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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Quadrinhos em Série | Arrow



Há várias séries baseadas em personagens de quadrinhos disponíveis atualmente nas mais diversas plataformas, mas será que vale a pena assistir a todas elas? Este post inicia um um guia sobre as principais séries de super heróis sendo exibidas atualmente, com algumas informações para ajudar o leitor a decidir qual acompanhar, baseado em minha opinião pessoal. Justamente por isso somente falarei das séries que já assisti a pelo menos uma temporada completa.

A primeira série que irei avaliar é Arrow, já que ela foi a primeira série a explorar o rico multiverso da DC Comics na televisão desde que os filmes de heróis se tornaram uma moda. Produzida por Greg Berlanti ("Greg move your head!"), Mark Guggenheim e Andrew Kreisberg, a série protagonizada por Stephen Amell foi ao ar pelo canal The CW em 2012. Aqui no Brasil ela é exibida pelo canal pago Warner Channel, pelo SBT com o nome Arqueiro, e também consta no catálogo da Netflix.

1. Informações Sobre a Série


A primeira temporada de Arrow adaptou a origem do herói conhecido como Arqueiro Verde, alter-ego de Oliver Queen (Amell), playboy bilionário e mulherengo herdeiro de uma poderosa corporação industrial. Após sobreviver ao naufrágio de seu iate, Oliver ficou perdido na misteriosa ilha chamada Lian Yu por 5 anos. Após ser resgatado, ele retorna para Starlig City de posse de uma lista de nomes de supostos criminosos e corruptos, e decide caçá-los utilizando as habilidades de arquearia que ele aprendeu com um misterioso homem enquanto estava na ilha.

Com cada temporada contando com 23 episódios, a trama principal não é desenvolvida em todos eles, de modo que os espaços vazios são preenchidos pelo chamado "vilão da semana", aproximando a série do modelo procedural das séries policiais comuns. Além disso, a produção também usa o famoso esquema já explorado à exaustão em Lost, de intercalar momentos do presente com flashbacks de eventos ocorridos no tempo em que Oliver estava preso na ilha. Apesar de manjado, este modelo funcionou bem enquanto os eventos dos flashbacks possuíam relação com os do presente

Sendo uma série com classificação etária livre, Arrow foi feita para ser uma série para a família toda, o que é uma característica das produções do canal The CW.  Assim, ela é recheada de dramas pessoais e familiares, o que não necessariamente transforma a série em um dramalhão, mas abre as portas para explorar um lado mais pessoal de seus personagens.

2. Pontos Positivos


Manu Bennett como Exterminador

Nas duas primeiras temporadas tivemos uma visão mais pé no chão e realista do Arqueiro Verde, bastante inspirada ns fases de Mike Grell e de Andy Diggle com o personagem nos quadrinhos, bem como a trilogia de filmes do Batman dirigida por Christopher Nolan, o que agradou bastante aos fãs. Ele não agia ainda como um herói propriamente dito, mas como um vigilante procurado pela polícia e apelidado pela mídia como "o Capuz". A evolução do nome do personagem até ele se tornar o Arqueiro Verde que conhecemos acompanha sua jornada como herói, e essa jormada levou algumas temporadas para ser concluída.

Outro aspecto importante do início da carreira do Oliver como vigilante é que ele não usava as famosas flechas especiais, apenas as flechas comuns - simples, porém letais -, o que o tornava um criminoso aos olhos da polícia. Seu principal antagonista na corporação era o detetive Quentin Lance (Paul Blackthorne), o qual também tinha uma rixa pessoal contra Oliver Queen, já que uma de suas filhas, Sara Lance (Caity Lotz), havia morrido no naufrágio do iate de Oliver, com quem ela tinha um affair. O pior dessa história toda é que na época Oliver namorava Laurel (Katie Cassidy), a outra filha de Quentin.

