quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

[RESENHA] Batman: Filho do Demônio + Noiva do Demônio



Em 2016 a Eaglemoss começou a publicar no Brasil uma coleção de Graphic Novels da DC Comics em capa dura, reunindo as principais histórias de Batman, Superman, Mulher Maravilha, Liga da Justiça, dentre outros. Quando vi a lista de HQs que compunham esta coleção, fiquei animadíssimo, pois vi que ela continha uma Graphic Novel escrita por Dennis O'Neil chamada Batman: Nascimento do Demônio, que narra a origem do vilão Ra's al Ghul. Apesar de não ter assinado a coleção (muitas histórias que fazem parte dela eu já tinha em outras publicações pela Panini), fiquei acompanhando pelo site da editora até o lançamento desta HQ específica. Quando finalmente tinha em mãos os dois volumes que compunham Nascimento do Demônio, eis minha grata surpresa quando vi que não apenas esta história estava contemplada, mas todas as três que compõem a chamada Trilogia do Demônio. Destas, apenas O Filho do Demônio se encontrava até então disponível comercialmente, devido a sua relação com o arco de histórias de Grant Morrison que chacoalhou o Universo do Morcego na última década (e a cabeça dos fãs!); as outras duas, somente em sebos ou nas mãos dos Mercenários Livres da Internet.

Nesta postagem irei resenhar sobre as primeiras duas histórias da trilogia, as quais compõem o primeiro encadernado. Portanto, não saia da frente por bat-computador ou do bat-celular!

I. O Filho do Demônio, por Mike W. Barr (roteiro) e Jerry Bingham (arte)


"Detetive, como sabe, sou amaldiçoado com uma paixão pelo vazio, pela desolação. É uma beleza à qual minha alma corresponde. Tão pura e imaculada quanto os desertos de minha terra natal. Julgo ser minha missão purificar este planeta, restaurar sua beleza... e tolerarei nenhuma interferência. No entanto, por ora, somos aliados..."


Ra's al Ghul, Talia e Batman

É provável que esta Graphic Novel lançada em 1987 (por acaso o ano do nascimento daquele que vos escreve) atualmente seria desconhecida da maior parte dos fãs do Cruzado de Capa, excetuando-se os mais aficionados, não fosse pelo fato de um certo roteirista escocês, no ano de 2006, ter resgatado um acontecimento específico desta história e tê-lo utilizado em sua própria trama: o de que o Batman teve um filho! Se você está entrando no mundo dos quadrinhos agora e não sabia disso, então não se espante: o Homem Morcego já é papai há algum tempo, e já fez até o moleque vestir o manto do Robin! No entanto, lá em 1987 o roteirista Mike W. Barr (o mesmo de Camelot 3000) nem fazia ideia de que o bebê que Talia al Ghul entregava para adoção ao final de O Filho do Demônio se tornaria o novo Robin, uma vez que esta história não pertencia ao cânone oficial do Batman. Independente de todos estes fatos, esta HQ se sustenta apenas por sua qualidade, e vale a pena a leitura não apenas por sua importância na fase atual do personagem, mas pela história em si, e mais ainda pela incrível arte de Jerry Bingham.

O trama se inicia com Batman investigando o misterioso assassinato de um cientista em Gotham, o dr. Harris Blaine, personagem oriundo das primeiras aventuras de Batman contra Ra's al Ghul. A investigação e a natreza das pesquisas de Blaine, bem como a presença de uma certa mulher de seu passado, levam Batman a desconfiar do líder da organização criminosa conhecida como Cabeça do Demônio, seu arqui-rival Ra's al Ghul. No entanto, quando o confronta, o Cavaleiro das Trevas descobre que dessa vez Ra's é inocente, e precisa forjar uma improvável aliança com seu inimigo para enfrentar a verdadeira ameaça: o perigoso terrorista Qayin, antigo desafeto de Ras's, que pretende provocar uma guerra de proporções globais entre os EUA e a URSS fazendo uso de uma arma climática.

