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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

[RESENHA] Guerras Secretas dos Super Heróis Marvel


Assim como fez no cinema, revolucionando os filmes de super heróis ao criar o primeiro universo compartilhado a partir do filme dos Vingadores, também nos quadrinhos a Marvel Comics inaugurou a era dos grandes crossovers com a megassaga Guerras Secretas, em 1984. Com roteiros de Jim Shooter e arte de Mike Zeck e Bob Layton, esta grandiosa história reuniu os principais medalhões da editora na época, dentre heróis e vilões, como o Capitão América, Homem Aranha, Wolverine, Sr. Fantástico, Dr. Destino, Ultron e Galactus, e os colocou para lutar entre si em uma batalha até a morte. Não demorou muito para que a "Distinta Concorrência" copiasse a ideia em sua igualmente grandiosa Crise nas Infinitas Terras, embora com um objetivo diferente.

Curiosamente, a ideia para Guerras Secretas não surgiu de dentro da editora, mas sim de uma empresa de brinquedos. A Mattel, vendo o sucesso da parceria entre Kenner e DC Comics, resolveu investir nos personagens da Casa das Ideias, mas com a condição de que a Marvel lançasse uma história para alavancar as vendas. Infelizmente a linha de brinquedos não alcançou o sucesso esperado, porém a história lançada pela Marvel bateu recordes de vendas, tornando-se um sucesso instantâneo. Outra curiosidade interessante foi a origem do nome da saga: aparentemente o pessoal da Mattel havia feito uma pesquisa com meninos adolescentes e descobriram que as palavras "guerra" e "segredo" tinham um grande apelo nessa faixa etária. Não foi difícil, então, juntar as duas palavras num título que agradasse a criançada dos anos 80.

Guerras Secretas

Tendo um claro propósito puramente comercial, não seria de espantar que a trama de Guerras Secretas fosse a mais simples possível. Na verdade, a ideia de juntar tantos personagens da editora numa mesma história era uma antiga reivindicação dos fãs, que clamavam por uma reunião dessas em suas cartas aos editores. O que Shooter fez foi simplesmente atender a estes fãs, fazendo de Guerras Secretas um gigantesco fan service. Assim, ele criou o Beyonder, uma entidade cósmica com poderes equivalentes aos de um deus (nem mesmo Galactus fora páreo para ele), o qual, por algum motivo, resolveu literalmente abduzir heróis e vilões e observá-los lutar em um mundo formado por retalhos de outro mundo. Para incentivá-los, ele prometeu realizar seus desejos mais íntimos caso eles fossem capazes de derrotar seus oponentes. Como já era de se esperar, rapidamente os "guerreiros" formaram lados: tinha a facção dos heróis, sob a liderança do Capitão América, e a dos vilões, comandados pelo Dr. Destino. No entanto, uma decisão interessante do roteirista foi colocar Magneto ao lado dos heróis. Apesar de ser um conhecido vilão, Magneto não é de todo mau: ele apenas não hesita em cometer atrocidades pelo "bem maior". Assim, numa condição atípica como a guerra promovida pelo Beyonder, o rei do magnetismo ficou ao lado dos mutantes contra quem sempre lutara, o que gerou desconfiança por parte dos demais heróis, provocando a separação dos X-Men em um grupo à parte, mas ainda aliado aos heróis.

Apesar de reunir tantos nomes de peso, um leitor de quadrinhos do século XXI não reconheceria muitos dos personagens que apareceram em Guerras Secretas, como o Homem Absorvente (calma, não é o que você está pensando!), o Homem Molecular e a Gangue da Demolição. Outra coisa que causa estranhamento nos leitores mais novos de quadrinhos é o visual dos heróis: poucos personagens tiveram sua aparência praticamente inalterada desde quando foram criados, como é o caso do Homem Aranha, o Capitão América e o Hulk; entretanto, personagens como a Vampira, Wolverine e Vespa aparecem com visuais bem diferentes do que ostentam hoje em dia, e ainda outros, como o Homem de Ferro e a Capitã Marvel, tinham até mesmo alter-egos diferentes (o homem por trás da armadura não era Tony Stark, o qual sofria uma recaída por causa das bebidas, mas Jim Rhodes).

