domingo, 30 de abril de 2017

RESENHA | Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson - Volume 1


O super-heróis geralmente possuem uma característica especial que os tornam, em maior ou menor grau, superiores aos demais seres humanos: alguns são alienígenas e já nasceram com dons especiais, outros os receberam devido a um acidente cósmico ou alguma picada de inseto geneticamente modificado por radiação. O Demolidor, no entanto, tem como principal característica uma deficiência física: ele é CEGO. Numa típica demonstração de "como olhar o copo meio cheio", o advogado nova-iorquino Matthew "Matt" Murdock aprendeu a compensar a falta de visão ampliando seus outros sentidos - audição, tato, olfato - e chegou até a desenvolver um sentido sobressalente: uma espécie de radar, que lhe possibilita "enxergar" qualquer obstáculo que esteja ao seu redor.

Os créditos pela criação do Homem Sem Medo pertencem a Stan Lee e Bill Everett, com a ajuda do saudoso Jack Kirby, lá pelos idos de 1964. Seu nome original é Daredevil, que traduzido para o português significa algo como temerário, ousado ou intrépido, mas que em inglês assume a conotação de "alguém que desafia o diabo ou a morte", e é aplicado a pessoas que se colocam conscientemente em risco, como acrobatas e praticantes de esportes radicais. Como nenhuma destas palavras funcionaria bem para nomear um dos principais ícones da Marvel Comics na época, os tradutores brasileiros optaram por um nome que ao mesmo tempo mantivesse o "peso" do personagem e justificasse o duplo 'D' estampado em seu uniforme. Infelizmente, o termo Demolidor não conseguiu agregar o mesmo sentido de Daredevil, de modo que teria sido melhor se simplesmente tivessem mantido o original, como foi no caso do Batman.

Após um início promissor, a qualidade das histórias do herói cego da Cozinha do Inferno caiu drasticamente e o título, sofrendo com baixas vendas, teve sua publicação reduzida a uma periodicidade bimestral. Em 1981, no entanto, um jovem desenhista franzino chamado Frank Miller assumiu o título e resgatou o Demolidor do cancelamento, capitaneando, ao lado do arte-finalista Klaus Janson, uma das fases mais aclamadas do personagem. É o início desta fase que a Panini Comics compilou no encadernado de luxo Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson - Volume 1, lançado no final de 2014, reunindo as edições Demolidor #158-172 e Espetacular Homem Aranha #27-28.

Demolidor vs Mercenário

Apesar do nome de Frank Miller estampar a capa deste encadernado, ele só assumiu o roteiro da revista na edição 168. Até então Roger McKenzie vinha fazendo um trabalho razoável, intercalando histórias fracas com alguns arcos excelentes, dentre os quais Marcado para Morrer e Revelado. No primeiro o Demolidor precisa enfrentar o vilão Mercenário, que leva sua rivalidade com o herói a um nível mais pessoal. É possível perceber uma gradual mudança no tom das histórias, com o Demolidor tornando-se cada vez mais o "herói detetive", analisando evidências, disfarçando-se entre os criminosos para obter informações e derrotando seus adversários utilizando o preparo ao invés da força bruta.

Já no segundo arco vemos o jornalista Ben Urich - introduzido por McKenzie na edição 153 - deduzir a verdadeira identidade do Diabo da Guarda de Hell's Kitchen por meio de informações colhidas ao longo das edições anteriores. Quando o jornalista confronta Murdock no hospital após um duelo do herói com o Hulk, o advogado revela as circunstâncias que o forçaram a se tornar um vigilante uniformizado. Isto acaba oferecendo a oportunidade perfeita para o roteirista revisitar a história de origem do herói, mudando um ou outro detalhe, mas mantendo todas as bases estabelecidas por Stan Lee e Bill Everett, como o fato de o pai de Matt, o boxeador Jack "Batalhador" Murdock, se envolver com o criminoso conhecido como Arranjador; o acidente que provocou a cegueira de Matt (aqui provocado por militares transportando rejeitos radioativos, enquanto que na versão anterior o caminhão de produtos químicos pertencia à empresa Ajax); e o assassinato de Jack Murdock como motivação para a criação do Demolidor. 