Batman

Mike W. Barr procura construir um enredo mais próximo possível da realidade; não faltam referências históricas, principalmente do período da Guerra Fria, como a corrida espacial, o luta entre EUA e URSS pelo controle de nações estratégicas, e até participações especiais do presidente norte-americano Ronald Reagan e do estadista russo Mikhail Gorbachev. Mas onde ele realmente acerta é na construção dos personagens.

Batman é retratado como um homem torturado pela morte dos pais quando criança (é claro que não poderia faltar o clássico flashback do assassinato de Thomas e Marta Wayne), dividido entre o fardo da responsabilidade de cumprir a promessa que fizera diante do túmulo dos pais de combater o crime a todo custo, e o desejo de poder levar uma vida normal, como um chefe de família. Mike W. Barr coloca Bruce Wayne diante de uma possibilidade real de concretizar este desejo, quando o herói descobre que Talia al Ghul está esperando um filho seu. A perspectiva de se tornar pai faz Bruce Wayne cogitar até mesmo aposentar a Capa e o Capuz! Embora seja muito interessante ver o herói lidar com este dilema, as circunstâncias que levaram a esta situação incomodam a maioria dos fãs do Cruzado Encapuzado devido ao fato do autor distorcer alguns aspectos primordiais da personalidade de Bruce: de fato, é estranho ver o Batman, bem no meio de uma missão, distraindo-se com algo tão "trivial" como um relacionamento amoroso, ainda mais com a desculpa de que, por toda sua carreira de vigilante, nunca tivesse se dedicado à busca do verdadeiro amor. Isso vai completamente contra a ideia do Batman frio e insensível que estamos acostumados a ver.

Mas se por um lado Barr toma decisões equivocadas (não ouso dizer que ele errou ao mostrar um Batman mais humano, já que esta é a sua visão do personagem), por outro ele acerta ao explorar uma faceta do Batman que, a despeito de sua importância, é negligenciada por quase todos os roteiristas que assumem seus títulos: a do Detetive. Batman faz uso das duas principais características que um verdadeiro investigador deve ter, como o célebre escritor Arthur Conan Doyle explica em seu livro As Aventuras de Sherlock Holmes: a observação e a dedução. É interessante a forma como Barr expõe para o leitor todo o processo de análise de pistas que Batman faz em sua mente até chegar à conclusão que o levará a dar o próximo passo.

Batman Investiga uma Cena de Crime

Por fim, mas não menos importante, é preciso falar da arte que permeia as páginas desta história em particular. Sem dúvida esta Graphic Novel não seria a mesma sem as belíssimas ilustrações de Jerry Bingham. O desenhista nos brinda com quadros muito bem desenhados, e organizados de forma bem original, com desenhos sobrepondo-se uns aos outros ou mesclando-se entre si. As cores também são escolhidas de maneira inteligente e acompanhando o tom do enredo: cores frias para os momentos mais introspectivos, e quentes para os mais emocionantes. Tudo é muito agradável de se olhar, e até mesmo a falta de cor é usada como um artifício para tornar a arte mais equilibrada.

Com certeza esta é uma HQ que merece estar na estante de qualquer um que se considere colecionador de quadrinhos, ou que aprecie histórias do Maior Detetive do Mundo. Não é a toa que ela foi escolhida como uma das 25 melhores Graphic Novels do Batman, de acordo com o site de entretenimento IGN.

Batman e Talia


II. A Noiva do Demônio, por Mike W. Barr (roteiro) e Tom Grindberg (arte)


"A tentação para se entregar e desistir é grande... assim como foi na noite em que assassinaram seus pais... ou em todas as vezes em que se deparou com o tamanho da missão que escolheu para si. Assim como é sempre que tem a vida de um malfeitor nas mãos e percebe a tentação da vingança tentando tomar o lugar da justiça. Ele nunca retrocedeu... jamais se rendeu. E não fará isso agora.