A série foca bastante no lado humano de Oliver, através de suas relações com sua família, amigos e com a própria cidade. Ele evolui como personagem ao longo das temporadas, deixando aos poucos de ser um vigilante solitário para aceitar a ajuda de outros em sua cruzada, como o ex-militar, guarda-costas e melhor amigo John Diggle (David Ramsey) e a especialista em informática Felicity Smoak (Emily Brett Rickards). Uma consequência natural disso é que aos poucos ele vai deixando de lado seus métodos letais para agir mais como um super herói, e com isso ganhando a confiança da cidade e da polícia.

O Team Arrow

Mas a melhor coisa em Arrow são seus vilões. A série foi a principal responsável pela popularização do Exterminador, brilhantemente interpretado por Manu Bennet, que nos entregou um vilão realmente ameaçador. Sua origem está diretamente ligada ao tempo em que Oliver ficou em Liam Yu, e a série aproveita muito bem o recurso dos flashbacks para explicar as motivações do vilãoOutro adversário que impressionou foi Prometheus (Josh Segarra), o vilão da quinta temporada. Segarra rapidamente conquistou os fãs com um vilão totalmente psicótico, capaz de sacrificar a própria esposa para atingir o Arqueiro.

Por fim, é preciso destacar o fato de que Arrow foi o pontapé inicial para um universo - ou melhor, multiverso - compartilhado de heróis e vilões da DC nas séries de TV. Após o sucesso da série tivemos o lançamento de Flash, Legends of Tomorrow e Supergirl. Diversos personagens importantes da editora já apareceram neste multiverso: Superman, Caçador de Marte, Nuclear, Eléktron, Flash Reverso, Gorila Grodd, Ra's al Ghul, Vixen, Constantine, dentre outros.


Crossover entre Arrow, Flash, Legends of Tomorrow e Supergirl


3. Pontos Negativos


A partir da mid season finale da terceira temporada Arrow teve uma expressiva queda de qualidade. Um dos motivos para isso foi a insistência dos roteiristas em forçar um romance entre Oliver e Felicity. Minha resistência a este romance não se deve apenas ao fato dele ignorar um dos aspectos mais clássicos do personagem, que é sua relação amorosa com a Canário Negro, mas também porque este romance trouxe uma carga dramática desnecessária para a série, digna de uma novela mexicana. A personagem de Emily Brett Rickards, sempre muito carismática por causa de seu humor, se tornou uma chorona melodramática insuportavelmente chata.

Além do "Olicity", tivemos também um desgaste do formato da série: se por um lado os flashbacks se tornaram desnecessários quando deixaram de ter relevância para os eventos da trama principal, sendo exibidos mais como uma obrigação, por outro a velha receita, repetida desde a primeira temporada, do vilão que ameaça a destruir a cidade de Oliver - seja com terremoto, supersoldados assassinos, bomba biológica ou atômica - tornou a série extremamente previsível e repetitiva.

Matt Nable como Ra's al Ghul

Mas o que mais incomodou os fãs foi a apelação dos roteiristas em transformar o Arqueiro Verde em uma cópia do Batman. Não apenas alguns traços da personalidade de Bruce Wayne foram reproduzidos pelo Arqueiro Verde, como alguns arcos da HQ e até mesmo vilões, como Ra's al Ghul e a Liga dos Assassinos, o Vagalume, o Dollmaker, o Pistoleiro e a Caçadora. Com isso, o Arqueiro Verde que vimos na TV acabou perdendo muito das características de sua contraparte dos quadrinhos - humor ácido e um seu forte senso social e político - para dar lugar a uma versão mais sombria, sisuda e amargurada do herói, características marcantes do Homem Morcego.

Finalmente, preciso falar sobre um aspecto que não é necessariamente um defeito, mas também incomodou alguns fãs. A ampliação do team Arrow, bem como a introdução dos metahumanos, se por um lado abriram as portas para vários acontecimento legais dos quadrinhos e propiciaram o surgimento do Arrowverse, por outro tornaram os roteiros mais cômicos, distanciando a série da sua pegada original, mais realista. Qualquer um com uma fantasia de couro e conhecimento mínimo de karatê pode se tornar um vigilante e lutar contra bandidos de verdade, fortemente armados. Enquanto levou um certo tempo e muito treinamento para Roy Harper (Colton Haynes) se tornar o Arsenal, bastou que Laurel treinasse boxe e vestisse uma fantasia apertada de couro para se tornar a Canário Negro, isso porque nem quis falar sobre o Mad Dog ou o "Senhor Incrível".

