segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Séries Vertiginosas: Jericho


Inaugurando o quadro Séries Vertiginosas, vou falar sobre esta incrível série que assisti entre os anos de 2008 e 2009: Jericho. Uma série com um roteiro espetacular, em que a cada episódio eu me via roendo cada pedaço de unha que ainda tinha nos dedos para ver como os habitantes de uma pacata cidade do meio oeste americano resolveriam os problemas escabrosos que vinham ao seu encontro após os EUA sofrerem um holocausto nuclear. Uma série que tinha tudo para dar certo, para ser um grande sucesso de crítica e audiência, porém... não rolou! Queixando-se da baixa audiência, a emissora CBS decidiu cancelar a série ao final da primeira temporada, deixando uma legião de fãs desesperados, pois a season finale terminara com um grande cliffhanger e muitas questões não respondidas. No entanto, numa reviravolta inédita, graças à insistência dos fãs mais fiéis, a CBS encomendou uma segunda temporada, mais curta, para finalizar a trama e dar um final digno para Jericho.

Tudo começa quando os moradores da cidade fictícia de Jericho, localizada no estado do Kansas, avistam uma nuvem de fogo em formato de cogumelo, marca inconfundível de uma explosão nuclear, se erguer da direção de onde ficava a cidade de Denver. Não demora muito para eles descobrirem que esta não foi a única explosão: por todo o território norte-americano, diversas cidades haviam sido bombardeadas por armas atômicas, num ataque fulminante que mandou a maior potência do planeta de volta para a Idade das Trevas. Sem energia elétrica, telefone e internet, os moradores de Jericho ficam completamente isolados do mundo exterior, e precisam se organizar para sobreviver às dificuldades que se lhes impõem, como a falta de recursos médicos, escassez de alimentos, o frio do inverno, além de cidades hostis querendo se apropriar à força dos valiosos recursos da cidade.

Robert Hawkings (esquerda), Gray Anderson, Dale, Emily, Jake (centro),
Heather, Eric, Johnston, Gail, Bonnie e Stanley (direita)

O personagem principal da série é Jake Green (Skeet Ulrich), um jovem que retorna a Jericho no dia da explosão após passar alguns anos longe de casa. De início sabemos pouco sobre ele, apenas que no período em que ficou fora da cidade esteve metido com coisas ilegais. Ele é o filho de Johnston Green (Gerald McRaney), um veterano de guerra que tem sido prefeito da cidade por vários mandatos consecutivos, e irmão de Eric Green (Kenneth Mitchell), que aos olhos da cidade é um cidadão exemplo, embora nunca tenha saído da sombra do pai. A experiente Pamela Reed interpreta Gail, mãe de Jake, que encarna com furor o papel da grande matrona, sempre preocupada com a segurança dos filhos e a saúde do marido.

Após a explosão nuclear que destruiu Denver, Jake se torna uma espécie de líder na cidade, não um líder político, mas aquele tipo de pessoa que todo mundo procura quando tem um problema. Toda vez que uma dificuldade insolúvel aparece, ele é o primeiro a propor alguma solução, mesmo que arriscada. Sua coragem e caráter acabam chamando a atenção da jovem Heather Lisinski (Sprague Grayden), que, embora pareça uma ingênua professora de crianças, é uma verdadeira especialista quando se trata de equipamentos mecânicos, melhor do que muito marmanjo. Eu fui dos que torceram para que os dois ficassem juntos, mas infelizmente para a moça, o coração de Jake pertence mesmo é a Emily Sullivan. Interpretada pela bela Ashley Scott, ela é filha de Jonah Prowse, um notório contraventor que costumava atuar na cidade, e que volta e meia aparece tanto para causar problemas como para ajudar a resolvê-los (embora sempre visando obter alguma vantagem).

Emily, Jake e Heather

O debate político está muito presente em Jericho, nas figuras de Johnston Green e do seu maior opositor, Gray Anderson (Michael Gaston). Gaston interpreta seu papel com uma competência absurda, e seu sucesso é constatado pelo fato de que logo nos pegamos odiando-o com todas as forças devido a sua politicagem cara de pau, praticada até nos momentos em que a união se faz mais necessária. Gray constantemente questiona as decisões de Johnston, e todo o tempo espalha notícias alarmantes para insuflar a população contra o prefeito. Quando Johnston está mais fraco, ele se aproveita e toma o poder para si, mas em pouco tempo ele acaba percebendo o erro que cometera.

Assim como muitos líderes atualmente, seja na política ou no comando de empresas, Gray é um sujeito extremamente técnico: todas as suas decisões são tomadas com base em números e gráficos, e não pelo bem das pessoas. Um claro exemplo disso é quando, ao perceber que os recursos da cidade não serão suficientes para mantê-los vivos no inverno, ele decide mandar embora todos os refugiados que se instalaram na cidade após as explosões. É o típico "farinha pouca, meu pirão primeiro", que até daria certo, se ele não fosse precisar dessas mesmas pessoas quando estourasse a guerra contra a cidade vizinha de New Bern.