Batman Enfrenta os Capangas de Ra's 

Das três histórias que compõem a Trilogia do Demônio, esta é a que eu considero a mais fraca, por dois motivos: primeiro, o roteiro de Mike W. Barr é mais raso, dando preferência às cenas de ação e aventura em relação aos dilemas morais dos personagens, e em segundo lugar devido à arte, que, apesar de apelar para o estilo setentista de fazer quadrinhos, não chega aos pés da arte suave e agradável da história anterior. Contudo, isto não quer dizer que seja uma história ruim; pelo contrário, como a maioria dos roteiros de Barr, o enredo é muto bem escrito, e rende um bom divertimento justamente por causa da ação. Só não a considero como um clássico obrigatório para um leitor de quadrinhos que não seja fissurado nas HQs do Batman.

O enredo nos leva a acompanhar um dos planos de Ra's al Ghul de libertar o planeta de sua maior ameaça: o ser humano! Ele deseja fazer isto acelerando o processo de aquecimento global para que a população terrestre diminua a padrões mais aceitáveis, e ele possa se tornar o governante daqueles que restarem. No entanto, o famoso Poço de Lázaro não está mais funcionando como antes, e, sem saber o quanto ele poderá prolongar mais sua existência sobre a Terra, Ra's decide encontrar uma mulher capaz de lhe fornecer uma prole adequada. A escolhida é uma atriz hollywoodiana aposentada, que facilmente cai em sua lábia com a promessa de ter a antiga beleza restaurada. É claro que Batman acaba descobrindo os planos de Ra's al Ghul e mais uma vez se coloca entre o vilão e seu objetivo.

Ra's Explica seu Plano

Cronologicamente, esta história se passa após a morte do Robin Jason Todd, e após Bruce Wayne acolher o talentoso Tim Drake como seu novo protegido. Ainda traumatizado pelo que acontecera com o parceiro anterior, Batman não permite que o rapaz o acompanhe em suas missões antes de completar o treinamento, agindo todo o tempo como um pai super protetor. Contudo, Mike W. Barr não se aprofunda muito nesta questão, o que poderia render um peso mais dramático à trama ao invés da trama secundária do Dr. Carmody e seu filho Brent. Pelo menos o lado detetivesco do Cavaleiro das Trevas continua sendo bem explorado pelo autor, incluindo uma passagem em que ele precisa se disfarçar para se infiltrar na base de Ra's al Ghul. Para quem não sabe, uma das habilidades de Bruce Wayne é justamente o disfarce e a arte de atuar, os quais ele aprendeu de seu mordomo Alfred, que, além de espião britânico também já fez sucesso na ribalta. O disfarce mais famoso de Bruce é o do criminoso Matches ("Fósforos") Malone, e curiosamente a primeira vez que ele assumiu essa identidade foi em Batman 242, de Dennis O'Neil, num de seus primeiros embates contra Ra's al Ghul.

O maior trunfo desta história é a forma como Ra's al Ghul é apresentado. Apensar de ser considerado por muitos um vilão, na verdade ele é um personagem muito mais complexo. A meu ver, ele é um visionário, um homem que já viveu muito tempo e viu o que a raça humana fez e está fazendo ao meio ambiente e deseja pôr um fim em tanta destruição. O problema é que não há meio fácil de se fazer isso; tudo o que foi tentado até então ou falhou ou então demoraria muito tempo devido à política. Seu único pecado, a meu ver, é a megalomania: Ra's acredita que apenas ele tem a solução para o problema, e que, uma vez que o mundo volte a ser um paraíso, apenas ele ou alguém de seu sangue possa governar a raça humana e direcioná-la para um novo futuro, diferente do que estamos construindo para nós hoje. Realmente é difícil às vezes não torcer para que o vilão se dê bem nesta história.

