e um mal - em eterno conflito dentro de cada pessoa, e que o mais forte será aquele que mais alimentarmos. Logan então decide parar de alimentar a sua fera interior ao deixar de usar suas mortíferas garras de adamantium; ele abandona a alcunha de Wolverine e resolve viver uma vida pacata como fazendeiro e pai de família no meio oeste americano. Mas, em se tratando do Wolverine, não importa se ele evita encrenca, em algum momento a encrenca acaba procurando por ele, e é isso que acontece quando um velho amigo retorna e lhe faz uma proposta que ele não é capaz de recusar, levando-o por uma road trip pelo território norte-americano, na qual eles irão cruzar o caminho de diversos vilões - velhos e novos -, e passar pelas situações mais inusitadas e absurdas. 

Logan na Estrada

É este clima de viagem que torna a história tão empolgante. Não tem como ver a dupla de heróis cruzando o deserto em um veículo turbinado (alguém aí se lembra do Aranhamóvel?) e não fazer um paralelo com Mad Max, no qual McNiven parece claramente se inspirar. Elementos de filmes western também podem ser identificados na jornada de Logan e sua saída forçada da aposentadoria, além de fazer diversas referências não só ao passado do mutante, mas também do Universo Marvel.

Mark Millar utiliza o ponto de vista do protagonista como a porta de entrada do leitor para este desolado e melancólico mundo, onde as pessoas vivem oprimidas e desesperançadas sob o jugo de um governo despótico de criminosos que fatiaram os EUA em diversos "feudos" em que cada um faz a sua própria lei. É impossível não sentir uma pontada de tristeza quando vemos centenas de pessoas adorando o mjolnir de Thor em uma Las Vegas decadente, aguardando pelo retorno de seus "heróis", ou quando nos deparamos com o gigantesco corpo de Hank Pym tombado sobre uma rodovia.


Wolvernie Liberta a "Fera"

Esta é uma das histórias mais violentas já feitas para o Wolverine, e justamente por isso é uma das melhores. Dois conjuntos de garras afiadíssimas não podem ser utilizados para outra coisa a não ser desmembrar e estripar adversários, e pensar o contrário seria tolice. É para isso que a Arma X foi criada, e é melhor ainda quando testemunhamos toda a resistência e recusa de Logan em liberar suas garras ao longo de quase dois terços da obra. Millar vai "cozinhando" a expectativa do leitor, que aumenta ainda mais quando ele revela o evento que forçou Logan a se aposentar. Quando finalmente vemos Wolverine liberar suas garras (e confesso que achei genial a forma que o autor emprega para ilustrar este grande momento), Millar e McNiven não nos decepcionam. É a primeira vez que vi tanto sangue e tripas em uma HQ da Marvel, e neste ponto a arte de Steve McNiven consegue transmitir com primor toda a violência e fúria animal contidas no Wolverine. E esta história não poderia ter uma conclusão melhor e mais poética, com Logan enfrentando seu primeiro adversário dos quadrinhos: o Hulk!

HQ recomendadíssima para os fãs do Wolverine, por explorar o melhor lado deste icônico personagem dos quadrinhos, e o mais importante: não é necessário ter lido outras HQs do mutante ou possuir grandes conhecimentos além do básico do Universo Marvel para poder entender esta história, que funciona perfeitamente bem sozinha. Para completar, a arte de McNiven está sensacional, cujo enquadramento em close dos personagens em momentos chave e belíssimas imagens panorâmicas traduzem perfeitamente a sensação de estar assistindo a um filme de ação. Só não espere um final feliz, do tipo Bem vence o Mal, ou "e o herói viveu feliz para sempre"! Esta é uma história de dor, de arrependimento e de vingança, principalmente de vingança, que termina com uma longa trilha de corpos e sangue pelo caminho, tanto de vilões como de mocinhos. Boa leitura!

sábado, 4 de março de 2017

RESENHA | A Roda do Tempo, Livro 2: A Grande Caçada

" A Roda do Tempo gira, e Eras vêm e vão, deixando memórias que se transformam em lendas, depois se desvanecem em mitos e já estão esquecidas há muito tempo quando a Era torna a aparecer."