Laurel como Canário Negro


4. Conclusão

 

Apesar de seus defeitos, ainda vale à pena assistir Arrow. Apesar da terceira temporada problemática e do fiasco da quarta, a série se redimiu no seu quinto ano, com uma das tramas mais aclamadas desde a estreia da série. 

Arrow ainda se mantém como o maior carro chefe da DC na televisão, e um caminho para as pessoas conhecerem personagens dos quadrinhos que dificilmente serão adaptados para o cinema. Além disso, a criação de um universo compartilhado proporciona a possibilidade de se adaptarem vários arcos legais dos quadrinhos, como Invasion, que uniu as quatro principais séries de heróis da CW em um plot comum. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Arqueiro Verde: Fase Mike Grell - Contos do Dragão




A maxissaga Crise nas Infinitas Terras trouxe grandes mudanças para vários títulos da DC Comics. A origem dos dois maiores heróis da editora - Superman e Batman - foi recontada por John Byrne e Frank Miller, nas aclamadas Homem de Aço e Ano Um, assim como a Mulher Maravilha recebeu uma nova interpretação nos roteiros de George Pérez. Mas poucos heróis tiveram tantas mudanças (a maioria delas para melhor) como o Arqueiro Verde, durante a fase em que o roteirista Mike Grell esteve à frente do título. E não foram apenas mudanças no uniforme do personagem ou em sua cidade de atuação. A própria personalidade do herói sofreu algumas mudanças profundas: aquele senso de humor cômico e infantil das histórias clássicas foi substituído por um humor mais soturno, à medida que ele passou a se preocupar com questões como o peso da idade e seu desejo de ter filhos. Outro fato que contribuiu para isso foi sua decisão de cruzar a linha proibida e matar seus inimigos. Esta decisão trouxe sérias consequências psicológicas para o personagem e para a própria revista, que teve sua classificação indicativa elevada para leitores adultos, o que afastou o personagem do restante do Universo DC. Mike Grell também incorporou elementos mais realísticos em seus roteiros, colocando Oliver Queen para enfrentar criminosos do mundo real, como assassinos, traficantes de drogas e pedófilos ao invés de supervilões fantasiados, e passou a  abordar com frequência temas políticos delicados, como escândalos internacionais em que os EUA estiveram envolvidos no final da década de 1980.

O Arqueiro Verde se Torna um Assassino

A minissérie Os Caçadores foi o ponto de partida para todas essas mudanças (você pode ler a minha resenha sobre esta HQ clicando aqui), e seu sucesso colocou Mike Grell à frente do título pelas 80 edições seguintes, nas quais ele aprofundou e consolidou várias dessas transformações. Uma personagem que ele criou especificamente para Os Caçadores e que recorrentemente aparecia na vida do Arqueiro Verde foi Shado, uma arqueira japonesa que trabalhava para a Yakusa (uma espécie de máfia japonesa). Como um fã declarado de mangás e animes japoneses, e um admirador da cultura desse país, sou suspeito ao afirmar que os melhores arcos desta fase são justamente aqueles em que o Arqueiro é obrigado a trabalhar ao lado ou contra Shado. Eu os chamei aqui de Contos do Dragão, embora este não seja o nome oficial (embora daria um bom nome para um encadernado reunindo essas histórias). O primeiro deles é A Dança dos Dragões, que pode ser considerado uma continuação para Os Caçadores, uma vez que aborda as consequências dessa história tanto para Shado como para o Arqueiro Verde. Depois vem Sangue do Dragão, que mostra o fruto da relação entre o Arqueiro Esmeralda e Shado, e por fim A Saga do Arqueiro Negro, uma excelente narrativa em que Oliver Queen é incriminado e somente Shado poderá ajuda-lo a provar sua inocência.