Isso é tudo, p-p-pessoal! Espero que tenham gostado desta resenha. Falarei do próximo volume em outra postagem, não necessariamente na próxima! Boa leitura!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

[RESENHA] Desafio Infinito


Desafio Infinito, no original The Infinity Gauntlet (A Manopla do Infinito), é uma minissérie em seis edições lançada em 1991 pela Marvel Comics, com roteiro de Jim Starlin e desenhos por George Perez e Ron Lim. Esta saga é a continuação de Thanos: Em Busca de Poder, na qual o Titã Louco reuniu todas as Joias do Infinito, tornando-se o ser mais poderoso do Universo Marvel (leia aqui a minha resenha sobre esta minissérie). Esta saga serviu de inspiração para o próximo filme dos Vingadores - Guerra Infinita - cuja trama se iniciou lá na cena pós-créditos do primeiro filme da franquia quando tivemos um vislumbre de Thanos.


Em Desafio Inifinito, Startlin faz algo semelhante ao que Jim Shooter fez em Guerras Secretas, reunindo quase todos os principais heróis da Marvel para enfrentar a ameaça do Titã Ensandecido. Apesar de nomes de peso como Capitão América, Thor, Wolverine e Dr. Destino, o escolhido de Starlin para liderar os Campeões da Terra é um personagem esquecido pela editora há mais de uma década chamado Adam Warlock, devido a sua relação direta com as Joias do Infinito. Adam possuíra por muitos anos a Joia da Alma, que lhe conferiu os poderes místicos que lhe deram a alcunha Warlock (warlock = feiticeiro, mago). Na trama, Adam Warlock decide reunir os mais poderosos heróis da Terra após Thanos utilizar o poder da Manopla do Infinito (a luva na qual ele colocou todas as Joias do Infinito) para assassinar metade dos seres vivos de todo o Universo. Esta é sem dúvida a cena mais icônica da saga, e uma das melhores de todos os quadrinhos, quando o vilão realiza o maior genocídio estelar já registrado em papel jornal com um simples estalar de dedos. Quanta moral, não?


Thanos Assassina Metade do Universo

O interessante do enredo desenvolvido por Starlin é sensação de inevitabilidade que se tem ao ver os heróis enfrentando a ameaça de Thanos. Em primeiro lugar porque, tendo os poderes de um deus, é praticamente impossível derrotar Thanos pelos métodos convencionais. Nem mesmo as entidades mais poderosas do Universo Marvel, como Galactus, Kronos e Eternidade foram capazes de fazer frente ao poder das Joias. Em segundo lugar porque, após a morte de tantos personagens importantes (o Homem de Ferro sendo decapitado é mostrado quase que de forma casual), é impossível sentir medo de verdade pela vida dos heróis, já que dificilmente a Marvel iria permitir que um roteirista matasse vários astros de suas principais revistas sem a garantia de que ele criasse um jeito de trazê-los de volta à vida no final da história.

Jim Starlin se consagra como um dos maiores roteiristas dos quadrinhos, ao nos proporcionar uma trama inteligente, impactante e repleta de reviravoltas. Um bom exemplo disso é a solução final para a ameaça de Thanos, de uma simplicidade absurda, mas que não cai no ridículo. Sem dar spoilers (apesar de que, para uma história de mais de 20 anos, entregar o final não seria lá um spoiler) basta dizer que Starlin criou o interessante conceito de que, na verdade, Thanos não queria vencer a batalha, e que ele só seria derrotado se ele permitisse. Tal conceito justificou a presença de Adam Warlock na trama, uma vez que, estando unido à Joia de Alma, somente ele conheceria as nuances da personalidade do vilão.

Adam Warlock

O final desta saga acaba ficando em aberto, com o poder das Joias mudando de mãos, enquanto ficamos sem saber se o(a) novo(a) portador(a) da manopla é verdadeiramente confiável. Esta história rendeu ainda duas continuações: Guerra Infinita e Cuzada Infinita, que constituem a Trilogia do Inifinito.