A partir de Demolidor #168 Frank Miller assumiu o roteiro do título, acumulando as funções de escritor e desenhista. Ele elevou as mudanças iniciadas por McKenzie para um novo patamar: o tom mais urbano e realista que ele imprimiu em seus roteiros - e que viria a se tornar sua marca registrada - foi a semente para outras obras consagradas do autor, como O Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano Um, e Sin City. Miller deu novo fôlego à mitologia do herói ao introduzir personagens novos, como a assassina de aluguel Elektra Natchios, antigo amor da juventude de Matt Murdock, e revitalizar personagens já existentes, como o Mercenário, que fica cada vez mais psicótico e obcecado em derrotar o Demolidor, e principalmente o Rei do Crime, antigo vilão do Homem Aranha, que havia desistido da vida criminosa após conhecer sua esposa, Vanessa. O trágico que arco que narra o retorno de Wilson Fisk ao comando das quadrilhas criminosas de Nova York é um verdadeiro épico e disparada a melhor história deste encadernado, embora seja apenas o prelúdio para uma história bem maior, a ser conferida no próximo volume.

Elektra
 
Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson - Volume 1 é um encadernado indispensável para os fãs do Demolidor, uma rara oportunidade para ter na coleção uma das melhores fases deste personagem, uma vez que estas histórias não eram publicadas há muito tempo. Embora algumas delas deixem a desejar, principalmente por ainda trazerem resquícios de uma época mais fanfarrona dos quadrinhos, talvez por isso mesmo tenham sido mantidas no encadernado, para o que o leitor perceba o quão importante foi a contribuição de Frank Miller, não apenas para o Demolidor, mas para os quadrinhos como um todo.

Boa leitura!

Capa do Volume 1

terça-feira, 25 de abril de 2017

RESENHA | Neil Gaiman - Deuses Americanos


Deuses Americanos é considerada a obra prima do escritor e quadrinista britânico Neil Gaiman, conhecido por ser o roteirista da aclamada HQ Sandman. Lançado em 2001, este livro ganhador dos prêmios Hugo, Nebula e Bram Stoker é uma mistura de road trip, mitologia, suspense e uma pitadinha de terror. A versão que utilizei nesta resenha é a chamada Edição Preferida do Autor, uma espécie de versão estendida da edição original, contando com um acréscimo de cerca de 12.000 palavras, segundo o próprio autor, e foi publicada aqui no Brasil pela Editora Intrínseca numa edição com acabamento diferenciado.

A trama gira em torno do ex-presidiário com o nome incomum de Shadow, que é liberado de sua pena sob regime condicional após a morte da esposa, Laura Moon. Completamente sem rumo, Shadow é contratado como guarda-costas de um velho trambiqueiro que chama a si próprio de Sr. Wednesday. Sua vida então vira de cabeça para baixo quando ele se vê no meio de uma guerra invisível entre duas facções: de um lado os antigos deuses, dos mais variados panteões, liderados por Wednesday, cuja verdadeira identidade é Odin, da mitologia nórdica (aqui o autor usou um jogo de palavras, já que o termo para o quarto dia da semana em inglês deriva da expressão "Dia de Woden", nome pelo qual Odin era conhecido na antiga Bretanha); do outro lado estão os deuses modernos, encarnações dos novos objetos de culto da humanidade, como a Internet, a Mídia, o Mercado, a Aviação, etc.

Muito do que é visto em Deuses Americanos guarda certa semelhança com o que o autor já havia feito em Sandman, como o uso de metalinguagem para personificar conceitos abstratos, atribuindo-lhes características humanas. Enquanto lá haviam os Perpétuos, aqui ele trabalha com a noção de divindade. Deuses existem, mas estão longe de ser aqueles seres todo-poderosos e superiores que imaginamos: eles caminham entre nós, têm e empregos normais e são movidos pelas mesmas paixões. Neil Gaiman contradiz o conceito de que os seres humanos são dependentes de seus deuses, revelando uma outra realidade: são eles que precisam de nós, de nossa crença, de nossa devoção, sem o que eles ficam cada vez mais fracos, até que, se forem completamente esquecidos, acabam morrendo. Desta forma, é a fé o objeto de disputa entre as duas facções de divindades. Mesmo os deuses modernos, retratados com muito mais poder e influência que os antigos, possuem em seu íntimo o medo de ficarem obsoletos, pois a raça humana está em constante progresso, e algo que hoje é novidade e detém a atenção de milhões de pessoas amanhã ficará ultrapassado e logo será esquecido pelas próximas gerações. Foi o que aconteceu com a máquina de escrever no advento do computador pessoal, o qual já está sendo posto de lado pelos smarthphones. E quem sabe o que virá a seguir?