Homem Aranha com Uniforme Negro

Além de abalar o universo dos quadrinhos com uma grande reunião de super heróis e vilões, Guerras Secretas também trouxe diversas mudanças nas revistas da editora. Muitas dessas mudanças foram locais e rapidamente foram esquecidas, porém outras são lembradas até hoje, como o encontro do Homem Aranha com o simbionte alienígena que lhe conferiu o uniforme negro, que caiu nas graças dos fãs e que seria responsável pelo surgimento de um importante personagem: Venom.

Recentemente Guerras Secretas foi publicada aqui no Brasil na coleção da Salvat, em duas partes, e num encadernado de luxo da Panini (bem mais bonito que o da Salvat, principalmente pela arte da capa, cortesia do talentosíssimo Alex Ross), de modo que este material está facilmente acessível as novos leitores. Meu alerta para vocês é o seguinte: não se deixem levar pelas expectativas: tenham sempre em mente que esta é uma HQ datada, publicada há mais de 30 anos, ou seja, muita coisa mudou de lá para cá nas histórias dos personagens, e também na forma de se desenhar quadrinhos. Não esperem um roteiro sofisticado e profundo; esta foi uma HQ produzida às pressas, seus diálogos são rasos, as motivações dos personagens são fracas e os clichês estão em toda parte. A arte de Mike Zeck e Bob Layton é bonita, porém não dá para comparar com os desenhos atuais, uma vez que segue o estilo setentista, mais agradável aos saudosistas. Como diversão é um prato cheio, mas não passa muito disso.

Boa leitura!

Capa da Edição Especial, por Alex Ross

quinta-feira, 21 de julho de 2016

[RESENHA] Capitão América: O Soldado Invernal


Capitão América e Soldado Invernal

Capitão América: O Soldado Invernal é uma história em quadrinhos escrita pelo roteirista ganhador do prêmio Eisner Ed Brubaker e desenhada pelo artista Steve Epting, reunindo as edições #01 a #14 da revista mensal do Capitão América, da Marvel Comics. Antes de iniciar minha resenha sobre esta história, farei uma breve introdução sobre este herói, cuja popularidade tem crescido vertiginosamente nos últimos anos devido à seus filmes solo e sua participação nos dois filmes dos Vingadores, da Marvel Studios (Disney). Embora sua imagem seja amplamente conhecida pelos geeks, que ostentam orgulhosamente seu escudo vermelho, azul e branco em camisetas e acessórios, nem todo mundo conhece sua trajetória nos quadrinhos.

O Capitão América, cujo nome deveria ter sido Super American (não o foi devido à existência de outro famoso "super" nos quadrinhos), foi criado pelos quadrinistas norte-americanos Joe Simon e Jack Kirby, e estreou em 1941 nas páginas da Capitain América Comics #1, da Timely Comics - predecessora da atual Marvel Comics. Após receber o famoso soro do supersoldado, que lhe conferiu força e agilidade sobre-humanas, Steve Rogers combateu as potências do Eixo, principalmente os nazistas, ao lado do parceiro mirim Bucky, durante a Segunda Guerra Mundial. Naquela época a popularidade dos quadrinhos de super heróis estava em alta nos EUA, especialmente o Capitão América, por se tratar de um símbolo patriótico.

