segunda-feira, 3 de outubro de 2016

[RESENHA] Batman: O Homem que Ri



Se existe um personagem dos quadrinhos que desperta um grande fascínio e interesse por parte dos leitores, este personagem é o Coringa. Sua popularidade transcende as páginas dos gibis para as mais diversas formas de entretenimento, como o cinema, a TV e os games, atraindo a atenção de pessoas de todas as idades e gêneros. Figurando em diversas listas como o maior vilão de quadrinhos de todos os tempos, o Coringa possui um apelo maior até mesmo do que seu arqui-inimigo: o Batman. Mas afinal, qual seria a razão de tamanho sucesso?

A explicação repousa naquilo que o Coringa representa: ele evoca a ideia de anarquia, de liberdade absoluta de ações e pensamentos, de independência de tudo aquilo que amarra o ser humano e o faz agir de maneira "certinha". O Coringa sempre faz o que quer, quando quer, e suas ações são o completo oposto da ordem e da lógica, que têm controlado o nosso mundo e  regido a humanidade desde que aprendemos a raciocinar. Num mundo em que cada vez há mais regras e leis, é natural que as pessoas se identifiquem com símbolos que os inspirem a pensar de maneira diferente. Logicamente, não estou dizendo que isto seja o ideal - as leis ainda são necessárias no atual estágio evolutivo da raça humana - e o mais surpreendente, e o que me faz gostar tanto destes personagens, é que ele não faz sentido sem seu máximo oposto, o Homem Morcego. O Batman representa o contrário do Coringa: ele é a ordem, a lógica, a justiça. Enquanto um é colorido e dotado de um senso de humor sem limites, o outro é sombrio e soturno, sempre focado em sua missão.

As Várias Encarnações do Coringa

Esta relação quase simbiótica entre o Coringa e o Batman existe desde a criação do vilão, o qual, segundo seus próprios criadores, deveria ser a nêmese perfeita, um vilão capaz de fazer frente ao Maior Detetive do Mundo, porém diferente dos outros gângsters e bandidos da época. A primeira aparição do Coringa nos quadrinhos foi na histórica primeira edição da revista Batman, em abril de 1940, e a autoria de sua criação sempre foi motivo de muita discórdia: Bill Finger e Bob Kane, além de Jerry Robinson, morreram disputando os créditos pela criação do personagem. Uma coisa, porém, é indiscutível: uma das maiores inspirações para seu visual foi o personagem Gwynplaine, interpretado pelo ator Conrad Veidt, do filme O Homem que Ri, de 1928.  No filme, o personagem de Veidt também tem o rosto desfigurado numa aparência de sorriso macabro, mas as semelhanças param por aí: ao contrário do Coringa, Gwynplaine não é um homem mau, sendo apenas alguém que sofre preconceito por sua aparência grotesca, como o Corcunda de NotreDame.

Gwynplaine e o Coringa

Apesar de a origem do Coringa ter sido explicada na aclamada Graphic Novel de Alan Moore A Piada Mortal, o primeiro confronto de verdade entre o Palhaço do Crime e o Cavaleiro das Trevas só havia sido retratado em Batman #1. Décadas se passaram sem que este encontro fosse mostrado sob uma ótica mais moderna e atualizada, até que, em 2005, a DC Comics contratou o excelente roteirista Ed Brubaker (Gotham Central, Capitão América: O Soldado Invernal) para narrar este encontro, e assim nasceu a excelente O Homem que Ri.

Como fez em sua histórica passagem pela HQ do Capitão América, Brubaker cria uma trama nova, porém preservando os principais elementos das histórias clássicas. Ele não hesita em tomar como base o enredo criado por Bob Kane, no qual o Coringa  ameaça matar importantes cidadãos de Gotham City com sua toxina do riso, e desafia as autoridades a detê-lo. Estão lá todos os personagens: o milionário Henry Claridge, primeira vítima do bandido na trama original, assim como Jay Wilde e o juiz Drake. O autor também mostra que o Coringa testou várias versões de sua toxina em uma série de cobaias, antes de usar a versão definitiva em suas vítimas selecionadas. O quadro presente logo nas primeiras páginas em que Gordon descobre um porão repleto de vítimas dos "testes" do Coringa já nos informa que estamos acompanhando uma história de investigação de assassinatos com tons macabros: a inocência do início do século passado ficou para trás.