Neil Gaiman faz jus aos prêmios que recebeu e se confirma como um dos maiores escritores modernos com seu estilo de escrita envolvente; ele é um desses raros escritores que conseguem transportar o leitor, se não de corpo, pelo menos de mente e coração para dentro das páginas de seus livros, de modo que é quase impossível parar de ler depois que se começa. Seus textos são inteligentes, os personagens, embora improváveis, são cativantes, e os diálogos muito bem construídos. Eu separei algumas frases que me causaram grande impacto durante minha primeira leitura desta obra, só para o leitor sentir um gostinho do que o autor apresenta em Deuses Americanos.


"Você precisa entender essa coisa de ser deus. Não é magia. É só ser você, mas aquele você em que as pessoas acreditam. É ser a essência concentrada e aumentada de si mesmo. É se transformar em trovão, ou no poder de um cavalo galopante, ou em sabedoria. Você absorve toda a fé e fica maior, mais legal, mais do que humano. Você cristaliza. (...) Então, um dia esquecem que existe, não acreditam mais em você e não fazem mais sacrifícios... não se importam, e quando você percebe, está misturando cartas ara confundir quem passa na esquina da Broadway com a Rua 43."


"Existem novos deuses crescendo nos Estados Unidos, apoiando-se em laços cada vez maiores de crenças: deuses de cartão de crédito e de auto-estrada, de internet e de telefone, de rádio, de hospital e de televisão, deuses de plástico, de bipe e de néon. Deuses orgulhosos, gordos e tolos, inchados por sua própria novidade e por sua própria importância."


"Eu sou a mãe dos idiotas. Sou a televisão. Sou o olho que tudo vê, sou o mundo do raio catódico. Sou a expositora de tetas. O pequeno altar em torno do qual a família se reúne para louvar. 
- Você é a televisão? Ou é alguém dentro da televisão?
- A televisão é o altar. Eu sou a entidade para quem as pessoas fazem os sacrifícios. 
- O que elas sacrificam?
- O tempo de vida, principalmente - respondeu Lucy. - Às vezes, umas às outras."


"Olha, este país não é bom para os deuses."


Uma das coisas que se pode notar nos textos acima é que Neil Gaiman faz uma crítica ao estilo de vida norte-americano, o qual, em certa medida, acaba influenciando o modo de vida de todo o mundo ocidental. Este estilo de vida, fruto do consumismo exacerbado dos nossos tempos, é marcado pelo desapego, não aquele que tem a ver com humildade, mas num sentido de não se dar o devido valor às coisas: tudo é mesquinho, tudo é descartável ou substituível, desde objetos até pessoas. Neste contexto, nem as crenças ficam de fora: qualquer divindade ou religião pode ser facilmente trocada por outra que pareça oferecer mais vantagens, e códigos morais são flexibilizados para se adequarem a estas mudanças.

Nesta jornada para conhecer o âmago do que seria o espírito americano, o autor nos leva junto com Shadow numa viagem pelos recônditos secretos dos EUA, evitando os grandes cartões postais e metrópoles retratadas quase à exaustão nos filmes e seriados de TV. Ao invés disso, somos apresentados a locais pouco conhecidos, mas que atraem nosso interesse e instigam nossa imaginação, como a atração de beira de estrada House on the Rock, no Wisconsin, a Rock City, na Georgia - com sua vista dos sete Estados -, e o esquecido centro geográfico dos Estados Unidos, localizado próximo a Lebanon, no Kansas.