Johnston Green e Gray Anderson

Jericho é dessa séries que desenvolvida para todos os tipos de público - desde aqueles que gostam de uma boa ação até aqueles mais chegados num dramalhão familiar. E o que não falta em Jericho é drama. Eric Green, o filho "certinho" de Johnston e Gail, esconde de todos que trai sua esposa, a devotada médica April (Darby Stanchfield), com a dona do principal bar da cidade, Mary Bailey (Clare Carey). No entanto, a série não faz uma abordagem hipócrita neste caso: Mary sabe que o que eles fazem é errado, mas é incapaz de resistir à atração que sente pelo número dois da cidade. E, quando finalmente conseguem ficar juntos, ela precisa enfrentar a resistência de Gail à união deles.

Outro núcleo muito querido da série é o do fazendeiro e melhor amigo de Jake, Stanley Richmond (Brad Bayer), que precisa manter a fazenda de seus pais falecidos e ao mesmo tempo cuidar de sua irmã Bonny (Shoshannah Stern), que é deficiente auditiva. Numa prova de que grandes tragédias aproximam pessoas que em circunstâncias normais jamais se identificariam, o jovem se apaixona por Mimi Clark (Alicia Coppola), uma fiscal da receita federal que viera a Jericho justamente para confiscar a fazenda de Stanley.

Robert Hawkings

Por último há Robert Hawkings (Lennie James), um misterioso homem que alega ter sido policial e que se muda para Jericho com a família pouco antes dos ataques. Ele é a ponte de ligação da cidade com os eventos catastróficos que ocorreram no restante do país. Não demora muito para percebermos que ele não é quem realmente diz; sua verdadeira identidade é um mistério, e às vezes chegamos a pensar que ele é um dos terroristas que causaram os ataques, principalmente quando é revelado que ele possui uma das bombas atômicas escondida no porão de casa.

Jake acaba descobrindo o segredo de Hawkings, que decide então contar toda a verdade: ele era um agente da CIA infiltrado no grupo terrorista, porém um traidor em sua equipe fez com que os ataques acontecessem antes do planejado, e ele não teve escolha a não ser fugir com sua família para o único lugar seguro no país, uma cidade que não sofreria com as precipitações radioativas das explosões e que possuía todos os recursos capazes de mantê-la de pé durante os meses de dificuldade: Jericho. No entanto, os verdadeiros conspiradores que orquestraram os ataques ainda estavam soltos por aí, e enviaram agentes para recuperar a bomba de Hawkings, pois ela era a única prova que o ataque não havia sido causado por países estrangeiros, mas por agentes internos.

Jericho Vs. New Bern

O segredo que Hawkings acaba ficando em segundo plano quando ele precisa se unir a Jake para impedir que a cidade de Jericho seja invadida pelos moradores de New Bern. Liderados por Phil Constantino, antigo xerife da cidade vizinha, os homens de New Bern pretendiam tomar as fazendas e a mina de sal de Jericho para si, uma vez que eles não tinham meios de se sustentar. No final há um grande conflito entre as duas cidades, no qual um importante personagem morre, e tudo parece perdido para os rapazes de Jericho. É neste ponto que a primeira temporada se encerra, deixando os espectadores sem saber quem venceria o conflito.

Antes de falar sobre a conclusão, preciso falar sobre minha avaliação quanto aos detalhes técnicos desta obra. O que mais se destaca é a fotografia: a série foi filmada em grande parte em Van Nuys, no estado da Califórnia. Com belos cenários externos de montanhas e planícies, somos transportados realmente para uma cidade do meio do continente norte-americano, onde predominam grandes fazendas de milho. A trilha sonora também é bem legal, com algumas músicas bem conhecidas tocando sempre que há um momento de grande emoção, como por exemplo Iris, do Goo Goo Dolls ao final do episódio piloto. As cenas de ação são muito muito bem filmadas, e há pouca necessidade de efeitos especiais, que com certeza encareceriam a obra e a deixariam menos realística, caso fossem mal aplicados. A cena da batalha final entre Jericho e New Bern é uma das melhores de todo o seriado, com direito a tanque de guerra e tudo!

A Segunda Temporada (CONTÉM SPOILERS)


A Nova Bandeira Americana

Composta por apenas 7 episódios, essa temporada foi concebida para dar fim à trama iniciada na temporada anterior, por isso vários desenvolvimentos de personagens são deixados de lado para focar na história principal. O próprio conflito de Jericho com New Bern é interrompido logo após começar, num grande anticlímax. Uma tropa do exército norte-americano aparece de supetão e impede a carnificina entre os habitantes das duas cidades, e impõem uma nova ordem. Logo ficamos sabendo que eles fazem parte de uma nova nação: os Estados Aliados da América, formados pelos estados do oeste dos EUA até o Rio Mississipi. Este novo país, que possui inclusive uma nova bandeira, baseada na antiga, está crescendo cada vez mais, e sua única resistência consiste nos estados do leste, que ainda são fiéis à antiga Constituição, e pelo estado do Texas.

