segunda-feira, 11 de julho de 2016

[RESENHA] Batman: Vitória Sombria


Leitura prévia:

Batman: Vitória Sombria é uma história em quadrinhos em 14 partes publicada pela DC Comics entre 1999 e 2000, quando o escritor Jeph Loeb e o artista Tim Sale novamente uniram forças para dar sequência à aclamada série O Longo Dia das Bruxas. A trama se passa exatamente um ano após a morte do chefão da máfia Carmine "Romano" Falcone, em um Dia das Bruxas. A queda do "Império Romano" marcou o início do fim do domínio dos criminosos "comuns" em Gotham, e a ascensão das chamadas aberrações, os vilões fantasiados e lunáticos que infestaram a cidade logo após o surgimento do Cavaleiro das Trevas, e também colocou um ponto final nas ações do serial killer Feriado, o qual desencadeou uma onda de terror ao chacinar membros da máfia nos feriados ao longo de um ano inteiro. Apesar de terem desferido um duro golpe na organização criminosa mais poderosa da cidade, Batman e o então tenente James Gordon sofreram uma perda ainda maior: seu amigo e aliado no combate ao crime, o promotor público Harvey Dent, após ter metade do rosto e sua sanidade desfigurados por ácido se tornou o criminoso conhecido como Duas Caras.

O autor segue a mesma receita da série anterior, adicionando um novo elemento de suspense à trama: um assassino serial apelidado de Hangman (Enforcador), que também ataca nos feriados, só que desta vez as suas vítimas não não mafiosos, mas policiais do DPGC. O surgimento deste assassino se dá ao mesmo tempo em que a nova promotora pública Janice Porter consegue junto à justiça a soltura de Feriado, que passa a cumprir pena domiciliar, e da fuga do Duas Caras do Asilo Arkham. Enquanto isso, Sofia "Gigante" Falcone tenta manter unidos os pedaços do império de seu pai e inicia uma guerra sangrenta contra os fugitivos do manicômio pelo controle do crime em Gotham.


Uma Vítima do Enforcador de Gotham

O foco principal no autor continua sendo o trio Batman/Bruce Wayne, Comissário Gordon e Harvey Dent/Duas Caras, os quais têm de lidar cada um à sua maneira com as consequências dos eventos do final de O Longo Dia das Bruxas, que deixaram profundas marcas em cada um deles. Batman se torna cada vez mais sombrio e solitário, recusando-se a aceitar a ajuda de Gordon e da polícia, preferindo fazer as coisas do seu próprio jeito. O Comissário Gordon precisa então buscar aliados dentro da própria corporação que dirige, e monta um time tático composto por novatos para recapturar Duas Caras. Este último faz uma perigosa aliança com os piores elementos da cidade, como o Coringa, para conseguir derrubar o que resta do império do crime de Falcone.

Um personagem coadjuvante que acaba ganhando bastante destaque é Alfred Pennyworth, que deixa de ser um mero mordomo para assumir uma responsabilidade quase paternal para com o herói, ajudando-o a recuperar-se da crise psicológica decorrente da traição de Harvey Dent. Outra personagem que volta a dar as caras e influencia a vida de Bruce Wayne é Selina Kyle/Mulher Gato, cuja relação com o playboy milionário é prejudicada pela vida dupla de ambos e suas próprias buscas: é nesta história que começa a jornada de Selina em busca da verdadeira identidade de seu pai, a qual a dupla Loeb/Sale conclui na minissérie Cidade Eterna.

Batman e Mulher Gato

Tal como em O Longo Dia das Bruxas, na qual o autor inseriu em meio ao enredo um momento importante da mitologia do Morcego, no caso a gênese do vilão Duas Caras, Vitória Sombria repete a fórmula ao presentear o leitor com o nascimento da lenda do Robin, o "parceiro mirim" do Batman. Ao contrário da história anterior, no entanto, a presença de Robin traz novo ânimo e esperança para a missão do Batman, que aprende a lição de que é um erro tentar carregar sozinho o fardo de combater o crime em Gotham City e que precisa confiar mais em seus aliados.