Batman Descobre a Identidade do Coringa

Brubaker também toma cuidado para situar sua história nos primeiros anos de atuação do Batman, quando o Comissário de Polícia de Gotham City era Peter Grogan (Loeb já havia caído após os eventos de Ano Um) e Gordon era apenas Capitão da força policial. Outra característica que ele "rouba" de Ano Um é o método de contar a história através dos pontos de vista distintos de Batman/Bruce Waye e do Comissário Gordon, porém com menos foco em seus dilemas pessoais.  Além disso, ele faz ligação direta com os acontecimentos de A Piada Mortal, de modo que não demora muito para Batman deduzir que o Coringa e o criminoso vestido como Capuz Vermelho que caiu no tanque de resíduos químicos são a mesma pessoa. Até mesmo a fábrica de produtos químicos ACE desempenha um importante papel na trama de Brubaker.

O Coringa Faz Outra Vítima

Embora seja uma história relativamente curta, contando com apenas 65 páginas, Brubaker dá um aula de como construir um roteiro eficiente e conciso. A trama transcorre de forma dinâmica e repleta de ação, e é impossível fechar a revista antes de chegar à última página. O que a conclusão traz de mais importante é a primeira vez em que o Batman se depara com a decisão crucial ao lidar com um criminoso diferente de todos os quais já havia enfrentado, e que Moore explora mais profundamente em A Piada Mortal: a de matar ou não o Coringa; violar seu juramento sagrado ou viver para sofrer as consequências dos atos do vilão insano.

Quanto à arte de Doug Mankhe, o artista desempenha com competência sua tarefa, porém nada mais que isso. O visual de seu Coringa remete à caracterização cômica das histórias clássicas do vilão, porém dotado de um inconfundível ar de insanidade característico das versões mais atuais.

Embora O Homem Que Ri não possa ser considerada um grande clássico nem a melhor protagonizada pelo Palhaço do Crime, trata-se de uma ótima história de origem deste que é um dos personagens de quadrinhos mais importantes dos últimos anos. Esta HQ faz parte da coleção de Graphic Novels da Eaglemoss, no mesmo encadernado que outra grande história do Coringa (esta sim, um clássico!): Asilo Arkham de Grant Morrison. Boa leitura!

Capa de O Homem que Ri

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Guia de Leitura Batman



Olá, Cavaleiros e Cavaleiras da Nona Arte!

Este é um guia de leitura que eu preparei com o objetivo de organizar minhas resenhas das histórias do Morcegão, tentando seguir o mais fielmente possível a ordem cronológica dos eventos que marcaram a trajetória do Batman nos quadrinhos. Acredito que isto irá facilitar muito a vida daqueles que pretendem começar a ler as HQ's do Batman, mas não tem ideia de por onde começar.

Não pretendo publicar todas as histórias existentes do Batman, longe disso, e nem seria produtivo tentar tal façanha. Mas vou colocar aqui os principais arcos que, na minha humilde opinião, são essenciais para o entendimento da história do Cavaleiro das Trevas como um todo. Conhecendo este material será possível ler qualquer HQ do Batman lançada atualmente sem ficar perdido em meio às tantas referências a personagens, lugares e fatos que exigem enorme conhecimento prévio. Pode ser que um ou outro detalhe fique de fora, mas o principal é que todos os eventos que marcaram a carreira do Maior Detetive do Mundo estarão presentes aqui.