Eis que a Roda do Tempo gira outra vez, trazendo-nos o segundo livro da épica saga de fantasia escrita por Robert Jordan, que, ao lado de George R. R. Martin, figurou como um dos herdeiros de Tolkien. O primeiro livro (confira minha resenha aqui) não teve o mínimo pudor em basear grande parte de sua estrutura narrativa na trilogia d'O Senhor dos Anéis, principal referência do gênero, acrescentando pouca coisa de novo. Na sequência de O Olho do Mundo, porém, Jordan conseguiu se redimir ao afastar-se da sombra de seu mentor para apostar numa trama realmente nova. Não que A Grande Caçada seja uma história original: trata-se da velha busca por um artefato místico capaz de dar àquele que o possuir um grande poder. Tal artefato bem que poderia ser um Anel ou o Cálice Sagrado, mas neste caso é a Trombeta de Valere, a qual, quando tocada, convoca os antigos heróis lendários para lutar em favor do portador da trombeta. Onde o enredo de Jordan acerta, contudo, é em explorar outras possibilidades de seu rico universo fantástico que só haviam sido sugeridas no primeiro livro.

Toda obra de fantasia que se preze tem como uma de suas principais características apresentar uma grande diversidade de povos e raças, cada um com sua cultura e particularidades. Enquanto O Olho do Mundo é um livro mais contido neste sentido, em A Grande Caçada Jordan expande consideravelmente seu universo. Somos apresentados à cidade de Cairhien, onde os nobres vivem um estilo de vida marcado por intrigas e manipulação, o qual eles chamam de O Grande Jogo; descobrimos como os Ogier vivem em suas moradas nas bosques, que eles chama de Pousos; e temos o primeiro contato com o misterioso povo do deserto, os mortíferos Aiel. Nenhum deles tem importância crucial na trama, no entanto servem para enriquecer a leitura, e deixar em aberto possibilidades a serem exploradas e livros futuros.

Mas se há uma facção que recebeu um grande destaque neste livro foi a das Aes Sedai, feiticeiras capazes de canalizar o Poder Único, a magia do universo de Jordan. Ficamos sabendo mais sobre suas subdivisões - as chamadas Ajahs, que variam de acordo com suas personalidades e propensões-, sua hierarquia, seus ritos de passagem, e principalmente, como elas se relacionam entre si. Apesar de fazerem parte de uma mesma Ordem, cada uma das Ajahs tem seus próprios objetivos, e não são raras as vezes em que o objetivo de uma conflita com o de outra. Por exemplo, a Ajah Vermelha tem total aversão a homens, enquanto a Verde busca abertamente a interação com estes. 

Nynaeve, Egwene, Elayne e Min - quarteto de garotas apresentadas no volume anterior, e que possuem alguma relação com Rand - formam o núcleo de Tar Valon, e também são responsáveis pelas cenas mais interessantes do livro. Dentre estas, as que mais evoluem são Nynaeve, que a cada aparição mostra que veio para se tornar a maior Aes Sedai do mundo; e Egwene, a qual, devido às duras experiências por que passa neste volume perde a inocência da jovem camponesa para finalmente descobrir como as coisas realmente funcionam no mundo real. O único ponto que me incomoda é a insistência do autor no romance água com açúcar entre Egwene e Rand, e tudo só piora quando ele resolve inserir não apenas Elayne, mas também Min nesta equação. 

