segunda-feira, 10 de abril de 2017

RESENHA | Superman: Para o Homem que Tem Tudo


Na cultura ocidental é comum que o aniversariante receba presentes daqueles que lhe são próximos, e muitos de nós já nos deparamos com a inusitada situação de não saber o que dar para aquele amigo ou parente que é bem de vida, já que, sendo esta pessoa acostumada a tudo de melhor, dificilmente um presente oferecido por alguém com baixo poder aquisitivo poderia proporcionar-lhe mais do que uma simples lembrança afetuosa (embora isso de forma alguma desmereça o presente). Agora imagine este caso aplicado ao Superman: o que um cara dotado de superforça, supervelocidade e a habilidade de voar, habilidades que fazem dele o homem mais poderoso do mundo, poderia desejar? Esta é a premissa básica de Para o Homem que Tem Tudo, HQ escrita por Alan Moore e publicada na edição anual da revista do Superman, em 1985, pela DC Comics. Ao lado de seu parceiro de Watchmen, o artista Dave Gibbons, Alan Moore convida o leitor para descobrir qual o maior desejo do Homem de Aço.

A narrativa começa mostrando Kal-El vivendo uma vida normal e feliz em Krypton, seu planeta natal; seus pais estão vivos, ele é casado, tem filhos e um emprego comum. No entanto, tudo isso não passa de uma amarga armadilha, uma ilusão provocada por um de seus inimigos, o alienígena amarelo conhecido como Mongul. Somos então transportados para a Fortaleza da Solidão, onde Mulher Maravilha, Batman e Robin, que tinham ido visitar o Superman por ocasião de seu aniversário, descobrem que o kriptoniano encontra-se numa espécie de transe, causado por um parasita chamado Clemência Negra. A planta (ou fundo, ou planta-fungo) se alimenta da força vital do hospedeiro em troca da realização de seu maior desejo, e a única forma da vítima se livrar da paralisia é desistindo do próprio sonho.

Novamente o britânico Alan Moore acerta em cheio ao traduzir a verdadeira essência do herói para as páginas desta HQ: mais do que o brutamontes superpoderoso que muitos roteiristas sem imaginação gostam retratar, o Superman de Alan Moore é dotado das características que consagraram o personagem como um símbolo do genuíno heroísmo: nobreza, bondade e desprendimento sem limites, mesmo que isso acabe se convertendo para ele em autossacrifício. Seu maior desejo não é obter riquezas, casar-se com o amor de sua vida, Lois Lane, ou até mesmo ver seus inimigos finalmente derrotados. Tudo que ele quer é apenas viver uma vida comum, ser mais um na multidão, um simples trabalhador anônimo que tem um lar para voltar ao final de um dia exaustivo de trabalho. Como Superman, no entanto, isso não passa de um sonho, pois sua enraizada educação moral lhe impede de não fazer nada enquanto houver injustiça no mundo, quando ele tem todos os meios para impedi-la. E é aí que reside a crueldade do enredo de Alan Moore: quando finalmente o Homem de Aço consegue o que quer, ele precisa abdicar de seu sonho para ajudar os amigos.

Kal-El e sua Família

Em algum nível de sua consciência, Superman sabe que tudo não passa de ilusão e, conforme Mongul vai derrotando um a um os heróis na Fortaleza da Solidão, o mundo idílico que a Clemência Negra criou na mente do Super começa a desmoronar. A outrora gloriosa civilização kriptoniana passa a exibir sintomas de decadência, sua população se divide em facções que se odeiam entre si, a Família El se torna alvo de extremistas que a acusam de fascismo, chegando ao ponto da prima do Superman ser espancada quase até a morte por uma turba furiosa. Até mesmo Jor-El, seu pai biológico, que sempre fora uma de suas maiores inspirações, lhe decepciona, ao tornar-se o líder de um grupo religioso radical que quer recuperar a antiga glória kriptoniana a qualquer custo. Todos estes eventos parecem ser criados pelo próprio subconsciente do Superman, talvez como um artifício para alerta-lo do perigo em que se encontra, ou até mesmo como um reflexo da iminente derrota de seus amigos pelas mãos de Mongul. A técnica empregada por Moore e Gibbons, mostrando os acontecimentos nas duas linhas narrativas - a realidade dentro da cabeça do Superman e a luta contra Mongul na "casa" do herói - convergindo para um clímax emocional demonstra a maturidade e genialidade dos dois artistas, cujo entrosamento atingiria seu ápice na minissérie Watchmen.