Além da história principal, o livro possui vários interlúdios, compostos por contos que narram a vinda de algumas divindades e criaturas mitológicas junto com imigrantes do Velho Mundo para a América. Embora em alguns momentos quebrem o ritmo da trama central, estes contos rendem boas histórias, como o da entidade Bilquis, outrora a Rainha de Sabá, que atua como prostituta em Los Angeles, ou o do ifrit (gênio) árabe que trabalha como taxista numa Nova York sem tempo para relacionamentos, ou ainda a saga do casal de gêmeos africanos vendidos como escravos e arrastados à força para um Novo Mundo onde pessoas de pele negra eram consideradas inferiores a animais. Há ainda uma trama secundária na qual Shadow se vê no centro de um mistério que paira sobre a pacata cidadezinha de Lakeside, onde todo ano crianças e adolescentes desaparecem sem deixar rastros durante o inverno. A resolução deste enigma segue o mesmo script da história principal: tal como nos truques com moedas realizados pelo protagonista, Gaiman deixa a verdade diante das vistas do leitor enquanto atrai sua atenção para outras coisas.

Por fim, não poderia finalizar esta resenha sem falar sobre os personagens que povoam as páginas de Deuses Americanos, já que são eles o ponto mais alto desta leitura. Por incrível que pareça, Shadow é um protagonista morno, sem sal. Sua apatia e aparente indiferença diante de todas as situações fantásticas pelas quais passa ao longo da jornada com Wednesday chega a ser irritante em alguns momentos; mesmo com a justificativa do luto pela esposa - a perda da pessoa que ele mais amava e as circunstâncias da morte faz com que nada mais importe para ele - não seria suficiente para explicar a ausência de questionamentos por parte do personagem. A volta de Laura do mundo dos mortos, ao invés de tirá-lo da catarse, só faz mergulhá-lo ainda mais na introspecção. Porém a falta de carisma de Shadow é compensada em dobro pela simpatia de Wednesday. Mesmo sendo um tremendo vigarista, salafrário e pervertido, Odin logo de cara conquista o leitor com sua presença de espírito e senso de humor. Outros personagens também se destacam, como Laura Moon, o garoto técnico, Samantha Black Crow (é dela um dos monólogos mais impressionantes do livro), o rabugento Czernobog e o velhinho simpático Hinzelmann.

Há ainda muitas coisas que eu poderia falar sobre este livro, no entanto isso acabaria tirando a graça da leitura. Deuses Americanos é um livro estranho, de múltiplas facetas, e cabe ao leitor tirar suas próprias conclusões.

Boa leitura!

P.S.: Deuses Americanos será adaptado para uma série de TV exibida pelo canal Starz, dos mesmos produtores de Hannibal. Veja os trailers da primeira temporada aqui e aqui.

domingo, 23 de abril de 2017

RESENHA | Batman: A Queda do Morcego



A década de 90 ficará para sempre marcada na memória dos fãs como a Idade das Trevas dos Quadrinhos. Após a explosão criativa dos anos 80, a década seguinte viu uma queda vertiginosa na qualidade dos roteiros, seguida por uma tendência de desenhistas em representar seus personagens em formas anatomicamente impossíveis - homens com músculos extremamente bombados e mulheres com curvas tão loucas e com pouquíssimas vestimentas, que viriam a povoar os sonhos mais secretos dos adolescentes da época. Esta tendência começou logo após a criação da editora Image Comics, fundada por artistas descontentes oriundos majoritariamente da Marvel Comics. As duas editoras dominantes do mercado - Marvel e DC - combateram esta nova concorrência da única forma que sabiam: resolveram copiar o estilo da rival! E assim as publicações dos principais heróis dos quadrinhos foram infectadas por esse movimento iniciado pela Image.

A DC, particulamente, destacou-se pela decisão de desconstruir o conceito da invencibilidade de seus maiores heróis. Foi então que veio a polêmica A Morte do Superman, que causou um rebuliço danado no mundo inteiro. Fãs chocados viram pela primeira vez a morte do primeiro e maior super herói de todos, e o surgimento de não apenas um, mas quatro Supermans substitutos! Contudo, assassinar um medalhão da editora não foi suficiente: era preciso tirar de cena outro grande super herói. Foi aí que o então editor Dennis O'Neil e os roteiristas Chuck Dixon (Detective Comics), Doug Moench (Batman) e Alan Grant (Shadow of the Bat) conceberam a maxissérie A Queda do Morcego, na qual o Cavaleiro das Trevas teve sua coluna quebrada pelo brutamontes movido a anabolizante Bane, vindo a ficar temporariamente paraplégico.