A princípio não haveria nenhum problema, se não fosse pelo fato de que esta nova nação é controlada por uma corporação chamada Jennings & Hall, e que eles são os verdadeiros conspiradores por trás dos ataques nucleares que destruíram a antiga ordem. Jericho explorou ao máximo o conceito das teorias da conspiração, e às vezes até eu mesmo começo a achar que o cancelamento precoce da série fez parte de uma conspiração de fato, devido aos pensamentos subversivos que essa história poderia suscitar nos americanos. Você pode achar que eu estou exagerando, e talvez esteja, mas basta pensar sobre as várias teorias conspiratórias que cercam o ataque de 11 de setembro às Torres Gêmeas: há muitos indícios, verdadeiros ou não, de que os edifícios poderiam ter sido implodidos, e muitos teorizam que o próprio governo norte-americano, ou uma parte dele, pode ter causado os ataques propositalmente. Afinal, que lucrou mais com tais ataques? A decisão política de atacar o Afeganistão foi rápida, a população estava completamente de acordo com a guerra, a indústria bélica ia de vento em poupa, e em menos de cinco anos os poços de petróleo iraquianos estavam sob o controle de empresas ocidentais. Coincidência, não? Ou talvez tenha sido tudo da forma como a mídia anunciou, nunca saberemos. Jericho sutilmente faz um paralelo com as teorias conspiratórias do 11 de setembro: os ataques nucleares também ocorreram em setembro, e foram orquestrados por membros do antigo governo que pretendiam estabelecer uma nova nação, e as empresas que os apoiaram lucrariam muito, pois seriam as únicas a operar no novo regime.

Major Beck

Deixando as teorias da conspiração e voltando à série, Jake e os demais personagens precisam lidar com o novo encarregado da cidade: o major Edward Beck (Esai Morales). Embora suas responsabilidades sejam de manter a ordem, suas verdadeiras instruções são para achar a bomba atômica perdida. Beck não é um cara mau, mas apenas um soldado zeloso que cumpre ordens sem questioná-las, mesmo quando está mais do que claro que quem está dando as ordens é um tirano. As coisas pioram muito quando os chefes do novo governo mandam um novo administrador, um membro dos Ravenwood, o exército particular da Jennings & Hall, afim de liberar Beck para cumprir sua verdadeira missão. O problema é que os Ravenwood, antes da ordem ser restaurada no país, agiam como um exército mercenário pilhando várias cidades em busca de recursos, e haviam causado muitos problemas em Jericho na temporada anterior. O novo administrador, ressentido por ter sido expulso da cidade anteriormente, agora quer aproveitar sua nova posição de poder para transformar a vida de Jake e seus amigos num inferno. O problema é que as atitudes de John Goetz (D. B. Sweeney)  passam do limite e acabam causando a morte de outra personagem querida pelos fãs.

Jake Leva a Bomba para o Texas

No final Hawkings e Jake (que estranhamente deixa de lado suas responsabilidades na cidade) conseguem levar a bomba atômica até o Texas, após vários percalços, e revelam para o mundo o segredo por trás dos ataques. No entanto, o final fica em aberto, pois diante deles se desenrola a possibilidade de começar a nova Guerra Civil americana. No entanto, para mim a série foi muito bem finalizada, uma vez que ela nunca foi sobre o destino do país, e sim dos habitantes daquela pequena cidade de interior chamada Jericho, e isso a série consegue nos entregar com um estupendo sucesso. Com certeza vale a pena conferir esta produção, ainda mais agora que ela encontra-se disponível no catálogo brasileiro da Netflix, apenas na versão legendada. Boa diversão!

Assista ao trailer:

[RESENHA] Batman: Contos do Demônio


Contos do Demônio é uma Graphic Novel que reúne as primeiras aventuras do Maior Detetive do Mundo contra um de seus mais mortais e icônicos adversários: Ra's Al Ghul. Com roteiros de Dennis O'Neil e arte assinada por diversos nomes, como Neil Adams, Irv Novick e Don Newton, esta saga marcou o início da retomada do Cavaleiro da Trevas aos contornos originais estabelecidos por Bob Kane e Bill Finger, após a essência sombria e assustadora do personagem ter sido terrivelmente maculada nas duas décadas anteriores, devido a dois fatores: o Comic Code Authority, que bania violência, derramamento de sangue e sexo das páginas dos gibis como uma forma de evitar que garotos se tornassem delinquentes juvenis; e a famosa série de TV do Batman, estrelada por Adam West, que transformou o Cavaleiro das Trevas no Cavaleiro da Feira da Fruta.

Dennis O'Neil e Neil Adams haviam recentemente abalado as estruturas do mundo dos quadrinhos com a revolucionária Lanterna Verde/Arqueiro Verde, que juntava dois improváveis heróis numa road trip pelos EUA, na qual, ao invés de enfrentarem supervilões e ameaças espaciais, eles lidavam com os problemas sociais que assolavam o país na época, como racismo, pobreza e drogas. Quando a dupla assumiu a revista do Cruzado de Capa, decidiram iniciar o retorno às origens do personagem, e, para acrescentar mais peso às histórias e também dar uma oxigenada na mitologia do herói, decidiram criar um vilão realmente perigoso e que fosse digno de enfrentar Cavaleiro das Trevas.