Alan Moore, conhecido por seus roteiros maduros, respeita (e até certo ponto homenageia) a forma como os quadrinhos eram feitos na chamada Era de Bronze. Ver os heróis fantasiados indo visitar o Super Homem em seu aniversário ou Batman repreendendo o Robin (Jason Todd) por ter pensamentos impuros em relação à Mulher Maravilha demonstram isto perfeitamente. Embora seja uma obra complexa, com um roteiro "cabeça", o quesito ação não deixa a desejar, com excelentes cenas de luta, e quem acaba surpreendendo de forma positiva nesta história é o Robin, pois, sendo apenas um adolescente e ainda por cima sem poderes, acaba sendo o principal responsável pela derrota de Mongul.

Mongul

Além do roteiro excelente, um ponto positivo para esta HQ sem dúvida é a arte. O traço de Gibbons é impecável, no mesmo nível dos melhores desenhistas da época. Sua caracterização dos personagens está perfeita, com destaque para o Homem de Aço e Mongul, que aqui é retratado como um vilão intimidador e cruel. A diagramação é inteligente, sem exageros, e em diversas situações ele utiliza o recurso de narrar eventos paralelos - os quais em algum momento irão se interligar - em uma mesma página, como na sequência final em que vemos de um lado Robin tentando livrar Batman da Clemência Negra enquanto Superman luta com Mongul.

Para o Homem que Tem Tudo é uma história indispensável para fãs do Superman, e para aqueles que curtem quadrinhos em geral, por se tratar de um verdadeiro clássico. Esta obra já sofreu diversas adaptações: o desenho animado Liga da Justiça Sem Limites adaptou esta história com bastante fidelidade, e a série de TV da Supergirl recriou o enredo do Alan Moore, com a diferença de que lá Superman foi substituído pela prima. Aqui no Brasil esta HQ foi publicada no encadernado em capa dura O Que Aconteceu ao Homem de Aço, da Panini, que reuniu as contribuições do gênio britânico Alan Moore nas histórias do Superman em um único volume a um preço bastante acessível.

Boa leitura!

Superman por Dave Gibbons

sábado, 8 de abril de 2017

RESENHA | John Constantine, Hellblazer Infernal - Volume 1: Hábitos Perigosos



De todas as HQs do infame mago e vigarista inglês John Constantine, Hábitos Perigosos é a mais emblemática, e a mais venerada pelos fãs. Este arco de histórias em seis partes publicado na revista solo do personagem - Hellblazer - começando pela edição 41, marcou o início da era Garth Ennis (Preacher, Justiceiro), após a despedida do roteirista Jamie Delano. Em parceria com o artista Will Simpson, Garth Ennis deu início a uma nova fase na vida do mago, apresentando ao público novos coadjuvantes e vilões, como o anjo Gabriel, a súcubo Ellie, a bela Kit Ryan, e o Primeiro dos Caídos; ao mesmo tempo honrando o legado deixado por Alan Moore e Delano: personagens como o taxista Chas e a sobrinha de John, Gemma Masters, ganham espaço nas histórias de Garth Ennis, e diversos acontecimentos que marcaram o passado do mago são citados em diversas ocasiões. Porém o roteirista irlandês imprime sua própria marca aos roteiros: as crises existencialistas, abordagens filosóficas a respeito da magia, e soluções complexas e metafísicas tão comuns aos enredos de seus predecessores dão lugar a uma visão mais crua e objetiva do mundo de Constantine, que se vê às voltas com fantasmas, vampiros, anjos e demônios em meio às suas próprias maquinações. Garth Ennis procura aproximar o protagonista do mundo real, mostrando-o em diversas situações do dia a dia daqueles que vivem amontoados nas grandes metrópoles, com todos os problemas sociais existentes durante o fim da década de 80 e início da década de 90. O traço limpo e realista de Simpson nos guia por uma Londres suja, degradada, tão diferente daquela cidade perfeita que os programas de televisão e filmes tentam nos vender. De certa forma, não passa de uma metáfora para a própria condição humana: nas grandes cidades, onde praticamente ninguém se conhece, as aparências não passam de um disfarce; por baixo do brilho e maquiagem há toda sorte de sentimentos ruins, perversão, loucura, e são esses aspectos mais baixos do comportamento humano que Garth Ennis e Will Simpson, com perfeita consonância entre roteiro e arte, transportam para as páginas de Hellblazer.