Para quem não conhece muito da trajetória do Batman nos quadrinhos, suas histórias geralmente são divididas em arcos, que são basicamente grandes sagas que abrangem um número variado de edições tanto da revista principal - Batman -, como também de outros títulos como Detective Comics, Lendas do Cavaleiro das Trevas e A Sombra do Batman; estas histórias muitas vezes se estendem também para as páginas das revistas solo dos "associados" do Morcego, como Robin, Batgirl, Asa Noturna e Mulher Gato. Isso dificultava muito a vida dos leitores, que precisavam ficar garimpando diversas HQs para montar uma única saga. Felizmente, hoje as grandes editoras que publicam essas revistas estão lançando cada vez mais encadernados reunindo estes arcos em um ou mais volumes. 

Além dos arcos regulares, também existem as Graphic Novels, histórias fechadas que normalmente se passam em realidades alternativas, cujos eventos não afetam a cronologia normal do personagem. Com isso, os autores acabam ganhando mais liberdade criativa e não raras vezes presenteiam os fãs com verdadeiros clássicos da nona arte, como O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, ou Asilo Arkham, de Grant Morrison. Estas Graphic Novels e muitas outras também terão seu espaço aqui neste guia, no seu devido tempo.

Agora, sem mais delongas, apresento-lhes o meu Guia de Leitura do Batman!

0.
Crise nas Infinitas Terras (em breve)

https://cavaleirosdanonaarte.blogspot.com.br/2016/09/resenha-batman-morte-em-familia.html

Ano de Publicação: 1985-86
Roteirista: Marv Wolfman
Arte: George Pérez

1.
Batman: Ano Um


Ano de Publicação: 1987
Roteirista: Frank Miller
Arte: David Mazzucchelli

2.
O Homem Que Ri



Ano de Publicação: 2005
Roteirista: Ed Brubaker
Arte: Doug Mahnke

3.
Um Conto de Batman: Veneno




Ano de Publicação: 1991
Roteirista: Dennis O'Neil
Arte: Trevor Von Eeden, Russel Braun

4.
O Longo Dia das Bruxas

https://cavaleirosdanonaarte.blogspot.com.br/2016/06/batman-o-longo-dia-das-bruxas.html

Ano de Publicação: 1996-97
Roteirista: Jeph Loeb
Arte: Tim Sale

5.
Vitória Sombria

https://cavaleirosdanonaarte.blogspot.com.br/2016/07/resenha-batman-vitoria-sombria.html

Ano de Publicação: 1999-2000
Roteirista: Jeph Loeb
Arte: Tim Sale

6.
Contos do Demônio



Ano de Publicação: 1971-1980
Roteirista: Dennis O'Neil
Arte: Bob Brown, Neal Adams, Irv Novick, Michael Golden, Don Newton 

7.
A Piada Mortal

https://cavaleirosdanonaarte.blogspot.com.br/2016/08/resenha-batman-piada-mortal.html

Ano de Publicação: 1988
Roteirista: Alan Moore
Arte: Brian Bolland

8.
Morte em Família

https://cavaleirosdanonaarte.blogspot.com.br/2016/09/resenha-batman-morte-em-familia.html

Ano de Publicação: 1988-89
Roteirista: Jim Starlin
Arte: Jim Aparo

9.
Trilogia do Demônio - Parte I: O Filho do Demônio



Ano de Publicação: 1987
Roteirista: Mike W. Barr
Arte: Jerry Bingham

10.
Trilogia do Demônio - Parte II: A Noiva do Demônio



Ano de Publicação: 1990
Roteirista: Mike W. Barr
Arte: Tom Grindberg

11.
Trilogia do Demônio - Parte III: O Nascimento do Demônio



Ano de Publicação: 1992
Roteirista: Dennis O'Neil
Arte: Norm Breyfogle

12.
A Queda do Morcego



Ano de Publicação: 1993-94
Roteirista: Chuck Dixon, Alan Grant, Doug Moench
Arte: DIVERSOS

 13.
Contágio

 

Ano de Publicação: 1996
Roteirista: Chuck Dixon, Alan Grant, Doung Moench
Arte: DIVERSOS

14.
O Legado do Demônio

https://cavaleirosdanonaarte.blogspot.com.br/2017/10/resenha-batman-o-legado-do-demonio.html