O capítulo que mostra a morte dos pais de Dick Grayson e a mudança do rapaz para a mansão Wayne é sem dúvida o melhor desta Graphic Novel, com destaque para a maravilhosa arte de Tim Sale, o qual cria um paralelo entre a perda de Bruce Wayne e do jovem Dick Grayson numa belíssima cena composta por três painéis em que Alfred recorda o sofrimento de um pequeno Bruce logo após a morte dos pais, enquanto precisa lidar com uma situação semelhante com Dick. Ele faz uma poderosa metáfora visual ao mostrar os dois meninos, cada um numa época diferente, olhando-se num espelho e vendo um ao outro: a origem de ambos é a mesma, mas a forma como encaram a perda é que definirá que tipo de pessoa eles serão no futuro.

A Dupla Dinâmica

Embora apresente um roteiro complexo, com várias linhas narrativas paralelas, Jeph Loeb consegue manter a coesão da história, interligando as tramas individuais de forma gradativa e inteligente, sem cansar o leitor, rumo a um clímax grandioso, que com certeza entra para a história do cânone do Homem Morcego. A arte de Tim Sale colabora para tanto, casando perfeitamente com o estilo narrativo de Loeb. Esta Graphic Novel se encontra à venda em diversas lojas pelo Brasil num belíssimo encadernado de luxo com capa dura e quase 400 páginas, publicado pela Panini Comics.

Boa leitura!

Capa da Edição Americana de Vitória Sombria

domingo, 10 de julho de 2016

[RESENHA] Mulher Maravilha: Hiketeia


Muitas vezes cumprir a lei ao pé da letra pode levar a um dano muito pior do que não fazê-lo. Todos ouvimos desde criança que é errado matar; no entanto, imagine uma situação em que um bandido invade a sua casa e ameaça a sua vida ou de alguém que você ame: seria errado matar o ladrão, nestas circunstâncias? A lei ao pé da letra não leva nada em consideração a não ser o seu total cumprimento, para ela só existe preto e branco, certo e errado. Mas a lei não deve ser usada como um instrumento que escraviza o ser humano; dependendo da situação, a consciência humana pode nos levar a tomar uma decisão contrária à lei, e ainda assim ser uma decisão correta, uma vez que acarretaria menos dano. Este, de fato, é o "espírito" por trás das leis: evitar conflitos, e, consequentemente, dano à vida humana. De fato, a legislação já evoluiu o bastante para não permitir paradoxos como o do exemplo do bandido, mas as leis nunca conseguirão englobar todas as situações da vida humana e suas relações interpessoais, que estão em constante modificação. Sempre haverão debates, como o uso de substâncias proibidas por lei no tratamento de doenças degenerativas, ou a delicada questão do aborto ou da eutanásia. 

Mulher Maravilha: Hiketeia é uma HQ escrita por Greg Rucka, roteirista de longa data das histórias da heroína, com arte de J.G. Jones e Wade Von Grawbadger, que trata justamente deste dilema. De um lado temos Danielle Wellys, uma jovem que cometeu um crime de assassinato em Gotham City; de outro o Batman, que assume na trama a figura do agente cumpridor da lei, cuja missão é levar a jovem perante a justiça para que seja julgada e pague por seus atos. O que o Cavaleiro das Trevas não esperava, contudo, é que Danielle fosse procurar a embaixadora das amazonas no mundo do patriarcado e invocasse o juramento de Hiketeia:

O Juramento de Hiketeia

Diana Prince, a Mulher Maravilha, sem conhecer a história de Danielle, aceita a jovem como sua protegida, e ao fazer isso coloca seu destino nas mãos das Erínias, também conhecidas como Fúrias, aquelas três entidades femininas da mitologia greco-romana que são a personificação da vingança. Se Diana falhar em sua missão de proteger a moça, deverá pagar com a própria vida. Seu juramento a coloca em conflito direto com seu companheiro de Liga da Justiça, o Batman, o qual possui seu próprio juramento, feito diante do túmulo de seus pais, de acabar com o crime em Gotham.