Outra grande novidade que este livro trouxe foi a chegada do povo Seanchan, lá pela segunda metade da história, o que deu um novo fôlego à trama e tornou a leitura muito mais interessante. Os Seanchan supostamente são os herdeiros do lendário imperador Arthur Asa-de-gavião, os quais retornaram do exílio no além-mar para reconquistar o continente principal onde a história se desenrola. Fazendo uma analogia com o nosso mundo, é como se uma das legiões do ditador romano Julio Cesar retornasse de um exílio na América durante a Idade Média, navegando em caravelas portuguesas, e tivesse treinamento militar ao estilo dos samurais japoneses e uma divisão social parecida com as castas hindus. Prece confuso, mas tudo isso se encaixa perfeitamente na trama, e olha que eu não mencionei a principal característica deste povo: a utilização de Aes Sedai escravas como arma de guerra, através de um artefato chamado a'dam, que nada mais é do que uma coleira encantada de prata que obriga a damane (a Aes Sedai escravizada) a cumprir todas as vontades de sua s'uldan (mulher responsável por controlar a Aes Sedai). 

Apesar da clara evolução da obra, Jordan repete alguns erros do primeiro livro, como o ritmo da escrita: enquanto vemos um começo instigante e uma conclusão frenética, o meio é cansativo e até enfadonho às vezes. Curiosamente, as partes mais enfadonhas ficam a cargo do protagonista. Se por um lado Rand al'Thor começa a aprender a utilizar suas recém-descobertas habilidades, por outro ele evolui muito pouco como personagem, permanecendo quase todo o livro estacionado na negação de seu chamado. Ele se recusa o tempo inteiro a aceitar que é o Dragão Renascido - único capaz de derrotar o grande vilão, B'alzamon -, a despeito de todas as profecias que se cumprem ao seu redor, da palavra de Moiraine e até mesmo do testemunho dos antigos heróis ressuscitados pela Trombeta, os quais o reconhecem como a reencarnação de Lews Terin Telamon, o último Dragão. No entanto, tudo leva a crer que ele finalmente irá aceitar seu destino, e esperamos que no próximo livro ele se torne o protagonista que nasceu para ser. 

Outros personagens que também são deixados de lado são a dupla Mat e Perrin: o primeiro, que no volume anterior só servia como alívio cômico e depois se tornou um peso insuportavelmente chato para o protagonista, nesta história continua sendo um peso morto; já Perrin, que em O Olho do Mundo havia recebido bastante atenção do autor e se tornara o personagem mais interessante daquele livro quando descobriu sua habilidade de falar com os lobos, aqui tem muito pouca importância. Por fim, a própria Moiraine, que havia carregado o primeiro livro nas costas e praticamente tirado o protagonismo de Rand, em A Grande Caçada quase não aparece depois dos capítulos iniciais, quando é revelada sua verdadeira missão. 

Colocando todos estes fatos numa balança, é inegável que A Grande Caçada é um livro muito melhor do que o primeiro. É evidente o distanciamento de Robert Jordan do estilo Tolkeniano, sem, contudo, renegar suas origens. A Roda do Tempo é uma saga predominantemente de fantasia, repleta de conceitos originais e muito interessantes, e para quem gosta deste estilo literário, com certeza é um material de primeira qualidade. Sendo uma obra muito extensa (a série foi finalizada com 14 volumes!) é de se esperar que algumas falhas sejam corrigidas e que os personagens, bem como a trama sem si, evoluam junto com os leitores. 

Boa leitura!


quarta-feira, 1 de março de 2017

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer Origens - Volume 7: O Coração do Menino Morto


Como tudo que é bom um dia acaba, assim foi com a passagem do roteirista britânico Jamie Delano pela revista solo do mago mais cínico dos quadrinhos, John Constantine. Após 37 edições mensais e uma anual, chegou o momento dele ceder a cadeira para o irlandês Garth Ennis, responsável por uma das fases mais aclamadas do título. Após décadas de espera angustiante, os fãs brasileiros finalmente puderam ter em sua coleção o arco final de histórias escritas por Delano, em um encadernado em capa cartão e papel pisa brite (a nova publicação, que deverá ser lançada este ano, virá com papel LWC) lançado pela Panini Comics em 2014.