Por incrível que pareça, a ideia original não era tão ruim. O primeiro arco, intitulado Knightfall (traduzido aqui no Brasil como A Queda do Morcego), no qual Bane libertou do Asilo Arkham todos os vilões que o Batman havia capturado, rendeu algumas boas histórias. O plano do vilão latino era simples e dotado de uma certa genialidade: deixar que o Batman se esgotasse física e mentalmente enquanto tentava recapturar os vilões fugitivos, para então, quando ele estivesse completamente exaurido, desferir o último golpe que quebraria para sempre o Morcego. Até aí tudo bem, o problema foi o que aconteceu depois...

Vilões Escapam do Arkham

Era de se esperar que, após recrutar um jovem órfão, ensiná-lo todas as suas técnicas de luta e investigação, e levá-lo em patrulhas noturnas pela cidade mais violenta do mundo, Batman estivesse preparando um substituto para quando morresse ou decidisse se aposentar. Infelizmente, os roteiristas desta saga resolveram ignorar completamente Dick Grayson - atuando agora como o Asa Noturna - e passar o Manto do Morcego para a pessoa mais improvável de todas: um jovem violento, impulsivo e mentalmente desequilibrado que havia sofrido lavagem cerebral por uma ordem religiosa de fanáticos que queriam que ele fosse o seu anjo da morte: Jean-Paul Valley, o Azrael. Este novo Batman atenderia às novas demandas dos jovens da década de 90: o antiquado uniforme clássico foi substituído por uma armadura à prova de balas que guardava uma semelhança com o uniforme de um certo herói da Image - Spawn -, e era dotada de garras afiadas, lança-chamas e disparadores automáticos de batarangs. O ultrapassado código de ética de Bruce Wayne também foi deixado de lado em favor de uma atitude mais rígida em relação aos bandidos, no melhor estilo "bandido bom é bandido morto".

O arco de histórias que engloba o período em que Jean-Paul Valley atuou como o novo Batman foi intitulado Knightquest: The Cruzade (A Cruzada), e até hoje é considerado um período a ser esquecido pelos fãs no Morcego. O Batman já foi substituído outras vezes nos quadrinhos, mas nenhum substituto foi tão ruim quanto Jean-Paul, nenhum deles maculou tanto o legado do Morcego como o antigo Azrael.

A segunda parte de Knihtquest, denominada The Seacrh, acompanha os passos de Bruce e Alfred. Mesmo preso a uma cadeira de rodas, Bruce parte em uma missão para resgatar sua médica, a Drª. Shondra Kinsolving, e o pai do Robin, que haviam sido sequestrados por um misterioso grupo, deixando Gotham City completamente a mercê de um Batman lunático. Esta busca acabou por levar Bruce a uma cura para sua condição física, que vem por meio de um descarado Deus Ex Machina.  

Jean-Paul Valley

O terceiro e último arco desta saga - KnigtsEnd - marcou o retorno de Bruce Wayne à identidade de Batman, que precisou ser reconquistada das garras de Jean-Paul. Esta fase teve uma pequena melhora no roteiro: achei interessante o confronto das duas versões do Cavaleiro das Trevas, com o desafio de Bruce Wayne provar que seu intelecto é superior à toda tecnologia da qual o Jean-Paul Valley ficou dependente. Outro ponto positivo foi o treinamento pelo qual Bruce se submeteu com a assassina Lady Shiva. Após meses fora de forma, seria muito forçado colocá-lo num confronto direto com Jean-Paul, que já havia derrotado Bane com facilidade. Achei uma boa sacada do roteirista a meta que Batman colocou para si próprio de estar pronto para o embate apenas quando fosse capaz de realizar o "salto de fé" do alto de um edifício.