As Erínias

Nesta história Rucka nos apresenta um outro lado da Mulher Maravilha que tem sido pouco explorado ao longo de sua trajetória nos quadrinhos; ao invés de ser retratada como uma guerreira, sempre sisuda e muitas vezes dada a atos de violência, aqui ela aparece de fato como a Embaixadora da Paz, tal qual ela fora inicialmente concebida na Era de Ouro dos quadrinhos, por William Moulton Marston. Vemos como é o dia a dia de Diana Prince trabalhando na ONU, mediando conflitos entre países, ajudando grupos humanitários e fazendo pronunciamentos.

O roteiro Greg Rucka consegue equilibrar perfeitamente elementos da mitologia grega, na qual o mito da própria Mulher Maravilha está fundamentado, com uma trama policial moderna. Além disso, sendo uma história da maior heroína dos quadrinhos, ele não poderia deixar de abordar questões que dizem respeito às mulheres, e o faz de maneira até madura demais para uma história em quadrinhos regular da DC. Já a arte de J. G. Jones e Von Grawbadger está excelente: sua Mulher Maravilha aparece altiva e imponente, mas também é retratada como uma mulher quase normal quando está em sua residência. Já o Batman é mostrado como uma figura sombria, com o corpo quase sempre oculto pelo manto negro, um verdadeiro vigilante das sombras.

A luta propriamente dita entre Diana e o Batman é a única coisa que deixa a desejar nesta história. Desde o início ficamos ansiosos para o embate, mas quando pensamos que ele vai começar ele já acaba. Rucka é bem sóbrio com relação à superioridade de poder da Mulher Maravilha em relação ao Cavaleiro das Trevas, que tenta derrotá-la usando mais a astúcia do que força. Mas desde o início, conforme a própria capa da HQ já entrega, ele não tem nenhuma chance contra a princesa das amazonas.

Hiketeia para mim é uma das melhores histórias da Mulher Maravilha, e sua leitura não exige nenhum conhecimento prévio das aventuras da Princesa Amazona. O roteiro é muito bem estruturado, a premissa de colocar dois heróis reverenciados pelos públicos em confronto um contra o outro não é original, porém é desenvolvida com inteligência, e o autor tem sucesso em nos revelar como a é a vida da Mulher Maravilha quando ela é Diana Prince, com fidelidade e respeito à essência humanitária da personagem, estabelecida por seus predecessores durante décadas de publicação. Bo leitura! 

Capa de Mulher Maravilha: Hiketeia

sexta-feira, 8 de julho de 2016

[RESENHA] Preacher #2: Até o Fim do Mundo


Após a enxurrada criativa do final dos anos 80, o mundo dos quadrinhos enfrentou uma baita ressaca nos anos seguintes. A década de 1990 foi a época dos roteiros mirabolantes, como o da famigerada Saga do Clone do Cabeça-de-Teia; da arte absurda que pretendia apresentar praticamente todos os personagens de quadrinhos como halterofilistas, espelhando o que acontecia no cinema, com a ascensão dos grandes heróis de ação como Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Jean Claude Van Damme. Na linha principal da DC Comics a tendência foi de destruir o mito da invencibilidade de seus maiores heróis. O  mundo ficou chocado quando soube da morte do Homem de Aço nas mãos de um novo vilão chamado Apocalypse. Quase ao mesmo tempo, foi a vez do Cavaleiro das Trevas sucumbir diante de um inimigo mais forte e mais inteligente. E quantos fãs não ficaram órfãos de seu grande herói quando o Guardião Esmeralda decidiu se tornar um vilão ao assumir a identidade de Parallax?

Em meio a todo este caos a Vertigo - divisão de histórias para adultos da DC - encontrou seu caminho para a ascensão ao empregar em suas fileiras roteiristas da escola britânica, como Neil Gaiman, Grant Morrison e Garth Ennis, os quais seguiram totalmente na contramão ao optar contar histórias ambientadas no mundo real, com personagens até certo ponto normais, que conheciam e viviam os mesmos problemas que os leitores. Tais histórias eram recheadas de elementos do gênero da fantasia, do sobrenatural e de horror urbano, e tinham menos restrições ao abordar temas como sexo, drogas e violência explícita. Uma das séries mais famosas e polêmicas que nasceram neste contexto foi Preacher, escrita pelo irreverente Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon, e que causou um verdadeiro alvoroço ao trazer para suas páginas repletas de sangue, sexo, palavrões e personagens bizarros elementos considerados sagrados pela religião cristã, não poupando nem mesmo a Suprema Divindade. Esta série contou com 75 edições, incluindo especiais, e acabou de ser publicada aqui nas terras tupiniquins em um conjunto de 9 encadernados de luxo. Você pode conferir a resenha sobre a primeira edição clicando aqui. Neste texto irei resenhar sobre o segundo volume: Até o Fim do Mundo. Antes, porém, gostaria de fazer um pequeno resumo da história até aqui.