Quando a guerra acabou, no entanto, as vendas diminuíram, levando ao cancelamento da revista do Sentinela da Liberdade. Em 1953 ele retornou brevemente, desta vez lutando contra os comunistas nos primórdios da Guerra Fria, mas foi um fracasso de vendas, e também foi cancelado. O herói só retornaria pra valer em 1964, quando foi ressuscitado por Stan Lee, autor da célebre história que conta como o Capitão América, ao tentar impedir um drone experimental lançado pelo Barão Zemo, caiu no Atlântico Norte e ficou congelado durante décadas, mantido em animação suspensa pelo soro do supersoldado em suas veias. Seu jovem parceiro, Bucky, também teria morrido nesta ocasião, vítima da explosão do drone. O Capitão América foi reanimado anos depois e passou a integrar e liderar a equipede super heróis conhecida como Os Vingadores.

A Morte de Bucky

Tendo sido criado em um momento histórico específico, com um objetivo claramente político - o de incutir o sentimento nacionalista nas crianças americanas - não é uma tarefa fácil manter o Capitão América atualizado para as novas gerações. A grande dificuldade de se trabalhar com este personagem, que outros não enfrentam, é desvincular sua imagem do país cuja bandeira ele exibe no escudo. No mundo globalizado como o de hoje, obter apelo fora do território norte-americano, e até mesmo dentro dos próprios EUA, onde a cada ano cresce a população de imigrantes, não é uma tarefa fácil. Por esta razão ele teve que ser continuamente reinventado, e aos poucos deixou de ser o defensor de uma pátria específica para ser o sentinela dos ideais que esta pátria representa. Mas isto não seria o bastante para alçar o Capitão América ao panteão dos heróis mais famosos da Terra. E foi aí que entrou Ed Brubaker, roteirista recém saído da DC Comics, que assumiu o comando do título em 2005, quando a popularidade do herói estava em baixa, e iniciou uma fase que se tornaria a mais aclamada do personagem até os dias atuais.

Vários foram os motivos que levaram esta saga a ser um sucesso de crítica e vendas: tramas no estilo dos filmes de espionagem, abordando temas históricos remetendo à Segunda Guerra Mundial e à Guerra Fria; a arte realística de Steve Epting, capaz de imergir o leitor no ambiente permeado de mistérios, ficção e cenas de ação espetaculares; e sobretudo a coragem e sagacidade do roteirista ao alterar um dos principais pilares do cânone do Capitão, que por décadas foi considerado algo imutável nos quadrinhos: a morte de Bucky. Tal qual a morte do tio Ben, ou dos pais de Bruce Wayne, a morte de Bucky era um fato concreto, o que é algo raro no mundo dos quadrinhos, seja da Marvel ou da DC, onde a ressurreição de personagens é algo quase corriqueiro. Assim sendo, ressuscitar Bucky poderia ser um tiro no pé, ou como mexer em merda seca: só de tocar começa a feder. Porém Ed Brubaker, ignorando todos os avisos, seguiu em frente com o seu plano, e o resutado foi o nascimento de um novo personagem de sucesso da Marvel: o Soldado Invernal.

O Soldado Invernal

O Soldado Invernal começa logo após a dissolução dos Vingadores no evento A Queda, no qual a Feiticeira Escarlate perdeu o controle de seus poderes e matou o Visão, o Homem Formiga e o Gavião Arqueiro, provocando o fim dos Vingadores. O Capitão América ainda está muito abalado pela perda dos amigos, e isto se reflete em sua maneira de lidar com os criminosos, que está muito mais violenta do que o normal. Em parceria com a Agente 13 e Nick Fury, da força-tarefa de manutenção da paz da ONU, a SHIELD, ele descobre um elaborado plano de seu inimigo mais antigo, o Caveira Vermelha: o vilão pretende recarregar um cubo cósmico - objeto que possui a capacidade de tornar desejos em realidade - através da morte de milhares de pessoas nas principais cidades do Ocidente: Nova York, Paris e Londres. Mas o inesperado acontece: o Caveira Vermelha é morto por um misterioso soldado e o cubo é roubado.