A Queda do Morcego foi a primeira das megassagas que passaram a tomar conta das revistas do Batman e seus associados durante mais de um ano inteiro. A ela sucederam-se outras sagas que seguiam o mesmo modelo, como Contágio, Legado, Terra de Ninguém e Jogos de Guerra. Este tipo de estratégia de vendas era comum no mercado de HQs da época, já que, para ficar por dentro da história que estava rolando no universo do Morcego era preciso adquirir vários títulos todo mês, o que tornou um suplício a vida do colecionador de quadrinhos. Até hoje é difícil encontrar ecadernados que reunam toda esta fase; aqui no Brasil só saiu uma versão reduzida de Knighfall, que foi apenas até o ponto em que Bane quebra a coluna do Batman. De qualquer forma, como eu já havia dito antes, esta é a melhor fase desta saga na minha opinião, sendo o restante esquecível. Basta saber que existiu um segundo Batman e que ele só fez m&rd@!

Se é possível extrair um legado positivo de A Queda do Morcego, eu citaria a criação de Bane, que veio a ser uma importante aquisição para a galeria de vilões do Batman. Ao contrário do que muita gente pensa, Bane não é apenas um brutamontes descerebrado, mas um estrategista nato, com um gênio que poderia se equiparar ao do próprio Bruce Wayne se não fosse por seu vício no esteróide Veneno. Afinal, ele foi o único vilão capaz de derrotar o Batman, e de maneira tão humilhante: quando ele quebrou a coluna do herói, o Batman já estava quebrado há muito tempo, pois a verdadeira derrota que ele sofreu foi psicológica, e demoraria muito tempo até ele se reerguer desta "queda".

Então é isso p-pessoal! Espero que tenham gostado desta resenha. Boa leitura!

Capa de Knightfall Vol.1 (Versão Americana) 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

RESENHA | Batman: Ano Um


Ao lado de Superman e Mulher Maravilha, o Batman constitui um dos principais pilares da DC Comics e um dos maiores expoentes, não apenas dos quadrinhos, mas de toda a cultura pop. Criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger, ele fez sua estreia nas páginas da revista Detective Comics #27, aproveitando o sucesso de outro super herói da editora, o Super Homem. O notório detetive fantasiado de morcego - inspirado nos heróis dos pulps Zorro e Sombra, em um filme mudo de 1926 chamado The Bat, e em um esboço de asas quirópteras de Leonardo DaVinci -, fez um sucesso inesperado, e acabou ganhando um título próprio em 1940. A primeira edição desta revista trazia logo em suas primeiras páginas a gênese do personagem: o fatídico assassinato do casal Thomas e Martha Wayne, o árduo treinamento físico e mental pelo qual o jovem Bruce Wayne passou, e sua decisão de tornar-se um vigilante mascarado.

Após 4 décadas de publicação ininterrupta - um caso raro dentro do mundo dos quadrinhos -, esta ainda parecia a origem perfeita para o Batman. O reboot implementado pela editora em 1986, no entanto, ofereceu a oportunidade perfeita de inserir esta origem num contexto mais atual e realista, que agradasse tanto aos leitores de quadrinhos mais maduros e exigentes do final do século XX, como os antigos fãs do personagem. Para esta tarefa foi escolhido um jovem roteirista que já havia provado seu talento ao escrever e desenhar uma das Graphic Novels mais consagradas de toda a nona arte: O Cavaleiro das Trevas. Ao lado do artista David MazzuchelliFrank Miller concebeu uma minissérie em 4 partes que revisitava o primeiro ano da carreira do Cruzado Encapuzado como combatente do crime em uma Gotham City inspirada na Nova York dos anos 80, infestada de gangues, traficantes de drogas, prostitutas e policiais corruptos.

A Origem do Morcego, em Batman #1

O roteiro de Batman: Ano Um segue os passos de dois personagens distintos: Bruce Wayne, jovem e órfão milionário que retorna a Gotham City após 12 anos viajando pelo mundo, e o policial James Gordon, que chega à cidade vindo de Chicago para integrar as fileiras do DPGC (Departamento de Polícia de Gotham City). Apesar de suas diferenças, ambos possuem um objetivo comum: livrar a cidade da escória criminosa que assola seus habitantes. Enquanto Gordon está decidido a cumprir esta difícil tarefa do lado da lei, Bruce treinou por mais de uma década para se tornar um vigilante, impelido pelo juramento feito após a morte dos pais.