Ra's Al Ghul

Ra's Al Ghul ("Cabeça do Demônio", traduzido do árabe) foi idealizado para ser a nêmesis definitiva do Homem Morcego. Se o Batman fosse Sherlock Holmes, Ra's seria seu Professor Moriarty. Suas habilidades físicas e intelectuais se equivalem, além dos dois possuírem uma vasta fortuna e muitos recursos tecnológicos para ajudá-los em suas cruzadas. Seus ideias de justiça também são semelhantes, motivo pelo qual existe um grande respeito entre este dois grandes adversários. No entanto, ao contrário do Batman, Ra's não se importa se inocentes tiverem que ser sacrificados para que o bem maior seja alcançado, e esse é o principal motivo da inimizade entre os dois.

Uma das características mais notórias de Ra's Al Ghul é sua aparente imortalidade, conquistada graças a seu conhecimento dos Poços de Lázaro, que são literalmente poços localizados em pontos específicos do planeta e que, se utilizados da forma correta, podem restaurar a juventude e até mesmo ressuscitar quem se banhar em suas fétidas águas. No entanto, a principal arma de Ra's contra o seu maior rival é sua filha Talia, a qual exerce uma intensa atração em seu "amado", que só pode ser explicada por sua estonteante beleza. O Batman só saiu vivo de muitos encontros com Ra's devido à interferência da beldade, que já chegou a se rebelar contra o próprio pai para salvar seu amante.


Talia, a Filha do Demônio

As duas primeiras edições deste volume - No Covil dos Assassinos e A Filha do Demônio - foram responsáveis por introduzir Talia e seu misterioso pai, que ainda não havia sido revelado como vilão, embora tenha arquitetado o plano de sequestrar o pupilo de Batman, o Robin. Este Robin ainda é o primeiro, Dick Grayson, porém nesta época ele andava afastado das aventuras do Morcego por estar estudando na Universidade Hudson, embora a real motivação era que a ausência do Menino-prodígio ajudaria a restabelecer a imagem mais sombria do Batman.

A conclusão desta história revela o verdadeiro objetivo de Ra's Al Ghul: que Batman se case Talia e o substitua como líder da Irmandade do Demônio! Estas duas histórias foram fielmente adaptadas na série animada do Batman produzida pela Warner Bros. Animation, nos episódios "Off Balance" e "The Demon's Quest Parts I-II", com a diferença de que no primeiro o Dr. Darrk é substituído pelo Conde Vertigo, conhecido adversário do Arqueiro Verde.


Ra's Al Ghul em Batman - The Animated Series

Batman só viria a descobrir a natureza vilanesca de Ra's Al Ghul em Vingança para um Homem Morto, uma interessante trama na qual o Cavaleiro das Trevas é chamado pelo Comissário Gordon para investigar o misterioso assassinato de um cientista cujo cérebro havia sido removido. A história passa a exibir contornos bizarros quando é revelado que o cientista não estava de fato morto: seu cérebro havia sido colocado em um dispositivo capaz de mantê-lo vivo e consciente afim de se obter dele informações úteis para os planos de Ra's. O confronto entre Batman e Ra's Al Ghul, no entanto, é adiado, dando tempo para o Cavaleiro das Trevas iniciar os preparativos de seu plano para derrotar Ra's e sua organização.

Nos três capítulos seguintes O'Neil narra a tão esperada batalha entre Batman e Ra's Al Ghul. Para enfrentar o terrível inimigo o Cavaleiro das Trevas reúne um grupo improvável de aliados: um ex servo de Ra's que possui um débito de honra para com Batman, um cientista relutante e uma atleta famosa que entra na missão por acaso. Contra todas as expectativas eles conseguem invadir a base do Cabeça do Demônio, apenas para encontrá-lo já morto. No entanto, os capangas do vilão mergulham o defunto em um Poço de Lázaro, e o vilão volta à vida num surto momentâneo de fúria e loucura que nem o Batman foi capaz de lidar. Após se recuperar da surra o Detetive parte no encalço de seu adversário até o combate final nas areias escaldantes do deserto do Saara, onde eles travam um impressionante duelo de espadas, do qual o Batman sai vitorioso.


Batman Enfrenta Ra's Al Ghul

Em Eu os Declaro Batman e Mulher o Cavaleiro das Trevas é obrigado a se casar com a Filha do Demônio. É claro que tudo não passava de um estratagema com a finalidade de distrair Batman para que Ra's Al Ghul pudesse realizar um grande roubo sem a interferência de seu maior inimigo. Mas o Batman não seria o Maior Detetive do Mundo se não pudesse descobrir seus planos, e abandona sua linda e voluptuosa "esposa" em plena noite de núpcias para poder lutar contra o sogrão. Ah, e Bruce Wayne que se cuide, pois Talia poderia muito bem usar a Lei Maria da Penha contra ele, depois do tratamento que recebeu logo na primeira noite de casados!