# A Dança dos Dragões (Arqueiro Verde V2 09-12)

"Tente pensar no arco como uma mulher. Ele responde melhor se tentar conhece-lo em vez de simplesmente curvá-lo a sua vontade."

Arqueiro Verde e Shado Compartilhando o Arco

Este arco começa com Shado retornando ao Japão para prestar contas ao seu Oyabun (espécie de “Godfather” da máfia japonesa) sobre a missão nos EUA, que era matar um grupo de homens que haviam trazido desonra para sua família e para a organização. No entanto, uma das vítimas não fora morta pelas mãos dela: o Arqueiro Verde matou um dos homens quando surpreendeu-o torturando sua namorada, a Canário Negro. Por causa desta falha, o chefão condenou Shado a ter um polegar decepado, o que a impossibilitaria de usar um arco pelo resto da vida, mas seu mestre a ajudou a escapar antes que isso acontecesse, perdendo a vida no processo. Como vingança, Shado matou o Oyabun, tornando-se um alvo para toda a Yakusa, cujo código de honra não permitiria que ela continuasse viva. Do outro lado do Pacífico, o Arqueiro Verde é chantageado por um agente da CIA para localizar um mapa da época da Segunda Guerra Mundial que continha a localização de um tesouro enterrado nas Filipinas, e que encontrava-se de posse da Yakusa até ser roubado por Shado. Dessa forma os caminhos do Arqueiro Verde e da talentosa arqueira se cruzam mais uma vez, e ele terá que decidir se vai entrega-la às autoridades ou ajuda-la escapar da Yakusa.
O relacionamento entre Oliver e Shado é o ponto central desta saga. A mulher exerce uma atração inevitável sobre o Arqueiro, que já tem histórico com mulheres perigosas. Talvez a explicação para isso esteja no fato de os dois terem algumas coisas em comum, como o amor pelo arco e flecha, e ambos já terem tirado vidas com essa arma. É interessante a forma que Grell utiliza para mostrar a comunhão entre eles quando, em determinado momento, a moça permite que ele use seu arco; o arco de Shado é quase como uma continuação de seu corpo, e permitir Oliver tocá-lo é uma forma de permitir que ela a toque.


Shado Vs. Yakusa

As melhores cenas desta saga sem dúvida são as batalhas contra os capangas da Yakusa, geralmente assassinos vestidos como ninjas. Ed Hannigan, que assina a arte, retrata essas batalhas de forma bastante competente, e acompanhar seus quadros é como se estivéssemos assistindo a um filme de ação se desenrolando nas páginas da HQ. Grell explora muito bem a habilidade dos dois personagens com o arco e flecha, e fica muito claro que a opção de não matar ou usar flechas “inofensivas” não seria possível contra tais inimigos. 


#Sangue do Dragão (Arqueiro Verde V2 21-24)

"Uma coisa que o Vietnã provou é que a guerra pode ser um inferno, mas faz um bem danado pros negócios!"

O Filho de Shado É Sequestrado

Um ano após os eventos de A Dança dos Dragões, Shado vive uma vida relativamente tranquila com seu filho bebê (a identidade do pai não é revelada até o capítulo final da saga, mas dá pra ter uma boa ideia de quem seja, não é?). Mas essa tranquilidade é interrompida quando um bando de ninjas da Yakusa ataca sua casa e a captura, juntamente com a criança. Os bandidos, que estão de conluio com um grupo de conspiradores americanos, chantageiam-na para que assassine o presidente dos EUA e impeça um acordo de paz que traria sérios prejuízos para a indústria bélica. Mais uma vez o Arqueio Verde vai em auxílio da bela arqueira para ajuda-la a resgatar seu filho e impedir que ela faça a vontade dos conspiradores. Os desenhos ficam a cargo de Dan Jurgens, que mostra que seu talento não reside só em desenhar heróis musculosos de colante e alienígenas brutamontes e sanguinários.
Desta vez Mike Grell explora o lado assassino de Oliver Queen, que a cada vez que se junta a Shado precisa apelar para este seu lado sombrio. Um momento emblemático é quando o Arqueiro, cercado por um bando de assassinos e sem flechas, abre caminho pelos assassinos com uma metralhadora, chacinando-os sem piedade. Tudo bem que foi uma situação de vida ou morte, mas para mim foi uma decisão questionável, embora corajosa, do roteiro, que fez o personagem se afastar cada vez mais do ideal heroico das histórias clássicas e se aproximar do típico justiceiro sangue frio.