Ano de Publicação: 1996
Roteirista: Chuck Dixon, Alan Grant, Doung Moench
Arte: DIVERSOS

15.
Cataclismo

https://cavaleirosdanonaarte.blogspot.com.br/2018/04/batman-cataclismo-e-terra-de-ningem.html

Ano de Publicação: 1998
Roteiristas: Chuck Dixon, Alan Grant, Doug Moench
Arte: DIVERSOS


16.
Terra de Ninguém



Ano de Publicação: 1999
Roteiristas: Greg Rucka, Cuck Dixon, Jordan B. Gorfinkel, Paul Dini, e outros
Arte: DIVERSOS

17.
Bruce Wayne: Assassino? (Em breve)



Ano de Publicação: 2002
Roteiristas: Ed Brubaker, Greg Rucka, Kelley Puckett, Devin Grayson e Chuck Dixon
Arte: DIVERSOS

18.
Bruce Wayne: Fugitivo (Em breve)

 

Ano de Publicação: 2002
Roteiristas: Ed Brubaker, Greg Rucka, Geoff Johns, Devin Grayson e Kelley Puckett
Arte: DIVERSOS

17.
Silêncio



Ano de Publicação: 2002-2003
Roteirista: Jeph Loeb
Arte: Jim Lee

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

[RESENHA] Batman - Morte em Família



A trajetória de Bruce Wayne, alter-ego do Batman (ou seria o contrário?), tem sido marcada por tragédias. Logo nos primeiros anos atuando como vigilante em Gotham City, seu melhor amigo, o promotor público Harvey Dent, teve o rosto e a sanidade desfigurados por ácido, e se transformou naquilo que ele mais odiava: um chefão do crime apelidado de Duas-Caras. Anos depois, o criminoso lunático conhecido como Coringa deixou sua parceira Batgirl paraplégica na historia A Piada Mortal. Mas nenhuma tragédia afetou tanto o Cavaleiro das Trevas como o assassinato de seu parceiro Robin, também pelas mãos do Coringa, fato este que repercute até hoje nas histórias do herói.

Antes de falar sobre esta história, darei uma breve explicação sobre quem é o Robin, pois existem muitas pessoas que não sabem que o manto do herói já foi usado por várias pessoas diferentes, inclusive uma mulher! O primeiro Robin foi Dick Grayson, artista de circo que, assim como Bruce Wayne, testemunhou a morte dos pais. O garoto foi adotado pelo milionário e logo passou a atuar como seu parceiro no combate ao crime, tendo sido apelidado de Menino Prodígio. Mas os anos se passaram e a relação entre Bruce e Dick se desgastou até o ponto em que o rapaz decidiu atuar em carreira solo, abandonando o manto do Robin e assumindo a identidade de Asa Noturna. O substituto de Dick foi um jovem chamado Jason Todd, que o Batman surpreendeu tentando roubar os pneus do Batmóvel. O menino também havia passado por uma perda em sua família: a mãe morrera em um leito de hospital e o pai era um criminoso que trabalhava para o Duas-Caras. Foi este Robin que teve a vida ceifada cruelmente pelo Palhaço do Crime nesta histórica HQ de autoria do lendário roteirista Jim Starlin e desenhada pelo inesquecível Jim Aparo.

Batman Conhece Jason Todd

A verdade é que Jason Todd teve mais fama na morte do que em vida: muitos leitores da HQ do Batman odiavam o segundo Robin, e com razão, pois o garoto era um verdadeiro pé no saco, sempre se rebelando contra as ordens do Batman e agindo com impulsividade. Nesta época o editor da revista do Cruzado de Capa, Dennis O'Neil, decidiu pôr em prática a ideia de lançar uma história em que os fãs decidiriam o destino de um personagem, através de um número telefônico. Adivinhem quem foi o escolhido para ir para a berlinda? Pois é, o chato do Jason Todd. Assim, Jim Aparo foi convidado para escrever o roteiro da minissérie em 4 partes, publicada entre os números 426 a 429 da revista Batman. A decisão por matar Jason foi apertada: 5.343 votos a favor da morte do Robin contra 5.271 votos contra. No entanto, o resultado poderia ter sido diferente, pois anos depois O'Neil revelaria que centenas de votos a favor da morte foram creditados a uma única pessoa. Há quem diga também que a ideia de matar o Robin teria sido inspirada pela famosa Graphic Novel de Frank Miller, O Cavaleiro das Trevas, lançada dois anos antes, na qual o parceiro do Batman também havia sido assassinado pelo Coringa (recentemente foi lançada uma prequel mostrando como Robin foi morto no universo criado por Miller, mas não chega nem perto da história contada por Jim Starlin). 