A última história contada neste encadernado é uma saga em três capítulos na qual o Batman precisa vingar a morte de Kathy Kane, a antiga Batwoman, assassinada por agentes da Liga dos Assassinos a mando do Sensei, um aliado renegado de Ra's Al Ghul que tomou o controle da Liga para si. Embora não seja confirmado, tudo indica que Ra's tenha provocado a morte da antiga aliada do Batman afim de fazer com que ele enfrente o Sensei e remova o último obstáculo que impede o Demônio de assumir o controle absoluto da Liga dos Assassinos. No final tanto o Sensei como Ra's Al Ghul são dados como mortos, mas não é preciso ser um grande conhecedor de quadrinhos para saber que a morte é apenas temporária, ainda mais quando há tantos Poços de Lázaro disponíveis por aí...


A Morte da Batwoman

Aqueles leitores acostumados com as historias mais atuais do Batman certamente irão estranhar alguns trechos dessas histórias. É possível ver cenas em que o Cavaleiro das Trevas sorri e até faz piadas com seus adversários, além de usar frases de efeito um tanto quanto ridículas. Isso se deve ao fato de que o Batman de Dennis O'Neil ainda era uma lenda em construção, e não possuía ainda muitas das características pelas quais o conhecemos hoje. Além disso, os quadrinhos de um modo geral ainda não haviam passado pela grande revolução da década de 80 que aproximaria seus roteiros cada vez mais da realidade, e muitas decisões de roteiro usadas aqui podem soar infantis e até mesmo deslocadas para um leitor do século XXI. Um exemplo claro disso é uma determinada situação que ocorre na terceira edição, Pântano Sinistro!, que poderia ter sido completamente evitada se naquela época o celular já tivesse sido inventado.

Vale lembrar também que estas histórias são do período pré-Crise, ou seja, foram escritas antes do reboot que redefiniria muitos aspectos da mitologia do Batman, como por exemplo a existência da Batwoman Kathy Kane. No entanto, muitos elementos estabelecidos por O'Neil nessas histórias permanecem até hoje: a relação conturbada e contraditória entre Batman e Talia, os Poços de Lázaro, a Liga dos Assassinos, o obsessão de Ra's Al Ghul para que Batman assuma seu lugar e continue seus planos de salvar o planeta da própria humanidade. 

Boa leitura!


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Arqueiro Verde: Fase Mike Grell - Contos do Dragão




A maxissaga Crise nas Infinitas Terras trouxe grandes mudanças para vários títulos da DC Comics. A origem dos dois maiores heróis da editora - Superman e Batman - foi recontada por John Byrne e Frank Miller, nas aclamadas Homem de Aço e Ano Um, assim como a Mulher Maravilha recebeu uma nova interpretação nos roteiros de George Pérez. Mas poucos heróis tiveram tantas mudanças (a maioria delas para melhor) como o Arqueiro Verde, durante a fase em que o roteirista Mike Grell esteve à frente do título. E não foram apenas mudanças no uniforme do personagem ou em sua cidade de atuação. A própria personalidade do herói sofreu algumas mudanças profundas: aquele senso de humor cômico e infantil das histórias clássicas foi substituído por um humor mais soturno, à medida que ele passou a se preocupar com questões como o peso da idade e seu desejo de ter filhos. Outro fato que contribuiu para isso foi sua decisão de cruzar a linha proibida e matar seus inimigos. Esta decisão trouxe sérias consequências psicológicas para o personagem e para a própria revista, que teve sua classificação indicativa elevada para leitores adultos, o que afastou o personagem do restante do Universo DC. Mike Grell também incorporou elementos mais realísticos em seus roteiros, colocando Oliver Queen para enfrentar criminosos do mundo real, como assassinos, traficantes de drogas e pedófilos ao invés de supervilões fantasiados, e passou a  abordar com frequência temas políticos delicados, como escândalos internacionais em que os EUA estiveram envolvidos no final da década de 1980.

O Arqueiro Verde se Torna um Assassino

A minissérie Os Caçadores foi o ponto de partida para todas essas mudanças (você pode ler a minha resenha sobre esta HQ clicando aqui), e seu sucesso colocou Mike Grell à frente do título pelas 80 edições seguintes, nas quais ele aprofundou e consolidou várias dessas transformações. Uma personagem que ele criou especificamente para Os Caçadores e que recorrentemente aparecia na vida do Arqueiro Verde foi Shado, uma arqueira japonesa que trabalhava para a Yakusa (uma espécie de máfia japonesa). Como um fã declarado de mangás e animes japoneses, e um admirador da cultura desse país, sou suspeito ao afirmar que os melhores arcos desta fase são justamente aqueles em que o Arqueiro é obrigado a trabalhar ao lado ou contra Shado. Eu os chamei aqui de Contos do Dragão, embora este não seja o nome oficial (embora daria um bom nome para um encadernado reunindo essas histórias). O primeiro deles é A Dança dos Dragões, que pode ser considerado uma continuação para Os Caçadores, uma vez que aborda as consequências dessa história tanto para Shado como para o Arqueiro Verde. Depois vem Sangue do Dragão, que mostra o fruto da relação entre o Arqueiro Esmeralda e Shado, e por fim A Saga do Arqueiro Negro, uma excelente narrativa em que Oliver Queen é incriminado e somente Shado poderá ajuda-lo a provar sua inocência.