Arqueiro Verde Usa uma Arma de Fogo 

Mike Grell, conhecido por ser um ferrenho crítico da Guerra do Vietnã, aproveita para fazer uma crítica à política armamentista dos Estados Unidos, sugerindo que os políticos incentivam, e até provocam, as guerras para poder beneficiar os empresários da indústria bélica, que são os que mais se beneficiam com a guerra, a despeito de tantos jovens que perdem as vidas nos conflitos, de ambos os lados. Quem não lembra da Guerra do Iraque, na qual os EUA e a Inglaterra alegaram ter provas de que Sadan Russen possuía armas químicas para poder invadir o país, mas depois ficou claro que o verdadeiro alvo das grandes potências era na verdade o petróleo do Iraque, que passou a ser explorado por empresas ocidentais.
# Saga do Arqueiro Negro (Arqueiro Verde V2 35-38)

"Cada vez que entra na vida dele, você a muda de algum modo. Quase o mata, mas quando o chama, ele deixa tudo. Porque compartilha algo tão simples como um pau e uma corda. E agora parece que há algo mais que eu jamais compartilharei."

Oliver Queen É Preso

Ao contrário das duas sagas anteriores, nesta trama é Shado quem vem em auxílio de Oliver, quando ele é injustamente acusado de terrorismo e se torna alvo de diversas agências do governo e de uma campanha difamatória por parte da mídia. Quem pede a ajuda da arqueira oriental é Dinah Lance, a Canário Negro, que na fase Grell deixou de lado as roupas de látex, e perdeu seu grito do canário. O autor aproveita a ocasião para revelar a questão da paternidade do filho de Shado. Como já havia ficado claro ao final de Sangue do Dragão, o menino realmente é de Oliver, mas não foi concebido com a concordância do Arqueiro. Como assim? Deixa eu explicar...É que Shado havia aproveitado quando ele estava inconsciente se recuperando de um ferimento para se deitar com ele, de modo que ele pensara estar com Dinah. Quem foi que disse que o estupro é exclusividade dos homens?
Como eu já havia mencionado, Mike Grell gosta de situar seus roteiros dentro de eventos históricos, e desta vez ele utiliza a crise entre os EUA e o Panamá envolvendo o famoso canal que liga o Oceano Atlântico ao Pacífico. Nos anos 80 um ditador panamenho chamado Manuel Noriega havia causado muitos problemas ao Tio Sam, pois o Canal do Panamá, embora muita gente não saiba, é uma peça chave para a economia mundial, por garantir às empresas transportadoras de produtos uma gigantesca economia de tempo e recursos, bem como às Frotas Navais norte-americanas uma rota direta entre os dois Oceanos. Assim, a atitude óbvia dos EUA foi enviar tropas para o pequeno país para assegurar que o canal ficasse sob a tutela americana. O Arqueiro Verde acabou alvo de uma conspiração envolvendo agências americanas com o objetivo de causar uma crise que levasse a população a apoiar a presença das tropas americanas no Panamá.