Em A Caminho do Texas, o primeiríssimo volume da coleção, foi visto que uma entidade sobrenatural chamada Gênesis, fruto da relação proibida entre um anjo e um demônio, se fundiu à alma do pastor texano Jesse Custer, conferindo a ele o dom da Palavra de Deus - o poder de obrigar qualquer pessoa a fazer qualquer coisa que ele ordenar. Enquanto foge do fodástico matador Santo dos Assassinos, na companhia de sua ex-namorada Tulipa e do engraçadíssimo vampiro irlandês Cassidy, Jesse acaba descobrindo o segredo que os anjos protegem a todo custo: Deus abandonou o Paraíso, e Seu paradeiro é desconhecido. Ele decide então ir atrás do Criador e obrigá-Lo a prestar contas por seu sumiço. A questão é que Deus não quer ser encontrado, e a insistência de Jesse irá fazer com que seu passado volte para assombrá-lo.

Marie L'Angelle

É justamente sobre isto que trata o segundo volume, intitulado Até o Fim do Mundo: o passado do reverendo Jesse Custer. O primeiro volume deixou muitas perguntas em aberto, como por que Jesse, sendo tão irreverente, violento e alcoólatra, veio a se tornar logo um pastor de igreja evangélica, bem como por que ele abandonou Tulipa sem mais nem menos para seguir este caminho. A resposta para todas estas perguntas se encontram no passado, antes mesmo dele nascer. Assim, somos levados, por meio de flashbacks muito bem construídos, até o momento em que seus pais, Christina L'Angelle e o ex-combatente da guerra do Vietnã John Custer, se conhecem; como foi sua feliz infância junto do casal; e como essa curta felicidade acabou no momento em que os capangas de sua avó, Marie D'Angelle, os encontraram e os obrigaram a ir morar em Angelville, a casa da família na Lousiana.

Marie D'Angelle é um daqueles vilões que rapidamente cativam o público pelo elevado grau de maldade que praticam. Ela é uma velha decrépita, incapaz de andar sem a ajuda de uma cadeira de rodas, e que sobrevive com a ajuda de aparelhos; porém sua maldade não tem limites, e rapidamente nos pegamos odiando-a e torcendo ferrenhamente para que seu fim esteja a altura de seus atos. Ela vem de uma família cristã puritana, cuja maior tradição é fazer com que todos os homens sigam o caminho do sacerdócio. A missão da vida de Marie é fazer Jesse voltar aos caminhos do Senhor, mas não vou estragar a experiência do leitor revelando as crueldades que ela perpetra ao protagonista para conseguir lograr êxito neste objetivo, essa é uma experiência que você precisa ter por si próprio. Fatalmente a jornada de Jesse acaba levando-o novamente a Angelville, para o acerto de contas final com a família de sua mãe. Mas se você pensa que desta vez a luta será fácil, devido a habilidade conferida por Gênesis, está terrivelmente enganado: Marie conta com um poderoso e imprevisto aliado, de modo que a Palavra de Deus é ineficaz contra ela e seus asseclas.

Jesse e Tulipa

Esta é uma história de independência, de um homem que precisa se libertar das imposições de sua família e tomar as rédeas do próprio destino. E também é, de certa forma, uma história de amor, pois é justamente o sentimento entre Custer e Tulipa que lhe dá motivação e forças para superar um inimigo aparentemente tão mais forte. Não preciso nem falar que Jesse finalmente consegue realizar seu segundo grande objetivo: levar Tulipa para a cama! E devo dizer que essa parte da história, quando os dois fazem as pazes, é bem melosa, mas felizmente os dois formam um casal bem carismático.