# A Dança dos Dragões (Arqueiro Verde V2 09-12)

"Tente pensar no arco como uma mulher. Ele responde melhor se tentar conhece-lo em vez de simplesmente curvá-lo a sua vontade."

Arqueiro Verde e Shado Compartilhando o Arco

Este arco começa com Shado retornando ao Japão para prestar contas ao seu Oyabun (espécie de “Godfather” da máfia japonesa) sobre a missão nos EUA, que era matar um grupo de homens que haviam trazido desonra para sua família e para a organização. No entanto, uma das vítimas não fora morta pelas mãos dela: o Arqueiro Verde matou um dos homens quando surpreendeu-o torturando sua namorada, a Canário Negro. Por causa desta falha, o chefão condenou Shado a ter um polegar decepado, o que a impossibilitaria de usar um arco pelo resto da vida, mas seu mestre a ajudou a escapar antes que isso acontecesse, perdendo a vida no processo. Como vingança, Shado matou o Oyabun, tornando-se um alvo para toda a Yakusa, cujo código de honra não permitiria que ela continuasse viva. Do outro lado do Pacífico, o Arqueiro Verde é chantageado por um agente da CIA para localizar um mapa da época da Segunda Guerra Mundial que continha a localização de um tesouro enterrado nas Filipinas, e que encontrava-se de posse da Yakusa até ser roubado por Shado. Dessa forma os caminhos do Arqueiro Verde e da talentosa arqueira se cruzam mais uma vez, e ele terá que decidir se vai entrega-la às autoridades ou ajuda-la escapar da Yakusa.
O relacionamento entre Oliver e Shado é o ponto central desta saga. A mulher exerce uma atração inevitável sobre o Arqueiro, que já tem histórico com mulheres perigosas. Talvez a explicação para isso esteja no fato de os dois terem algumas coisas em comum, como o amor pelo arco e flecha, e ambos já terem tirado vidas com essa arma. É interessante a forma que Grell utiliza para mostrar a comunhão entre eles quando, em determinado momento, a moça permite que ele use seu arco; o arco de Shado é quase como uma continuação de seu corpo, e permitir Oliver tocá-lo é uma forma de permitir que ela a toque.


Shado Vs. Yakusa

As melhores cenas desta saga sem dúvida são as batalhas contra os capangas da Yakusa, geralmente assassinos vestidos como ninjas. Ed Hannigan, que assina a arte, retrata essas batalhas de forma bastante competente, e acompanhar seus quadros é como se estivéssemos assistindo a um filme de ação se desenrolando nas páginas da HQ. Grell explora muito bem a habilidade dos dois personagens com o arco e flecha, e fica muito claro que a opção de não matar ou usar flechas “inofensivas” não seria possível contra tais inimigos. 


#Sangue do Dragão (Arqueiro Verde V2 21-24)

"Uma coisa que o Vietnã provou é que a guerra pode ser um inferno, mas faz um bem danado pros negócios!"

O Filho de Shado É Sequestrado

Um ano após os eventos de A Dança dos Dragões, Shado vive uma vida relativamente tranquila com seu filho bebê (a identidade do pai não é revelada até o capítulo final da saga, mas dá pra ter uma boa ideia de quem seja, não é?). Mas essa tranquilidade é interrompida quando um bando de ninjas da Yakusa ataca sua casa e a captura, juntamente com a criança. Os bandidos, que estão de conluio com um grupo de conspiradores americanos, chantageiam-na para que assassine o presidente dos EUA e impeça um acordo de paz que traria sérios prejuízos para a indústria bélica. Mais uma vez o Arqueio Verde vai em auxílio da bela arqueira para ajuda-la a resgatar seu filho e impedir que ela faça a vontade dos conspiradores. Os desenhos ficam a cargo de Dan Jurgens, que mostra que seu talento não reside só em desenhar heróis musculosos de colante e alienígenas brutamontes e sanguinários.
Desta vez Mike Grell explora o lado assassino de Oliver Queen, que a cada vez que se junta a Shado precisa apelar para este seu lado sombrio. Um momento emblemático é quando o Arqueiro, cercado por um bando de assassinos e sem flechas, abre caminho pelos assassinos com uma metralhadora, chacinando-os sem piedade. Tudo bem que foi uma situação de vida ou morte, mas para mim foi uma decisão questionável, embora corajosa, do roteiro, que fez o personagem se afastar cada vez mais do ideal heroico das histórias clássicas e se aproximar do típico justiceiro sangue frio.


Arqueiro Verde Usa uma Arma de Fogo 

Mike Grell, conhecido por ser um ferrenho crítico da Guerra do Vietnã, aproveita para fazer uma crítica à política armamentista dos Estados Unidos, sugerindo que os políticos incentivam, e até provocam, as guerras para poder beneficiar os empresários da indústria bélica, que são os que mais se beneficiam com a guerra, a despeito de tantos jovens que perdem as vidas nos conflitos, de ambos os lados. Quem não lembra da Guerra do Iraque, na qual os EUA e a Inglaterra alegaram ter provas de que Sadan Russen possuía armas químicas para poder invadir o país, mas depois ficou claro que o verdadeiro alvo das grandes potências era na verdade o petróleo do Iraque, que passou a ser explorado por empresas ocidentais.
# Saga do Arqueiro Negro (Arqueiro Verde V2 35-38)

"Cada vez que entra na vida dele, você a muda de algum modo. Quase o mata, mas quando o chama, ele deixa tudo. Porque compartilha algo tão simples como um pau e uma corda. E agora parece que há algo mais que eu jamais compartilharei."