Em Hábitos Perigosos, John Constantine está morrendo, e seu assassino é o seu próprio corpo! Finalmente todas aquelas décadas fumando um maço e meio de cigarros silk cut por dia cobraram seu preço. Após acordar um dia de manhã e escarrar na pia do banheiro pedaços do próprio pulmão, J.C. é diagnosticado com câncer de pulmão. É irônico que uma doença tenha obtido sucesso naquilo que sociedades secretas, seitas satânicas, demônios e serial killers tentaram e falharam.

Constantine é Diagnosticado com Câncer

Quem conhece a trajetória de Constantine sabe que ele carrega muitos pecados nas costas. Apesar de ter salvado o mundo em diferentes ocasiões, em quase todas elas precisou sacrificar amigos e até mesmo amantes para alcançar seus objetivos. Sendo assim, não é de admirar que a ideia de morrer não lhe agrade muito, afinal, com certeza sua alma estava destinada ao inferno. Ele então resolve procurar a ajuda de um velho amigo, o irlandês Brendan Finn. Sempre que tem oportunidade, Garth Ennis homenageia sua terra natal, introduzindo personagens irlandeses, os quais na maioria das vezes são bon vivants beberrões e festeiros. Assim é Brendan Finn, um colecionador de bebidas raras que passa seus dias e noites solitários degustando todo tipo de birita. Numa situação cômica e trágica ao mesmo tempo, Brendan também está à beira da morte por causa de seu vício em álcool. O pior de tudo é que Brendan havia feito um pacto com o diabo: em troca de sua alma, ele obteve sua vasta coleção de bebidas. Agora o Primeiro dos Caídos resolve vir coletar a alma de Brendan, mas Constantine mais uma vez usa sua lábia e consegue enganar o próprio demônio, fazendo-o perder a alma de Brendan. Só que sua atitude só conseguiu enfurecer ainda mais a criatura, que passa a aguardar com ansiedade pela morte de Constantine. 

Após se humilhar pedindo ajuda para entes celestiais e também do "andar de baixo", Constantine bola seu próprio plano para salvar sua vida e escapar de uma eternidade de torturas. É na quinta edição na qual vemos o anti herói colocar em prática seu plano mais astuto e ambicioso. Ele aposta todas as suas fichas neste plano, contra um trio de adversários os quais nem o apostador mais corajoso ousaria desafiar. Se ganhasse, poderia continuar vivendo sua vida normalmente; mas se perdesse, bem... a eternidade seria pouco para o castigo que o inferno tinha reservado para ele. 

Esta é a verdadeira essência de Constantine, presente nas histórias do mago independente de quem esteja escrevendo os roteiros: ele é um apostador nato, um viciado no perigo. Ele é um cara comum, como qualquer um de nós, mas que consegue sair das piores situações usando apenas astúcia e, como já falei em outras ocasiões, uma dose cavalar de coragem. É claro que no final ele consegue engambelar todo mundo, e ainda tira sarro dos governantes infernais na icônica cena que encabeça esta postagem, e que, de quebra, ajudou a embalar a carreira de Garth Ennis como roteirista de quadrinhos.

Arte de Capa, por Glenn Fabry

Hábitos Perigosos foi apenas o primeiro fio da grande trama que Grath Ennis construiu ao longo de toda sua passagem por Hellblazer. Nelas diversos personagens chave foram apresentados, e o grande antagonismo entre ele e o Primeiro dos Caídos foi estabelecido. Além disso, ao final deste arco Constantine começa a se envolver emocionalmente com Kit, ex-namorada de Brendan, num dos relacionamentos mais duradouros que ele já teve. Esta história inspirou também o roteiro da controversa adaptação cinematográfica Constantine, de 2005, na qual o mago foi interpretado por Keanu Reeves. Por este motivo ela é a porta de entrada para muitos leitores que desejam conhecer mais sobre as histórias do trambiqueiro mais famoso dos quadrinhos.  

Hábitos Perigosos foi lançada aqui no Brasil em 2014 pela Panini Books em um encadernado com acabamento em capa cartão e papel LWC, e atualmente encontra-se esgotada, mas com o relançamento de Hellblazer Origens, há a esperança de que este encadernado seja publicado em breve. Boa leitura!

Capa de Hábitos Perigosos

quarta-feira, 5 de abril de 2017

RESENHA | O Que Aconteceu ao Homem de Aço?