Arqueiro Verde e Eddie Fyres

Uma vez foragido, Oliver Queen precisou raspar os cabelos e a barba loiros que são sua marca registrada e trocou o verde pelo negro. Ele passou a viver nos subterrâneos, e foi nesse momento que ele conheceu uma ladra de rua sonhadora chamada Marianne, que o ajuda em algumas ocasiões. Na segunda edição Grell faz diferente ao narrar a história do ponto de vista da moça, que enxerga sua vida como uma aventura medieval. A arte desta HQ fica por conta de Mark Jones, e não há muito sobre o que falar sobre ela.
Há muitas outras histórias interessantes nesta fase, porém aqui resolvi falar somente daquelas envolvendo Shado, pois na minha opinião são as melhores. Há ainda uma história solo da arqueira, sobre a qual falarei em outra ocasião, já que estamos tratando aqui sobre o Arqueiro Verde. O run de Mike Grell na minha opinião é a melhor fase do personagem, que incutiu uma maior maturidade nas histórias do herói urbano, trazendo-o mais para perto do leitor de quadrinhos moderno. A decisão de abandonar as flechas especiais e utilizar as flechas convencionais deu mais ênfase à sua habilidade como arqueiro, e conferiu mais realismo às histórias. Esse compromisso com o realismo, no entanto, afastou o personagem do restante do Universo DC, além de provocar uma diminuição da importância da Canário Negro, que, sem seus poderes, acabou reduzida a um par romântico com algumas habilidades de luta.
Boa leitura!


quarta-feira, 22 de junho de 2016

[RESENHA] Arqueiro Verde: Os Caçadores


O final da década de 1980 foi um marco para a nona arte. Até então histórias em quadrinhos eram consideradas apenas diversão (comics), voltadas para o público juvenil, com seus heróis coloridos, vestidos de colante e capa, que precisavam salvar o mundo de vilões igualmente coloridos e cômicos. Enquanto o mundo enfrentava grandes mudanças, com o fim da Guerra Fria, o surgimento da Aids, o problema das drogas e do narcotráfico, a escalada do crime nas grandes cidades, o terroristmo e a luta de mulheres, negros e homossexuais por inclusão, as histórias em quadrinhos permaneciam sempre as mesmas (a não ser por alguns poucos e ousados artistas).

Mas esses jovens que cresceram lendo as histórias do Superman, Batman, Capitão Marvel e Lanterna Verde se tornaram adultos, e muitos deles ainda gostavam de quadrinhos, e demandavam um tipo diferente de história, mais madura e que retratasse o mundo como ele realmente era. Foi então que Frank Miller abalou a indústria dos quadrinhos com seu Cavaleiro das Trevas, no qual apresentava um Batman mais velho, sombrio e muito mais violento; por volta desta mesma época Alan Moore assumia a mensal do Monstro do Pântano, um personagem menosprezado e fadado ao esquecimento, e surpreendeu seus leitores com histórias que misturavam temas sociais ao horror gótico. E teve Mike Grell, que fez o mesmo para o Arqueiro Verde na minissérie em três edições Os Caçadores, entre agosto e outubro de 1987.

Antes de continuar, falarei um pouco sobre o passado editorial deste personagem, que atualmente ganhou relevância devido à série de TV produzida pela CW, Arrow. O Arqueiro Verde foi criado por Mort Weisinger e George Papp, em 1941, e apareceu pela primeira vez na revista More Fun Comics (Quadrinhos Mais Divertidos!), da DC Comics. Seu visual era bastante parecido com o do famoso ladrão medieval Robin Hood, e muitas de suas características foram inspiradas no Batman (assim como em Arrow, diga-se de passagem), como o fato de Oliver Queen, seu alter-ego, ser um milonário, possuir um parceiro mirim - o Ricardito -, um "flechamóvel" e até mesmo uma "flechacaverna"! Seu debute foi tímido e despretensioso, e durante muitos anos ele não teve nem mesmo uma revista solo. Sua origem só foi contada nos anos 50, pelo Rei Jack Kirby (criador de Thanos e Darkseid); foi ele quem criou a história de que o iate de Oliver teria sido afundado por piratas, de modo que o milionário teve que sobreviver em uma ilha deserta, onde aprendeu a atirar com um arco e flechas. Mais tarde, os mesmos piratas voltariam à ilha, e ele daria cabo deles usando suas recém adquiridas habilidades, angariando para si a alcunha de Arqueiro Verde.