Oliver Queen É Preso

Ao contrário das duas sagas anteriores, nesta trama é Shado quem vem em auxílio de Oliver, quando ele é injustamente acusado de terrorismo e se torna alvo de diversas agências do governo e de uma campanha difamatória por parte da mídia. Quem pede a ajuda da arqueira oriental é Dinah Lance, a Canário Negro, que na fase Grell deixou de lado as roupas de látex, e perdeu seu grito do canário. O autor aproveita a ocasião para revelar a questão da paternidade do filho de Shado. Como já havia ficado claro ao final de Sangue do Dragão, o menino realmente é de Oliver, mas não foi concebido com a concordância do Arqueiro. Como assim? Deixa eu explicar...É que Shado havia aproveitado quando ele estava inconsciente se recuperando de um ferimento para se deitar com ele, de modo que ele pensara estar com Dinah. Quem foi que disse que o estupro é exclusividade dos homens?
Como eu já havia mencionado, Mike Grell gosta de situar seus roteiros dentro de eventos históricos, e desta vez ele utiliza a crise entre os EUA e o Panamá envolvendo o famoso canal que liga o Oceano Atlântico ao Pacífico. Nos anos 80 um ditador panamenho chamado Manuel Noriega havia causado muitos problemas ao Tio Sam, pois o Canal do Panamá, embora muita gente não saiba, é uma peça chave para a economia mundial, por garantir às empresas transportadoras de produtos uma gigantesca economia de tempo e recursos, bem como às Frotas Navais norte-americanas uma rota direta entre os dois Oceanos. Assim, a atitude óbvia dos EUA foi enviar tropas para o pequeno país para assegurar que o canal ficasse sob a tutela americana. O Arqueiro Verde acabou alvo de uma conspiração envolvendo agências americanas com o objetivo de causar uma crise que levasse a população a apoiar a presença das tropas americanas no Panamá.

Arqueiro Verde e Eddie Fyres

Uma vez foragido, Oliver Queen precisou raspar os cabelos e a barba loiros que são sua marca registrada e trocou o verde pelo negro. Ele passou a viver nos subterrâneos, e foi nesse momento que ele conheceu uma ladra de rua sonhadora chamada Marianne, que o ajuda em algumas ocasiões. Na segunda edição Grell faz diferente ao narrar a história do ponto de vista da moça, que enxerga sua vida como uma aventura medieval. A arte desta HQ fica por conta de Mark Jones, e não há muito sobre o que falar sobre ela.
Há muitas outras histórias interessantes nesta fase, porém aqui resolvi falar somente daquelas envolvendo Shado, pois na minha opinião são as melhores. Há ainda uma história solo da arqueira, sobre a qual falarei em outra ocasião, já que estamos tratando aqui sobre o Arqueiro Verde. O run de Mike Grell na minha opinião é a melhor fase do personagem, que incutiu uma maior maturidade nas histórias do herói urbano, trazendo-o mais para perto do leitor de quadrinhos moderno. A decisão de abandonar as flechas especiais e utilizar as flechas convencionais deu mais ênfase à sua habilidade como arqueiro, e conferiu mais realismo às histórias. Esse compromisso com o realismo, no entanto, afastou o personagem do restante do Universo DC, além de provocar uma diminuição da importância da Canário Negro, que, sem seus poderes, acabou reduzida a um par romântico com algumas habilidades de luta.
Boa leitura!


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

[RESENHA] Batman: O Homem que Ri



Se existe um personagem dos quadrinhos que desperta um grande fascínio e interesse por parte dos leitores, este personagem é o Coringa. Sua popularidade transcende as páginas dos gibis para as mais diversas formas de entretenimento, como o cinema, a TV e os games, atraindo a atenção de pessoas de todas as idades e gêneros. Figurando em diversas listas como o maior vilão de quadrinhos de todos os tempos, o Coringa possui um apelo maior até mesmo do que seu arqui-inimigo: o Batman. Mas afinal, qual seria a razão de tamanho sucesso?

A explicação repousa naquilo que o Coringa representa: ele evoca a ideia de anarquia, de liberdade absoluta de ações e pensamentos, de independência de tudo aquilo que amarra o ser humano e o faz agir de maneira "certinha". O Coringa sempre faz o que quer, quando quer, e suas ações são o completo oposto da ordem e da lógica, que têm controlado o nosso mundo e  regido a humanidade desde que aprendemos a raciocinar. Num mundo em que cada vez há mais regras e leis, é natural que as pessoas se identifiquem com símbolos que os inspirem a pensar de maneira diferente. Logicamente, não estou dizendo que isto seja o ideal - as leis ainda são necessárias no atual estágio evolutivo da raça humana - e o mais surpreendente, e o que me faz gostar tanto destes personagens, é que ele não faz sentido sem seu máximo oposto, o Homem Morcego. O Batman representa o contrário do Coringa: ele é a ordem, a lógica, a justiça. Enquanto um é colorido e dotado de um senso de humor sem limites, o outro é sombrio e soturno, sempre focado em sua missão.