Não precisa ser um conhecedor profundo do assunto para saber que histórias em quadrinhos - pelo menos os quadrinhos mainstream -, raramente possuem final. Às vezes uma ou outra revista, devido a uma queda nas vendas ou algo que o valha, é descontinuada, e o personagem principal do título é colocado para hibernar; mas em um ano, cinco ou uma década depois, não importa, algum editor resolve que é a hora daquele herói voltar a dar as caras e algum roteirista corajoso é contratado para ressuscitá-lo. Assim sendo, conclusões definitivas em histórias em quadrinhos são praticamente impossíveis de ocorrer, e o motivo disso é puramente comercial: qual empresa deixaria de ganhar dinheiro com personagens como Superman, Batman, Homem Aranha ou Wolverine ao decidir dar um final para suas histórias, um final de verdade, definitivo, como final de novela ou o último episódio de uma série? Mas houve um caso em que os fãs de um famoso super herói puderam finalmente conhecer a história final deste personagem, e, para estes fãs em específico, caso resolvessem parar de ler quadrinhos, as aventuras do herói em questão haviam de fato chegado ao fim. O herói em questão, a propósito, foi o Superman. "Ah, mas as histórias do Superman continuam sendo publicadas até hoje!", alguém poderia argumentar, e com razão. De fato, a revista do Superman nunca foi descontinuada, porém houve um Superman cujas histórias tiveram um final, um Superman que finalmente pôde enfim descansar em paz, porque seus vilões finalmente haviam sido derrotados. Este Superman foi o Superman pré-Crise.

Durante um ano inteiro, de abril de 1985 a março de 1986, um mega evento chacoalhou as fundações do Universo DC: foi a Crise nas Infinitas Terras, que tinha o estoico propósito de reinicializar todos os títulos da editora, de certa forma anulando tudo o que havia acontecido antes e reintroduzindo seus personagens para uma toda uma nova geração de leitores, uma geração mais madura e exigente. O tempo dos enredos inocentes havia acabado; Frank Miller, com seu O Cavaleiro das Trevas, e Alan Moore, com Watchmen, tinham garantido que isso acontecesse. Sendo o Superman o principal herói da DC, ele certamente não ficaria de fora do processo de reestruturação da editora. Mas lembra que eu falei que no mundo dos quadrinhos finais são bastante raros? Pois bem, o editor da revista do Homem de Aço, Julio Schwartz, vislumbrando o fim de uma era, no caso a era do Superman pré-Crise, teve uma brilhante ideia: e se as últimas edições de Superman e Action Comics, as duas revistas nas quais as histórias do herói eram publicadas, narrassem realmente a última aventura do Superman? Esta seria uma oportunidade única de prestar uma homenagem não somente ao personagem, mas a todos aqueles que fizeram parte de sua mitologia: Lois Lane, Perry White, Lana Lang, Jimmy Olsen, Lex Luthor, Brainiac, Bizarro, Krypto, o Supercão, a Legião de Super Heróis, e tantos outros. Com isso em mente, a primeira pessoa que ele cogitou para levar a cabo esta missão foi Jerry Siegel, co-criador do Superman: nada mais justo do que aquele que deu o pontapé inicial fosse quem apagaria as luzes e fecharia a porta. No entanto, por problemas de agenda Jerry não pode fazer parte do projeto, e quem acabou sendo o escolhido para roteirizar a última história do Homem do Amanhã foi um jovem e talentoso britânico que vinha fazendo bastante sucesso na revista do Monstro do Pântano e com a minissérie Watchmen: Alan Moore. Já para a arte desta história nunca houve nenhum outro nome senão o de Curt Swan, desenhista veterano nas revistas do Superman desde a década de 60: até hoje sua versão do herói, que também é considerada a versão definitiva, serve como modelo para inúmeros artistas.

Clarck Kent é Desmascarado

Alan Moore desenvolveu um enredo coerente, no qual pôde inserir praticamente todos os principais personagens do universo do Superman, sem, contudo, deixar que qualquer um deles se tornasse redundante ou desnecessário. Todos têm uma função no enredo, assim como todos obtêm algum tipo de conclusão, embora nem todos consigam ter o tão sonhado final feliz. A história já começa nos revelando que o Superman está morto. Há dez anos. Com direito a monumento com estátua na praça e tudo que um finado herói tem direito. Lois Lane, agora Lois Elliot, recebe em sua casa um repórter do Planeta Diário que veio entrevistá-la sobre os últimos dias do Superman. Assim, toda a história do crepúsculo do maior herói do planeta é narrada por Lois; é irônico que a pessoa que escreveu a matéria que apresentou o herói ao mundo tenha que testemunhar sobre sua morte.