Anúncio com as Duas Opções de Final

O enredo de Morte em Família é bem simples e repleto de circunstâncias, coincidências e golpes de sorte (e de azar!) que só poderiam existir em uma história de quadrinhos com a ingenuidade da década de 1980, mas rende uma leitura bem divertida. Jason Todd descobre que sua mãe verdadeira ainda está viva, porém ele não tem certeza de sua identidade, apenas que pode ser uma entre três mulheres. Por coincidência as três estão morando em países do Oriente Médio e da África, e para piorar o Coringa também está indo para lá a fim de vender um míssil nuclear a terroristas islâmicos (nem me pergunte como um bandido comum de Gotham City pôs as mãos em uma ogiva nuclear e ainda conseguiu sair com ela dos EUA). Desta forma, é inevitável que os caminhos de Batman, Robin e Coringa se cruzem.

Coringa Negociando com Terroristas

Para variar, a mãe verdadeira de Jason acaba sendo a última da lista do rapaz; após derrotarem um bando de terroristas no Líbano e enfrentarem a mortífera assassina de aluguel Lady Shiva, a dupla dinâmica encontra a mãe do Robin vivendo na Etiópia, onde trabalha como médica. Mais uma vez o destino (ou a caneta do roteirista) entra em ação, pois o Coringa estava chantageando a mulher para contrabandear um carregamento de remédios, ao mesmo tempo em que ele planeja acabar com a fome no país ao substituir os remédios pelo seu letal gás do riso. Jason Todd descobre o esquema, mas acaba sendo traído pela própria mãe, que também já vinha desviando medicamentos para benefício próprio. Assim se dá a icônica cena em que o Coringa espanca o menino quase até a morte usando um pé de cabra, e depois o deixa para morrer na explosão que destrói o galpão onde os remédios eram armazenados. Esse é o resultado de arrastar menores de idade para lutar contra criminosos insanos, Batman!

Jason Todd é Espancado 

A explosão do galpão acontece na edição 428, a penúltima da minissérie, mas a morte do Robin só é revelada na última edição, quando sai o resultado da votação. Alguns anos mais tarde, na minissérie Sob O Capuz, foi revelada a página desenhada por Jim Aparo que seria publicada se Jason tivesse sobrevivido à bomba.

É de se imaginar que o Batman fica completamente transtornado com a morte de seu parceiro, e decide até mesmo violar seu sagrado juramento de não matar e acabar de vez com a vida do Coringa. No entanto, o Palhaço do Crime foi mais esperto, e obteve imunidade diplomática ao se tornar embaixador do Irã na ONU (sim, meus amigos, só mesmo nos anos 80 um absurdo desses seria possível!). Por fim, é claro que o Coringa é derrotado - embora não morto - graças à ajuda de um importante aliado do Homem Morcego. 

O Discreto Funeral de Jason Todd

A morte de Jason Todd teve tanto impacto nas histórias do Batman que saiu das páginas das HQs para as outras mídias, como os games da franquia Arkham e até mesmo no universo cinematográfico da DC, onde pudemos ver no filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, em destaque na batcaverna, o uniforme de Robin com uma mensagem irônica do Coringa, sugerindo que o parceiro do Batman interpretado por Ben Affleck também teria sido morto pelo Palhaço.