As Várias Encarnações do Coringa

Esta relação quase simbiótica entre o Coringa e o Batman existe desde a criação do vilão, o qual, segundo seus próprios criadores, deveria ser a nêmese perfeita, um vilão capaz de fazer frente ao Maior Detetive do Mundo, porém diferente dos outros gângsters e bandidos da época. A primeira aparição do Coringa nos quadrinhos foi na histórica primeira edição da revista Batman, em abril de 1940, e a autoria de sua criação sempre foi motivo de muita discórdia: Bill Finger e Bob Kane, além de Jerry Robinson, morreram disputando os créditos pela criação do personagem. Uma coisa, porém, é indiscutível: uma das maiores inspirações para seu visual foi o personagem Gwynplaine, interpretado pelo ator Conrad Veidt, do filme O Homem que Ri, de 1928.  No filme, o personagem de Veidt também tem o rosto desfigurado numa aparência de sorriso macabro, mas as semelhanças param por aí: ao contrário do Coringa, Gwynplaine não é um homem mau, sendo apenas alguém que sofre preconceito por sua aparência grotesca, como o Corcunda de NotreDame.

Gwynplaine e o Coringa

Apesar de a origem do Coringa ter sido explicada na aclamada Graphic Novel de Alan Moore A Piada Mortal, o primeiro confronto de verdade entre o Palhaço do Crime e o Cavaleiro das Trevas só havia sido retratado em Batman #1. Décadas se passaram sem que este encontro fosse mostrado sob uma ótica mais moderna e atualizada, até que, em 2005, a DC Comics contratou o excelente roteirista Ed Brubaker (Gotham Central, Capitão América: O Soldado Invernal) para narrar este encontro, e assim nasceu a excelente O Homem que Ri.

Como fez em sua histórica passagem pela HQ do Capitão América, Brubaker cria uma trama nova, porém preservando os principais elementos das histórias clássicas. Ele não hesita em tomar como base o enredo criado por Bob Kane, no qual o Coringa  ameaça matar importantes cidadãos de Gotham City com sua toxina do riso, e desafia as autoridades a detê-lo. Estão lá todos os personagens: o milionário Henry Claridge, primeira vítima do bandido na trama original, assim como Jay Wilde e o juiz Drake. O autor também mostra que o Coringa testou várias versões de sua toxina em uma série de cobaias, antes de usar a versão definitiva em suas vítimas selecionadas. O quadro presente logo nas primeiras páginas em que Gordon descobre um porão repleto de vítimas dos "testes" do Coringa já nos informa que estamos acompanhando uma história de investigação de assassinatos com tons macabros: a inocência do início do século passado ficou para trás.

Batman Descobre a Identidade do Coringa

Brubaker também toma cuidado para situar sua história nos primeiros anos de atuação do Batman, quando o Comissário de Polícia de Gotham City era Peter Grogan (Loeb já havia caído após os eventos de Ano Um) e Gordon era apenas Capitão da força policial. Outra característica que ele "rouba" de Ano Um é o método de contar a história através dos pontos de vista distintos de Batman/Bruce Waye e do Comissário Gordon, porém com menos foco em seus dilemas pessoais.  Além disso, ele faz ligação direta com os acontecimentos de A Piada Mortal, de modo que não demora muito para Batman deduzir que o Coringa e o criminoso vestido como Capuz Vermelho que caiu no tanque de resíduos químicos são a mesma pessoa. Até mesmo a fábrica de produtos químicos ACE desempenha um importante papel na trama de Brubaker.

O Coringa Faz Outra Vítima

Embora seja uma história relativamente curta, contando com apenas 65 páginas, Brubaker dá um aula de como construir um roteiro eficiente e conciso. A trama transcorre de forma dinâmica e repleta de ação, e é impossível fechar a revista antes de chegar à última página. O que a conclusão traz de mais importante é a primeira vez em que o Batman se depara com a decisão crucial ao lidar com um criminoso diferente de todos os quais já havia enfrentado, e que Moore explora mais profundamente em A Piada Mortal: a de matar ou não o Coringa; violar seu juramento sagrado ou viver para sofrer as consequências dos atos do vilão insano.

Quanto à arte de Doug Mankhe, o artista desempenha com competência sua tarefa, porém nada mais que isso. O visual de seu Coringa remete à caracterização cômica das histórias clássicas do vilão, porém dotado de um inconfundível ar de insanidade característico das versões mais atuais.

Embora O Homem Que Ri não possa ser considerada um grande clássico nem a melhor protagonizada pelo Palhaço do Crime, trata-se de uma ótima história de origem deste que é um dos personagens de quadrinhos mais importantes dos últimos anos. Esta HQ faz parte da coleção de Graphic Novels da Eaglemoss, no mesmo encadernado que outra grande história do Coringa (esta sim, um clássico!): Asilo Arkham de Grant Morrison. Boa leitura!

Capa de O Homem que Ri