A arte de George Pérez casa perfeitamente com a história de proporções cósmicas de Jim Starlin, com seus quadros amplos mostrando dezenas de personagens lutando entre si ou reunidos antes da batalha, bem como cenários grandiloquentes, que tanto sucesso fizeram na Crise nas Infinitas Terras da rival DC Comics. Sua caracterização dos personagens também esta impecável, descontado-se, é claro, os exageros da época. Sendo uma história datada, o visual de alguns heróis era bastante diferente do que estamos acostumados, por exemplo: o Thor barbudo, Hulk usando roupas apertadas, Namor de tanguinha, e por aí vai.

Thanos vs. Todo Mundo

Embora Desafio Infinito seja uma saga de grande sucesso, e tenha se tornado ainda mais conhecida após a notícia de que será adaptada nas telonas, até hoje esta saga não foi publicada aqui no Brasil com o respeito que ela merece, no mínimo um encadernado de luxo, em capa dura, como a Panini fez com a Crise e posteriormente com Guerras Secretas. Nossa esperança reside no apelo que a saga de Jim Starlin terá quando for lançado Vingadores 3, afinal, isto não seria incomum, já que Batman vs. Superman provocou o relançamento dos encadernados d'A Morte do Superman. Boa leitura!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

[RESENHA] Thanos - Em Busca de Poder


Com o início das gravações de Vingadores 3 e 4 começando hoje (23), nada mais apropriado do que postar uma resenha sobre a história que serviu de prelúdio para Desafio Infinito, a grande batalha dos super heróis Marvel contra o Titã Louco, Thanos, que os tão aguardados filmes dos Vingadores irão adaptar. Thanos: Em Busca de Poder foi uma HQ lançada em 1990 em duas edições, escrita por Jim Starlin e ilustrada por Ron Lim e John Beatty (arte final), a qual narra a busca de Thanos pelas famigeradas Joias do Infinito.

Quando se trata de sagas cósmicas, não há nome mais tarimbado do que o de Jim Starlin, responsável por histórias como Desafio Infinito, da Marvel, e Odisseia Cósmica, pela DC Comics. Nesta incrível história, no original The Thanos Quest, Starlin não deixa a desejar, presenteando os leitores uma excelente trama envolvendo os Anciões do Universo, as Joias do Infinito e o Titã Insano! 

Par quem não o conhece, Thanos é um vilão dos Vingadores, que apareceu pela primeira vez na revista do Homem de Ferro nº 55, em 1973, tendo sido criado pelo lendário roteirista e desenhista Jim Starlin. Resumindo sua história, ele nasceu em uma das luas de Saturno chamada Titã, e pertence a uma raça de seres superpoderosos e tecnológicos - os Titãs Eternos. Além dele mesmo, o único ser que ele ama é a Senhora Morte, cujos desejos ele tenta a todo custo satisfazer, e isto significa matar o maior número de seres vivos possível. Esta foi uma das facetas do vilão que me fizeram achá-lo tão interessante. Em meio a tantos vilões espaciais que aparecem nos quadrinhos, tanto da Marvel como da DC, o que não falta na maioria deles é o velho clichê de dominação universal; não que Thanos não tenha o desejo de governar o Universo, porém fazer isto apenas com o objetivo de agradar a Morte, realmente foi uma novidade para mim.

Thanos Diante da Morte

Outro aspecto interessante desta HQ é a visão que o autor estabelece das Joias do Infinito. Antes conhecidas como Joias Espirituais, ou Joias da Alma, ele lhes conferiu um novo significado, e a palavra-chave que traduz o seu poder é: manipulação. Cada uma delas é capaz de manipular um determinado aspecto da realidade, o que explica as maravilhas que seus portadores podiam realizar. Por exemplo, o Ancião do Universo conhecido como Jardineiro era capaz de fazer florescer jardins esplêndidos porque em seu poder estava a Joia do Tempo, que fazia com que os ciclos de crescimento das plantas fossem acelerados; já o Corredor era capaz de se mover mais rápido do que a luz porque a Joia do Espaço simplesmente encurtava as distâncias que ele percorria. No entanto, o verdadeiro poder das joias emerge quando elas são reunidas, e é isso o que Thanos busca nesta trama.