Embora Morte em Família não seja uma das melhores histórias do Batman, é uma das mais importantes do cânone do Cavaleiro das Trevas, por trazer consequências que reverberam até os dias atuais. O antagonismo entre Batman e o Coringa transcendeu o escopo do herói versus vilão para assumir um tom mais pessoal. Toda vez que os dois se enfrentaram a partir de então o duelo entre eles passou a trazer uma pesada carga emocional e psicológica, e passamos a nos perguntar o que o Coringa poderia fazer desta vez para machucar o Batman. E o Morcego de Gotham passou a ser retratado como um herói mais sombrio e amargurado, devido ao sentimento de culpa que ele passou a nutrir por achar que teria errado ao escolher Jason como parceiro. Isto não o impediu, no entanto, de adotar um terceiro Robin - Tim Drake - cujas habilidades dedutivas excepcionais o levaram a descobrir sozinho a identidade tanto do Batman como do antigo Robin. Ainda assim, não foi fácil para o rapaz conquistar o direito de sair para combater o crime ao lado do Batman, que ainda estava receoso em permitir que outra pessoa se colocasse em risco em sua cruzada.

Página do Final Alternativo de Morte em Família 

Esta HQ pode ser encontrada no mercado tanto na versão publicada pela Panini, como também na edição 11 da coleção de Graphic Novels DC da Eaglemoss. Ah, e eu não poderia terminar esta resenha sem elogiar a arte nostálgica e "alegre" de Jim Aparo, que deixou uma marca inconfundível e única na forma de desenhar tanto o Batman como o Coringa.

Boa leitura!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

[RESENHA] A Liga Extraordinária - Volume 1



Imagine uma equipe de super-heróis formada por um grande herói nacional, uma bela e perigosa espiã, um gênio da tecnologia, um cientista que se transforma em um monstro incontrolável quando está com raiva, e um homem com um poder incomum e um caráter duvidoso. Se você pensou nos Vingadores, não poderia estar mais enganado! Estou falando sobre a Liga Extraordinária, criada pelo mago dos quadrinhos Alan Moore para ser uma espécie de Liga da Justiça da Era Vitoriana.  

Juntamente com o artista Kevin O’Neil, Moore reúne nesta premiada HQ lançada entre os anos 1999 e 2000 pela America’s Best Comics um inusitado grupo de personagens saídos diretamente da literatura fantástica da Inglaterra do século XIX: Allan Quartermain (As Minas do Rei Salomão), Wilhemina Murray (Drácula), Capitão Nemo (As Vinte Mil Léguas Submarinas), Dr. Jackyl/Hyde (O Médico e o Monstro), e Hawley Griffin (O Homem Invisível). Eles são reunidos pelo agente do serviço secreto britânico Campion Bond (ancestral do famoso espião James Bond) a mando de seu chefe, o misterioso Sr. M, para impedir que o criminoso chinês conhecido como Doutor (Fu Manchu) utilize uma revolucionária tecnologia bélica para destruir o Império Britânico. 

O Submarino do Capitão Nemo, O Nautilus

É impressionante a fidelidade com que Alan Moore tratou cada um dos personagens, conseguindo realizar a proeza de inseri-los num mesmo universo sem causar estranheza aos leitores de seus livros de origem; o autor demonstra um conhecimento quase enciclopédico acerca de um sem número de obras literárias, das mais famosas e clássicas às mais obscuras, de modo que nos entrega uma Graphic Novel rica em detalhes e repleta de referências. Nem mesmo as datas lhe passam despercebidas: a cronologia dos eventos da HQ segue a mesma linha temporal dos livros em que se baseia: os eventos de Drácula e O Homem Invisível se passam em 1897, um ano antes dos eventos de A Liga Extraordinária. Além disso, ele emprega vários outros personagens ficcionais como pano de fundo para sua trama: quando a equipe vai a Paris, encontra-se com o detetive Auguste Dupin, do famoso conto Os Assassinatos da Rua Morgue , de Edgar Allan Poe (ele até sugere que Edward Hyde seria o tal orangotango que teria matado as duas mulheres no conto); e quando os seguimos até o norte de Londres para solucionar o misterioso caso das “concepções imaculadas”  em um instituto correcional para moças, descobrimos que a dona do estabelecimento é a dominatrix Rosa Coote, que aparece em vários contos sexuais do século XIX, e uma das moças que foram abusadas sexualmente é Polyanna Whittier, da comédia de Eleanor H. Porter. Estas são apenas algumas referências que eu pude garimpar desta obra, mas há ainda tantas outras que o meu parco conhecimento literário não conseguiu discernir. Sem dúvida, esta HQ é um convite a explorar o magnífico universo dos livros.