O início da carreira do Bruce Wayne como combatente do crime não é nada fácil. Com 25 anos, ele está longe de se tornar o herói invencível que todos conhecemos. Impetuoso e inexperiente, ele é capaz de cometer os erros mais bobos, e isso torna a história muito mais crível, já que Miller não nos apresenta um herói nascido pronto, para quem tudo dá certo logo no começo. A primeira incursão de Bruce ao submundo de Gotham é quase fatal para ele, e lhe proporciona um amargo choque de realidade. Esta derrota, entretanto, é usada pelo roteirista como o catalisador para a criação do Batman, aliada a uma certa dose de misticismo simbólico. A icônica cena em que Bruce recebe a visita do Morcego é resgatada da gênese original do personagem e também utilizada por Miller em O Cavaleiro das Trevas para este mesmo propósito.

Bruce Wayne decide se tornar o Batman

O futuro Comissário Gordon é mostrado sob uma perspectiva mais humana. Apesar de tentar conciliar sua vida pessoal com o trabalho o melhor que pode, ele ainda é capaz de cometer erros, como trair a esposa com uma parceira de trabalho. Isso acaba deixando-o mais vulnerável aos ataques de seus inimigos, que decidem explorar este ponto fraco. 

Além de Gordon, outros personagens clássicos do cânone fazem sua estreia nas páginas dessa minissérie. A Mulher Gato tem sua origem completamente remodelada e cercada de polêmicas: Selina Kyle aparece como uma prostituta que, inspirada pelo Batman, veste uma fantasia sensual de gata para efetuar roubos arriscados. Além disso, em alguns momentos fica subentendido que ela seria lésbica, o que hoje causaria bem menos impacto do que na década de 80. Esta visão radical e pouco glamourosa da origem da personagem deixou alguns fãs incomodados, de modo que, assim que teve a oportunidade, a DC Comics aproveitou reescrever a história de origem da ladra mais famosa dos quadrinhos. 

O assistente de promotoria Harvey Dent - que mais tarde viria a se tornar o vilão Duas Caras -, também dá as caras (perdão pelo trocadilho) nesta história, atuando como um improvável aliado do Morcego, a despeito da perseguição pública ao vigilante empreendida pela polícia. Ele trabalha ao lado do Batman para desmontar o império criminoso de Carmine "Romano" Falcone, cuja organização possui braços infiltrados em todas as esferas de poder do governo de Gotham City, incluindo o DPGC. Falcone foi criado por Frank Miller para ser o principal antagonista de Ano Um, e foi baseado no famoso mafioso Don Vito Corleone, dos livros de Mario Puzo, e é uma espécie de Rei do Crime da DC. 

Batman Desafia os Criinosos

Apesar dos frequentes saltos temporais (lembre-se que esta história se passa ao longo de um ano inteiro), a fluidez do roteiro não é prejudicada. Cenas de ação são frequentes e muito bem elaboradas, intercaladas entre diálogos bem construídos ou breves relatos feitos por apresentadores de televisão - novamente Miller usa deste recurso visual, embora em menor escala do que em O Cavaleiro das Trevas. A arte de David Mazzucheli, que já havia colaborado com Miller em Demolidor: A Queda de Murdock, está sensacional, e casa perfeitamente com o realismo proposto por Frank Miller. O obra prima se completa com as belas cores de Richmond Lewis, que coloriu à tinta os desenhos de Mazzuchelli. 

Batman: Ano Um foi publicada em Batman #404-407 e já foi reimpressa diversas vezes, inclusive em formato de luxo (aqui no Brasil ela foi publicada pela Panini Comics). Considerada pelos fãs a origem definitiva do Homem Morcego, esta HQ já foi adaptada para uma animação da Warner Animation e serviu de inspiração para o roteiro de Batman Begins, de Cristopher Nolan. Ela foi eleita pelo site IGN a segunda melhor história do Batman, atrás apenas de O Cavaleiro das Trevas, e eu concordo com esta avaliação. Para mim, a visão crua e realista tão comum aos roteiros de Miller são um diferencial que a colocam acima de outras obras de quadrinhos e faz com que quase possamos conceber o Batman como um herói real. Item mais do que recomendado para os fãs do Batman e dos quadrinhos em geral.

Boa leitura!

Batman: Ano Um - Capa