Pirmeira Versão do Arqueiro Verde

Assim como na animação Liga da Justiça Sem Limites, o Arqueiro Verde foi o primeiro herói do segundo escalão da DC a se juntar às fileiras da equipe de heróis formada por Superman, Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, Flash, Aquaman e Caçador de Marte. Enquanto estes últimos representavam o americano médio, branco e conservador, o arqueiro representava o homem comum, do povo, com muitas ideias de viés esquerdista. Para que isso não constrastasse com sua condição de milionário, os autores não demoraram a fazer com que ele perdesse sua fortuna e fosse viver entre aqueles cujos interesses defendia. Seu auge veio quando Dennis O'Neil e Neal Adams resolveram juntar o Arqueiro Verde e o Lanterna Verde em uma viagem pelos Estados Unidos, na qual eles combatiam, a cada parada que faziam, problemas políticos e sociais que estavam em pauta naquela época. Atualmente esta série é considerada um sucesso de crítica e um marco na história das HQ's, porém ela estava à frente de seu tempo, e foi cancelada após 14 edições, por não alcançar o sucesso desejado. Alguns anos se passariam, então, para que o público pudesse finalmente absorver este tipo de história, mais complexa e polêmica; e, após o sucesso absoluto de O Cavaleiro das Trevas, Mike Grell é chamado para comandar roteiro e arte da revista do Arqueiro Verde, e logo nas primeiras edições nos surpreende com a excelente Os Caçadores.

O primeiro passo de Mike Greel foi tirar Oliver Queen da fictícia Star City e mandá-lo para Seatle, cidade de origem da sua namorada, a Canário Negro. Além de substituir o traje clássico (aquele com boné e pena) por um com capuz, adaptado ao clima chuvoso da nova cidade, o Arqueiro abandona de vez as flechas modificadas - flecha-rede, flecha-bomba e até a flecha-luva-de-boxe - e passa a usar apenas flechas convencionais, com pontas de aço, capazes de perfurar carne e osso... e matar. Até mesmo a origem do herói é modificada: foi um Oliver Queen completamente bêbado quem caiu no mar, ao invés de seu iate ter sido afundado por piratas; o tempo passado na ilha deserta permanece, porém os piratas foram substituídos por traficantes de maconha, e não eram tantos assim.  Quanto à sua personalidade, o Oliver Queen de Mike Grell está mais velho, soturno e introspectivo, porém não abandonou de vez seu bom humor, característica marcante do personagem (além da barbicha, é claro). Em uma cena hilária, ele convida uma senhora para dançar com ele no meio da rua após salvá-la de assaltantes (com a música sendo forncecida pelo rádio do próprio pivete!).

A Origem do Arqueiro Verde é Recontada

Mike Grell insere o Arqueiro Verde em um contexto mais realista e verossímil; ele não combate mais supervilões ao lado de superseres, tornando-se, em contrapartida, um vigilante de rua na sua essência mais pura. Seus inimigos agora são ladrões, assassinos em série, traficantes de drogas, a yakuza e até mesmo agentes corruptos do governo. O autor faz referência ao escândalo político Irã-Contras do governo de Ronald Reagan (clique aqui para saber mais), que acontecera apenas um ano antes do lançamento desta minissérie, e que ainda dominava as manchetes dos jornais da época.

O Arqueiro Verde é reratado como um caçador na selva urbana de Seatle, mas nesta selva existem outros caçadores e outras presas. Há um serial killer nas ruas da cidade caçando e matando prostitutas; a Canário Negro decide caçar os traficantes de drogas responsáveis por destruir a vida de vários jovens ao viciá-los em crack; e há uma misteriosa arqueira japonesa chamada Shado, que está deixando um rastro de sangue pelo país, enquanto ruma diretamente para o ninho do Arqueiro Verde com o objetivo de completar sua Vendetta particular, cujas origens remontam aos tempos da Segunda Guerra Mundial.