Delano conclui com chave de ouro a última saga de Hellblazer de sua autoria, e, assim como no caso de Grant Morrison em Homem Animal, com total liberdade criativa para contar a história que ele queria. Isso com certeza fez com que a qualidade do roteiro subisse a um nível bem superior ao das sagas anteriores, embora a qualidade da arte em alguns momentos prejudique um pouco a qualidade do produto final, mas deixarei para falar disso mais adiante.

Delano usa e abusa de simbolismos, artifícios metalinguísticos e referências ao ocultismo moderno, tendo como principal influência o polêmico mago e ocultista do século XIX, Aleister Crowley. Seguindo o caminho do volume anterior, o autor continua se afastando da temática sobrenatural e do horror para explorar o psicológico de John Constantine, buscando em eventos de seu passado a explicação para sua vida ser tão estranha e conturbada. No início deste volume vemos um Constantine mais amargurado, melancólico e autodestrutivo do que nunca, e motivos não faltam: desde sua estreia nas páginas do Monstro do Pântano, o anti-herói já sacrificou diversos amigos em prol de sua guerra santa contra o sobrenatural, enfrentou demônios e sociedades secretas, e até mesmo um serial killer, que o obrigou a tomar medidas extremas até mesmo para alguém como ele. Mas, com a ajuda de Marj, Mercury e a xamã Zed - que novamente cruzam o caminho do mago -, ele irá descobrir que a causa de seu tormento possui raízes muito mais profundas, remontando a um crime que ele cometeu quando ainda estava no útero da mãe!

Constantine Encara seu Destino

A cereja do bolo fica por conta da edição nº40, a qual nos apresenta uma espécie de realidade alternativa, onde um Constantine que tomou decisões totalmente diferentes na vida se tornou um poderoso e respeitado mago. O final que Delano cria para esta história é perfeito, justamente porque ele poderia ser considerado um final definitivo para as aventuras de Constantine, se a DC Comics assim o quisesse, e ao mesmo tempo deixa o destino do mago em aberto para os próximos roteiristas. Esta edição foi ilustrada por Dave McKean, artista responsável pelas primeiras capas de Hellblazer e The Sandman, além da aclamada Graphic Novel Batman: Asilo Arkham. A arte surreal de McKean não é o que se pode considerar "convencional", e geralmente costuma dividir opiniões: enquanto uns amam de paixão e defendem ferozmente seu estilo como uma forma de arte mais complexa e abstrata, outros simplesmente a detestam. Quanto à minha opinião, confesso que não sou muito fã do cara, embora, neste caso, a arte de McKean acabe sendo a melhor do encadernado, em comparação com a arte de Sean Philips, a qual está bem aquém daquilo que ela viria a se tornar futuramente; e com Steve Pugh, com sua arte suja e desleixada.

Para finalizar, este encadernado conta ainda com um interlúdio de duas edições na qual Delano faz críticas aos maus tratos aos animais (assunto que ele iria abordar mais a fundo em sua passagem pelo Homem Animal), um conto extraído de Hellblazer Secret Files e outras duas histórias isoladas que ele escreveu anos depois de sua saída - Hellblazer 84 e 250 -, sendo a primeira uma história absurda sobre a mãe do taxista Chas e um demônio em forma de macaco travesti!

Se você é fã de Constantine, não perca esta excelente oportunidade de ter em mãos não apenas este encadernado, mas todos os da fase Origens, pois é a primeira vez que este material é relançado em ordem cronológica, não apenas aqui no Brasil, mas também nos EUA. A fase de Jamie Delano, apesar de seus altos e baixos, foi a que estabeleceu os principais elementos da mitologia do anti-herói - os acontecimentos de Newcastle, a apresentação do melhor amigo de Constantine, o taxista "Chas" (inclusive este personagem foi uma homenagem de Delano à sua antiga profissão!) e da sobrinha de aquela m3r%@ de filme estrelado por Keanu Reeves e a série água com açúcar da NBC.

Boa leitura, e até Hellblazer Infernal!