Auguste Dupin

O primeiro ato deste volume é empregado para apresentar os integrantes da liga e estabelecer as relações entre eles, e ver as interações entre personagens tão incomuns é tão ou mais interessante do que a própria trama em que estão inseridos. Alan Moore utiliza em seu enredo a mesma fórmula que empregara na premiadíssima Watchmen, mostrando um lado mais humano – e muito mais sombrio – dos membros do grupo. Um exemplo claro disso é a abordagem que ele faz do famoso explorador colonial Allan Quartermain, considerado o precursor de Indiana Jones. No início da história ele aparece irreconhecível, vivendo em um albergue como um mendigo viciado em ópio, e durante toda a trama acompanhamos a luta do velho herói para se livrar do vício.

A ação segue um ritmo frenético, quase cinematográfico, que é uma característica marcante dos roteiros de Moore. Ele nos conduz através das ruas apertadas do Cairo, passando por Paris, com suas torres de aço e zepelins, até os bairros orientais dominados pelas tríades da velha Londres em plena Revolução Industrial. Tal história, corretamente adaptada, renderia um magnífico filme de ação. Essa ideia não passou despercebida por Hollywood, que se propôs a adaptar a HQ para o cinema, mas conseguiu mais uma vez estragar uma obra já pronta ao tentar americanizar demais a trama (chegando ao ponto de acrescentar um personagem norte-americano à liga) e engarrafa-la dentro dos moldes dos filmes "para a família toda", suprimindo a violência e o viés adulto tão presentes da obra de Moore.

A Selvageria de Edward Hyde

Ao final do segundo ato a trama sofre uma reviravolta quando o verdadeiro vilão é revelado. Não vou dar spoilers sobre sua identidade, apenas que ele vem das histórias do famoso detetive Sherlock Holmes. Inclusive temos um vislumbre de uma das cenas mais icônicas dos livros de Sir Arthur Conan Doyle retratadas neta HQ.

Dizer que o sucesso desta Graphic Novel se deve exclusivamente ao seu roteirista seria no mínimo injusto. Esta obra não seria o que é hoje sem a belíssima contribuição do desenhista Kevin O'Neil, com seus traços exagerados e quase caricatos. Ele consegue retratar com perfeição o universo steampunk concebido por Moore, que pode ser visto na Londres futurista onde o Canal da Mancha é transposto por uma gigantesca ponte ladeada por imponentes esculturas representando o poder e a hegemonia do Império Britânico, ou nas poderosas máquinas voadoras empregadas pelo vilão. Os grandes quadros recheados de detalhes e nuances empregados por O'Neil e onde o colorista Benedict Dimagmaliw nos apresenta um verdadeiro desfile de cores são um espetáculo à parte, e outra característica marcante desta obra prima da nona arte.

Guerra nos Céus de Londres

Item obrigatório para apreciadores de boas histórias em quadrinhos, A Liga Extraordinária é uma verdadeira aula sobre como fazer histórias de equipes de super-heróis. Quem dera pudéssemos ter mais histórias da Liga da Justiça ou dos Vingadores como esta, menos focadas em espetáculos pirotécnicos cósmicos e personagens extravagantes, e mais propícias a apresentar uma boa trama focada em personagens bem trabalhados e seus problemas internos, sem, contudo, abrir mão da ação e do bom humor.

Esta HQ já foi publicada aqui no Brasil pela Panini Books num encadernado de luxo com 420 páginas recheadas de extras, em capa dura e papel couchê. Boa leitura!

Capa de A Liga Extraordinária - Vol. 1