Apesar de ser uma criatura dotada de poderes além da imaginação, poucas foram as vezes em que Thanos utilizou a força bruta contra os Anciões do Universo para tomar deles as Joias do Infinito. Isto é um fato que com certeza faz valer a pena ler esta história. É instigante ver como Thanos utiliza sua astúcia, aliada à coragem de um verdadeiro apostador, para derrotar seres poderosíssimos do Universo Marvel, incluindo o Grão-Mestre e o Colecionador. Além disso, conforme ele vai reunindo as Joias, ele passa a usar seus poderes a seu favor, de forma a neutralizar as vantagens de seus adversários.

Thanos Detém as Joias do Infinito

A arte de Ron Lim é competente, retratando um Thanos imponente e ameaçador, diferentemente de suas primeiras aparições lá na década de 70. A única coisa que me incomoda um pouco é a colorização, que na minha opinião deixou algumas páginas muito escuras. Mas nada disso atrapalha a experiência de testemunhar um dos maiores vilões dos quadrinhos se tornando um dos seres mais poderosos do Universo, e o pior (ou melhor!) de tudo, é que torcemos por ele!

Esta é uma minissérie obrigatória para quem quer conhecer mais deste vilão tão ímpar, principalmente agora que ele está prestes a ser levado para as telonas nos próximos filmes do MCU, após termos alguns vislumbres em Vingadores 1 e 2 e Guardiões da Galáxia. Aquino Brasil Thanos: Em Busca de Poder foi publicada em duas edições pela Abril Jovem, de modo que é muito difícil achar esta obra para se adquirir, a não ser no Mercado Livre, a preços exorbitantes. Mina esperança é que, com os filmes dos Vingadores se aproximando, a Panini se anime (rimou!) e lance essa história em um encadernado de luxo, de preferência.

Boa leitura!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

[RESENHA] Guerras Secretas dos Super Heróis Marvel


Assim como fez no cinema, revolucionando os filmes de super heróis ao criar o primeiro universo compartilhado a partir do filme dos Vingadores, também nos quadrinhos a Marvel Comics inaugurou a era dos grandes crossovers com a megassaga Guerras Secretas, em 1984. Com roteiros de Jim Shooter e arte de Mike Zeck e Bob Layton, esta grandiosa história reuniu os principais medalhões da editora na época, dentre heróis e vilões, como o Capitão América, Homem Aranha, Wolverine, Sr. Fantástico, Dr. Destino, Ultron e Galactus, e os colocou para lutar entre si em uma batalha até a morte. Não demorou muito para que a "Distinta Concorrência" copiasse a ideia em sua igualmente grandiosa Crise nas Infinitas Terras, embora com um objetivo diferente.

Curiosamente, a ideia para Guerras Secretas não surgiu de dentro da editora, mas sim de uma empresa de brinquedos. A Mattel, vendo o sucesso da parceria entre Kenner e DC Comics, resolveu investir nos personagens da Casa das Ideias, mas com a condição de que a Marvel lançasse uma história para alavancar as vendas. Infelizmente a linha de brinquedos não alcançou o sucesso esperado, porém a história lançada pela Marvel bateu recordes de vendas, tornando-se um sucesso instantâneo. Outra curiosidade interessante foi a origem do nome da saga: aparentemente o pessoal da Mattel havia feito uma pesquisa com meninos adolescentes e descobriram que as palavras "guerra" e "segredo" tinham um grande apelo nessa faixa etária. Não foi difícil, então, juntar as duas palavras num título que agradasse a criançada dos anos 80.