Enquanto investiga as circunstâncias da morte do Caveira, o Capitão América começa a ter várias lembranças de seu passado destravadas. Estas lembranças são mostraras para o leitor na forma de flashbacks desenhados pelo artista Michael Lark, e podem ser diferenciadas dos quadros normais pela colorização em tons preto e brancos, fazendo alusão aos filmes e documentários produzidos na época da Segunda Guerra Mundial, que tinham este aspecto. Brubaker usa as lembranças de Steve Rogers para costurar a trama do Soldado Invernal, embora não se perceba isto a princípio. E aproveita para atualizar alguns acontecimentos do passado do herói para os novos fãs, menos predispostos a aceitar explicações que os fãs mais ingênuos do século passado aceitariam. Ele muda a idade e Bucky, que passa a ter 16 anos na época da guerra, uma idade mais próxima da do Capitão, e estabelece que a parceria dos dois foi planejada pelo exército para estimular os jovens americanos a se alistarem.

Brubaker também mostra que fez o dever de casa ao fazer algumas citações de eventos que muitos desconhecem da época da Segunda Guerra Mundial. A que eu achei mais interessante, talvez devido aos ataques terroristas que a França vem sofrendo nos últimos dias, foi o massacre de mais de 600 civis franceses pelos nazistas porque eles haviam impedindo os tanques alemães de chegarem à Normandia no Dia D. Steve Rogers cita este acontecimento como motivo suficiente para os americanos não considerarem os franceses covardes por terem se rendido aos alemães na guerra.

O Capitão América Assiste ao Treinamento de Bucky

Outro ponto positivo no roteiro de Ed Brubaker é o respeito pelo legado deixado pelos seus antecessores à mitologia do Capitão América. Ele faz menção aos outros homens que vestiram o uniforme do Capitão após a Segunda Guerra, quando Steve Rogers estava congelado, amarrando alguns pontas soltas deixadas por décadas de histórias do personagem. Brubaker dedica um capítulo inteiro, denominado A Solitária Morte de Jack Monroe, a Jack Monroe, a versão de Bucky dos anos 50, quando o Capitão América era na verdade um professor que queria ser Steve Rogers. É uma belíssima homenagem a um personagem que possui um papel pequeno na trama, mas que teve sua importância na mitologia do Capitão.

Capitão América e Bucky dos Anos 50

Todas estas lembranças e homenagens que Brubaker utiliza em seu enredo, no entanto, possuem o objetivo de preparar o leitor para o grand finale que ele elaborou tão cuidadosamente . Ele foge do habitual ao contar a origem do Soldado Invernal através de anotações médicas e relatórios ultrassecretos da KGB, mostrando como o corpo de Bucky foi encontrado no oceano pelos russos, seu condicionamento mental que o transformou num assassino sangue frio, e as diversas missões que ele realizou para os camaradas comunas. Talvez o grande trunfo no roteiro de Brubaker tenha sido nos apresentar uma história de origem convincente, sem apelar para explicações impossíveis como viagens no tempo, socos na realidade ou poços milagrosos. Até o fato de Bucky não ter envelhecido é explicado com maestria: o Soldado Invernal passava a maior parte do tempo em animação suspensa, e só era acordado quando tinha um alvo para eliminar.

O final desta história é agridoce, porém Brubaker deixa claro que a história do Soldado Invernal está apenas começando. Contamos também com a participação especial de dois importantes membros dos Vingadores: o Falcão e o Homem de Ferro. Com certeza uma HQ indispensável para os fãs do Sentinela da Liberdade, e para aqueles que querem saber mais sobre este incrível personagem além do que aparece nos filmes. Esta história faz parte de uma coleção de encadernados intitulada Marvel Deluxe: Capitão América, que até agora é composta por 6 edições em capa dura, de excelente qualidade, e também da coleção de Graphic Novels Marvel da Salvat. Eu usei como base para esta resenha o encadernado da Panini.

Boa leitura! 

Capa de O Soldado Invernal