Este volume ainda conta com a primeira parte do arco do Graal, um organização ultra-secreta que há milênios é responsável por proteger a sagrada linhagem do Messias, e aqui mais uma vez vemos a irreverência do autor com temas considerados por muitos como sagrados. Nesta saga ele eleva o nível de sua criatividade para o bizarro ao máximo: o próprio vilão, Herr Starr, cujo visual ao estilo Sagat causa uma certa intimidação, já começa a história sendo enrabado por engano por um gigolô! Além disso, tem um tal de Jesus DeSade, um milionáriuo que promove festas hedonistas regadas de bebibas e drogas, onde todas as formas de sexo são liberadas (e incentivadas!), e que protagoniza uma cena absurda envolvendo um tatu.

A Festa de Jesus DeSade

Jesse e Tulipa reencontram Cassidy, que volta a acompanha-los em suas aventuras em definitivo, e resolvem ajudá-lo a vingar a morte de sua namorada, indo atrás dos bandidos que lhe forneceram as drogas que causaram a sua overdose; esses traficantes são os mesmos que tiraram a honra de Herr Starr, que decide ir atrás deles em busca de vingança, enquanto ao mesmo tempo está atrás de Jesse, a quem ele quer transformar no próximo Messias e assim chegar ao topo do Graal. E por fim Jesus DeSade quer a droga para sua orgia, a mesma que causou a morte da ex do Cassidy. Os caminhos de todos estes personagens convergem inevitavelmente para a festa de DeSade, a qual termina com muito sangue e corpos, e com Cassidy sendo levado por engano para a sede do Graal, na França. Neste confronto finalmente vemos a que veio Tulipa, que deixa seus companheiros masculinos no chinelo ao revelar todas as suas habilidades com armas de fogo.

Garth Ennis prova que continua sendo um roteirista excepcional; seu maior talento, na minha opinião, não está nos roteiros, muitas vezes simplistas, apelando descaradamente para artifícios toscos como coincidências explicar alguns fatos; seu grande talento se manifesta na elaboração de personagens autênticos e carismáticos, indo desde a bruxa má Marie D'Angelle até o controverso Starr, passando pelos pervertidos T.C. e DeSade e o maligno Jody. A arte de Dillon continua afiada e muito competente, embora às vezes pareça que alguns personagens tenham as mesmas feições. Não posso deixar de mencionar a arte das capas de Glenn Fabry, que são um espetáculo à parte.

Conforme já mencionado na resenha anterior, Preacher foi publicada pela Panini Comics em uma série de encadernados em capa dura com excelente qualidade, e pode ser adquirida nas principais lojas especializadas e comic shops do Brasil.

Boa leitura!

Capa de Preacher #2, por Glenn Fabry

sexta-feira, 1 de julho de 2016

[RESENHA] John Constantine, Hellblazer - Origens Volume 2: Triângulos Infernais



John Constantine é um homem atormentado. Esta é a primeira impressão que se tem ao começar a ler o segundo volume de Hellblazer Origens, um conjunto de 7 encadernados que conta com as primeiras edições do título sob a tutela do roteirista Jamie Delano. O mago trapaceiro da DC/Vertigo continua sua pendenga contra os fundamentalistas da Cruzada da Ressurreição - os Línguas da Fogo -, e os demônios e delinquentes liderados por Nergal. A razão do tormento de Constantine é o fato de que ele começa a perceber que todos que se aproximam dele acabam morrendo ou encontrando um destino ainda pior. Apesar de tentar manter a aparência inabalável e até lidar com as piores situações com uma boa dose de humor, a culpa o corrói por dentro, a tal ponto que sua sanidade começa a se despedaçar. Nos questionamos se os fantasmas dos amigos mortos que ele vê não seriam apenas uma parte do seu subconsciente materializando este sentimento de culpa, através de uma forma que ele consiga entender. Tal afirmação fica ainda mais evidente quando o vemos ser perseguido por um fantasma que tem a aparência de quando ele estava bem, encorajando-o a sair da fossa.