Guerras Secretas

Tendo um claro propósito puramente comercial, não seria de espantar que a trama de Guerras Secretas fosse a mais simples possível. Na verdade, a ideia de juntar tantos personagens da editora numa mesma história era uma antiga reivindicação dos fãs, que clamavam por uma reunião dessas em suas cartas aos editores. O que Shooter fez foi simplesmente atender a estes fãs, fazendo de Guerras Secretas um gigantesco fan service. Assim, ele criou o Beyonder, uma entidade cósmica com poderes equivalentes aos de um deus (nem mesmo Galactus fora páreo para ele), o qual, por algum motivo, resolveu literalmente abduzir heróis e vilões e observá-los lutar em um mundo formado por retalhos de outro mundo. Para incentivá-los, ele prometeu realizar seus desejos mais íntimos caso eles fossem capazes de derrotar seus oponentes. Como já era de se esperar, rapidamente os "guerreiros" formaram lados: tinha a facção dos heróis, sob a liderança do Capitão América, e a dos vilões, comandados pelo Dr. Destino. No entanto, uma decisão interessante do roteirista foi colocar Magneto ao lado dos heróis. Apesar de ser um conhecido vilão, Magneto não é de todo mau: ele apenas não hesita em cometer atrocidades pelo "bem maior". Assim, numa condição atípica como a guerra promovida pelo Beyonder, o rei do magnetismo ficou ao lado dos mutantes contra quem sempre lutara, o que gerou desconfiança por parte dos demais heróis, provocando a separação dos X-Men em um grupo à parte, mas ainda aliado aos heróis.

Apesar de reunir tantos nomes de peso, um leitor de quadrinhos do século XXI não reconheceria muitos dos personagens que apareceram em Guerras Secretas, como o Homem Absorvente (calma, não é o que você está pensando!), o Homem Molecular e a Gangue da Demolição. Outra coisa que causa estranhamento nos leitores mais novos de quadrinhos é o visual dos heróis: poucos personagens tiveram sua aparência praticamente inalterada desde quando foram criados, como é o caso do Homem Aranha, o Capitão América e o Hulk; entretanto, personagens como a Vampira, Wolverine e Vespa aparecem com visuais bem diferentes do que ostentam hoje em dia, e ainda outros, como o Homem de Ferro e a Capitã Marvel, tinham até mesmo alter-egos diferentes (o homem por trás da armadura não era Tony Stark, o qual sofria uma recaída por causa das bebidas, mas Jim Rhodes).

Homem Aranha com Uniforme Negro

Além de abalar o universo dos quadrinhos com uma grande reunião de super heróis e vilões, Guerras Secretas também trouxe diversas mudanças nas revistas da editora. Muitas dessas mudanças foram locais e rapidamente foram esquecidas, porém outras são lembradas até hoje, como o encontro do Homem Aranha com o simbionte alienígena que lhe conferiu o uniforme negro, que caiu nas graças dos fãs e que seria responsável pelo surgimento de um importante personagem: Venom.

Recentemente Guerras Secretas foi publicada aqui no Brasil na coleção da Salvat, em duas partes, e num encadernado de luxo da Panini (bem mais bonito que o da Salvat, principalmente pela arte da capa, cortesia do talentosíssimo Alex Ross), de modo que este material está facilmente acessível as novos leitores. Meu alerta para vocês é o seguinte: não se deixem levar pelas expectativas: tenham sempre em mente que esta é uma HQ datada, publicada há mais de 30 anos, ou seja, muita coisa mudou de lá para cá nas histórias dos personagens, e também na forma de se desenhar quadrinhos. Não esperem um roteiro sofisticado e profundo; esta foi uma HQ produzida às pressas, seus diálogos são rasos, as motivações dos personagens são fracas e os clichês estão em toda parte. A arte de Mike Zeck e Bob Layton é bonita, porém não dá para comparar com os desenhos atuais, uma vez que segue o estilo setentista, mais agradável aos saudosistas. Como diversão é um prato cheio, mas não passa muito disso.

Boa leitura!

Capa da Edição Especial, por Alex Ross