Em seus últimos dias, Superman começou a sofrer uma série de ataques coordenados de seus antigos vilões. Bizarro, Metallo, Homem Brinquedo colocaram as pessoas que ele mais amava em risco. Até mesmo a identidade civil do Superman foi revelada ao público. Sem alternativas, ele levou sua família e os amigos mais prezados para sua Fortaleza da Solidão, no Ártico, a qual acabou sendo sitiada por um exército de vilões. A Fortaleza se tornou então o palco de alguns dos momentos mais trágicos desta HQ, e Alan Moore não tem pena do coração do leitor ao matar alguns personagens queridos ao longo da batalha. Se você tem coração mole e adora animaizinhos de estimação, vai derramar rios de lágrimas em determinado momento da trama. Não vou dar spoilers, mas é feio, muito feio...

Superman Chora

Superman se viu tão acuado por seus inimigos, de uma maneira que ele jamais havia sido, que em certa altura da trama vemos o grande herói literalmente desmoronar e começar a chorar. Você não entendeu errado: a parada tava tão sinistra que o próprio Superman, o homem mais forte do planeta, o Homem de Aço, o Último Filho de Krypton, chorou. Mas é claro que ele acabou dando a volta por cima, com uma ajudinha de alguns aliados, e conseguiu finalmente descobrir quem era a mente por trás de todos esses ataques. Não vou dizer quem é, para não dar spoilers, mas posso dizer que neste ponto vemos o quanto Alan Moore é um roteirista brilhante: o maior inimigo do Superman, aquele que o humilhou, que causou a morte de tantos amigos, era alguém de quem ele não poderia ter suspeitado. Moore teve que alterar alguns aspectos deste personagem para poder fazer a história funcionar, mas ainda assim a solução encontrada por ele foi genial.

Superman foi então colocado diante de uma difícil decisão: algo precisava ser feito para impedir que este inimigo ferisse seus amigos, e precisava ser uma solução definitiva. Entre manter seu juramento de nunca matar ou salvar aqueles a quem amava, é claro que o Superman optou pelo caminho do auto sacrifício. É neste ponto que eu percebo o quão bem Alan Moore conseguiu entender o Superman. Diferentemente do Batman, que se esconde por trás do disfarce de Bruce Wayne, Clark Kent é a verdadeira identidade do Superman. Muito mais do que um super herói, o Superman é um símbolo, uma representação de todos os nobres ideais que norteiam a vida de Clark Kent, ideais de justiça, liberdade e retidão de caráter ensinados pelos pais terráqueos. E se ele fizesse qualquer coisa que maculasse estes ideais, então ele não poderia mais ser um símbolo de nada, e não haveria outra escolha senão "matar" o Superman. E é justamente isso o que Clark Kent faz: ele mata o Superman.

É sobre isso que se trata esta história, da morte do Superman, não uma morte física, mas a morte do símbolo.


Se você gostou desta resenha e se interessou por essa história, pode encontrá-la em uma edição de luxo publicada pela Panini (clique aqui para ver esta edição), juntamente com outras duas histórias de Alan Moore para o personagem, dentre as quais a clássica Para o Homem que Tem Tudo, sobre a qual falarei em breve. Boa leitura!

sábado, 1 de abril de 2017

RESENHA | Aquaman: As Profundezas



Artur Curry, o Aquaman, é um dos super heróis mais antigos da DC Comics, um dos membros fundadores da Liga da Justiça da América, e o soberano do reino submerso de Atlântida; entretanto, apesar de todas essas qualificações, também é um dos heróis mais desprezados e subestimados dos quadrinhos. Isso se deve ao fato de a maioria das pessoas - as quais provavelmente nunca leram um quadrinho sequer do personagem -, terem uma ideia equivocada de que ele não possui poderes realmente úteis, afinal, qual super herói que se preze vai conseguir salvar o mundo usando o incrível poder de controlar peixes telepaticamente? Talvez essa percepção se deva em grande parte à participação do herói no famoso desenho animado da Hanna-Barbera, Os Superamigos, que mostrava o herói cavalgando (pasmem!) um cavalo marinho rosa enquanto pedia ajuda a baleias e golfinhos (que nem mesmo são peixes!).