Constantine é Assombrado por Si Memso

Se você pensa que não há como afundar mais, Constantine consegue descer mais fundo ao fazer um pacto com o demônio Nergal para impedir os Línguas de Fogo de trazerem ao mundo o seu próprio Messias, só que para isso ele precisará trair novamente uma pessoa que ama, e ainda permitir que o sangue do demônio corra em suas veias. Ele não permite, contudo, que Nergal saia vitorioso, e consegue ludibriá-lo ao fazer a profecia dos cruzados se cumprir com o Monstro do Pântano e Abby Cable.

Este volume também apresenta o primeiro crossover entre duas revistas da Vertigo: Hellblazer e Monstro do Pântano, agora capitaneada por Rick Veith e Alfredo Alcala, os quais já haviam trabalhado com Alan Moore em sua brilhante fase na revista do Musgoso. Como acontece com a maioria das tramas compartilhadas por diferentes títulos, o leitor encontra dificuldade em acompanhar todo o desenvolvimento da história; são várias idas e vindas dos Estados Unidos e menções vagas aos Elementais - sem contar a cronologia confusa dos eventos - que, para quem não acompanha a revista do Monstro do Pântano o entendimento do plano de Constantine não é completo, e fica a sensação de estar deixando algo passar. E é exatamente por isso que resolvi fazer uma breve explanação sobre o que estava acontecendo na revista do Monstro do Pântano até então, e de que forma estes acontecimentos se relacionam com a trama de Delano.

Constantine Recebe o Sangue de Nergal

Após a suposta morte do Monstro do Pântano na parte final da grandiosa saga criada por Alan Moore, o Parlamento das Árvores começa a providenciar um substituto; porém o Elemental retorna de suas aventuras no espaço, e decide se retirar para os pântanos com sua "esposa" Abby. Como não podem ter dois elementais da Terra, o Monstro do Pântano é convocado pelo Parlamento e eles lhe dão duas opções: ou se junta a eles na Amazônia ou destrói o "Broto", que é o embrião do próximo Elemental. Mas a criatura se recusa a ser um assassino, e tampouco está disposto a abandonar a vida com Abby na Lousiana, e sua teimosia faz com que a Natureza comece a entrar em colapso. Após diversas encarnações malsucedidas do Broto (incluindo uma tentativa de possuir o corpo de Solomon Grundy), o Monstro do Pântano encontra a solução perfeita para seus dois problemas: a evolução do Broto e a tão sonhada paternidade, e é aí que Constanitne entra na história. A criatura só não contava que o mago tivesse tido a mesma ideia...

Em L'Adoration de la Terre o Monstro do Pântano possui o corpo de John Constantine, expulsando seu espírito para a dimensão astral, e com isso consegue acasalar com Abby e depositar nela sua "semente". Particularmente gosto de ver o humor do mago ao lidar com a Criatura dos Pântanos: em um determinado momento ele enrola um cigarro usando como fumo a erva que reveste o corpo do Monstro; em outro, vemos ele estragar o momento romântico da criatura com Abby ao voltar para seu corpo antes da hora. Se a mulher já não gostava do canalha, agora menos ainda; mas os dois acabam fazendo as pazes, ou pelo menos formando uma trégua em Triângulos Infernais, que empresta o título ao volume, justamente por lidar com essa espécie de "triângulo amoroso" que se forma entre J.C., Abby e o Monstro do Pântano.

O Monstro do Pântano e Abby Acasalam

O enredo de Delano continua afiado, porém acaba sofrendo com a decisão editorial de realizar o crossover de Hellblazer com Monstro do Pântano, culminando num adiamento da conclusão da saga iniciada no volume anterior. Quanto à arte de John Ridgway, que se despede do título na edição 9, há pouco do que se falar: seu desenho não é bonito, mas consegue transmitir com eficiência o clima sobrenatural e a decadência humana das histórias de Delano.

DICA DE LEITURA: Excelente enredo, arte não tão boa assim, mas vale a pena ler para conhecer as primeiras histórias do anti-herói mais querido da DC/Vertigo. História publicada pela Panini Books, um encadernado em capa cartão e papel pisa britte.

Capa de Hellblazer Origens Vol. 2