Todas estas tramas estão de certa forma interligadas, e fazem parte de um pano de fundo maior, que o Arqueiro Verde precisará desvendar. O Arqueiro está claramente mais violento, e não hesita em causar dor às suas presas para obter as informações que precisa para montar este complicado quebra cabeça. Mas há uma linha a qual ele se recusa a cruzar: a do assassinato. Sua determinação em não matar será testada ao extremo durante toda a história, e Shado desempenha um papel importante neste contexto por representar um reflexo do que ele se tornará se cruzar esta linha.

O Caçador e suas Presas

Outro dilema enfrentado pelo Arqueiro Verde se dá no âmbito de sua vida pessoal, como Oliver Queen: ele precisa lidar com o fato de estar envelhecendo. Oliver teme que já tenha passado do tempo de formar uma família e ter filhos; porém irá aprender da maneira mais difícil que é imossível levar uma vida normal e combater o crime. Para se ter um é preciso perder o outro.

Mike Greel lida de maneira interessante com a ideia do "antigo". O Arqueiro Verde esta mais velho, porém não perdeu sua força, nem seu charme; isto se reflete no carro que ele dirige para patrulhar as ruas de Seatle, um modelo antigo (verde, é claro), de meados do século XX, bem como na casa que ele divide com Dinah Lance: uma construção cuja arquitetura remonta a um castelo medieval, onde também funciona a floricultura de Dinnah, a Sherwood. 

Shado

O enredo desenvolvido por Mike Grell é impecável; embora seja uma trama complexa, constituída de diversas subtramas que convergem na direção de uma conclusão digna de um filme de espionagem, não há pontas soltas, nada é deixado ao acaso ou explicado por meio de meras coincidências, e seus personagens são muito bem desenvolvidos, com personalidades complexas moldadas pelos traumas do passado, bem como pelo ambiente em que vivem.

A arte de Mike Grell, se é que posso dizer, é bastante rústica e nostálgica, com traços que mais parecem tirados diretamente do grafite em uma folha de papel, contrastando diretamente com aqueles feitos à base de tinta. Grandes quadros em página dupla prevalecem nas três edições, o que atrapalha um pouco a visualização de alguns desenhos na versão física, mas na grande maioria das vezes nos proporciona uma bela experiência, como aquele que retrata um parque natural no estado de Washington, com a montanha e as árvores sendo refletidos na superfície de um lago. Os diálogos são bem posicionados nos quadros, de modo que não há balões em excesso, o que poluiria desnecessariamente os belíssimos desenhos de Grell. O melhor, no entanto, fica com a caracterização dos personagens: o novo visual do Arqueiro Verde está sensacional, e o capuz, embora a desculpa para o seu uso seja uma questão técnica, deixa o personagem mais sombrio e estiloso.  E Shado... ah, a Shado! Com um visual que remete aos ninjas japoneses, e uma belíssima tatuagem vermelha de um dragão no braço, que contrasta com suas vestimentas orientais preto e brancas, é a cereja do bolo.

Esta é uma história altamente recomendada para aqueles que são fãs do Arqueiro Verde, ou para aqueles que nunca leram nada do personagem e estão interessados em conhecer mais sobre este carismático herói. Muito do que aparece nesta saga foi usado na série Arrow, principalmente nas duas primeiras temporadas, como o estilo de uniforme adotado por Oliver Queen, o tempo que ele passou em uma ilha deserta no começo da temporada, a festa em que ele se veste de Robin Hood, a personagem Shado, e sua postura como vigilante urbano disposto a matar seus inimigos. Faz muito tempo que este material não é publicado no Brasil (foi publicado em 1989 em três edições pela editora Abril), mas esta obra faz parte da coleção de Graphic Novels da DC pela Eaglemoss, só não sei quando será lançado por aqui.

Capas das Três Edições Lançadas pela Abril