Mas essa fama de super herói cômico e inútil parece estar com os dias contados, graças a uma excelente fase nos quadrinhos em que o roteirista Geoff Johns, com a ajuda de uma trinca de brasileiros - Ivan Reis, Joe Prado e Jod Reis -, revitalizou as histórias do Aquaman ao apresentá-lo a toda uma nova geração de leitores como um herói verdadeiramente poderoso e imponente, sem, contudo, abrir mão da mitologia estabelecida lá na Era de Prata dos Quadrinhos. A fase de Geoff Johns na revista do Aquaman foi uma das mais elogiadas dentro do contexto dos Novos 52, quando a DC zerou a numeração de seus títulos e realizou um reboot em suas histórias semelhante ao que fizera na década de 80 com a Crise nas Infinitas Terras.


Aquaman dos Superamigos

Aquaman de Geoff Johns e Ivan Reis

A estreia de Geoff Johns no comando do título Aquaman se deu no arco As Profundezas, quando o herói é reapresentado aos leitores. Johns volta às origens do personagem, após as diversas mudanças introduzidas nos anos anteriores, estabelecendo-o como Arthur Curry, filho de um humano com a rainha de Atlântida. No entanto, esta não se trata de uma história de origem; Johns nos apresenta um Aquaman já experiente, logo após abdicar do trono de Atlântida para viver uma vida normal ao lado da esposa Mera. É esta adaptação de Arthur a uma nova realidade que eu achei a maior sacada de Geoff Johns para o personagem, já que o roteirista tira proveito do karma que o herói carrega no mundo real e o transpõe para as páginas dos quadrinhos, ao mostrá-lo tendo que lidar com chacotas e gozações vindas de policiais e principalmente das próprias pessoas que ele tenta salvar. Ao longo das edições, conforme ele vai demonstrando suas habilidades e a real extensão de seu poder, estas pessoas vão percebendo o quão equivocadas estavam, e lentamente passam a respeitar o Aquaman como um super herói de verdade.

O roteiro de As Profundezas é simples, porém eficiente. As criaturas abissais que Arthur enfrenta não representam uma ameaça real ao personagem, e o arco serve apenas ao objetivo de estabelecer Aquaman neste novo universo. Geoff Johns também utiliza um artifício bastante comum às suas histórias, que é deixar algumas pontas soltas a serem exploradas nos próximos arcos, atiçando a curiosidade dos leitores e assim fazendo com que estes continuem comprando as próximas edições da revista. Não é à toa de Geoff Johns tem apresentado uma carreira meteórica dentro da DC Comics, tendo sido alçado ao cargo de produtor executivo dos filmes da DC/Warner no cinema.

Aquaman e os Abissais

Outro personagem bastante explorado por Johns é Mera, a esposa do Aquaman, para mim a maior supresa deste título. Ao contrário de Arthur, ela não é uma atlante, mas uma agente secreta de outro reino marinho, sobre o qual muito pouco é mostrado, inicialmente enviada para matar o rei da Atlântida. Porém ela acaba se apaixonando por Aquaman e se casando com ele. Assim como o marido, ela também abdica de tudo em nome desse amor: do pai, dos amigos, de sua terra natal. Como nunca viveu na superfície, Mera sabe muito pouco dos costumes dos terrestres, principalmente a postura submissa de algumas mulheres em relação aos homens. Desde o início mostrada como uma mulher de temperamento forte, ela não consegue lidar com injustiças, e isso irá traz bastante problemas para ela e o marido.

A arte de Ivan Reis é um verdadeiro espetáculo, e o brasileiro vem a cada dia se provando como um dos maiores desenhistas de quadrinhos da atualidade. Seus desenhos transmitem a sensação de movimento e dinamismo, e ficam ainda mais belos e deslumbrante com as cores vívidas usadas por Jod Reis.

Aquaman: As Profundezas foi publicado nas edições 1-7 de Aquaman, entre os anos de 2011 e 2012, e foi recentemente lançada pela Panini Books em uma edição de luxo com capa dura. Recomendo a leitura desta HQ para aqueles que conhecem pouco sobre o herói atlante e precisam de um ponto de partida, principalmente agora que o herói será retratado nas telonas no novo filme da Liga da Justiça, no qual ele será interpretado por Kal Drogo Jason Momoa. Boa leitura!

Aquaman Interpretado por Jason Momoa